Receita Federal e outras perambulações
Samarone Lima
Não sei como, nem como, mas consegui agendar pelo site da Receita Federal um horário para saber o que diabos aconteceu com meu Imposto de Renda. Aquela expressão horrível – “Malha Fina”. Glub. O contador que fez meu Imposto de Renda sequer conheço pessoalmente. É difícil falar com o sujeito, que além disso mora no Bairro Novo, em Olinda.
Às 8h30 eu estava lá. Catei os documentos possíveis, na minha histórica confusão de papéis, documentos, cadernos, agendas, milhares de papéis miúdos, coisas velhas, inutilidades.
Dona Cecília me atendeu. Queria saber o que eu queria, nem eu sabia direito, ela disse que o CPF estava oquei, eu falei que era meio enrolado com esse negócios de imposto, ela comentou:
“Desenrola, carretel!”
Achei aquilo alvissareiro, um bom início de conversa.
“Em 2008, o senhor está com pendências”, diz, mas isso eu já sabia.
Tomei as primeiras notas para uma possível crônica, mas ela foi direto ao ponto:
“Não precisa anotar não, senhor”.
Para não irritá-la, parei de anotar.
Ela mexeu no computador, fui sentindo a malha fina me pegar pelo ombro, apertar meu pescoço, me sacolejar o espinhaço inteiro, “você não declarou aquelas cervejas na frente do Arruda, antes dos jogos do Santa Cruz, seu miserável”, e fui ficando nervoso.
Dona Cecília terminou meu processo penal, me olhou e disse:
“Ah, senhor, já encontrei. É um erro que o senhor deixou de tributar. Na verdade, houve um erro no preenchimento do formulário, basta corrigir”.
O contador tinha errado apenas quatro ou cinco dados importantes, mas tudo bem, o importante é que ele não sonegou nada.
Dona Cecília me entregou um papel com os erros, cada erro bárbaro que poderia me levar ao Aníbal Bruno, mas não foi dessa que o leão me pegou, até porque o Santa Cruz está bem, deve ganhar o título de 2010.
Saí da Receita renovado, antes das 9h, um céu cristalino, horário ideal para uma boa perambulada, antes de ir ao trabalho.
Quando passei defronte ao Centro Cultural Correios, lembrei que tinha visto uma matéria sobre uma exposição de cartazes da república espanhola, coisas de mural etc. Fui ver. Se chama “Carteles de la Guerra”, feitos no período em que a república lutava contra aquela praga do Franco. A exposição vale a pena. Os cartazes são expressivos, fortes, belos, chamando para a luta contra o fascismo.
No mesmo andar tem uma boa exposição de fotografias: “Pé-de-parede”, de Luiz Santos e Tonho Ceará. A coisa toda é em cima da cultura do lambe-lambe. “Minha luz é pé-de-parede”, diz o Tonho Ceará. Tem uma sequência de fotos de um bêbado que me lembrou mutio Raimundinho, do Poço da Panela. Creio que são irmãos.
No terceio andar, a exposição “Seja realista, peça o impossível”, acompanhada de um documentário. Finalmente, a exposição de Luici Galvão e Badida. Badida eu acho o máximo. Aquelas pinturas com trechos escritos, pequenos poemas flanando entre as tintas.
“Dói-me a imaginação
Não sei como, mas é ela que dói”.
No térreo, mais uma exposição com a história dos Correios, mas eu já estava com cultura demais no cabeção. Vou tomar um café, foi o que pensei. Fui no Brotfabrik, desculpem se o nome está troncho, sei que comi um pão com queijo e um suco de limão, esqueci do café.
Quando passava pela Igreja da Madre Deus, uma moça saiu, veio falar comigo.
Se chama Monick França. Mora no Coque. Faz parte do Neinfa, um trabalho social bacana na comunidade. Uma vez, há uns três ou quatro anos, fui dar uma pequena oficina de comunicação e cidadania, algo assim. Achei que a turma não tinha gostado muito. “Nunca esqueci daquela conversa não”, foi o que disse. Como eu deixei o volume de “Estuário” na biblioteca, ela foi, pegou e leu tudo, a danada.
Entramos na igreja. Monick conta sua vida. Estuda Turismo na UFPE e vem se dedicando ao inglês e espanhol. Trancou História por falta de tempo. É dessas criatura danadas, espertas, cheias de sonhos e caminhos. Atualmente é monitora do projeto Circuito das Igrejas. Como já ensinei literatura para jovens da periferia, com muitas dificuldades, sei dos que levam um brilho nos olhos. Monyck tem esse brilho. Desde hoje de manhã, já estou torcendo por ela.
Lembrei que tinha um livro sobre Cuba na bolsa (eu sempre ando com um exemplar, para casos como esse). Dei de presente, com dedicatória. Monyck ficou muito feliz, me deu seu email etc.
Passei na Livraria Cultura, tomei aquele chocolate quente médio, olhei uma penca de livros, mas dei um drible. Estou com livro demais para ler, foi o que pensei naquele mar de livros.
Já chegando ao trabalho, lembrei da frase da Dona Cecília, na Receita:
“Desenrola, carretel!”
Estou tentando, Dona Cecília, estou tentando.
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