Bosque da Esperança
Samarone Lima

Maria ajuda a criar o Bosque da Vida
O fato mais extraordinário dessa parafernália toda de Réveillon, queima de fogos, shows gratuitos, restaurantes entupidos, champanhe, e as 70 toneladas de lixo que sobraram no dia primeiro de 2010, nas areias de Boa Viagem, aconteceu neste domingo, no Parque Memorial Arcoverde, na divisa de Olinda e Recife.
Os rapazes do Pebodycount, uma organização apartidária e sem fins lucrativos, em parceria com a Pastoral da Saúde, da Arquidiocese de Olinda e Recife, convocou a população para ajudar a plantar 500 mudas no “Bosque da Esperança”. Quando cheguei, meu número era o 329. Peguei um ipê amarelo, em homenagem à minha tia Flocely, que adorava ipês.
Cada planta representaria uma vida salva em 2009. Em 2008, foram assassinadas 4.523 pessoas em Pernambuco. Em 2009, 4.105. A diferença dá 508 pessoas. Sobreviventes hipotéticos, digamos. Cada um ganhou uma árvore. Diria que cada um de nós ganhou um momento para pensar na vida.
A tragédia pernambucana vem sendo acompanhada com rara tenacidade pelos jornalistas Carlos Eduardo Santos (KK Santos), João Valadares, Eduardo Machado e Rodrigo Carvalho, criadores do www.pebodycount.com.br
Eles registram todos os assassinatos na internet, cobram do governo, denunciam, se recusam a aceitar o que denominam ”perplexidade passiva” dos pernambucanos com sua matança. Em resposta, o Governo do Estado criou o “Pacto Pela Vida”, um amplo projeto de prevenção e controle da criminalidade, com 138 ações estruturadoras. As vidas salvas em 2009 têm uma relação com as muitas ações do Pacto.
Domingo à tarde, vi algo novo nascendo em Pernambuco. A passividade deu lugar a um gesto simbólico, mínimo, mas cheio de significados. A presença do governador, com a primeira dama, Renata Campos, plantando o que será sua árvore, foi um gesto que aponta para uma delicadeza na política, e isso não é pouco.

Os caras: Rodrigo, João, Eduardo e KK Santos
Encontrei os quatro jornalistas, que já ganharam vários prêmios, são reconhecidos pela qualidade do que fazem. Tinham acabado de plantar. Estavam felizes, muito mais felizes que qualquer prêmio jornalístico. Podemos dizer que em Pernambuco, além de denunciar, apurar, escrever, contestar, não aceitar a inércia, uma nova geração de jornalistas sai das redações para plantar um bosque, para celebrar a vida.
Plantei um pequeno ipê amarelo. Desejo que consigamos plantar mil, duas mil árvores, no início de 2011, e que o Recife seja uma cidade cheia de bosques.
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