Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias | Por Samarone Lima

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Constelações

1 de janeiro de 2010, às 14:27h por Samarone Lima

O ano começou com uma leve chuva e um vento brando. Daqui posso ver a Torre Malakoff e depois, mais adiante, o mar azul e imenso, sem fim. Chegando perto da janela, dá para ver o Rio Capibaribe. É bom começar o ano assim, vendo rio e mar. Pelo que me disseram, 2010 é o ano de Vênus, que é o regente de touro. Isso só me atrapalha, porque sou taurino, mas não consigo fazer as conexões necessárias para me situar na constelação astral.

Sim, o ano começou. O ano novo. Sinto uma alegria dispersa por saber que estou nele, que faço parte de um ano que veio de presente, de ontem para hoje. Faço parte deste fragmento da humanidade, deste detalhe na história da vida, que é um ano.

Talvez a idade esteja me ajudando em algo, que não sei o nome. Parei de fazer as listas das coisas a fazer no ano que chega. Na verdade, eu sempre as descumpria. Quero voltar a dar aulas de literatura e conseguir montar a biblioteca no Poço da Panela. Outras coisinhas, reparos, consertos, mas nada épico. Sempre fui mais adepto das epifanias do que das coisas épicas.

No 31 de dezembro, tomei três cervejas com o Gustavo no Princesa Isabel, comemos um tira-gosto. Toda a turma estava lá, perto do meio dia. Tocava uma música antiga e essa simplicidade me bastava. Creio que ao Gustavo também.

Talvez o melhor entendimento que tive, nos últimos tempos, foi sobre a existência das constelações. As constelações familiares, do trabalho, do amor, dos amigos. Elas se movimentam, como estrelas vivas e mortas. Daí esse brilho perpétuo. Antes, eu tentava interferir, mexer, dar forma a algo que é maior. Então, sofria. Passei a aceitar os movimentos, as adaptações, os encaixes, encontros e desencontros. O maior age por sua conta. É como uma dança. Perdi essa gana de ter o domínio da vida. No fundo, aceitar as imperfeições é um legado.

Espero voltar muitas vezes ao meu Estuário e compartilhar a vida que vou recebendo de presente. Cada dia, um presente. Cada leitor é também um presente, eu sei disso, e agradeço. Há, claro, as constelações pela palavra.

Feliz 2010.

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