Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias | Por Samarone Lima


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À procura de Franklin

29 de janeiro de 2010, às 11:14h por Samarone Lima

Precisava entrevistar o Franklin Martins, ministro da comunicação do Governo Federal. Projeto de um livro novo, que é uma idéia antiga, mas voltou com força. Fiz a ponte com o velho amigo Laércio Portela, que trabalha na assessoria da presidência, ele me avisou que na quarta-feira, num evento na Sinagoga, no Recife, talvez desse certo.

Quarta-feira, dia 27, às 17h, estou na rua do Bom Jesus. É um evento gigantesco, com a presença do presidente Lula. Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto. No bolso direito, um gravador Sanyo, ano talvez 1987, emprestado pela Aninha, da Íntegra, a assessoria do evento. É a coisa mais antiga que alguém tem no bolso nesta tarde. Faz um calor miserável e uso meu blazer comprado numa promoção. É até bonito, verde-musgo, mas é quente pra dedéu.

A fila é enorme, para ficar debaixo dos toldos no meio da rua. O menor PIB dali é o meu, disparado. Olho a fila para trás, vejo o Paes Mendonça, dono de jornais, rádios, empresas. Pela primeira vez na vida, estou na frente dele uns 10 metros. Isso logo vai passar, eu sei. À minha frente, três senhoras de idade incerta, comentam viagens. Ah, eu fui para Canela. Estive em Garibaldi. Ele trabalhava na Sudene, teve motorista esperando a gente, carro aquecido, Bento Gonçalves, degustação de vinho, piscina aquecida.

Vejo no relógio. Faltam 3h30 para o jogo do Santa Cruz pelo estadual. Se tudo der certo, entrevisto o Franklin e sigo direto para o jogo. Meus amigos já ligaram. Estão na concentração, tomando umas.

Chega um sujeito com cara de maluco, com um quadro na mão, algo assim. Todo doido que conheço tem sempre algo na mão para entregar a alguém. Se lembra o que diziam de mim? – pergunta. Glub. Você faz o quê? – prossegue. Eu vou em Seu Vital, encontrar uns amigos, respondo. Seja feliz, completa, e vai embora, atentar outro.

Botam um broche na minha lapela com as letras PR e o desenho do Brasil. Antes de entrar, vejo um velho colega da Casa do Estudante, Lupércio. O Lupércio não anda muito bom do juízo. Me chama de longe. Tem um projeto de uma ponte, mostra os rabiscos, quer entregar ao presidente Lula. Acho que tenho um ímã para projetos malucos. Digo ao Lupércio que não sou amigo do Lula, ele não fica chateado, volto para a cerimônia.

Vem uma longa espera. Registro no meu bloquinho a conversa de dois camaradas atrás de mim, mas olhando agora, é tanta besteira, que não vale a pena compartilhar.

Às 18h36 a comitiva de Lula chega. Começa a cerimônia, dentro da Sinagoga, a gente vê num telão. Lula usa aquele chapeuzinho dos judeus, que fica no cocoruto. O governador também. A cerimônia religiosa termina às 19h05. Até agora, nada de Laércio, muito menos de Franklin.

Há uma expectativa, porque a comitiva vai passar perto de onde estou, para ir ao palco, onde acontecerão os discursos. “Vou dar um grito quando ele passar”, diz uma gordinha. Ela fala de Lula. Ao meu lado, uma penca de máquinas fotográficas, celulares etc.  A gordinha fica um tempão esperando, eu só espero mesmo o Laércio, ela diz umas três vezes que vai gritar, que tem que gritar, mas nada do Laércio, que também é tricolor.

Súbito, o Paes Mendonça sai da Sinagoga. Deu a volta por cima, passa na minha frente.

Vejo o Laércio Portela. Mais alinhado que meio fio. Vem, diz que a gente conversa já, na área da Imprensa, e segue seu trabalh.

Vou lá. Quinze minutos depois, Laércio vem, explica que a dificuldade toda é porque o Franklin foi chamado para o palco, seria a hora ideal da entrevista.

“Poxa, trouxe até um gravador novinho em folha”, digo, puxando o Sanyo do bolso para mostrar.

O gravador escapa das minhas mãos e cai no chão. Fica completamente inutilizado. Pouco depois,  o presidente começa a falar. Está visivelmente cansado. Cansado não, exausto. Lê o disocurso com a voz mais baixa, tentando chegar até o final. Diz que realmente encontrou com o presidente do Irã, aquela belezinha do Mahamoud Ahmadinejad.

