Diálogos
Samarone Lima
Nota: Neste sábado estarei no programa “Painel”, apresentado pelo jornalista William Waack, debatendo Cuba e temas afins. Os debatedores são Bolivar Lamounbier e Cláudio Gonçalves Couto.
É pela Globo News (TV a cabo). Vai ao ar às 22h no sábado, com repeteco no domingo, às 20h. Espero que gostem. De resto, segue crônica nova.
***
Estou numa minúscula agência do Banco Real. Estranhamente, tem apenas duas funcionárias, bem vestidas e jovens. Uma fala ao telefone, sentada à sua mesa, outra está sentada em um móvel, de costas para a janela. Não tem um cliente, exceto eu, que acabei de entrar. Estranhamente, portanto, é porque acho muito difícil o sujeito entrar numa agência de um banco, no Brasil, e encontrar somente duas funcionárias, bem vestidas e jovens, e só um cliente. Mas deixemos isso de lado, porque coisas esquisitas acontecem comigo com uma facilidade incrível.
Chego com um dinheiro num envelope, escondidíssimo, fruto de um bom frila.
- Posso depositar aqui?
- Pode não. Aqui não tem máquina para depósito. Tem máquina para depósito no corredor.
Puxo o cartão, tenho dificuldade para encontrar o número da agência e da conta. Tenho também dificuldades com muitas coisas, especialmente as mais óbvias.
- Moça, dá para você me dizer aqui qual é o número da conta e da agência?
Ela olha.
- Sua conta é conta salário, não pode fazer depósito nela, só em conta corrente.
Miséria, lá vou eu caminhar por essas ruas com um bom dinheiro intocado. Às vezes eu penso que dinheiro tem cheiro, porque nunca vi ladrão adivinhar tanto que a gente está bem forrado. Quando o sujeito está liso de doer, o ladrão muda até de calçada, parece que viu uma flor.
Sento numa cadeira, aproveito o ar-condicionado para me refrescar um pouco. O calor no Recife está derretendo até pinguim de geladeira.
Vou anotar algo que preciso fazer, um de meus vícios, eu sou cheio de vícios, quando uma das mulheres desliga o telefone.
- Saiu o resultado. Meu avô está com câncer na boca. Semana que vem começa a quimioterapia.
A outra mulher, que estava ao telefone, olha.
- Mas eu sou muito realista. Minha avó é que fica chorando toda aperreada, mas eu sou realista.
- Você não é realista, é mais fria que realista.
- Quando meu primo morreu, eu estava grávida, todo mundo chorando, eu disse que aquilo era previsível.
- Se eu fosse tua prima, te matava. Oi, bom dia, sim. Ah, me dê o número da sua conta, que eu vejo agorinha. Agora.
A mulher do telefone encaminha algo, desliga o telefone, e emenda a conversa do mesmo ponto, como se não houvesse interrupção.
- Você não é mais realista, você é mais fria. Ou Maciel, eu iria te ligar agorinha. Pausa. Resolve outra coisa. Desta vez, o seguro de um carro, creio. Mas mil e trezentos? Hoje de manhã fiz uma cotação para mim, deu mil e cem. Termina a ligação, a outra completa do mesmo ponto.
- Talvez eu seja assim porque nunca vi um parente muito próximo morrer.
- Não é isso não. Banco Reall, bom dia. Pois não. Qual é o número da agência. Sim senhor, claro. Vamos ver aqui. Termina a ligação.
- Não é isso não. Sinceramente, eu acho que você. Alô, bom dia. Pois não. Não é nesta agência, senhora. Vou dar o número do telefone correto. Fim da ligação.
- Não é isso mesmo. A questão é outra. Você.
O telefone toca de novo. Mais uma questão envolvendo seguro, talvez a mesma. Minha curiosidade foi aguçada ao extremo, mas o telefone tocava demais, o trabalho me aguardava, e eu já estava chamando a atenção, porque ficava anotando tudo numa rapidez incrível em meu bloquinho.
Saí da agência com aquela boa grana, mas encafifado, encasquetado, contrariado, querendo saber o que era, mas nunca saberei.
Tem certas coisas que a pessoa nunca vai saber mesmo.
