Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias | Por Samarone Lima


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Carnavais

5 de fevereiro de 2010, às 15:57h por Samarone Lima

Quando cheguei ao Recife, em julho de 1987, eu não sabia direito quase nada da vida. Era um rapaz que tentava alguma coisa, mas não sabia por onde navegar. O máximo que eu vivera de Carnaval foram eventos nada encantadores. Ajudante-de-barraca-de-caipirinha, em Aracati, um Carnaval movido a trios elétricos e multidões. Era o início de uma fulgurante carreira de profissional bem sucedido no ramo das caipirinhas, mas com uma imensa vocação para nunca conseguir lucros com as vendas. O bom foi que nos divertimos muito, eu e a turma do Monte Castelo. Nessa época, o Kiko era vivo. No ano seguinte, ajudante-de-barraca-de-caipirinha, no bloco “Que Merda é Essa?”

Neste ano, tive um momento histórico de felicidade na desgraça. Estacionamos o Chevette 1979 da Dona Ermira na contramão, tiramos isopor (lá no Ceará se chama isopor), o gelo, as cachaças, e me deu na telha mudar a posição do carro. Deixa assim mesmo, disse meu irmão. Teimei. Fiz a volta, estacionei direito. Meia hora depois, o trio elétrico foi fazer uma manobra, o cara perdeu o freio, afundou um lado inteiro do Chevette. A empresa teve que pagar o conserto. Se o carro estivesse na contramão, a gente voltaria do bloco com uns trocados no bolso e um lado do carro para consertar.

Eu sempre fui muito burro para muitas coisas. Quem é burro, perde tempo, é só isso. De 1988 a 1993, ano em que me formei, eu tinha problemas mentais. Fui a pouquíssimos jogos do Santa Cruz e não entendia de Carnaval. Lembro que uma vez foi uma turma de vários estados se hospedar na Casa do Estudante Universitário (CEU), e fiquei sendo o anfitrião. Pois bem. A gente passava o dia biritando, e à noite seguia para Olinda.

Só mesmo um estúpido é capaz de um negócio desses. É que eu não entendia direito Pernambuco. Eu era um selvagem. À noite, em Olinda, estão todos bêbados e as troças maravilhosas já passaram todas.

Foi cobrindo o Carnaval pelo Diário de Pernambuco que comecei a deixar meu queijo de lado. Uma noite, acompanhei desfiles de caboclinhos os mais diversos, além dos desfiles das escolas de samba. Foi quando vi a cultura do Carnaval. O pernambucano já nasce com isso na alma. É irrevogável. Dá um frenesi, dez dias antes da festa. O Recife mergulha numa atmosfera diferente.

Uma vez, fui cobrir o desfile do Galo da Madrugada e como tinha crachá do jornal, pude subir nos trios. Lembro quando um trio entrou na rua da Concórdia. Pensei que o mundo iria pegar fogo. De fato, ele pegou. Endoidei o cabeção. Por dois anos, fui com Iramarai para a concentração do Galo. Um negócio cheio de espanto e nostalgia.

De 1994 a 2000, estava em São Paulo, e quando chegava perto do Carnaval, eu entrava em desespero. Queria estar no Recife. Eu choramingava, quando não conseguia.

Acho que só vim me tornar uma pessoa razoável aos 30 anos. Foi quando voltei a morar no Recife, e não era tão estúpido. Comecei a acompanhar o Santa Cruz e no ano seguinte cheguei ao ponto máximo. Com dois ou três amigos, fundamos uma troça de Carnaval, Os Barba.

Foi nesse ano que tive uma experiência transcedental. No sábado, no Carnaval de 2001, fui ao Clube Atlântico, para a concentração de Ceroulas. Estava ali, de bobeira, quando a orquestra atacou com o hino de Ceroulas (“Eu vou este ano pra lua/Não é privilégio/Foguete já tem”). Era um negócio tão lindo, tão fabuloso, que comecei a dançar feito um doido, no meio da turba. Ali, falei umas duas ou três vezes com Deus, e voltei pra casa com a certeza de ter visitado o paraíso. Aproveitei e dei um abraço em São Francisco.

Foram meus os melhores carnavais, a partir de então. Me apaixonei pelas prévias. Depois, o Recife fica entupido, todo mundo quer se esbaldar por aqui, com todo direito.

Mas cada Carnaval tem sua história. Uma vez casei formalmente uma parelha que estava afiada. Não vingou. Outro Carnaval fiquei perambulando no Bairro do Recife (ops, Naire), e sempre encontrava a mesma turma, no mesmo horário e local. Uma vez protegi, de alguma forma, o Bloco da Saudade. Uma vez, eu estava vestido de palhaço, mas estava triste de doer. Uma vez só tomei rum Montilla e meu fígado sentiu pacas. Uma vez segurei o estandarte de um bloco e tentei fugir com ele. Certa vez eu fiquei flanando entre os blocos, olhando e respirando aquele clima de alegria, de êxtase coletivo. Naquele momento, eu só achava bom mesmo era estar vivo, na cidade que mais quero bem nesta vida, o Recife.

Acho que estou ficando velho. Quando penso em ir para aquela muvuca de Olinda, me dá uma preguiça dos diabos. Tudo ficou grande demais, com coisas demais, gente demais.

Mas estarei por ai, ao Deus-dará, entremeando alguma troça que valha, passando por entre os frevos e confetes, encontrando amigos em suas jornadas, celebrando o que for possível, espiando a poesia das coisas miúdas, até porque eu sei muito bem – se estivesse longe desse clima todo, estaria choramingando de saudades.

