A palavra, abraço e retiro
Samarone Lima
A amiga baiana Yvette me mandou esse texto adorável do Rubem Braga. É com ele que abraço meus leitores nesta semana de Natal e aproveito para dar uma sossegada.
Nos vemos semana que vem. Certamente botarei o pé na estrada com o camarada Iramarai. Então, terei o que contar de novo.
Saludos,
Samarone
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A Palavra
“Tanto que tenho falado, tanto que tenho escrito, como não imaginar que, sem querer, feri alguém? Às vezes sinto, numa pessoa que acabo de conhecer, uma hostilidade surda, ou uma reticências de mágoas. Imprudente ofício é este, viver em voz alta.
Às vezes, também, a gente tem o consolo de saber que alguma coisa que se disse por acaso ajudou alguém a se reconciliar consigo mesmo ou com sua vida de cada dia; a sonhar um pouco, a sentir uma vontade de fazer alguma coisa boa.
Agora sei que outro dia eu disse uma palavra que fez bem a alguém. Nunca saberei que palavra foi; deve ter sido alguma frase espontânea e distraída que eu disse com naturalidade porque senti no momento e depois esqueci.
Tenho uma amiga que certa vez ganhou um canário, e o canário não cantava. Deram-lhe receitas para fazer o canário cantar; que falasse com ele, cantarolasse, batesse alguma coisa no piano; que pusesse a gaiola perto quando trabalhasse em sua máquina de costura; que arranjasse para lhe fazer companhia, algum tempo, outro canário cantador; até mesmo que ligasse o rádio um pouco alto durante a transmissão de jogo de futebol… mas o canário não cantava. Um dia a minha amiga estava sozinha em casa, distraída, e assobiou uma pequena frase melódica de Beethoven, e o canário começou a cantar alegremente. Haveria alguma secreta ligação entre a alma do velho artista morto e o pequeno pássaro cor de ouro?
Alguma coisa que eu disse distraído, talvez palavras de algum poeta antigo, foi despertar melodias esquecidas dentro da alma de alguém. Foi como se a gente soubesse que de repente, num reino muito distante, uma princesa muito triste tivesse sorrido. E isso fizesse bem ao coração do povo; iluminasse um pouco as suas pobres choupanas e as suas remotas esperanças”.
Rubem Braga, As boas coisas da vida (1988).
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11 Comentários »




22 de dezembro de 2009, às 10:44h
Lindo!!!!
Obrigada e bom “retiro”.
Vamos setir sua falta.
22 de dezembro de 2009, às 11:33h
Lindo texto de Rubem Braga. E a vida é isso mesmo, um despertar a cada instante, embora alguns não conseguimos perceber.
22 de dezembro de 2009, às 11:35h
Ia esquecendo…Feliz Novos Dias…
22 de dezembro de 2009, às 22:13h
Bela crônica.
“Alguma coisa que eu disse distraído, talvez palavras de algum poeta antigo, foi despertar melodias esquecidas dentro da alma de alguém.”
Genial.
23 de dezembro de 2009, às 8:59h
Samarone,
pode ter certeza de que seus textos despertam melodias dentro das almas das pessoas. É por isso, tem tantos comentários no seu blog. Bom Natal e boa viagem.
23 de dezembro de 2009, às 9:00h
Só corrigindo: É por isso que tem tantos comentários…
23 de dezembro de 2009, às 12:39h
Escrever talvez seja isso: sacudir a alma dos outros e a própria. Assim fazem tu e o Rubem.
Um ótimo “pé na estrada” e feliz Samarone em todos os dias que hão de vir!
23 de dezembro de 2009, às 23:37h
Sama,
belo Rubem Braga… abraços meu meu velho e um ótimo natal!
24 de dezembro de 2009, às 1:55h
É isso. Em algumas colocações, ferimos alguns e alegramos outros.
São conseqüências invitáveis dos nossos atos, mas continuamos, sobretudo, porque somos sinceros e acreditamos. E como diria o bom e velho Benedetti:
“cantamos porque o rio esta soando
e quando soa o rio / soa o rio
cantamos porque o cruel não tem nome
embora tenha nome seu destino
cantamos pela infância e porque tudo
e porque algum futuro e porque o povo
cantamos porque os sobreviventes
e nossos mortos querem que cantemos”
E que venha 2010!
abraços
6 de janeiro de 2010, às 14:24h
ola samarone! o texto é lindo.
bom descanço e feliz dois mil e
10.
so uma coisinha, quando que você
VOLTA A DAR AULA LITERATURA?
UM ABRAÇO
22 de agosto de 2010, às 11:51h
E ainda tem coisinhas que se diz bêbado… quem ouve não esquece!