“Mostrei a ele que é impossível negar o Holocausto”.

Antes de terminar tudo, Laércio retorna, diz que está complicado, a comitiva vai jantar no palácio, eu digo não esquenta, Laércio, sei como são essas coisas. Ele ainda vai tentar um tempinho no palácio, mas depois me liga, mas sei que complicou tudo, quem é jornalista desenvolve um sexto sentido para o bom e o ruim, sabe logo quando algo foi para o brejo, nesse caso eu já estava até conformado. Além disso, o livro só ficará pronto em outubro, até lá eu consigo um papo com o Franklin.

Pego um táxi para casa, com o gravador da Aninha quebrado, sem a entrevista com o Franklin Martins. Estou exausto. Basta sentar no banco, que o locutor da rádio começa a gritar:

“Goooool do Náutico!”

Sim, devo ter pisado em rastro. Perdi o jogo com os amigos, a entrevista, quebrei o gravador emprestado, meu time começa perdendo o jogo. Mas a vida é assim mesmo, quem for esquentar muito, acaba deixando de se divertir um pouco.

Fico então em uma dúvida existencial: O que tanto a gordinha queria gritar?

ps. Duas exposições merecem uma visitação. “Os desenhos das crianças de Terezín” (Rua do Bom Jesus, 191) e “Anne Frank – Uma História para Hoje” (Rua do Bom Jesus, 237). Elas ficam somente até 31 de março, com visitações suspensas durante o Carnaval (no Recife, o prazo é um pouco dilatado – de 6 a 21 de fevereiro). Tudo grátis. O roteiro pode ficar completo com uma visita à Sinagoga. Shalom.

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Salve Jorge

25 de janeiro de 2010, às 9:29h por Samarone Lima
Uma foto das antigas, em um de nossos carnavais. Jorge sempre andava assim, sem camisa. A pintura de Cervantes é dele.

Uma foto das antigas, em um de nossos carnavais. Jorge sempre andava assim, sem camisa. A pintura de Cervantes é dele.

A notícia chegou no final da manhã do domingo.

“Sama, Jó morreu. O enterro vai ser de duas horas, no cemitério de Santo Amaro”.

Eu já tinha tomado umas. Tomei um banho e fui me despedir do meu amigo Jorge Alberto. Tomei um banho lembrando de algumas presepadas na época em que eu morava no Poço. Eu e Jorge sempre nos comprimentávamos fazendo uma brincadeirinha com os dedos, tamborilando, sem aquele aperto formal. Além de artista plástico dos bons (tenho uma escultura maravilhosa dele em casa), Jorge escrevia poesias e era um frasista de primeira. Tenho uma coleção só com as dele, que batizei de “Jorgianas”. Ácidas, contundentes e cheias de irreverência.

Soubemos do câncer há uns três meses, creio. Tentamos visitá-lo umas três vezes, eu, Naná e Boy, mas nunca deu certo. Entedemos que ele não queria ser visitado doente. É o maior dos direitos, esse, do derradeiro ato.

Antes de sair de casa, peguei o velho caderno da Confraria dos Amigos do Poço da Panela, onde registramos nosso obituário. Os pedidos para o último dia. Tirei a página e levei-a no bolso. Tinha um poema dele colado. Os pedidos eram simples.

Lápide: Algum verso pessoal.

Música:  Nona Sinfonia, de Beethoven.

Local: “Vocês que se danem”.

Horário: “A hora dos azuis do Poço”.

Discurso: “Ao apto”.

Fui andando para o cemitério. Um domingo lindo, de sol, e tenho o obituário de um amigo no bolso.

Chego, procuro, dou voltas no cemitério, esbarro em três velórios de gente simples. Vejo um caixão fechado, sozinho, sem uma alma por perto. Pergunto a um funcionário o que aconteceu, se a família atrasou.

“Tem família que faz isso. Deixa o caixão e vai embora”.

Isso é algo verdadeiramente triste.

Encontro os amigos e parentes do outro lado do cemitério. Vou ao velório, vejo meu amigo Jorge, faço minhas orações, volto ao grupo.

“Trouxesse o obituário?”, pergunta Iramarai.

Tiro o papel do bolso, todos olham. Numa barraquinha ao lado, compramos umas latinhas de cerveja e ficamos conversando. Numa TV pequena, a dona da barraca escuta uma música que o refrão é somente “Eu quero mais é beijar na boca, é beijar na boca, é beijar na boca”.

