Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias | Por Samarone Lima

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A impressionante arte de lançar livro

5 de março de 2010, às 16:15h por Samarone Lima

Definitivamente, minha vocação para lançar livros aos poucos vai se tornando um folhetim. Ontem, fui lançar o “Viagem ao Crepúsculo” em Natal e repeti façanhas aqui já relatadas, de lançamentos em outras cidades.

Às 9h, estava dentro do ônibus da Viação Progresso, uma empresa que eu faço questão de denunciar. Invariavelmente, pego ônibus com um péssimo ar-condicionado, sem água, e banheiro de boteco falido.  O de ontem foi um show à parte. Não tinha sequer água para lavar as mãos, papel, sabonete. O ar-condicionado era uma vaga lembrança.  Melhor seria viajar com as janelas abertas.

Quando chegar a Natal, vou ligar para o 0800 da ANTT, que é a agência reguladora dos transportes no Brasil, foi o que pensei.

Às 14h33 desembarcamos, eu e a caixa de livros (40 exemplares, era minha tosca esperança de vender no lançamento). Uma turma da ANTT estava fazendo uma pesquisa na rodoviária, fui logo dando o nome para falar, mas a moça queria saber apenas de onde eu vinha e quanto tempo iria ficar, e se voltaria de ônibus. Falei com a moça sobre o ar-condicionado, ela respondeu bestamente:

“Ah, isso é o que mais reclamam”.

Achei uma besteira a pesquisa, mas órgão governamental adora fazer pesquisa. Fui com minha caixa de livros e uma bolsa à tira-colo ligar para os amigos jornalistas, mas dei com os burros n’água. Meu celular estava descarregado, e os três amigos estavam em suas obrigações jornalísticas.

Do orelhão, liguei para a ANTT. Um atendente, de nome Jander, pediu meu nome, identidade, cpf, número do bilhete, placa do ônibus, e de vez em quando me dizia “aguarde um momento, senhor”. Isso durava de três a cinco minutos. Depois voltava, pedia o número do bilhete, senha, detalhes, pensei que ele iria pedir um retrato falado do motorista, meu tipo sanguíneo, clube de coração, livro preferido, tamanho do sapato, e arrematou minha reclamação pedindo que eu mandasse a cópia da passagem por fax. Mais fácil deve ser abrir uma empresa e pagar impostos.

“Escuta amigo, isso é para o cara reclamar ou é um censo que vocês estão antecipando?”.

Acho que o Jander não gostou muito da minha pergunta.

Tomei uma cerveja para relaxar, e às 16h descobri que era um verdadeiro idiota latinoamericano. O lançamento, no Bar Prozac, seria somente às 19h. Para que diabos peguei o ônibus das 9h, se tinha um às 11h?

Sem conseguir falar com ninguém, sem saber onde era o bar, meio desolado, um sol de rachar, pude utilizar o banheiro da rodoviária de Natal, uma das coisas mais imundas que já tive oportunidade de conhecer. Depois, pedi um sanduíche, um dos piores que comi nos últimos dez ou doze anos. Só mesmo um lampejo de esperança poderia me salvar.

Foi quando olhei para o outro lado da rua e vi:

“Hotel Cidade do Sol”.

Deixei a caixa de livro num box e fui lá. A diária custava R$ 15,00 mas expliquei meu problema, a moça baixou para R$ 12,00.

Paguei, peguei a chave, fui lá. Era um labirinto de quartos. No meu, um ventilador medíocre, uma toalha muito antiga e um sabonete de motel fuleiro. Meu plano era tomar um banho, cochilar, descobrir onde ficava o Prozac e seguir para o lançamento de táxi, com minha caixa. Nesse período, comprei um carregador de celular por R$ 10,00.

Voltei para buscar a caixa no box. Nisso, eu já estava cansado pacas, igual à Baleia, do Graciliano, pensando num mundo cheio de preás. 

Quando estava pensando em rezar, pedindo ajuda aos meus santos, o Carlos  Magno me liga.

“Sama, vou te buscar. Te deixo lá em casa, tu toma um banho, come algo e depois o Tácito vai te buscar, para ir ao lançamento”.

Foi uma das frases mais lindas da língua portuguesa que escutei este ano – “Sama, vou te buscar”.

Voltei para o hotel, expliquei à moça que iria embora, mas os R$ 12,00 ela dividisse com a faxineira. A moça abriu um sorriso. Voltei para o quarto, deu tempo de cochilar vinte minutos, depois desci, com a caixa e os 40 livros, minha mochila e meu terno de escritor, que uso em lançamentos.

Carlos Magno me levou para a casa dele. Fiquei sozinho, morrendo de fome e sede. Ele me apresentou a casa inteira, mas o melhor cômodo que achei mesmo foi a geladeira, cheia de tapauer com opções de rango. Mandei ver num macarrão com almondegas, fora uma salada de verdura e um pouco de purê. Um vinho tinto gelado completou a cena.

Às 17h30 estava debaixo de um banheirinho morno. Depois, foi só botar a roupa, ligar o ventilador no três e esperar o Tácito chegar.

Tácito é pontual pacas e me levou ao Prozac. No lançamento não deu tanta gente, mas a mesa ficou uma delícia. Sônia e Carlão, Demétrius e Raíssa, Xico Guedes, Tácito, Carlos e Elizandra. O excelente Dinarte, que fez uma matéria muito bacana para o Novo Jornal, também chegou por lá. Depois, o Carlos Magno. Também registro a presença do pai e da mãe de Inácio, meu dileto amigo.

A conversa girou em torno de Cuba, que é o tema do livro. Foi uma delícia. O Demétrius, que é poeta, saiu com essa:

“Foi uma revolução que gorou”.

O Xico contou que estava em Havana na época do julgamento do coronel Uchoa, homem queridíssimo pelo povo Cubano, que foi fuzilado. Para muitos  cubanos, ali foi o início do fim.

Foram conversas deliciosas sobre o mundo, viagens, impressões, sonhos, esperanças. Eu adoro conversar com velhos comunistas, os que não endureceram o pensamento. Rimos muito quando começaram a lembrar das marchinhas de Carnaval que caíram no gosto popular.

“Cuba Cuba Cuba/

Andou na contramão/

Vai descansar no Paredão”.

Uma música lembrou muito minha tia Flocely.

“O Brasil vai lançar foguete/

Cuba também vai lançar/

Lança Cuba, lança/

Quero ver Cuba Lançar”.

Ra ra ra ra. Quando eu fui viajar para Cuba, a saudosa Flocely repetia:

“Sama vai cuba lançar”.

Às 23h55 eu estava dentro do ônibus, voltando para o Recife, trazendo novamente a caixa quase cheia e alguns amigos novos. Minto. Alguns ótimos amigos novos.

Hoje de manhã fiquei pensando comigo. Algum dia vou chegar numa cidade, vai ter aquele pessoal do receptivo com uma plaquinha e meu nome. Depois vou para um hotel bacana, numa Van, onde poderei descansar, tomar banho, e à noite vai ter o lançamento, e meio mundo de gente para comprar o livro. E depois, uma baita farra, e eu não vou nem olhar para a conta.

Ah, mas se não tiver essas coisas, não tem problema, porque vou me divertindo à beça com esses improvisos. Ruim é quando a pessoa fica querendo demais uma coisa, e deixa de se divertir com as outras coisas boas que estão por perto.

O lançamento em Natal foi uma ótima desculpa para uma deliciosa roda de conversas com novos e velhos amigos, e isso já é uma dádiva.

Agradecimentos especiais a Tácito e Carlos Magno.

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