Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias | Por Samarone Lima

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Custa pouco

18 de janeiro de 2010, às 12:50h por Samarone Lima

Sábado, início da tarde. Uma chuvinha fina chapinha o Recife. Saio caminhando devagar com Edmundo e Priscila, hóspedes do Rio de Janeiro, que vieram para dois dias, antes de ir para Japaratinga. Resolvo apresentá-los ao Princesa Isabel. Ao lado do bar de Seu Vital, no Poço da Panela, é dos meus bares prediletos. Falo de boteco, como das antigas, não essas modernidades semestrais do Recife. Para mim, são os dois melhores bares da cidade, especialmente no quesito atendimento, apesar de opiniões contrárias.

No Princesa, o garçom, Robertilha, digo, Gomes, pode ser encontrado comendo uma manga com farinha no balcão ou fumando sem chamar atenção, ao lado do enorme cartaz “Proibido Fumar”, pregado na parede. Em Seu Vital, o atendimento depende do cliente. Como Seu Vital é quase um pai, pra mim, meus pedidos chegam rápidinho e sem carão. Iramarai, meu dileto amigo, leva uns dois ou três foras, é solenemente ignorado por uma boa meia hora, e quando vai ser atendido, Seu Vital já está brabo.

Edmundo e Priscila seguem para o Recife antigo, e fico no Princesa. Pego a mesa 7, que é azul e grande, boto meu caderno e livro e vejo que custa pouco uma dose de alegria. Sábado, chuvinha, a mesa azul do Princesa, uma cervejinha, livro e caderno. Fora isso, a alegria de saber que estou vivo e, até algum exame contrário, cheio de saúde.

Robertilha me atende de chofre. Eu estava doido para usar essas duas palavras hoje: “Chapinhar” e “Chofre”. De certa forma, a crônica de hoje tem este objetivo: usar palavras que pediam para vir à tona. Ele vem com a cerva, o copo, pergunta se vou comer algo, mas estou sem pressa.

Leio alguma besteira, anoto uma idéia inútil, mas sinto nesse instante, como um lampejo, a chegada de uma frase.

“Custa pouco”.

Não sei de onde vem. Talvez de alguma bondade que andam me fazendo. A lembrança de um amigo que separou um saco de siriruguelas de presente, porque sabia que me faria bem. Sei que a frase chegou. Senti seu impacto. “Custa pouco” no mundo de hoje, é quase uma gafe. A palavra “pouco” é um dos maiores mal entendidos da humanidade.

Mas eu estava ali, na mesa azul que tanto gosto, e recebi frase como uma bênção. Talvez um aviso. Fiquei quieto. Uma música antiga servia de fundo musical. Podia ser Orlando Silva. Silêncio nos meus pensamentos. Então lembrei de muitos momentos lindos que já vivi. Custaram pouco.

Depois dessa felicidade íntima, provisória, senti vontade de ter os amigos por perto. Compartilhar. Liguei para alguns, que aceitaram ou declinaram. Em pouco tempo, estávamos eu, Inácio, Pedro( seu filho que vi nos primeiros meses, agora um rapagão com 17 anos), Boy, Ninha (esposa de Boy) e o eterno Naná. Depois, chegaram Edmundo e Priscila.

Ficamos conversando e rindo. Naná, um eterno memorialista, lembrou de algumas de nossas presepadas, os carnavais da vida que já curtimos à beça. Tudo sempre custou muito pouco.

Eu ria, com uma alegria renovada. Por dentro, a frase crescia, se iluminava, me ajudava a viver.

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