Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias | Por Samarone Lima

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Teoria e Método + Divulgação do livro novo

1 de março de 2010, às 10:37h por Samarone Lima

Nota do autor

Nesta quinta-feira (4/03), estarei no bar Prozac, em Natal, lançando meu “Viagem ao Crepúsculo”, a partir das 19h.

Na sexta (5/03 – lógico), participarei de um debate na Rádio Jornal AM com Plinio de Arruda Sampaio e Maurílio Ferreira Lima sobre “A esquerda, hoje”. Vou falar é sobre meu livro, isso sim.

Uma leitora querida mandou o link para escutar o programa. O linque da tua entrevista no JC: http://jc3.uol.com.br/jornal/2010/02/28/not_367842.php   (é só clicar em cima que abre direto, viu?)
 
O sítio da rádio JC, e é só clicar na coluna à esquerda, no nome do Geraldo Freire: http://jc3.uol.com.br/radiojornal/canal.php?canal=43  (idem)

Mas voltemos ao texto original. Não botei outro novo por causa desse tumulto do livro novo. Se o cara não se esforçar, o livro mofa na editora e o prejuízo é grande.

***

Tinha uma matéria na faculdade que me fazia sofrer terrivelmente – Teoria e Método de Pesquisa. Fora a experiência da reprovação em matemática, na quinta e oitava séries, foi o período da vida em que me senti mais burro. Eu não captava a teoria, nem desenvolvia um método. Não sei até hoje como terminei o curso de Jornalismo, se tínhamos a cadeira de TV por quatro semestres seguidos. Essas loucuras que não entendo. Quatro cadeiras de TV e nenhuma de filosofia ou literatura.

Disso resultou uma enorme dificuldade com as teorias, em geral, e com os métodos. Desenvolvi duas alternativas no que se refere ao meu ofício, que é escrever. Criei uma especulação e um jeito de escrever.

Hoje mesmo, acordei já pensando em uma crônica nova, mas me faltava o tema. Entrou a especulação. Uso meu instrumento básico de trabalho, que são as cadernetas e cadernos, que são muitos. Estão cheios de frases, cenas, observações, inutilidades. Tenho também cadernos com inúmeros recortes de jornal, com notícias estranhas e inusitadas. Fora isso, tenho um chamativo para malucos e pessoas que adoram me contar suas vidas em cinco minutos. Eu também tenho uma vasta coleção de inutilidades, que servem muito para a escrita.

Exemplo. Ontem, fiquei sabendo que o Brasil tem um Ministério do Esporte no Gelo. Não confirmei com minhas fontes em Brasília, mas deve ser verdade. Pensei em escrever sobre isso, mas me faltou elegância e astúcia. Fica para depois.

Passada a fase da especulação, chego ao jeito de escrever. Tenho o meu, cada um tem o seu. O principal é escrever sobre o que gosto. Como já tem muita gente escrevendo sobre os problemas do Brasil e do mundo, tento ir para a vida cotidiana, que é meu grande assombro. Só de vez em quando entro nesses litigios maiores, porque também não estou vivendo sem interagir, e muitas coisas me doem.

O melhor horário, disparado, é de manhã. De preferência, bem cedo. Quanto mais cedo, melhor. Como tenho minhas esquisitices, sou um cearense radicado em Pernambuco que bebe chimarrão quase todo dia de manhã. Estou aqui, portanto, com a cuia e a garrafa térmica. Os amigos nunca deixam faltar a erva-mate em suas viagens. Adriana Dória me trouxe recentemente uma erva argentina que era uma delícia, mas já acabou.

Teve uma época em que eu só escrevia de madrugada. É ótimo, mas o cara cansa muito no outro dia. Na época de Casa do Estudante, eu varava as noites em claro, com a ajuda do Nescafé. Eu também fumava, mas como só gostava de cigarro forte, o Derby, a essa altura, meus pulmões já estariam pifando. Hoje em dia, só fumo quatro cigarros, nos dias dos jogos do Santa Cruz. Dois no primeiro tempo, dois no segundo.

