Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias | Por Samarone Lima

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Sonho adiado

20 de fevereiro de 2010, às 12:20h por Samarone Lima

Crianças lendo no Projeto Maritaca, na cidade de Aracati, Ceará.

Meu sonho de criar uma biblioteca comunitária no Poço da Panela foi por mangue abaixo mais uma vez. A casa foi encontrada, visitamos, é uma belezinha, pequena mas confortável, dentro da comunidade, onde os livros mais precisam estar, pero….

Depois de dúzias de telefonemas, idas e vindas, conversa pessoal com o proprietário, a coisa não tem definição. É péssimo esse negócio do “vamos ver”, “quem sabe”, “está quase definido”. São meses nessa expectativa. O dono da casa é agradabilíssimo, a casa está vazia, mas não sei o que há. Será que o fato de alugar uma casa, botar estantes, transformá-la em uma biblioteca comunitária, pode desvalorizar o imóvel?

Não posso negar um sentimento de frustração, especialmente porque vários leitores já mandaram email, oferecendo bons livros. Seu Vital já recebeu algumas caixas, foi guardando no seu bar/mercearia, mas já está ficando impaciente comigo. Todo mundo sabe como não é bom deixar Seu Vital impaciente.

Nessas horas, eu queria ter um dinheiro sobrando, uns trinta mil reais, para comprar uma casinha no Poço e abrir a sonhada biblioteca. Mas eu nunca tive essas boquinhas com dinheiro, é melhor primeiro eu pagar minhas contas em dia, antes de ficar feito um Dirceu Borboleta dos livros.

Daniel Buarque, um ex-aluno, que morava em São Paulo e foi passar seis meses em Nova York, me mandou uma caixa, tenho que ir buscar esta semana. Papoula se mudou recentemente, me ligou, informado de vários bons livros para a Biblioteca Comunitária do Poço da Panela, mas não tenho mais onde botar livros, se não tenho como facilitar o acesso, democratizar a leitura. Tive que declinar da oferta. Damaris, a generosa diretora da Escola Municipal Nilo Pereira, tem vários kits de brinquedos infantis, já ofereceu ajuda. Tudo esperando uma casa.

Vou continuar alimentando este sonho, que venho acalentando há um bom tempo, com o gordinho Naná e com o velho amigo Boy. Tem horas que o cara engasga, dá uma agonia. A biblioteca mais próxima do Poço é a do Sesc Casa Amarela, longe pacas.

Tem uma geração de meninos que conheci, no Poço, com cinco, seis anos. Estão todos adolescentes hoje, e o livro ainda não entrou na vida. O Recife pode ter o melhor Carnaval do mundo, mas é uma cidade mesquinha com livros. Há pouquíssimas bibliotecas públicas.

Mas não chore ainda não, que tenho um violão e nós vamos cantar, como diz o poeta. Um dia vamos inaugurar esta pequena biblioteca e o sonho será realizado. Já posso ver o sorriso do gorducho Naná. Melhor: o sorriso de Déa e Marquinhos, que me procuraram, se oferecendo como voluntários da biblioteca.

Ps. dia 8 de fevereiro foi inaugurada a Biblioteca de São Paulo, na área da antiga Casa de Detenção, o Carandiru. Custou R$ 12,5 milhões. O acervo tem 30 mil livros, CDs, DVDs, mesas reguláveis, que se adaptam a qualquer tamanho de cadeira de rodas, folheadores automáticos de páginas (para quem perdeu os movimentos das mãos) e computadores adaptados. Nos 4.200m2 destinados somente aos mais jovens, no térreo, funcionam alas para faixas etárias (zero a três anos, quatro a 11 anos, e 12 a 17 anos). Nessas áreas, com estantes baixas, há livros, discos e fillmes, que ficam diretamente expostos aos jovens. Só me resta mesmo dar os parabéns. Sonhos maiores estão sendo realizados.

ps2. A foto que descolei na Internet é de crianças lendo no Projeto Maritaca, em Aracati, no Ceará.

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