Iramarai começa a solfejar a Nona Sinfonia, já que não tinha aparelho de som e ninguém lembrava desses últimos pedidos de Jorge. Guga Mota, eu e Lula Terra nos chegamos, afinamos os compassos. Isso Jorge teria.

O cortejo sai. Lula Terra estava com o violão, foi dedilhando ”Amigos para sempre”, em meio ao silêncio dos pés se arrastando.

Chegamos ao túmulo. Quando o caixão começa a descer, Iramarai entoa a Nona Sinfonia, no assobio. Os amigos acompanham. Ao final, aplaudimos nosso camarada.

Lula Terra foi o amigo apto para um breve discurso. Falou da arte de Jorge, seu jeito, sua vida. Falou mais mesmo da amizade, essa grande aliança entre os seres humanos. Terminou com uma confissão:

“Mas eu também sou da turma de Jorge!”

Salve Jorge.

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Receita Federal e outras perambulações

22 de janeiro de 2010, às 13:49h por Samarone Lima

Não sei como, nem como, mas consegui agendar pelo site da Receita Federal um horário para saber o que diabos aconteceu com meu Imposto de Renda. Aquela expressão horrível – “Malha Fina”. Glub. O contador que fez meu Imposto de Renda sequer conheço pessoalmente. É difícil falar com o sujeito, que além disso mora no Bairro Novo, em Olinda.

Às 8h30 eu estava lá. Catei os documentos possíveis, na minha histórica confusão de papéis, documentos, cadernos, agendas, milhares de papéis miúdos, coisas velhas, inutilidades.

Dona Cecília me atendeu. Queria saber o que eu queria, nem eu sabia direito, ela disse que o CPF estava oquei, eu falei que era meio enrolado com esse negócios de imposto, ela comentou:

“Desenrola, carretel!”

Achei aquilo alvissareiro, um bom início de conversa.

“Em 2008, o senhor está com pendências”, diz, mas isso eu já sabia.

Tomei as primeiras notas para uma possível crônica, mas ela foi direto ao ponto:

“Não precisa anotar não, senhor”.

Para não irritá-la, parei de anotar.

Ela mexeu no computador, fui sentindo a malha fina me pegar pelo ombro, apertar meu pescoço, me sacolejar o espinhaço inteiro, “você não declarou aquelas cervejas na frente do Arruda, antes dos jogos do Santa Cruz, seu miserável”, e fui ficando nervoso.

Dona Cecília terminou meu processo penal, me olhou e disse:

“Ah, senhor, já encontrei. É um erro que o senhor deixou de tributar. Na verdade, houve um erro no preenchimento do formulário, basta corrigir”.

O contador tinha errado apenas quatro ou cinco dados importantes, mas tudo bem, o importante é que ele não sonegou nada.

Dona Cecília me entregou um papel com os erros, cada erro bárbaro que poderia me levar ao Aníbal Bruno, mas não foi dessa que o leão me pegou, até porque o Santa Cruz está bem, deve ganhar o título de 2010.

Saí da Receita renovado, antes das 9h, um céu cristalino, horário ideal para uma boa perambulada, antes de ir ao trabalho.

Quando passei defronte ao Centro Cultural Correios, lembrei que tinha visto uma matéria sobre uma exposição de cartazes da república espanhola, coisas de mural etc. Fui ver.  Se chama “Carteles de la Guerra”, feitos no período em que a república lutava contra aquela praga do Franco. A exposição vale a pena. Os cartazes são expressivos, fortes, belos, chamando para a luta contra o fascismo.

No mesmo andar tem uma boa exposição de fotografias: “Pé-de-parede”, de Luiz Santos e Tonho Ceará. A coisa toda é em cima da cultura do lambe-lambe. “Minha luz é pé-de-parede”, diz o Tonho Ceará. Tem uma sequência de fotos de um bêbado que me lembrou mutio Raimundinho, do Poço da Panela. Creio que são irmãos.

No terceio andar, a exposição “Seja realista, peça o impossível”, acompanhada de um documentário. Finalmente, a exposição de Luici Galvão e Badida. Badida eu acho o máximo. Aquelas pinturas com trechos escritos, pequenos poemas flanando entre as tintas.

“Dói-me a imaginação

Não sei como, mas é ela que dói”.

No térreo, mais uma exposição com a história dos Correios, mas eu já estava com cultura demais no cabeção. Vou tomar um café, foi o que pensei. Fui no Brotfabrik, desculpem se o nome está troncho, sei que comi um pão com queijo e um suco de limão, esqueci do café.