Boas prévias, pois.

Postado em Crônicas | 15 Comentários »

15 Comentários

  1. Sirley Disse:

    Boas prévias!
    Um grande abraço.

  2. Thiago Disse:

    Te vi nos Amantes. Pirangagem aquela tua camiseta, hein?

  3. capilé Disse:

    “Voltei Recife, foi a saudade que me trouxe pelo braço”…isso é muitchoooo lindo!rsrsrsrsr…abraço.

  4. Ana de Fátima Disse:

    Pôxa, também sinto essa preguiça, mas sei que não vou resistir e tb estarei por aí curtindo a vida no carnaval ou o carnaval na vida…Sei lá…só sei que vai rolar….

    Bom carnaval

  5. Dóris Castelo Branco Disse:

    Sem dúvida, o melhor carnaval do mundo. Boas Prévias, Bom Carnaval!

  6. Naire Disse:

    Amanha a gente se encontra nos Barba.
    Beijo

  7. Boca Disse:

    Bairrismos à parte, o carnaval do Recife é o melhor do mundo, risos.
    Foi assim que me senti também, Samarone: desesperada, nos dois últimos carnavais que passei fora do Brasil e não pude estar aqui nesse momento pagão, tão sagrado. Sentir o carnaval pernambucano é algo que extrapola qualquer palavra, só vivendo essa coisa que embriaga e é inextinguível dentro de cada um/a, é que sabe o que estamos a falar.

    O Estuário é um confessionário mesmo, aqui você sempre confessa os seus mais, mais ér… mais vamos assim dizer íntimos e secretos (?) pensamentos, e quem se delicia são os seus/suas leitores/as. Um quase batedor de estandarte, Samarone??!!! Hahaha!

    “Voltei Recife”, é sem dúvida um hino apologético e muito amoroso (sim com redundância mesmo) ao/do Recife, e esse é o que derrama rios de lágrimas abarrotadas de emoção, de uma galera muito epecial das bandas de Olinda… Sem contar que o “pá, pá, pá, pá, parará, parará” do Ceroula, é um coquetel explosivo que nos arremete à lua juntamente com o hino… Ah e nem pisa falar dos Evocações ao Recife, 01, 02, 03… “O Recife está dentro de mim…”

    Mas vamos ao carnaval, que ele seja pleno de paz, amor e poesia, pois.

    ;-)

  8. Nereida Disse:

    Quando morei em Curitiba, anos atrás, e chegava a época do carnaval, menino,era coisa de louco ( eu tinha 24 anos e toda àquela disposição para frevar até a quarta feira chegar!) eu endoidava o pessoal( leia, chefia!) que eu tinha que vir para o Recife, eu tinha de vir senão eu nunca mais ia ser feliz e morreria de dor e saudade nates que tocassem os últimos clarins da quarta feira…
    Bem sempre funcionava e , dias antes da viagem,o “toca fitas ” domeu chevette só tocava “Voltei Recife…”
    Viagem essa ,que normalmente, era acompanhada de outros tantos amigas e amigos paranaenses maravilhosos que lotavam a casa da minha santa mãe,aqui no Recife, que só sendo santa mesmo para aturar aquele monte de gente a falar ” letche quente”,”porrrta” e a chegar aos poucos durante todas as madrugadas de carnaval.
    Hoje, já não brinco mais…acho que esgotei das dezenas de anos que me esbaldei, toda a energia necessária para o sobe e desce das ladeiras de Olinda e as horas sob o sol forte do Galo da madrugada, porém meus pés e minha voz não resistem ao som da introdução de Vassourinhas e , dentro de casa mesmo, volto a ser a foliã que fui em antigos carnavais!
    Um grande abraço. Nereida

  9. ana luíza Disse:

    Sama,
    venho reforçar esse cordão de pessoas apaixonadas pelo carnaval de pernambuco e por todo o clima inexplicável que toma conta da gente no periodo. Este será meu segundo carnaval longe e não é fácil. Brinque por mim e mande notícias. Já repassei tua crônica aos pernambucanos que conheci nesta terra.
    Beijos
    Ana Luíza

  10. anonimo Disse:

    Adorei.Cada carnaval tem sua história.

  11. Julio Vila Nova Disse:

    Samarone, umas dicas para a agenda momesca:
    - dia 9 agora (terça) é o Dia do Frevo, e o Cordas e Retalhos está no Bairro do Recife;
    - dia 10 é festa no Pátio de s.Pedro com lançamento do livro celebrando os 100 anos da Troça Carnavalesca Mista O Cachorro do Homem do Miúdo;
    - Terça de carnaval (16/02) é A Minha Cobra que vai esquentar em Olinda, de manhã, na rua da Boa Hora.

  12. adrianacleao Disse:

    Sama, senti sua falta nos Barbas…

  13. samarone Disse:

    Adriana, não pude ir. Tinha um casamento em Fortaleza no mesmo dia, e não podia faltar.
    Já me disseram que foi uma maravilha.
    Sama

  14. Disse:

    como assim? eu não te vi na prévia dos Amantes!!:(
    será q nos veremos no grito, na segunda-feira?
    saudadeeesss

  15. Amanda Melo Disse:

    Moro longe, ma já ta tudo arrumado pra viajar sexta feira de madrugada pro meu Recife. Tô contando os minutos. Cada linha que li, me deu um pontada no peito, um nó na garganta e uma vontade imensa de colocar pra fora toda a emoção que sinto com o Carnaval de Recife. Todo ano o pernambucano vai de fato pra lua e isso não tem preço. Bom Carnaval, Sama!

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