Papos com o tio
Samarone Lima
Reencontrei tio Ademar no casamento da minha prima, em Fortaleza. O casamento foi no mesmo dia da única troça que fundei na vida, “Os Barba”, mas como já participei de sete anos seguidos dos Barba, perder um Carnaval não me mataria ou aleijaria.
O apelido de tio Ademar é Careca desde os tempos em que ele tinha muito cabelo. Sempre o chamaram de Careca, mas eu sou meio conservador, respeitador dos mais velhos, só o chamo mesmo de tio. Ele me chama de “Samara”.
O casamento foi uma festa gigantesca. Era tanto whisky que tinha hora que a gente confundia os garçons. Comida era de rodo, fora música, os doces e meio mundo de parentes, gente que eu não via há anos. O Leandro, filho de tia Zélia, a última vez que o vi, foi quando ele tinha uns sete anos. Hoje é um sujeito duas vezes mais forte e encorpado que eu, gente boníssima, papo generoso. É personal trainer. Acho que o primeiro da família.
Pois bem. Tio Ademar há tempos parou de beber, entrou para o AA e tudo o mais. Numa das vezes que fui a Fortaleza, fui a uma reunião do AA com o tio, que estava comemorando dois anos sem uma gota de àlcool no organismo.
Outro dia, tio Ademar foi pego num contratempo. Justo no momento em que passava defronte a um bar, em Fortaleza, e o cara no violão comecou a tocar Alceu Valença. Ele entrou. Encostou no balcão, falou com o barman.
“Meu irmão, não posso escutar um negócio desse não, que dá vontade de beber….”
O sujeito do violão parece ter adivinhado. Rasgou com “A bruma leve das paixões que vêm de dentro…”
Tio Coçou a cabeça unas três vezes (agora sim, ele está careca) e continuou.
“Compadre, desse jeito não dá, cara”.
Pediu uma dose ao barman.
“De que mesmo?”
O velho marujo, depois de um bom tempo sem olhar para uma garrafa, não teve dúvidas:
“Bote uma de Rum Montilla, acrescente um Campari e uma dose de whisky. E jogue uma Coca-Cola por cima”.
O barman nem se importunou com o lance do AA, que não poderia quebrar a promessa. Além disso, o cara do violão cantava com paixão.
Tio me contou essa num intervalo de uma música, no casamento.
“Sim, tio, mas o senhor bebeu quantas doses dessa mistura?”
“Rapaz, o cara depois comecou a tocar Cássia Eller. Tomei dezessete”.
No casamento, tio não bebeu. Certas pessoas que bebem, ficam chatíssimas quando param. Tio Ademar consegue manter o humor cortante, sagaz e inteligente como poucos. É adorável, o velho Careca.
Lá pelas tantas, quando alguém falou algo que não lembro, tio Ademar me cutucou e disse:
“Sabia que aquela música ´Ão Ão Ão/O jumento é nosso irmão´ é do Padre Antônio Vieira?”
Eu não sabia, fiquei perplexo. Certas informações, vindas assim, de uma fonte totalmente confiável, deixam a gente com a sensação de saber de tudo, menos das coisas importantes.
Fica o registro.
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3 Comentários »




9 de fevereiro de 2010, às 8:49h
Sama,
Senti sua ausência nos “Barba”.
Beijo
Naire
9 de fevereiro de 2010, às 9:20h
Que beleza de crônica, Sama. Dá pra estar na festa também junto com você.
Quanto ao AA, é um trabalho que admiro demais. Pena que o problema do alcoolismo ainda é tão subestimado. Já vi gente morrer, casamentos acabarem, amigos quebrarem e tantas outras coisas brabas por causa dele. Quem sofre do problema tem que ter nervos de aço pra temperar com a força de vontade, pois a pressão é grande pelos amigos, companheiros de cachaça.
Desculpe pelo comentário mais “pesado” para uma crônica tão leve, mas do problema às vezes só se ri,porque há mesmo muitas cenas engraçadas por parte dos velhos ‘bebuns’.
Bom carnaval!
Beijão.
Magna
14 de março de 2010, às 11:47h
Primo,
incrivel como as linhas escritas retratam lembrancas do cotidiano e do passado.
parabens