Quando cheguei ao Recife, em julho de 1987, eu não sabia direito quase nada da vida. Era um rapaz que tentava alguma coisa, mas não sabia por onde navegar. O máximo que eu vivera de Carnaval foram eventos nada encantadores. Ajudante-de-barraca-de-caipirinha, em Aracati, um Carnaval movido a trios elétricos e multidões. Era o início de uma fulgurante carreira de profissional bem sucedido no ramo das caipirinhas, mas com uma imensa vocação para nunca conseguir lucros com as vendas. O bom foi que nos divertimos muito, eu e a turma do Monte Castelo. Nessa época, o Kiko era vivo. No ano seguinte, ajudante-de-barraca-de-caipirinha, no bloco “Que Merda é Essa?”
Neste ano, tive um momento histórico de felicidade na desgraça. Estacionamos o Chevette 1979 da Dona Ermira na contramão, tiramos isopor (lá no Ceará se chama isopor), o gelo, as cachaças, e me deu na telha mudar a posição do carro. Deixa assim mesmo, disse meu irmão. Teimei. Fiz a volta, estacionei direito. Meia hora depois, o trio elétrico foi fazer uma manobra, o cara perdeu o freio, afundou um lado inteiro do Chevette. A empresa teve que pagar o conserto. Se o carro estivesse na contramão, a gente voltaria do bloco com uns trocados no bolso e um lado do carro para consertar.
Eu sempre fui muito burro para muitas coisas. Quem é burro, perde tempo, é só isso. De 1988 a 1993, ano em que me formei, eu tinha problemas mentais. Fui a pouquíssimos jogos do Santa Cruz e não entendia de Carnaval. Lembro que uma vez foi uma turma de vários estados se hospedar na Casa do Estudante Universitário (CEU), e fiquei sendo o anfitrião. Pois bem. A gente passava o dia biritando, e à noite seguia para Olinda.
Só mesmo um estúpido é capaz de um negócio desses. É que eu não entendia direito Pernambuco. Eu era um selvagem. À noite, em Olinda, estão todos bêbados e as troças maravilhosas já passaram todas.
Foi cobrindo o Carnaval pelo Diário de Pernambuco que comecei a deixar meu queijo de lado. Uma noite, acompanhei desfiles de caboclinhos os mais diversos, além dos desfiles das escolas de samba. Foi quando vi a cultura do Carnaval. O pernambucano já nasce com isso na alma. É irrevogável. Dá um frenesi, dez dias antes da festa. O Recife mergulha numa atmosfera diferente.
Uma vez, fui cobrir o desfile do Galo da Madrugada e como tinha crachá do jornal, pude subir nos trios. Lembro quando um trio entrou na rua da Concórdia. Pensei que o mundo iria pegar fogo. De fato, ele pegou. Endoidei o cabeção. Por dois anos, fui com Iramarai para a concentração do Galo. Um negócio cheio de espanto e nostalgia.
De 1994 a 2000, estava em São Paulo, e quando chegava perto do Carnaval, eu entrava em desespero. Queria estar no Recife. Eu choramingava, quando não conseguia.
Acho que só vim me tornar uma pessoa razoável aos 30 anos. Foi quando voltei a morar no Recife, e não era tão estúpido. Comecei a acompanhar o Santa Cruz e no ano seguinte cheguei ao ponto máximo. Com dois ou três amigos, fundamos uma troça de Carnaval, Os Barba.
Foi nesse ano que tive uma experiência transcedental. No sábado, no Carnaval de 2001, fui ao Clube Atlântico, para a concentração de Ceroulas. Estava ali, de bobeira, quando a orquestra atacou com o hino de Ceroulas (“Eu vou este ano pra lua/Não é privilégio/Foguete já tem”). Era um negócio tão lindo, tão fabuloso, que comecei a dançar feito um doido, no meio da turba. Ali, falei umas duas ou três vezes com Deus, e voltei pra casa com a certeza de ter visitado o paraíso. Aproveitei e dei um abraço em São Francisco.
Foram meus os melhores carnavais, a partir de então. Me apaixonei pelas prévias. Depois, o Recife fica entupido, todo mundo quer se esbaldar por aqui, com todo direito.
Mas cada Carnaval tem sua história. Uma vez casei formalmente uma parelha que estava afiada. Não vingou. Outro Carnaval fiquei perambulando no Bairro do Recife (ops, Naire), e sempre encontrava a mesma turma, no mesmo horário e local. Uma vez protegi, de alguma forma, o Bloco da Saudade. Uma vez, eu estava vestido de palhaço, mas estava triste de doer. Uma vez só tomei rum Montilla e meu fígado sentiu pacas. Uma vez segurei o estandarte de um bloco e tentei fugir com ele. Certa vez eu fiquei flanando entre os blocos, olhando e respirando aquele clima de alegria, de êxtase coletivo. Naquele momento, eu só achava bom mesmo era estar vivo, na cidade que mais quero bem nesta vida, o Recife.
Acho que estou ficando velho. Quando penso em ir para aquela muvuca de Olinda, me dá uma preguiça dos diabos. Tudo ficou grande demais, com coisas demais, gente demais.
Mas estarei por ai, ao Deus-dará, entremeando alguma troça que valha, passando por entre os frevos e confetes, encontrando amigos em suas jornadas, celebrando o que for possível, espiando a poesia das coisas miúdas, até porque eu sei muito bem – se estivesse longe desse clima todo, estaria choramingando de saudades.
Boas prévias, pois.