Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias | Por Samarone Lima


Artigos recentes


Comentários Recentes


Aproximações


Destaque


Calendário

janeiro 2010
D S T Q Q S S
« dez   fev »
 12
3456789
10111213141516
17181920212223
24252627282930
31  

Arquivos


Usuários online

Usuários: 7 Caranguejos, 2 Escafandristas

Receita Federal e outras perambulações

22 de janeiro de 2010, às 13:49h por Samarone Lima

Não sei como, nem como, mas consegui agendar pelo site da Receita Federal um horário para saber o que diabos aconteceu com meu Imposto de Renda. Aquela expressão horrível – “Malha Fina”. Glub. O contador que fez meu Imposto de Renda sequer conheço pessoalmente. É difícil falar com o sujeito, que além disso mora no Bairro Novo, em Olinda.

Às 8h30 eu estava lá. Catei os documentos possíveis, na minha histórica confusão de papéis, documentos, cadernos, agendas, milhares de papéis miúdos, coisas velhas, inutilidades.

Dona Cecília me atendeu. Queria saber o que eu queria, nem eu sabia direito, ela disse que o CPF estava oquei, eu falei que era meio enrolado com esse negócios de imposto, ela comentou:

“Desenrola, carretel!”

Achei aquilo alvissareiro, um bom início de conversa.

“Em 2008, o senhor está com pendências”, diz, mas isso eu já sabia.

Tomei as primeiras notas para uma possível crônica, mas ela foi direto ao ponto:

“Não precisa anotar não, senhor”.

Para não irritá-la, parei de anotar.

Ela mexeu no computador, fui sentindo a malha fina me pegar pelo ombro, apertar meu pescoço, me sacolejar o espinhaço inteiro, “você não declarou aquelas cervejas na frente do Arruda, antes dos jogos do Santa Cruz, seu miserável”, e fui ficando nervoso.

Dona Cecília terminou meu processo penal, me olhou e disse:

“Ah, senhor, já encontrei. É um erro que o senhor deixou de tributar. Na verdade, houve um erro no preenchimento do formulário, basta corrigir”.

O contador tinha errado apenas quatro ou cinco dados importantes, mas tudo bem, o importante é que ele não sonegou nada.

Dona Cecília me entregou um papel com os erros, cada erro bárbaro que poderia me levar ao Aníbal Bruno, mas não foi dessa que o leão me pegou, até porque o Santa Cruz está bem, deve ganhar o título de 2010.

Saí da Receita renovado, antes das 9h, um céu cristalino, horário ideal para uma boa perambulada, antes de ir ao trabalho.

Quando passei defronte ao Centro Cultural Correios, lembrei que tinha visto uma matéria sobre uma exposição de cartazes da república espanhola, coisas de mural etc. Fui ver.  Se chama “Carteles de la Guerra”, feitos no período em que a república lutava contra aquela praga do Franco. A exposição vale a pena. Os cartazes são expressivos, fortes, belos, chamando para a luta contra o fascismo.

No mesmo andar tem uma boa exposição de fotografias: “Pé-de-parede”, de Luiz Santos e Tonho Ceará. A coisa toda é em cima da cultura do lambe-lambe. “Minha luz é pé-de-parede”, diz o Tonho Ceará. Tem uma sequência de fotos de um bêbado que me lembrou mutio Raimundinho, do Poço da Panela. Creio que são irmãos.

No terceio andar, a exposição “Seja realista, peça o impossível”, acompanhada de um documentário. Finalmente, a exposição de Luici Galvão e Badida. Badida eu acho o máximo. Aquelas pinturas com trechos escritos, pequenos poemas flanando entre as tintas.

“Dói-me a imaginação

Não sei como, mas é ela que dói”.

No térreo, mais uma exposição com a história dos Correios, mas eu já estava com cultura demais no cabeção. Vou tomar um café, foi o que pensei. Fui no Brotfabrik, desculpem se o nome está troncho, sei que comi um pão com queijo e um suco de limão, esqueci do café.

Quando passava pela Igreja da Madre Deus, uma moça saiu, veio falar comigo.