Quando passava pela Igreja da Madre Deus, uma moça saiu, veio falar comigo.

Se chama Monick França. Mora no Coque. Faz parte do Neinfa, um trabalho social bacana na comunidade. Uma vez, há uns três ou quatro anos, fui dar uma pequena oficina de comunicação e cidadania, algo assim. Achei que a turma não tinha gostado muito. “Nunca esqueci daquela conversa não”, foi o que disse. Como eu deixei o volume de “Estuário” na biblioteca, ela foi, pegou e leu tudo, a danada.

Entramos na igreja. Monick conta sua vida. Estuda Turismo na UFPE e vem se dedicando ao inglês e espanhol. Trancou História por falta de tempo. É dessas criatura danadas, espertas, cheias de sonhos e caminhos.  Atualmente é monitora do projeto Circuito das Igrejas. Como já ensinei literatura para jovens da periferia, com muitas dificuldades, sei dos que levam um brilho nos olhos. Monyck tem esse brilho. Desde hoje de manhã, já estou torcendo por ela.

Lembrei que tinha um livro sobre Cuba na bolsa (eu sempre ando com um exemplar, para casos como esse). Dei de presente, com dedicatória. Monyck ficou muito feliz, me deu seu email etc.

Passei na Livraria Cultura, tomei aquele chocolate quente médio, olhei uma penca de livros, mas dei um drible. Estou com livro demais para ler, foi o que pensei naquele mar de livros.

Já chegando ao trabalho, lembrei da frase da Dona Cecília, na Receita:

“Desenrola, carretel!”

Estou tentando, Dona Cecília, estou tentando.

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Custa pouco

18 de janeiro de 2010, às 12:50h por Samarone Lima

Sábado, início da tarde. Uma chuvinha fina chapinha o Recife. Saio caminhando devagar com Edmundo e Priscila, hóspedes do Rio de Janeiro, que vieram para dois dias, antes de ir para Japaratinga. Resolvo apresentá-los ao Princesa Isabel. Ao lado do bar de Seu Vital, no Poço da Panela, é dos meus bares prediletos. Falo de boteco, como das antigas, não essas modernidades semestrais do Recife. Para mim, são os dois melhores bares da cidade, especialmente no quesito atendimento, apesar de opiniões contrárias.

No Princesa, o garçom, Robertilha, digo, Gomes, pode ser encontrado comendo uma manga com farinha no balcão ou fumando sem chamar atenção, ao lado do enorme cartaz “Proibido Fumar”, pregado na parede. Em Seu Vital, o atendimento depende do cliente. Como Seu Vital é quase um pai, pra mim, meus pedidos chegam rápidinho e sem carão. Iramarai, meu dileto amigo, leva uns dois ou três foras, é solenemente ignorado por uma boa meia hora, e quando vai ser atendido, Seu Vital já está brabo.

Edmundo e Priscila seguem para o Recife antigo, e fico no Princesa. Pego a mesa 7, que é azul e grande, boto meu caderno e livro e vejo que custa pouco uma dose de alegria. Sábado, chuvinha, a mesa azul do Princesa, uma cervejinha, livro e caderno. Fora isso, a alegria de saber que estou vivo e, até algum exame contrário, cheio de saúde.

Robertilha me atende de chofre. Eu estava doido para usar essas duas palavras hoje: “Chapinhar” e “Chofre”. De certa forma, a crônica de hoje tem este objetivo: usar palavras que pediam para vir à tona. Ele vem com a cerva, o copo, pergunta se vou comer algo, mas estou sem pressa.

Leio alguma besteira, anoto uma idéia inútil, mas sinto nesse instante, como um lampejo, a chegada de uma frase.

“Custa pouco”.

Não sei de onde vem. Talvez de alguma bondade que andam me fazendo. A lembrança de um amigo que separou um saco de siriruguelas de presente, porque sabia que me faria bem. Sei que a frase chegou. Senti seu impacto. “Custa pouco” no mundo de hoje, é quase uma gafe. A palavra “pouco” é um dos maiores mal entendidos da humanidade.

Mas eu estava ali, na mesa azul que tanto gosto, e recebi frase como uma bênção. Talvez um aviso. Fiquei quieto. Uma música antiga servia de fundo musical. Podia ser Orlando Silva. Silêncio nos meus pensamentos. Então lembrei de muitos momentos lindos que já vivi. Custaram pouco.

