Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias | Por Samarone Lima

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Quem lamenta sou eu, presidente

25 de fevereiro de 2010, às 12:02h por Samarone Lima
Orlando Zapata

Orlando Zapata

Em janeiro de 2008, voltei de uma viagem a Cuba que durou um mês, que resultou em um livro (Viagem ao Crepúsculo, Editora Casa das Musas). Naquele janeiro, o presidente Lula visitou a ilha, e acompanhei a mobilização de dezenas de estudantes de Medicina brasileiros, para tentar uma audiência. Em pauta, a revalidação do diploma. O máximo que conseguiram foi falar com o ministro da Saúde, José Gomes Temporão.

Nos jornais e rádios estatais, a visita foi cercada de silêncio. Lula chegou, encontrou com o velho amigo Fidel, tirou fotos, tudo muito divertido e afável. Entre os muitos amigos cubanos, havia um ranger de dentes. Uma raiva interior confessada em palavras baixas. Lula jamais deu uma palavra sobre prisões de dissidentes, violações de direitos humanos, a absoluta falta de liberdade que impera na ilha.

Desta vez, Lula chegou a Havana no fim da agonia de Orlando Zapata Tamoyo, de 42 anos, um bombeiro hidráulico e prisioneiro de consciência. Após 85 dias em greve de fome, ele morreu. À noite, no necrotério, sua mãe, Reina, deu um breve e comovente depoimento, uma indignação dolorosa e profunda.

“Eu digo ao mundo. Esta é a minha dor. Meu filho foi torturado durante todo o período em que esteve preso. Foi assassinado”.

Depois de relatar as torturas sofridas pelo filho durante todo o período em que esteve preso (desde 2003), ela não esqueceu dos demais infelizes que ousaram levantar a voz contra o regime:

“Que exijam a liberdade dos demais presos e demais irmãos”.

O depoimento da mãe pode ser escutado no blog da única voz possível vindo de Cuba, a blogueira Yoani Sánchez  (www.desdecuba/generaciony)

Forçado pelas circunstâncias a falar  sobre a morte de Orlando, Lula respondeu assim:

“Lamento profundamente que uma pessoa se deixe morrer de greve de fome. Pelo amor de Deus, ninguém que queira fazer protesto peça para eu fazer greve de fome, que eu não farei mais”.

Quem lamenta sou eu, presidente. A circunstância da visita permitiria, pela primeira vez, que uma voz reconhecida mundialmente trouxesse à tona um dos maiores crimes cometidos pelo regime cubano – a perseguição implacável a qualquer voz dissidente, tratados como “mercenários financiados pelos Estados Unidos”. No mínimo, uma negociação pela libertação dos que estão com graves problemas de saúde, os mais velhos, para que possam morrer perto dos parentes.

Lamento que a vítima, um bombeiro hidráulico passe de vítima a culpado. Claro, ele “se deixou morrer” na greve de fome.

Havia uma carta dos dissidentes, que deveria ser entregue a Lula. Ele não recebeu e explicou o seguinte:

“Eu não recebi carta nenhuma. As pessoas precisam parar com o hábito de fazer cartas, guardar para si e depois dizer que mandam para os outros”.

Tristeza, decepção, indignação. É o que sinto pela morte de um preso de consciência, após a agonia de 85 dias, e pelo que diz o presidente do meu país, com palavras que passam pela vulgaridade. Um homem que tem planos de ser um estadista mundial, que pretende mediar conflitos.

Mas vai uma confissão. Essa postura de Lula não é nenhuma novidade para mim, bem como o profundo, meticuloso e inabalável silêncio de praticamente todas as pessoas esclarecidas e de esquerda no Brasil sobre a realidade cubana.

Após o lançamento do meu livro, que mostra a vida cotidiana, o sofrimento, a penúria e repressão naquela ilha, participei de vários debates. Há os defensores radicais do regime, que me apontam o dedo e dizem que não vi os avanços em saúde e educação. Há dedos em riste, acusadores, as famosas perguntas, se vi crianças nas ruas, se vi mendigos.

Em nenhum dos debates, algum defensor ardoroso perguntou ou falou sobre esta palavra que me move diariamente, e com a qual caminharei até o último dia: Liberdade.

