Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias | Por Samarone Lima

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Conto de Carnaval

10 de fevereiro de 2010, às 11:28h por Samarone Lima

25 de fevereiro de 2009, às 19:40h por Samarone Lima

O bom do cara escrever com frequência é que tem texto de reserva, quando está sem tempo e inspiração. Vai uma postagem do Carnaval de 2009. Deixa o frevo rolar, eu só quero saber, se você vai brincar, ai meu bem sem você não há Carnaval…

tubas

Para desanuviar, um pequeno conto de Carnaval, inspirado em fatos irreais.

Era terça-feira de Carnaval. Os dois tinham noivado uma semana antes, marcaram o casamento, começaram as compras. Tudo para a nova casa, a nova vida. Meu Deus, mas para que isso de noivado? Uma fase de teste?

Já tinham bebido muito. Pequenas desavenças, exageros na bebida. Ela, irritada com algo, disse duas ou três vezes:

“Não vou mais casar”.

Ele se irritou com aquilo. Precisava dizer na frente dos amigos, quando a orquestra começava a rugir?

Sei que o whisky começou a pegar. Uma olhada mínima para os lados, ela reclamava. Um comportamento estranho dele, e ela questionava o casamento. Ele também não estava fácil. Qualquer movimento, dizia coisas contra. Os dois estavam se estranhando por nada. Coisas do Carnaval.

Ao anoitecer, ela se irritou com sua derradeira gracinha. Num rompante, tirou a aliança e a jogou longe. Passava uma orquestra de frevo, dessas que passam à deriva, no Recife Antigo. A aliança caiu dentro de uma tuba.  Jogou sem pensar, como quem bate uma porta no meio da discussão. No mesmo instante, já bebia do arrependimento.

Ele não viu a cena. Pegava mais gelo para o whisky. Melhor assim.

Na manhã seguinte, de ressaca, ele viu sua mão vazia. A falta completa, na quarta-feira de cinzas. Ressaca dupla. Não comentou. Esperaria que ela acordasse.

Ela acordou, sentiu o dedo pesado. Lembrou da cena, da tuba. Meu Deus, que loucura eu fiz.

Aproveitou um descuido dele, saiu de casa logo cedo.

Passou a quarta-feira de cinzas vasculhando tubas de orquestras, como uma cinderela do dedo.

Para Pedoca e Emília, que inspiraram este conto, hoje casados e com a filhota Ana a caminho.

Postado em Contos | 7 Comentários »

7 Comentários

  1. saci-folião Disse:

    queridos e queridas de recifolinda! quanta saudade! mesmo com a imensa muvuca. saudoso dos folguedos daí, remeto-lhes uma outra intensa saudade (mesmo não conhecida daí) do carnaval daqui, em são luiz do paraitinga. sim! aquela cidadezinha das marchinhas que foi transformada na atlântida brasileira pela força das águas e que, por isto, não terá carnaval em 2010. não temos tristezas. os blocos sairão nas cidades vizinhas e até mesmo na são paulo de piratininga rolou um bloco alusivo aos luizenses. mas o que vale a nós, foliões de todos os cantos, é poder cantar, dançar e brincar a realidade louca e sã do carnaval de todos os dias. saravá, sama e todos e todas.evoé!

  2. Alex Disse:

    Carnaval de 2009 pra mim foi o melhor do mundo.

  3. Boca Disse:

    “… Vamos cair no passo e a vida gozar”! Mas olha, um noivado que resiste a um carnaval, já nasceu com a vocação de para sempre!! É destino. Fiquei com pena dessa Cinderela do dedo, imaginando o sem-número de tubas que ela não deve ter vasculhado. Mas olha Samarone, sabe que tenho umas lembranças tão esquistas, tão foras de hora, mas esse conto me remeteu a uma canção do Dante Ozzetti, que se chama, Estopim, cantada pela irmã a Ná Ozzetti (amo a voz dessa moça), saca só a letra:

    “Nada é tão fácil no início
    Nem no percurso nem no fim
    Nada é tão natural
    Nada é tão trivial
    Nem uma flor
    Nem todo jardim

    Amor que é simples se complica
    E todo amor vai ficando assim
    Um faz algum sinal
    O outro já interpreta mal
    E o que era banal
    Vira um estopim

    Sim
    Detonou
    Foi um caos
    Nosso amor
    Ia bem
    Não tão bem
    Mas enfim
    Bem normal
    Complicou quando eu comentei
    Que era tão triste o seu olhar
    “Meu olhar, como assim?
    A tristeza vem de você pra mim
    A tristeza de um olhar
    Vem do outro olhar
    Vem de tanto olhar”
    Como assim?
    “Pelo olhar
    Pode haver um motim”
    Não entendi
    Mas senti
    Que era o fim”,

    pode-se escutá-la aqui:
    http://www.youtube.com/watch?v=U8lZgZdYBpk

    Completamente descarnavalizada, meio non-sense, até, mas a mesma intenção do texto, ao menos para mim.
    Textículo bem bonitinho esse, e adorei a ilustração das tumbas, os círculos deve ser a aliança perdida, pululando carnaval!

    Abraço.

  4. Boca Disse:

    Onde tem “tumbas”, leia-se: TUBAS!!!!

  5. Thiago Disse:

    Quantas alianças ela não encontrou, dentro de tantas tubas de tantas orquestras, enquanto procurava a sua…

  6. Naire Disse:

    Ontem, todos estavam la( Amantes de Gloria) novamente.
    Beijo

  7. RC Disse:

    “A aliança caiu dentro da tuba”… fantástico sempre!

Conversinhas

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