Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias | Por Samarone Lima

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Anotações no parque

6 de janeiro de 2010, às 15:44h por Samarone Lima

Parque 13 de Maio, centro do Recife. Aproveito o horário do almoço para sair da bolha do trabalho. Venho olhar o movimento do povo, as árvores, algum animal sorrateiro. Na algibeira, meu Dom Quixote, volume II, que agora é o comparsa de leituras.

Desde pequeno, adoro parques. Em Buenos Aires, ficava longas horas no Parque Lezama, em San Telmo, aguardando a chegada do Ernesto Sábato, mas ele nunca chegou. Lembro especialmente das flores nos parques de Santiago.  

Os parques são pequenos retratos da humanidade – pelo menos a que me rodeia. Há rostos absolutamente desolados, tristes, parecem carregar um abismo por dentro, um peso nas costas. Quem não tem o seu? Há também o fortuito, os encontros, o carinho dos casais, as conversas sérias, as tristezas.

Encontro um banco à sobra. Eu vivo muito mal sem sombra. Passa um senhor muito triste, em uma bicicleta velha, da marca “Supercarga”. Vai com um isonor, vendendo água mineral. Anuncia sem animação seu produto. Olho o sujeito. São 13h47, um sol de rachar, ele vai empurrando a sua empresa autônoma, sua microempresa do setor de mata-sede. Pelo semblante, parece se chamar Adamastor Ferreira da Silva, mas não é certo. Dificilmente acerto de primeira o nome dos desconhecidos. Adamastor segue.

Um casal passa. Ele tem às mãos a caixinha da Habibs. Os dois procuram um banco à sombra, para o almoço.  Ela passa com a ajuda, que é a fome. Os dois namoram, comendo, ou comem namorando.  

Neste momento, um homem conversa com o outro, ao meu lado.

“Detesto ganso. Ganso é tudo traiçoeiro”.

Uma turma de jovens joga baralho. Quero saber qual a aula que estão gaseando.

Cai um jambo. Um rapaz pega, olha, sopra a areinha e morde. É simples.

Vem um pato em minha direção. Ainda bem que não é um ganso. E se ele me bicar, é o que penso. O pato vem devagar, peng peng, peng peng, mas me ignora. É um pato velho, cheio de verrugas, deve já ter dado entrada em sua aposentadoria. Não sei se tem filhos. Pela aparência, não deve ter problema renais ou somáticos.

“Eu nunca precisei de ninguém”, diz um homem de pé, conversando com outro, que está sentado.

Diz isso com a certeza dos autosuficientes. Deve achar isso o máximo. Acho uma grande idiotice. Sempre precisei de muita gente. Qualquer aperto, estendo as mãos. As duas logo, para não deixar dúvida.

“É o maior ou o menor? Você disse que era o menor”.

São os jovens jogando baralho. Devem estar perdendo uma aula de história. Não faz mal, depois fazem o supletivo e estudam para algum concurso que exija nível médio. Cada um com suas cartas.

Olho o Dom Quixote, leio um bocadinho, mas vejo um rapaz passar com uma caixa. Vai para o meio do jardim, abre-a cuidadosamente. Começa a tirar flores, em unidades, com muito cuidado, com plástico protegendo, igual àquelas que a turma entrega no dia dos namorados ou das mães. Ele arruma todas em um só buquê. Depois, abre a sacola e tira um frasco.

É perfume. Sim, um perfume. Borrifa as flores com a delicadeza de quem tem um ofício.

Lá mais na frente, há dois rapazes e uma moça. Com uma vara, tentam tirar uma manga. Schlept. Schlept. Nada de acertar a manga. Deixam a árvore cheia de hematomas, mas a manga não cai.

Então o vendedor sai do jardim, esconde sua caixa e passa por mim, levando as flores. Vai vendê-las. O cheiro do perfume que colocou é forte, não me agrda. Pouco importa, são as flores dele, com o cheiro que ele escolheu. Comprará quem quiser.

Sopra um vento bom,  sinto uma imensa vontade de dormir.

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