Os cubanos não são livres. Não podem sair do país. Não podem criticar o regime na fila do pão, sob o risco de serem rapidamente presos pelos infiltrados, e condenados a 20, 30 anos de prisão, após julgamentos rápidos. Não podem escrever um artigo para publicar no Granma, pedindo respeito aos direitos humanos.

Conheci de perto a azeitada máquina repressiva cubana. A rigorosa cobrança da identidade aos jovens mulatos. Os infames “Comitês de Defesa da Revolução”, verdadeiras máquinas de vigilância e delação, instalados em todos os bairros. Escutei relatos sobre a vida nas prisões de Cuba, por uma mulher admirável, que me hospedou, enquanto juntava os trocados para visitar o filho preso, a cada 15 dias.

O que está acontecendo em Cuba é uma tragédia humana que um dia será contada. A Anistia Internacional calcula em mais de 200 presos de consciência. Não mataram, não roubaram, não desviaram dinheiro. Ousaram falar, escrever, questionar.  

Orlando Zapata Tamoyo passou por uma longa agonia, e morreu às vésperas da chegada de um presidente que foi preso porque liderou operários, em busca de liberdade.

Zapata não se deixou morrer, presidente Lula.

Ele tinha a mesma fome que tenho, e que jamais saciou: de liberdade.

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In memorian

25 de fevereiro de 2010, às 1:30h por Samarone Lima

Orlando Zapata, 42 anos.

Preso de consciência da ditadura cubana.

Morreu em uma greve de fome, após dois meses.

Lula encontrou Fidel e Raul Castro, tirou fotos, mas não soube de Orlando.

Numa entrevista desastrosa, lamentou que “uma pessoa se deixe morrer por uma greve de fome”.

Isso é lamentável e muito triste. Há mais de 200 presos políticos na ilha.

No blog da Yoani Sánchez, a voz na surdina dos familiares de Orlando.

www.generaciony.com

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Previsões e anotações

23 de fevereiro de 2010, às 18:51h por Samarone Lima

Criar um nome no skype. Criar um bom dia menos careta. Aceitar finalmente os pedidos para aderir ao facebook.  Botar minha face no meu book predileto. Abrir uma conta no Orkut. Fechar a conta do Bradesco. Entender finalmente a lógica do twitter. Botar uma tweeter melhor no som do carro. Descobrir o maravilhoso das redes sociais. Dormir mais na rede social da sala. Postar minhas filmagens no youtube. Postar as cartas noturnas que nunca mais escrevi. Aprender a baixar música. Aprender a baixar o tom nas discussões. Aprender a baixar filme. Aprender a baixar o vidro. Postar mais no blog. Me irritar menos com meu bloco de Carnaval. Ver o MySpace. Deixar dessa frescura de “meu espaço”. Ver como comprar no sebo virtual. Abrir um sebo de verdade. Buzz. Não sei do que se trata. “Reputação é tudo na rede social Naymz”.

“Não posso ver porque estou sem óculos e nem quero botar” (Fernando). “O prato mais sofisticado que comi foi sardinha Coqueiro” (Ibdem). “Escrevente: Aquele que sabe escrever, mas não é escritor” (Roland Barthes). “Quando se ama, combate-se, porque se combate a apatia do outro para fazê-lo tornar-se aquilo que ele é, isto é, mais singular,  porque o que procuramos nele é sua singularidade, e o outro tem sempre a tendência de renunciar à sua singularidade” (Bernard Stiegler, salvo engano). “Em arte, de nada serve o método, mais vale a loucura” (Alfred Döblin, romancista autor de Berlin Alexanderplatz, em 1929).

“Existem coisas que não existem, mas que “consistem”, e são as coisa mais importantes” (Bernard Stiegler). “Acredito que as coisas que não existem, consistem” (Ele, de novo). “…é melhor perder o paraíso por uma falsa maçã vermelha do que pelo fruto do saber seco, verdadeiro” (Cabrera Infante, Três Tristes Tigres).

Quase não vou aos gerúndios/nem aos particípios. Bom é olhar teu rosto fosforescente/ Nuvens são apenas adensamentos de lágrimas que evaporam/Sim. às vezes me canso de ti, me lembro de ti/ Por tua causa desfaço as manhãs, as malas/Na esperança de outro amanhã/ Vou caminhando, cheio de gerúndios.

E finalmente, concordo inteiramente como Charles:

“O estado do belo é um duelo em que o artista grita de medo antes de ser vencido”.

Hasta la vista. Deixa pra lá.