Escrever crônica é uma delícia, mas é preciso ter cuidado. Se a pessoa ficar falando demais dela, começa a ficar chato. Morro de medo de ficar chato. Se ficar também só fazendo análises, críticas, acaba ficando repetitivo. Para mim, o grande mestre da crônica continua sendo o Rubem Braga. Daqui de Pernambuco, o Renato Carneiro Campos me encantou com um livro magistral, “Sempre aos Domingos”.

Adoro escrever crônicas. É uma conversa com os leitores. Me divirto e, de certa forma, me realizo. Não dependo de nenhum meio de comunicação para me comunicar com as pessoas. Acabei de olhar no contador interno de Estuário. Esta crônica é a de número 580. Uma leitora está fazendo uma seleção rigorosa, para transformar em livro. É bom que ela faz a seleção e me manda comentários filosóficos, sociológicos, articulando com seus pensadores prediletos. Eu fico todo cheio de bossa, mas isso dura cinco minutos.

Com livro, trata-se de uma batalha. Leva tempo, cansa, dá trabalho. O sujeito sofre. Levei cinco anos na pesquisa e escrita de “Zé”, meu primeiro livro. É preciso das uns descontos, porque a primeira versão eu perdi integralmente. A segunda, creio, ficou melhor. Depois veio “Clamor”, que durou uns três anos. A batalha maior, comigo, é para definir como vou contar a história. O “como” me atormenta muito. O primeiro capítulo é meu maior sofrimento. São dias, semanas, meses, até achar o tom, o jeito. Quando ele fica pronto, o primeiro capítulo, desenho mentalmente a estrutura dos capítulos, anoto num caderno, e aos poucos, vai nascendo.

O livro de Cuba, por exemplo, me custou um ano e meio de trabalho puxado. Só consegui acertar o prumo quando decidi o seguinte – vou tentar levar o meu leitor comigo, pelas ruas de Havana.

O grande problema de quem escreve é tempo. Sempre falta tempo. Eu queria muito ter um mecenas, alguém rico que me desse uma bolsa de trabalho por uns três anos, mas os ricos do Brasil vão para Miami gastar o dinheiro todo lá, nunca tive essa sorte.

Mas um dia a gente para de reclamar, deixa de besteira, porque tem que sobreviver, pagar as contas etc. Adotei o método de escrever todo dia um pouco. Mesmo que 30 linhas de um texto. Cada dia um pouquinho. Assim, o sujeito vai construindo algo. Nessa luta, já vou com meus quatro livrinhos, e estou muito satisfeito com o andar da carruagem.

É claro que o retorno dos leitores é uma maravilha. Aqui em Estuário, tem o espaço dos comentários, que geralmente me dão muitas alegrias. Leio todos, até porque vão direto para minha caixa de email. É bom ver a diversidade de opiniões, de visões. Fico feliz. Geralmente respondo, mas não sei se as pessoas querem resposta, querem mais só comentar mesmo.

Os livros são outro tipo de retorno. Um amigo disse que só chorou com dois livros na vida: “Zé”, e “Meu pé de laranja-lima”. Achei sensacional, estar ao lado de “Meu pé de laranja-lima”, porque chorei com o filme, quando era pequeno. Outro mandou um email dizendo que começou a ler o livro sobre Cuba e se empolgou tanto, que passou da parada. Só se o cara for muito besta, para dizer que não se importa com isso, esses afetos cheios de bondade.

Fora a especulação e o método, algo me move profundamente – a teimosia. Sou teimoso pacas. Taurino turrão, me disseram outro dia. Estou numa pesquisa sobre um livro que começou em 1992. São 18 anos de luta paciente, coleta de informações, visitas a arquivos etc. Mas é bom ver que ele está se tornando realidade. Semana passada escrevi o capítulo 13. Tem dia que não consigo pegar no texto, mas fico remoendo aqui no cabeção, pensando nas cenas, só aguardando a hora de ficar com ele. Acho que a vida fica muito menos chata quando a gente tem uma teimosia dessas para dar conta.

Bem, eu tinha pensado inicialmente em escrever sobre o Ministério do Esporte no Gelo. Acabei mergulhado nessas reflexões e manias, um pouco dos bastidores da minha criação.

No fundo, eu queria mesmo era agradecer aos leitores que passam por cá, leem e deixam uma notinha ao pé da página.

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