Maria Vaidade
Samarone Lima
Foi na sexta-feira de Carnaval. Tive a brilhante idéia de pegar o IPVA da minha mãe, que continua no meu nome por questões monetárias. Tudo pago, inclusive as muitas multas de Dona Ermira, fui ao Detran do Shopping Plaza, só para receber o papel verdinho que libera a gente de muitos problemas. Onze e meia da manhã, pouca gente, era só pegar o documento, botar nos Correios e pegar a fantasia.
De cara, estranhei a presença nervosa de uma jovem mulher. Estava de pé, parecia bem de vida, a julgar pela roupa colada ao corpo, cabelos bem cortados, brincos, colares, todas as condições favoráveis. O sujeito com um certo traquejo na vida sabe de longe quando uma mulher passa bem, faz academia, tem bons cremes, não tem problemas com o abastecimento da geladeira e não sabe o que é um CDU/Boa Viagem/Caxangá.
Mas a mulher reclamava. Estava impaciente, indócil, intranquila, intolerável. Olhava para o relógio a cada dois minutos. Ofegava. Precisava resolver aquilo logo, queria falar com o supervisor. Eu pensei logo algo como um carro preso por alguma falta de pagamento, e a pessoa tendo viagem marcada com toda a família para uma bela praia, mas fiquei por ali mesmo, na minha, porque nessa de querer ajudar, vivo me metendo em encrenca. Peguei minha senha e aguardei. Eu e mais quatro marmanjos esperávamos a liberação do supervisor, para pegarmos nosso IPVA.
Até que a mulher encontrou o supervisor, um rapaz alto e bem educado. Começou uma conversa longa. Que era consumidora, que tinha direitos, que isso, que aquilo. Bem Educado ponderava, dizia umas coisas num tom mais ameno, observava que não dependia dele, mas a mulher não arredava o pé. Era um Siri na Lata.
Os cinco buscapés (eu e outros quatro) ficamos esperando o desenlace. Especulamos sobre o problema. Que o Detran na certa tinha perdido os documentos dela. Que algum despachante fuleirou. Que ela pagou as multas e não deram baixa.
Por último, Grandão Educado resumiu tudo.
“A senhora pode falar com fulana ou sicrana, lá na sede do Detran”.
“Aquele fim de mundo? Mas hoje é sexta-feira, amanhã é Carnaval”, respondeu a mulher.
Um funcionário gente boa que esperava a liberação do IPVA para nos entregar, completou:
“Pois eu estou doido é para encerrar meu expediente e cair na folia”.
Até que resolvemos intervir. Já eram 12h10, a ladaínha não terminava, e a loja do Detran inteira aguardava o desenlace do drama da loira. Falamos com Grandão Educado, cada um explicou seu problema, precisávamos somente receber um documento que dependia da liberação dele. Tinha motorista de carreta, de Kômbi, de lotação, e tinha eu também, que não vivo só de fulozô.
Grandão pediu licença, entrou numa sala. Iria liberar nosso IPVA. Ficamos do lado de fora, esperando. O vigilante disse um “é foda, velho” e explicou o que estava acontecendo. Foi mais um desabafo.
“Vocês sabem por que está acontecendo esta confusão todinha?”
Nenhum de nós sabia.
“A loira ali tirou uma foto para renovar a carteira. A moça que tirou a foto mostrou a imagem dela no computador, a loira aprovou, e a moça mandou imprimir o documento”.
Ele ajeitou a calça, o boné da empresa de segurança e prosseguiu.
“Pois desde que a loira recebeu a carteira, está essa confusão. Ela cismou que as pontas dos cabelos estão mais loiras na foto do que realmente são. As pontas dos cabelos, velho, já pensasse? Não aceita o documento de jeito nenhum. Já tem uns 40 minutos que ela vai pra lá, vem pra cá, essa confusão toda é por causa disso, porque ela tem certeza que as pontas dos cabelos dela estão mais loiros na foto do que no original. O pior é que o documento está pronto, ela já podia era estar em casa, almoçando com a família. Eu mesmo não vejo a hora de almoçar”.
A turma do IPVA ficou de boca aberta, sem acreditar. Só não chamaram a loira de santa.
Quando estava pegando meu IPVA, escutei ela, a loira, pegando o nome da atendente. Anotou o nome completo, em um pedaço de papel. Certamente iria reclamar com o Detran.
Quando eu saía do shopping, olhei para o céu. Meio nublado e calorento, esse Recife, foi o que pensei. Por mim, eu devia ter ido logo era para o Mercado da Boa Vista. Uma boa galinha a cabidela e uma cerveja, para ficar pensando melhor.
Só me ocorreu um nome para a criatura: Maria Vaidade.
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