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Sonho adiado

20 de fevereiro de 2010, às 12:20h por Samarone Lima

Crianças lendo no Projeto Maritaca, na cidade de Aracati, Ceará.

Meu sonho de criar uma biblioteca comunitária no Poço da Panela foi por mangue abaixo mais uma vez. A casa foi encontrada, visitamos, é uma belezinha, pequena mas confortável, dentro da comunidade, onde os livros mais precisam estar, pero….

Depois de dúzias de telefonemas, idas e vindas, conversa pessoal com o proprietário, a coisa não tem definição. É péssimo esse negócio do “vamos ver”, “quem sabe”, “está quase definido”. São meses nessa expectativa. O dono da casa é agradabilíssimo, a casa está vazia, mas não sei o que há. Será que o fato de alugar uma casa, botar estantes, transformá-la em uma biblioteca comunitária, pode desvalorizar o imóvel?

Não posso negar um sentimento de frustração, especialmente porque vários leitores já mandaram email, oferecendo bons livros. Seu Vital já recebeu algumas caixas, foi guardando no seu bar/mercearia, mas já está ficando impaciente comigo. Todo mundo sabe como não é bom deixar Seu Vital impaciente.

Nessas horas, eu queria ter um dinheiro sobrando, uns trinta mil reais, para comprar uma casinha no Poço e abrir a sonhada biblioteca. Mas eu nunca tive essas boquinhas com dinheiro, é melhor primeiro eu pagar minhas contas em dia, antes de ficar feito um Dirceu Borboleta dos livros.

Daniel Buarque, um ex-aluno, que morava em São Paulo e foi passar seis meses em Nova York, me mandou uma caixa, tenho que ir buscar esta semana. Papoula se mudou recentemente, me ligou, informado de vários bons livros para a Biblioteca Comunitária do Poço da Panela, mas não tenho mais onde botar livros, se não tenho como facilitar o acesso, democratizar a leitura. Tive que declinar da oferta. Damaris, a generosa diretora da Escola Municipal Nilo Pereira, tem vários kits de brinquedos infantis, já ofereceu ajuda. Tudo esperando uma casa.

Vou continuar alimentando este sonho, que venho acalentando há um bom tempo, com o gordinho Naná e com o velho amigo Boy. Tem horas que o cara engasga, dá uma agonia. A biblioteca mais próxima do Poço é a do Sesc Casa Amarela, longe pacas.

Tem uma geração de meninos que conheci, no Poço, com cinco, seis anos. Estão todos adolescentes hoje, e o livro ainda não entrou na vida. O Recife pode ter o melhor Carnaval do mundo, mas é uma cidade mesquinha com livros. Há pouquíssimas bibliotecas públicas.

Mas não chore ainda não, que tenho um violão e nós vamos cantar, como diz o poeta. Um dia vamos inaugurar esta pequena biblioteca e o sonho será realizado. Já posso ver o sorriso do gorducho Naná. Melhor: o sorriso de Déa e Marquinhos, que me procuraram, se oferecendo como voluntários da biblioteca.

Ps. dia 8 de fevereiro foi inaugurada a Biblioteca de São Paulo, na área da antiga Casa de Detenção, o Carandiru. Custou R$ 12,5 milhões. O acervo tem 30 mil livros, CDs, DVDs, mesas reguláveis, que se adaptam a qualquer tamanho de cadeira de rodas, folheadores automáticos de páginas (para quem perdeu os movimentos das mãos) e computadores adaptados. Nos 4.200m2 destinados somente aos mais jovens, no térreo, funcionam alas para faixas etárias (zero a três anos, quatro a 11 anos, e 12 a 17 anos). Nessas áreas, com estantes baixas, há livros, discos e fillmes, que ficam diretamente expostos aos jovens. Só me resta mesmo dar os parabéns. Sonhos maiores estão sendo realizados.

ps2. A foto que descolei na Internet é de crianças lendo no Projeto Maritaca, em Aracati, no Ceará.

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Maria Vaidade

17 de fevereiro de 2010, às 13:09h por Samarone Lima

Foi na sexta-feira de Carnaval. Tive a brilhante idéia de pegar o IPVA da minha mãe, que continua no meu nome por questões monetárias. Tudo pago, inclusive as muitas multas de Dona Ermira, fui ao Detran do Shopping Plaza, só para receber o papel verdinho que libera a gente de muitos problemas. Onze e meia da manhã, pouca gente, era só pegar o documento, botar nos Correios e pegar a fantasia.

