Custa pouco
Samarone Lima
Sábado, início da tarde. Uma chuvinha fina chapinha o Recife. Saio caminhando devagar com Edmundo e Priscila, hóspedes do Rio de Janeiro, que vieram para dois dias, antes de ir para Japaratinga. Resolvo apresentá-los ao Princesa Isabel. Ao lado do bar de Seu Vital, no Poço da Panela, é dos meus bares prediletos. Falo de boteco, como das antigas, não essas modernidades semestrais do Recife. Para mim, são os dois melhores bares da cidade, especialmente no quesito atendimento, apesar de opiniões contrárias.
No Princesa, o garçom, Robertilha, digo, Gomes, pode ser encontrado comendo uma manga com farinha no balcão ou fumando sem chamar atenção, ao lado do enorme cartaz “Proibido Fumar”, pregado na parede. Em Seu Vital, o atendimento depende do cliente. Como Seu Vital é quase um pai, pra mim, meus pedidos chegam rápidinho e sem carão. Iramarai, meu dileto amigo, leva uns dois ou três foras, é solenemente ignorado por uma boa meia hora, e quando vai ser atendido, Seu Vital já está brabo.
Edmundo e Priscila seguem para o Recife antigo, e fico no Princesa. Pego a mesa 7, que é azul e grande, boto meu caderno e livro e vejo que custa pouco uma dose de alegria. Sábado, chuvinha, a mesa azul do Princesa, uma cervejinha, livro e caderno. Fora isso, a alegria de saber que estou vivo e, até algum exame contrário, cheio de saúde.
Robertilha me atende de chofre. Eu estava doido para usar essas duas palavras hoje: “Chapinhar” e “Chofre”. De certa forma, a crônica de hoje tem este objetivo: usar palavras que pediam para vir à tona. Ele vem com a cerva, o copo, pergunta se vou comer algo, mas estou sem pressa.
Leio alguma besteira, anoto uma idéia inútil, mas sinto nesse instante, como um lampejo, a chegada de uma frase.
“Custa pouco”.
Não sei de onde vem. Talvez de alguma bondade que andam me fazendo. A lembrança de um amigo que separou um saco de siriruguelas de presente, porque sabia que me faria bem. Sei que a frase chegou. Senti seu impacto. “Custa pouco” no mundo de hoje, é quase uma gafe. A palavra “pouco” é um dos maiores mal entendidos da humanidade.
Mas eu estava ali, na mesa azul que tanto gosto, e recebi frase como uma bênção. Talvez um aviso. Fiquei quieto. Uma música antiga servia de fundo musical. Podia ser Orlando Silva. Silêncio nos meus pensamentos. Então lembrei de muitos momentos lindos que já vivi. Custaram pouco.
Depois dessa felicidade íntima, provisória, senti vontade de ter os amigos por perto. Compartilhar. Liguei para alguns, que aceitaram ou declinaram. Em pouco tempo, estávamos eu, Inácio, Pedro( seu filho que vi nos primeiros meses, agora um rapagão com 17 anos), Boy, Ninha (esposa de Boy) e o eterno Naná. Depois, chegaram Edmundo e Priscila.
Ficamos conversando e rindo. Naná, um eterno memorialista, lembrou de algumas de nossas presepadas, os carnavais da vida que já curtimos à beça. Tudo sempre custou muito pouco.
Eu ria, com uma alegria renovada. Por dentro, a frase crescia, se iluminava, me ajudava a viver.
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17 Comentários »




18 de janeiro de 2010, às 15:08h
Talvez seja isso que tenha se perdido do ser humano: a simplicidade? Para a nossa sociedade materialista a felicidade consiste em ter, em ter e ter custa muito; ao contrário do ser que “Custa Pouco”, custa quase nada, porque um sorriso rasgado largado entre e para amigos não há dinheiro que pague e, no entanto, só quando estamos cercados de afetos é que o sorriso, aquele/esse que sai do coração e ilumina também os olhos, a alma, e oxigena o cérebro, sai assim espontaneamente e compreendemos que viver é o maior bem que temos, por causa desses amigos, desses “pequenos” prazeres que encontramos na leitura, na música, numa ida ao cinema, na contemplação da cidade, uma partida do Santa Cruz, ou somente (?) escrever uma crônica tão linda e estarrecedoramente humana como essa, sobre a felicidade e a alegria, que “Custam” tão “Pouco”, e muda tudo.
Obrigada por tê-la escrito, senti-me tocada por cada sentimento descrito.
Abraço!
18 de janeiro de 2010, às 15:35h
Samarone,
Que bom te encontrar, olha nos conhecemos no lançamento do seu livro aquiem Salvador. Gostaria de lhe falar sobre a expsição de Cuba que produzir, o maior sucesso. Se possivel manda seus contatos.
abraços
Ah! esse texto é mto bom, passa um sentimento de intimidade com o autor, mto forte, como se
agente tivesse vivenciando
19 de janeiro de 2010, às 17:24h
maravilhoso, adorei
19 de janeiro de 2010, às 19:50h
Cara, seu texto é de uma simplicidade fascinante. Certeiro e emocionante. Enquanto lia, lembrei dos meus momentos que custaram pouco.
