Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias | Por Samarone Lima

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No Rio Vermelho

6 de dezembro de 2009, às 19:36h por Samarone Lima

Estou no Rio Vermelho, aguardando as amigas que organizaram o lançamento do meu livro no “Mídia Louca”. Uma delas não conheço pessoalmente, a Ivette. Vai dar onze horas, é de bom tom beber uma cerveja gelada. O lançamento será somente à noite, de formas que poderei ainda desecansar.

Paro num lugar agradável, Sabor de Casa, esses nomes originalíssimos de bares e restaurantes. Peço uma cerva. A moça traz, pergunto se tem um copo menor.

“O que tem pequeno a boca é larga, a cerveja esquenta”, me responde a graçonete, pós graduada na Brahma.

Peguei meu caderno. A tarde promete. Lembrei do aviso afixado nas cadeiras da Ocean Air:

“Use o sinto enquanto permanecer sentado”.

Sinto muito, Ocean Air, mas falta um consultor da língua portuguesa nos avisos.

Mesmo com o deslize, duas coisas me agradam cada vez mais nessa companhia. Eles dão os avisos inúteis somente em português, e o comandante não tem aquela tara sexual de nos avisar, quando estamos distraídos, de dizer que estamos a 10 mil pés, e que a temperatura do lado de fora é menos 67 graus.

A cerveja desce bem. O vento sopra no meu focinho, não tem quase ninguém. Um vendedor de CD pirata vem me oferecer seu produto falando espanhol. É ruim, compadre, sou mais brasileiro que tu.

“Estou aprendendo muito com isso”, diz uma mulher, ao celular, ao passar por mim.

Resolvo ligar para Naná, meu amigão do Recife. Faltam cinco minutos para 11 horas.

“Estás onde, bicho?”

“Estou aqui com Seu Walter, no depósito dele. Estamos esperando dar 11 horas, para a gente começar a beber e a turma não dizer que estamos bebendo cedo demais. Só que está foda essa hora passar, parece que o relógio congelou”, respondeu o gordissimo.

Escuto um apito alto, desses de guarda, que controlam o trânsito quando não estão ocupados multando o povo, como acontece no Recife.

É o flanelinha. Usa uma touca do Bahia e apito, para controlar o movimento no estacionamento. Uma autoridade.

Daqui a pouco os clientes chegam. Um gorducho pega um prato com muita carne, puxa a mesa e começa a comer. Um cachorro chega e fica ao lado, só sentindo o cheiro da comida. O homem nem olha, não dá sequer um teco de carne. Isso é um miserável.

Tiro foto do cachorro, para minha coleçao “Cachorros do Mundo”.

Daqui a pouco, uma garçonete chega e começa a conversar com o cachorro.

“Olhe, eu não já te disse disse que é para você chegar aqui somente às três horas? Venha mais tarde viu, meu filho, que está tudo certo. Tá bom, meu bem? Então, até mais”.

O cachorro olha e fica sisudo, digamos, farejando a comida que vai passando. Depois bate um arrependimento e sai, devagar.

“Ele vem aqui sempre?”- pergunto.

“Todo dia bete o ponto”.

Pergunto o nome dele. Segundo a Mirtes, minha amigona de Fortaleza, tudo o que a gente gosta tem nome.

“Cinzenta. A gente batizou ela de cinzenta”.

Passa um sujeito com uma cara amassada, parece ter uma vocação para o sofrimento.

“Desde manhã que não como”, diz, pedindo dinheiro.

“Tenho não, velho”, respondo.

O flanelinha polícia chega.

“Sai fora, sai fora”.

Cara Amassada vai saindo.

Vejo a turma com seus pratos, as mesas vão enchendo. De vez em quando, escuto aquele barulhinho do saleiro. “Chec, chec, chec”. Tome sal na comida. Nem imaginam que aquilo faz um mal dos diabos para os rins, aprendi tudo isso na época da doença da minha tia e com as informações do doutor Rafael Pacífico. “Chec, chec, chec”

Olho ao longe. Passa um negão forte, musculoso, correndo num sol de rasgar. Usa só um calção de banho e tênis branco. Está suado dos pés ao dedão. Vai sem pressa. Eu bebo mais um gole e fico pensando na vida, não chego a conclusão nenhuma. Tomo minhas notas, depois as amigas chegam, conversamos muito, e saímos para comer em outro lugar, de formas que não consegui verificar in loco se Cinzenta de fato retornou às 15h, conforme o solicitado.

À noite, no lançamento, conheci uma penca de baianos de primeira, fora os que já conhecia. A conversa era tão boa, que eu parecia estar no Poço da Panela. Tomamos uma boa carraspana. Até um cubano estava à mesa. Lamentei a ausência do grande amigo Fabão, por conta da doença grave de seu pai.

Aos que me receberam com tanto carinho, obrigado por tudo.

Ao Fabão, que perdeu seu pai na manhã seguinte, o meu abraço solidário. Nessas horas, nunca sei o que dizer, apenas consigo oferecer um abraço, o mais amigo.

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No Rio Vermelho

3 de dezembro de 2009, às 19:51h por Samarone Lima

lançamento salvador

Informo aos meus diletos leitores que estarei nesta sexta à noite (4/12) no “Mídia Louca”, do Rio Vermelho, em Salvador, lançando o já citado “Viagem ao Crepúsculo”, meu dileto diário de viagem a Cuba.

O “Mídia” fica na rua Fonte do Boi. Não me disseram o número, mas o certo é que é lá. Além disso, o Rio Vermelho é um bairro legal pacas.

Pelo que me disseram os organizadores, vamos ter uns drinks e outros por conta. Meu editor, Gustavo de Castro, não confirmou presença – nem ausência.

Vou tentar botar a arte do convite do lançamento aqui. Não sei se vou conseguir. Mas estão todos convidados.

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