Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias | Por Samarone Lima

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Diálogos

11 de março de 2010, às 14:08h por Samarone Lima

Nota: Neste sábado estarei no programa “Painel”, apresentado pelo jornalista William Waack, debatendo Cuba e temas afins. Os debatedores são Bolivar Lamounbier e Cláudio Gonçalves Couto.

É pela Globo News (TV a cabo). Vai ao ar às 22h no sábado, com repeteco no domingo, às 20h. Espero que gostem. De resto, segue crônica nova.

***

Estou numa minúscula agência do Banco Real. Estranhamente, tem apenas duas funcionárias, bem vestidas e jovens. Uma fala ao telefone, sentada à sua mesa, outra está sentada em um móvel, de costas para a janela. Não tem um cliente, exceto eu, que acabei de entrar. Estranhamente, portanto, é porque acho muito difícil o sujeito entrar numa agência de um banco, no Brasil, e encontrar somente duas funcionárias, bem vestidas e jovens, e só um cliente. Mas deixemos isso de lado, porque coisas esquisitas acontecem comigo com uma facilidade incrível.

Chego com um dinheiro num envelope, escondidíssimo, fruto de um bom frila.

- Posso depositar aqui?

- Pode não. Aqui não tem máquina para depósito. Tem máquina para depósito no corredor.

Puxo o cartão, tenho dificuldade para encontrar o número da agência e da conta. Tenho também dificuldades com muitas coisas, especialmente as mais óbvias.

- Moça, dá para você me dizer aqui qual é o número da conta e da agência?

Ela olha.

- Sua conta é conta salário, não pode fazer depósito nela, só em conta corrente.

Miséria, lá vou eu caminhar por essas ruas com um bom dinheiro intocado. Às vezes eu penso que dinheiro tem cheiro, porque nunca vi ladrão adivinhar tanto que a gente está bem forrado. Quando o sujeito está liso de doer, o ladrão muda até de calçada, parece que viu uma flor.

Sento numa cadeira, aproveito o ar-condicionado para me refrescar um pouco. O calor no Recife está derretendo até pinguim de geladeira.

Vou anotar algo que preciso fazer, um de meus vícios, eu sou cheio de vícios, quando uma das mulheres desliga o telefone.

- Saiu o resultado. Meu avô está com câncer na boca. Semana que vem começa a quimioterapia.

A outra mulher, que estava ao telefone, olha.

- Mas eu sou muito realista. Minha avó é que fica chorando toda aperreada, mas eu sou realista.

- Você não é realista, é mais fria que realista.

- Quando meu primo morreu, eu estava grávida, todo mundo chorando, eu disse que aquilo era previsível.

- Se eu fosse tua prima, te matava. Oi, bom dia, sim. Ah, me dê o número da sua conta, que eu vejo agorinha. Agora.

A mulher do telefone encaminha algo, desliga o telefone, e emenda a conversa do mesmo ponto, como se não houvesse interrupção.

- Você não é mais realista, você é mais fria. Ou Maciel, eu iria te ligar agorinha. Pausa. Resolve outra coisa. Desta vez, o seguro de um carro, creio. Mas mil e trezentos? Hoje de manhã fiz uma cotação para mim, deu mil e cem.  Termina a ligação, a outra completa do mesmo ponto.

- Talvez eu seja assim porque nunca vi um parente muito próximo morrer.

- Não é isso não. Banco Reall, bom dia. Pois não. Qual é o número da agência. Sim senhor, claro. Vamos ver aqui. Termina a ligação.

- Não é isso não. Sinceramente, eu acho que você.  Alô, bom dia. Pois não. Não é nesta agência, senhora. Vou dar o número do telefone correto. Fim da ligação.

- Não é isso mesmo. A questão é outra. Você.

O telefone toca de novo. Mais uma questão envolvendo seguro, talvez a mesma. Minha curiosidade foi aguçada ao extremo, mas o telefone tocava demais, o trabalho me aguardava, e eu já estava chamando a atenção, porque ficava anotando tudo numa rapidez incrível em meu bloquinho.

Saí da agência com aquela boa grana, mas encafifado, encasquetado, contrariado,  querendo saber o que era, mas nunca saberei.

Tem certas coisas que a pessoa nunca vai saber mesmo.

Passei na livraria e comprei um livro que estava paquerando há muito tempo, depois fui caminhando até o trabalho, com aquela alegria de saber que terei um belo livro para ler, a mais tarde. Um sol de derreter qualquer cabeção e eu assobiando uma música do Vinícius. Aquele negócio manhoso do se todos fossem iguais a você, que maravilha viver. Eu estava até entoado hoje, parecia um Pixinguinha do bico. Fiii forofo forofóoooo. Fii farafi fi fifi.

Só agora me ocorreu algo. Custava ter esperado mais um pouco, para saber mesmo o que era?

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