Se chama Monick França. Mora no Coque. Faz parte do Neinfa, um trabalho social bacana na comunidade. Uma vez, há uns três ou quatro anos, fui dar uma pequena oficina de comunicação e cidadania, algo assim. Achei que a turma não tinha gostado muito. “Nunca esqueci daquela conversa não”, foi o que disse. Como eu deixei o volume de “Estuário” na biblioteca, ela foi, pegou e leu tudo, a danada.

Entramos na igreja. Monick conta sua vida. Estuda Turismo na UFPE e vem se dedicando ao inglês e espanhol. Trancou História por falta de tempo. É dessas criatura danadas, espertas, cheias de sonhos e caminhos.  Atualmente é monitora do projeto Circuito das Igrejas. Como já ensinei literatura para jovens da periferia, com muitas dificuldades, sei dos que levam um brilho nos olhos. Monyck tem esse brilho. Desde hoje de manhã, já estou torcendo por ela.

Lembrei que tinha um livro sobre Cuba na bolsa (eu sempre ando com um exemplar, para casos como esse). Dei de presente, com dedicatória. Monyck ficou muito feliz, me deu seu email etc.

Passei na Livraria Cultura, tomei aquele chocolate quente médio, olhei uma penca de livros, mas dei um drible. Estou com livro demais para ler, foi o que pensei naquele mar de livros.

Já chegando ao trabalho, lembrei da frase da Dona Cecília, na Receita:

“Desenrola, carretel!”

Estou tentando, Dona Cecília, estou tentando.

Postado em Crônicas | 7 Comentários »

7 Comentários

  1. anonimo Disse:

    adorei

  2. Canto da Boca Disse:

    Samarone, acompanhar seu ritmo intenso de emoções, situações e observações do mundo, da vida, essa que pulsa ininterruptamente, também em seu Estuário, não é brincadeira! Quando eu entro aqui, pareço a mesma louca diante das prateleiras de uma livraria, o olho chega aumenta de tamanho, na tentativa de capturar de uma tacada só o que a angular registra de imediato, mas aí é preciso vagar, porque suas crônicas, esses retalhs da vida, devem ser degustadas assim: va-ga-ro-sa-mente! Sem pressa, há que se sentir cada nota, cada informação e cada emoção.
    Agora só falta dizer que o nome do teu contador é Cláudio?

    Abraço!
    ;)

  3. Eduardo Disse:

    Muito massa! Parabéns!

  4. samarone Disse:

    Canto da boca, obrigado pelos comentágios generosos.
    O contador não é Cláudio, mas deve ser do mesmo time.
    Samarone

  5. O Analista - DF Disse:

    Samarone,

    Suas crônicas são, de fato, diferenciadas. A simplicidade e a leveza dos seus textos, impressionam. Agora, um conselho: sempre que resolver passear na praça, leva o D. Quixote ou um jornal, pois assim completa o disfarce. Por quê? Ora, ora! É que fica meio esquisito ou suspeito, um cabra sozinho, sentado num banco de praça encarando uns e outros. Não acha? Pra mim é coisa pra psicopata ou baitôla. A bem da verdade,os dois estão escolhendo suas vítimas. Acho. Eh, eh, eh!
    Ratificando “Canto da boca”, livrarias são locais onde meu olho cresce. Assim, devo frequentá-las com omoderação.

    Sugestão: duvido que vocês desconheçam o site – http://www.estantevirtual.com.br mas, de qualquer forma deixo a dica. Este site dá acesso a inúmeros sebos do Brasil. Basta apenas, informar título ou autor da obra, a partir do que serão listadas todas as opções disponíveis, algumas até, contendo a foto do livro.

    Samarone, parabéns e um grande abraço.

    George Guedes Barbosa

  6. adrianacleao Disse:

    Poxa, que sorte sua encontrar uma Dona Cecília, pois a Receita Federal está competindo com o INSS para ver qual órgão trata pior no atendimento ao público. Dona Cecília é bem especial, parabéns a ela.

  7. Nielly Disse:

    Bela crônica.sou irmã de Monick.Realmente ela tem um brilho nos olhos,é danada msm!

    Também não esqueci daquela conversa,numa certa manhã,lá no NEIMFA.
    Ah!Já estou lendo Viagem ao Crepúsculo(ótimo!!!).

    SUAS PALAVRAS ENCANTAM…

Conversinhas

Nota: A moderação de comentários está ativada e isto pode retardar a publicação do seu comentário. Por favor, não envie o seu comentário novamente.