20 de janeiro de 2010, às 0:17h
Samarone é com mta decepção q vejo seu oportunismo e sua falta de caráterao publicar um livro, q trata de mostrar oq é Cuba em uma viagem de apenas 30 dias, é lamentável, vivo em cuba há 6 anos e tenho uma visão oposta a sua, sou consciente de tds os problemas q existem aqui(q nem se compara aos grandes problemas q existem no Brasil e mtos países “democráticos”), mas não os utilizo e jamais os utilizarei para como um circo e propiciar armas para a mídia e a burguesia faminta de supostas notícias do “fracasso” da vitoriosa revolução cubana…
20 de janeiro de 2010, às 8:28h
Tem gente que é cego e tem uns que, além disso, é burro. Talvez esse maluco do Victor Patriota esteja morando em algum lugar diferentede Cuba, pois, morando lá, não deve sinceramente achar que esse golpe criminoso e desastrado pode ser chamado de “vitoriosa revolução cubana..”. Aliás, esse infeliz deve estar de férias em Miami ou ser “amigo do Rei” por lá, senão não teria tido a oportunidade de acessar a internet e postar esse comentário.
Parabéns Sama, o livro é o retrato pintado por alguem que se dispôs a ver o óbvio, sem preconceitos.
20 de janeiro de 2010, às 10:06h
Victor, respeito sua opinião e sua decepção, mas você deveria ter um pouco mais de educação antes de falar em “falta de caráter”. Nos conhecemos pessoalmente, e você me parecia bem mais educado.
Se você tem uma visão oposta à minha, não significa que você é o portador da verdade, nem que seu caráter é mais digno que o meu. Apenas pensamos diferentes. Não aceitar um pensamento contrário, na história da humanidade, resultou em crimes, violências gulags, prisões de consciência e outras coisas piores.
E essa conversa de “mídia burguesa faminta de supostas notícias do fracasso da vitoriosa revolução cubana”, antes da queda do Muro de Berlim, talvez caísse muito bem.
Boa sorte no seu curso. Espero que volte pelo menos um pouco mais educado. Do seu caráter eu não duvido.
Samarone
20 de janeiro de 2010, às 12:11h
Samarone valeu a resposta ao Victor Patriota.
20 de janeiro de 2010, às 14:50h
SAMA, TU É O CARA!!!
A RESPOSTA FOI MUITO ALÉM DO QUE ELE MERECIA!!! COM CERTEZA O RAPAZ FAZ PARTE DOS “CAMARADAS”, PARA TER ACESSO A NET. SE HOUVER AÇÃO POR PARTE DELE, NÃO MERECE MAIS NEM ATENÇÃO. MUITO BEM NOBRE SAMA!!!
ABRAÇÃO FRATERNO,
GEYSON MONTE
20 de janeiro de 2010, às 15:50h
OLA SAMARONE EU SEI QUE VOCÊ
É UM OBSERVADOR DAS COISAS MÍNIMAS E DESNECESSÁRIAS.
MAS GOSTARIA, SE FOR POSSIVEL LER, UM COMENTARIO SEU, SOBRE
O CASO ANGOLA X CABINDA.
AFINAL CABINDA PERTENCE OU
NÃO A ANGOLA… ?
20 de janeiro de 2010, às 19:50h
“Custa pouco” passar por aqui.
E me faz um bem danado.
Sama, Será que já não tem material para um “Estuário II”?
Eu sei que está tudo aqui, é só acessar e ler, mas, nada como o velho e bom livro.
20 de janeiro de 2010, às 21:40h
Here some more questions for you to answer!
haha! ^_^
21 de janeiro de 2010, às 9:47h
Ducaldo, material eu acho que tem de sobra, porque o Estuário que publiquei em 2005, creio, foi o resumo de um ano no JC On Line. De lá pra cá, tenho mantido a regularidade de duas ou três crônicas semanais, com alguns momentos de preguiça colateral.
Só que eu nunca sei o que presta e o que é lugar comum. Uma leitora está fazendo isso, ela já leu quase tudo, de formas que aguardo um contato para ver o que pode entrar no volume II.
Vamos ver. Se for depender só de mim, isso vai virar uma lêndia, uma fricção.
Saludos,
Samarone
21 de janeiro de 2010, às 14:03h
Sama, saudades! Principalmente quando entro aqui e leio algo tão singelo! Quem leu tuas crônicas antes da viagem para Cuba sabe que você bem que tinha esperança de encontrar algo bem diferente…..eu até reli ontem, diante do que o rapaz escreveu lá em “riba”….Até mesmo no livro sua indgnação aumenta à medida do que você vai vendo, ouvindo, sentindo….Posso sugerir algumas crônicas para o Estuário II?
beijo grande.
21 de janeiro de 2010, às 21:34h
Sama, aparece lá no acerto de marcha do bloco, sábado que vem, 23, 18:30h, lá no MAmulengo. Custa pouco (mas a camisa deste ano, com o tema da Nau Catarineta, custa R$ 15,00)
Abraço!
21 de janeiro de 2010, às 22:54h
Os textos são brilhantes, lindos. Parabéns.
29 de janeiro de 2010, às 8:43h
Ô Sama, hoje já comecei cedo lembrando de você. Vim no ônibus relendo 50 crônicas de Fernando Sabino quando me deparo com Suíte ovalliana, é lindo demais! Depois vou copiar e te mando. Parei de ler e fiquei só ruminando essa crônica. Quando chego no trabalho ganho um saco com um monte de umbu, isso porque ontem comentei na copa que esse ano eu ainda não tinha comido nenhum umbu….lindo… lindo. De uma delicadeza de chorar. Bom, minha sexta-feira promete. Grande beijo! Y