Perguntas, respostas, e respostas sem perguntas
Samarone Lima
Foi em 1987, ano em que cheguei ao Recife, com minha caixa de livros, algumas roupas e o segundo grau incompleto. Portanto, há 23 anos.
Eu traballhava numa loja em Casa Amarela. Na verdade, um local para onde escoava a produção de uma fábrica. Esses negócios todos de butiques, empresas de roupas, além das centenas de tipos de vidros, que eram usados para fazer balcões de farmácia, de lojas as mais diversas. Foi meu primeiro trabalho no Recife. Eu tinha 18 anos e saíra de casa por causa de um infortúnio com meu pai. Tudo isso já passou.
Eu montava e desmontava essas estantes com uma rapidez incrível. Para sobreviver, a gente aprende tudo. Se tivesse que cavar poço, eu cavaria até achar água. Às vezes, a gente pegava uma farmácia dessas de manhã, dava um duro dos diabos, ao final do dia o sujeito estava imundo, cansado, mas a farmácia estava linda, novinha em folha. Nessa época eu ainda sonhava em estudar jornalismo, fazer faculdade, viajar pelo mundo, essas coisas de jovem que sonha. Nas horas vagas, escrevia poesia, lia, depois escrevia mais poesia e depois dormia, numa cama de campanha. Quem é pobre ou já foi, sabe o que é cama de campanha.
Um dia, o dono da empresa chegou perto de mim, era uma tardinha, eu estava imundo e cansado. Ele desceu do carro, chegou bem junto e falou:
“Tás vendo o que é poesia?”
Não, havia maldade. Era só para me dar um cutucão, creio, alguma lição sobre a vida que nunca entendi. Ele sabia que eu gostava de poesia, eu sabia que ele gostava de ganhar dinheiro. Talvez fosse um recado para eu aprender a ganhar dinheiro, pensei em pedir um aumento salarial, mas não era o caso.
Quando eu não entendo, não digo nada. É minha reação mais institiva, o silêncio. Olhei para ele e segui com meu martelinho de borracha. Pec pec pec. Lá pelas 20h, a farmácia estava uma lindeza. Tem coisa que é linda, mas não tem poesia nenhuma. Farmácia é um exemplo.
Não sei de onde me surgiu esse tema sem pé nem cabeça, nesta manhã clássica de segunda-feira.
Outro dia, um ex-aluno me mandou um email. Não foi aluno da Católica, onde ensinei. Foi de um mini-curso, de jornalismo e literatura. Acabei o curso porque achei a turma não estava levando o troço a sério. Eu preparo minhas aulas até para introdução ao ABC. Não sabia que eu tinha mandado uma mensagem nas entrelinhas.
No email, ele agradeceu por isso. Por ter terminado o curso.
“Aquilo representou muito para mim”.
Isso foi há uns três, quatro anos. Não sei o que representou. Talve o fato de levar as coisas a sério.
Ele fez questão de dizer:
“Estou voltando para agradecer”.
Se eu encontrasse com meu primeiro chefe no Recife, agradeceria também. Aquela pergunta me deu mais força para sustentar o começo de vida no Recife. Foi uma pergunta cheia de inaugurações, nos primeiros meses fora de casa.
Quanto ao Gabriel Marquim, o ex-aluno, acho que vai longe. Seu trabalho de conclusão do curso de Jornalismo é uma beleza. Tive sorte de fazer parte da banca.
Nota: Hoje (terça-feira), às 18h, estarei na Livraria Jaqueira, para participar de um instigante debate sobre o “Viagem ao Crepúsculo”, meu livro sobre Cuba. A Livraria Jaqueira fica ao lado do Parque da Jaqueira. O debate, coordenado pelo historiador Lula Couto, será no auditório, no primeiro andar. Todos estão convidados.
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