Salve Jorge
Samarone Lima
Uma foto das antigas, em um de nossos carnavais. Jorge sempre andava assim, sem camisa. A pintura de Cervantes é dele.
A notícia chegou no final da manhã do domingo.
“Sama, Jó morreu. O enterro vai ser de duas horas, no cemitério de Santo Amaro”.
Eu já tinha tomado umas. Tomei um banho e fui me despedir do meu amigo Jorge Alberto. Tomei um banho lembrando de algumas presepadas na época em que eu morava no Poço. Eu e Jorge sempre nos comprimentávamos fazendo uma brincadeirinha com os dedos, tamborilando, sem aquele aperto formal. Além de artista plástico dos bons (tenho uma escultura maravilhosa dele em casa), Jorge escrevia poesias e era um frasista de primeira. Tenho uma coleção só com as dele, que batizei de “Jorgianas”. Ácidas, contundentes e cheias de irreverência.
Soubemos do câncer há uns três meses, creio. Tentamos visitá-lo umas três vezes, eu, Naná e Boy, mas nunca deu certo. Entedemos que ele não queria ser visitado doente. É o maior dos direitos, esse, do derradeiro ato.
Antes de sair de casa, peguei o velho caderno da Confraria dos Amigos do Poço da Panela, onde registramos nosso obituário. Os pedidos para o último dia. Tirei a página e levei-a no bolso. Tinha um poema dele colado. Os pedidos eram simples.
Lápide: Algum verso pessoal.
Música: Nona Sinfonia, de Beethoven.
Local: “Vocês que se danem”.
Horário: “A hora dos azuis do Poço”.
Discurso: “Ao apto”.
Fui andando para o cemitério. Um domingo lindo, de sol, e tenho o obituário de um amigo no bolso.
Chego, procuro, dou voltas no cemitério, esbarro em três velórios de gente simples. Vejo um caixão fechado, sozinho, sem uma alma por perto. Pergunto a um funcionário o que aconteceu, se a família atrasou.
“Tem família que faz isso. Deixa o caixão e vai embora”.
Isso é algo verdadeiramente triste.
Encontro os amigos e parentes do outro lado do cemitério. Vou ao velório, vejo meu amigo Jorge, faço minhas orações, volto ao grupo.
“Trouxesse o obituário?”, pergunta Iramarai.
Tiro o papel do bolso, todos olham. Numa barraquinha ao lado, compramos umas latinhas de cerveja e ficamos conversando. Numa TV pequena, a dona da barraca escuta uma música que o refrão é somente “Eu quero mais é beijar na boca, é beijar na boca, é beijar na boca”.
Iramarai começa a solfejar a Nona Sinfonia, já que não tinha aparelho de som e ninguém lembrava desses últimos pedidos de Jorge. Guga Mota, eu e Lula Terra nos chegamos, afinamos os compassos. Isso Jorge teria.
O cortejo sai. Lula Terra estava com o violão, foi dedilhando ”Amigos para sempre”, em meio ao silêncio dos pés se arrastando.
Chegamos ao túmulo. Quando o caixão começa a descer, Iramarai entoa a Nona Sinfonia, no assobio. Os amigos acompanham. Ao final, aplaudimos nosso camarada.
Lula Terra foi o amigo apto para um breve discurso. Falou da arte de Jorge, seu jeito, sua vida. Falou mais mesmo da amizade, essa grande aliança entre os seres humanos. Terminou com uma confissão:
“Mas eu também sou da turma de Jorge!”
Salve Jorge.
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6 Comentários »




25 de janeiro de 2010, às 10:37h
Muito bonito o adeus a Jorge.
E Salve Jorge e seus amigos….
25 de janeiro de 2010, às 12:06h
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Salve!
25 de janeiro de 2010, às 14:43h
Histórias de amizade são muito bonitas, Sama. Triste quando um amigo sai do jogo.
grande abraço
*Acabei de ler o Viagem.
Gostei pra caramba.
27 de janeiro de 2010, às 9:31h
Triste é quando um amigo sai do jogo [2]
28 de janeiro de 2010, às 20:30h
Triste….
Porém, muito bonito.
Essa me trouxe lembranças de um grande amigo que “saiu do jogo” cedo demais.
8 de fevereiro de 2010, às 22:27h
“A musa percorre café o poço”
Estava escrito a giz na parede do atelier que pela adolescência freqüentei.
Novinha, boêmia e cheia de vontade de pintar o mundo.
Nós éramos amigos, foi amor a primeiro instante.
E te digo, sama, se hoje eu sou alguém bacana, isso também se deve aos vários anos de plena educação intelectual, afetiva e dura que ele nunca pestanejou em dar-me.
“Sibigu, Mary não vai trabalhar na loja do shopping, essa menina é uma artista”.
Amo você, querido.
É para tu o quadro que agora pinto.