De cara, estranhei a presença nervosa de uma jovem mulher. Estava de pé, parecia bem de vida, a julgar pela roupa colada ao corpo, cabelos bem cortados, brincos, colares, todas as condições favoráveis. O sujeito com um certo traquejo na vida sabe de longe quando uma mulher passa bem, faz academia, tem bons cremes, não tem problemas com o abastecimento da geladeira e não sabe o que é um CDU/Boa Viagem/Caxangá.

Mas a mulher reclamava. Estava impaciente, indócil, intranquila, intolerável. Olhava para o relógio a cada dois minutos. Ofegava. Precisava resolver aquilo logo, queria falar com o supervisor. Eu pensei logo algo como um carro preso por alguma falta de pagamento, e a pessoa tendo viagem marcada com toda a família para uma bela praia, mas fiquei por ali mesmo, na minha, porque nessa de querer ajudar, vivo me metendo em encrenca. Peguei minha senha e aguardei. Eu e mais quatro marmanjos esperávamos a liberação do supervisor, para pegarmos nosso IPVA.

Até que a mulher encontrou o supervisor, um rapaz alto e bem educado. Começou uma conversa longa. Que era consumidora, que tinha direitos, que isso, que aquilo. Bem Educado ponderava, dizia umas coisas num tom mais ameno, observava que não dependia dele, mas a mulher não arredava o pé. Era um Siri na Lata.

Os cinco buscapés (eu e outros quatro) ficamos esperando o desenlace. Especulamos sobre o problema. Que o Detran na certa tinha perdido os documentos dela. Que algum despachante fuleirou. Que ela pagou as multas e não deram baixa.

Por último, Grandão Educado resumiu tudo.

“A senhora pode falar com fulana ou sicrana, lá na sede do Detran”.

“Aquele fim de mundo? Mas hoje é sexta-feira, amanhã é Carnaval”, respondeu a mulher.

Um funcionário gente boa que esperava a liberação do IPVA para nos entregar, completou:

“Pois eu estou doido é para encerrar meu expediente e cair na folia”.

Até que resolvemos intervir. Já eram 12h10, a ladaínha não terminava, e a loja do Detran inteira aguardava o desenlace do drama da loira. Falamos com Grandão Educado, cada um explicou seu problema, precisávamos somente receber um documento que dependia da liberação dele. Tinha motorista de carreta, de Kômbi, de lotação, e tinha eu também, que não vivo só de fulozô.

Grandão pediu licença, entrou numa sala. Iria liberar nosso IPVA. Ficamos do lado de fora, esperando. O vigilante disse um “é foda, velho” e explicou o que estava acontecendo. Foi mais um desabafo.

“Vocês sabem por que está acontecendo esta confusão todinha?”

Nenhum de nós sabia.

“A loira ali tirou uma foto para renovar a carteira. A moça que tirou a foto mostrou a imagem dela no computador, a loira aprovou, e a moça mandou imprimir o documento”.

Ele ajeitou a calça, o boné da empresa de segurança e prosseguiu.

“Pois desde que a loira recebeu a carteira, está essa confusão. Ela cismou que as pontas dos cabelos estão mais loiras na foto do que realmente são. As pontas dos cabelos, velho, já pensasse? Não aceita o documento de jeito nenhum. Já tem uns 40 minutos que ela vai pra lá, vem pra cá, essa confusão toda é por causa disso, porque ela tem certeza que as pontas dos cabelos dela estão mais loiros na foto do que no original. O pior é que o documento está pronto, ela já podia era estar em casa, almoçando com a família. Eu mesmo não vejo a hora de almoçar”.

A turma do IPVA ficou de boca aberta, sem acreditar. Só não chamaram a loira de santa.

Quando estava pegando meu IPVA, escutei ela, a loira, pegando o nome da atendente. Anotou o nome completo, em um pedaço de papel. Certamente iria reclamar com o Detran.

Quando eu saía do shopping, olhei para o céu. Meio nublado e calorento, esse Recife, foi o que pensei. Por mim, eu devia ter ido logo era para o Mercado da Boa Vista. Uma boa galinha a cabidela e uma cerveja, para ficar pensando melhor.

Só me ocorreu um nome para a criatura: Maria Vaidade.

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