Depois dessa felicidade íntima, provisória, senti vontade de ter os amigos por perto. Compartilhar. Liguei para alguns, que aceitaram ou declinaram. Em pouco tempo, estávamos eu, Inácio, Pedro( seu filho que vi nos primeiros meses, agora um rapagão com 17 anos), Boy, Ninha (esposa de Boy) e o eterno Naná. Depois, chegaram Edmundo e Priscila.

Ficamos conversando e rindo. Naná, um eterno memorialista, lembrou de algumas de nossas presepadas, os carnavais da vida que já curtimos à beça. Tudo sempre custou muito pouco.

Eu ria, com uma alegria renovada. Por dentro, a frase crescia, se iluminava, me ajudava a viver.

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Perguntas, respostas, e respostas sem perguntas

11 de janeiro de 2010, às 12:37h por Samarone Lima

Foi em 1987, ano em que cheguei ao Recife, com minha caixa de livros, algumas roupas e o segundo grau incompleto. Portanto, há 23 anos.

Eu traballhava numa loja em Casa Amarela. Na verdade, um local para onde escoava a produção de uma fábrica. Esses negócios todos de butiques, empresas de roupas, além das centenas de tipos de vidros, que eram usados para fazer balcões de farmácia, de lojas as mais diversas. Foi meu primeiro trabalho no Recife. Eu tinha 18 anos e saíra de casa por causa de um infortúnio com meu pai. Tudo isso já passou.

Eu montava e desmontava essas estantes com uma rapidez incrível. Para sobreviver, a gente aprende tudo. Se tivesse que cavar poço, eu cavaria até achar água. Às vezes, a gente pegava uma farmácia dessas de manhã, dava um duro dos diabos, ao final do dia o sujeito estava imundo, cansado, mas a farmácia estava linda, novinha em folha. Nessa época eu ainda sonhava em estudar jornalismo, fazer faculdade, viajar pelo mundo, essas coisas de jovem que sonha. Nas horas vagas, escrevia poesia, lia, depois escrevia mais poesia e depois dormia, numa cama de campanha. Quem é pobre ou já foi, sabe o que é cama de campanha.

Um dia, o dono da empresa chegou perto de mim, era uma tardinha, eu estava imundo e cansado. Ele desceu do carro, chegou bem junto e falou:

“Tás vendo o que é poesia?”

Não, havia maldade. Era só para me dar um cutucão, creio, alguma lição sobre a vida que nunca entendi. Ele sabia que eu gostava de poesia, eu sabia que ele gostava de ganhar dinheiro. Talvez fosse um recado para eu aprender a ganhar dinheiro, pensei em pedir um aumento salarial, mas não era o caso.

Quando eu não entendo, não digo nada. É minha reação mais institiva, o silêncio. Olhei para ele e segui com meu martelinho de borracha. Pec pec pec. Lá pelas 20h, a farmácia estava uma lindeza. Tem coisa que é linda, mas não tem poesia nenhuma. Farmácia é um exemplo.

Não sei de onde me surgiu esse tema sem pé nem cabeça, nesta manhã clássica de segunda-feira.

Outro dia, um ex-aluno me mandou um email. Não foi aluno da Católica, onde ensinei. Foi de um mini-curso, de jornalismo e literatura. Acabei o curso porque achei a turma não estava levando o troço a sério. Eu preparo minhas aulas até para introdução ao ABC. Não sabia que eu tinha mandado uma mensagem nas entrelinhas.

No email, ele agradeceu por isso. Por ter terminado o curso.

“Aquilo representou muito para mim”.

Isso foi há uns três, quatro anos. Não sei o que representou. Talve o fato de levar as coisas a sério.

Ele fez questão de dizer:

“Estou voltando para agradecer”.

Se eu encontrasse com meu primeiro chefe no Recife, agradeceria também. Aquela pergunta me deu mais força para sustentar o começo de vida no Recife. Foi uma pergunta cheia de inaugurações, nos primeiros meses fora de casa.

Quanto ao Gabriel Marquim, o ex-aluno, acho que vai longe. Seu trabalho de conclusão do curso de Jornalismo é uma beleza. Tive sorte de fazer parte da banca.

Nota: Hoje (terça-feira), às 18h, estarei na Livraria Jaqueira, para participar de um instigante debate sobre o “Viagem ao Crepúsculo”, meu livro sobre Cuba. A Livraria Jaqueira fica ao lado do Parque da Jaqueira. O debate, coordenado pelo historiador Lula Couto, será no auditório, no primeiro andar. Todos estão convidados.

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