Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias | Por Samarone Lima

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A palavra, abraço e retiro

22 de dezembro de 2009, às 9:39h por Samarone Lima

A amiga baiana Yvette me mandou esse texto adorável do Rubem Braga. É com ele que abraço meus leitores nesta semana de Natal e aproveito para dar uma sossegada.

Nos vemos semana que vem. Certamente botarei o pé na estrada com o camarada Iramarai. Então, terei o que contar de novo.

Saludos,

Samarone

**

A Palavra

“Tanto que tenho falado, tanto que tenho escrito, como não imaginar que, sem querer, feri alguém? Às vezes sinto, numa pessoa que acabo de conhecer, uma hostilidade surda, ou uma reticências de mágoas. Imprudente ofício é este, viver em voz alta.

Às vezes, também, a gente tem o consolo de saber que alguma coisa que se disse por acaso ajudou alguém a se reconciliar consigo mesmo ou com sua vida de cada dia; a sonhar um pouco, a sentir uma vontade de fazer alguma coisa boa. 

Agora sei que outro dia eu disse uma palavra que fez bem a alguém. Nunca saberei que palavra foi; deve ter sido alguma frase espontânea e distraída que eu disse com naturalidade porque senti no momento e depois esqueci.

Tenho uma amiga que certa vez ganhou um canário, e o canário não cantava. Deram-lhe receitas para fazer o canário cantar; que falasse com ele, cantarolasse, batesse alguma coisa no piano; que pusesse a gaiola perto quando trabalhasse em sua máquina de costura; que arranjasse para lhe fazer companhia, algum tempo, outro canário cantador; até mesmo que ligasse o rádio um pouco alto durante a transmissão de jogo de futebol… mas o canário não cantava. Um dia a minha amiga estava sozinha em casa, distraída, e assobiou uma pequena frase melódica de Beethoven, e o canário começou a cantar alegremente. Haveria alguma secreta ligação entre a alma do velho artista morto e o pequeno pássaro cor de ouro? 

Alguma coisa que eu disse distraído, talvez palavras de algum poeta antigo, foi despertar melodias esquecidas dentro da alma de alguém. Foi como se a gente soubesse que de repente, num reino muito distante, uma princesa  muito triste tivesse sorrido. E isso fizesse bem ao coração do povo; iluminasse um pouco as suas pobres choupanas e as suas remotas esperanças”.

Rubem Braga, As boas coisas da vida (1988).

Postado em Crônicas | 11 Comentários »

11 Comentários

  1. Ana de Fátima Disse:

    Lindo!!!!

    Obrigada e bom “retiro”.
    Vamos setir sua falta.

  2. zuila viana Disse:

    Lindo texto de Rubem Braga. E a vida é isso mesmo, um despertar a cada instante, embora alguns não conseguimos perceber.

  3. zuila viana Disse:

    Ia esquecendo…Feliz Novos Dias…

  4. ducaldo Disse:

    Bela crônica.

    “Alguma coisa que eu disse distraído, talvez palavras de algum poeta antigo, foi despertar melodias esquecidas dentro da alma de alguém.”

    Genial.

  5. Cláudia Disse:

    Samarone,
    pode ter certeza de que seus textos despertam melodias dentro das almas das pessoas. É por isso, tem tantos comentários no seu blog. Bom Natal e boa viagem.

  6. Cláudia Disse:

    Só corrigindo: É por isso que tem tantos comentários…

  7. Canto da Boca Disse:

    Escrever talvez seja isso: sacudir a alma dos outros e a própria. Assim fazem tu e o Rubem.

    Um ótimo “pé na estrada” e feliz Samarone em todos os dias que hão de vir!

  8. Sirley Disse:

    Sama,
    belo Rubem Braga… abraços meu meu velho e um ótimo natal!

  9. Victor Disse:

    É isso. Em algumas colocações, ferimos alguns e alegramos outros.
    São conseqüências invitáveis dos nossos atos, mas continuamos, sobretudo, porque somos sinceros e acreditamos. E como diria o bom e velho Benedetti:
    “cantamos porque o rio esta soando
    e quando soa o rio / soa o rio
    cantamos porque o cruel não tem nome
    embora tenha nome seu destino
    cantamos pela infância e porque tudo
    e porque algum futuro e porque o povo
    cantamos porque os sobreviventes
    e nossos mortos querem que cantemos”

    E que venha 2010!
    abraços

  10. marcos dos santos Disse:

    ola samarone! o texto é lindo.
    bom descanço e feliz dois mil e
    10.
    so uma coisinha, quando que você
    VOLTA A DAR AULA LITERATURA?
    UM ABRAÇO

  11. Claudia Disse:

    E ainda tem coisinhas que se diz bêbado… quem ouve não esquece!

Conversinhas

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