Passei na livraria e comprei um livro que estava paquerando há muito tempo, depois fui caminhando até o trabalho, com aquela alegria de saber que terei um belo livro para ler, a mais tarde. Um sol de derreter qualquer cabeção e eu assobiando uma música do Vinícius. Aquele negócio manhoso do se todos fossem iguais a você, que maravilha viver. Eu estava até entoado hoje, parecia um Pixinguinha do bico. Fiii forofo forofóoooo. Fii farafi fi fifi.
Só agora me ocorreu algo. Custava ter esperado mais um pouco, para saber mesmo o que era?
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20 Comentários »




11 de março de 2010, às 19:42h
Não teria mesmo custado nada, Sama. Agora ficamos tu e nós aqui sem saber do resultado, mas imaginando…
Abraço.
Magna
11 de março de 2010, às 23:44h
Eita poxa, a curiosidade matou um gato, já dizia minha avó, rsrs.
12 de março de 2010, às 14:11h
Eu conheço gente que voltaria e perguntaria o fim da história.(Só para o gato não morrer, óbvio).
12 de março de 2010, às 14:24h
Gostei da cena: além de ouvir a conversa dos outros ainda fica anotando….rsrsrs…ô Sama, porque não ficou mais um pouquinho….pô, cê tava no ar condicionado e sentadinho, o que custava…rsrs. Um dos livros (Viagem ao Crepúsculo) que vendi desta última leva vai amanhã para Lisboa. Que chique, não? beijo grande e bom final de semana.
13 de março de 2010, às 11:22h
Adorei. Vi a chamada do programa na Globo. Acho que está na hora de comprar um novo blazer para reportagens e lançamentos dos livros. Aproveite a boa grana que entrou…..
13 de março de 2010, às 11:39h
…. E fico pensando o quanto de angústia, medo e desespero estão no subjacente desse comportamento “frio”, na tentativa vã de esconder as mil e uma faces da alma, sem querer psicologizar, claro!
Mas ao menos vc tinha um banquinho para fazer suas anotações, ali no bem bom doar condicionado, e nem foste confundido com um Osama, ou qualquer outro “terrorista”… E não custava nada ter-se demorado mais um tantinho para todos sabermos o mistério do/no telefone???
13 de março de 2010, às 15:38h
Falaste do Sol esquentando o cucurutchu, esse cabelão então hein . . .vilge!
13 de março de 2010, às 16:39h
Pôxa …Que felicidade Sama.Que coisa boa. Uma pessoa feliz reconhece outra longe…hahahahaha
Estou na torcida.Bj.Ana
13 de março de 2010, às 17:38h
Tricolor,
Acabo de ler no aeroporto de SP uma ótima matéria sobre o ” Viagem” (brasileconomico). com direito a foto com careta e elogios. Muito superior ao psicopata da Rolling…
Parabéns!
13 de março de 2010, às 20:01h
Oi Sama
Acho que a palavra não é frieza, é insensibilidade ou muito medo disfarçado, pois a doença é danada, ainda existe muito estigma.Sabe-se lá também o grau de relação com o avô? E olha,da próxima vez espera para saber o final, pois todo mundo aqui é curioso.Não custava muito, ainda por cima no ar condicionado, não era sacrifício, não é mesmo?
Abraços
Luisiana
13 de março de 2010, às 23:48h
Onde podemos achar o Viagem ao Crepúsculo, Samarone? na internet está impossível…
13 de março de 2010, às 23:53h
Gente, Samarone está na Globonews no programa Painel de William Wack. Que legal, rs.
14 de março de 2010, às 9:42h
Perdi. Mas hoje tem de novo, né? Vou lá olhar tu e teu blazer(risos). Beijo
14 de março de 2010, às 14:36h
Vei, ví reprise da entrevista hoje. Engraçado foi a exclamação do meu tio exclamar assim que entrou na sala daqui de casa e viu vossa figura na TV: quem é esse comunista!?
Eu respondi, é Tricolor daqui do arruda, escritor e jornalista.
Abraços!
14 de março de 2010, às 16:19h
Estava eu ontem em um barzinho quando vi na Tv vc. Pena que não deu pra ouvir nada do que vc tava falando. Nao sei pq eles colocam tvs em bar sem audio… Mas tudo bem, agora ja sei sobre o que era! Bjs
14 de março de 2010, às 19:54h
Excelente tua participação no programa. Parabéns. Pena que você não tem twitter. Seria uma honra segui-lo. abraço forte
15 de março de 2010, às 10:19h
que pena não tenho tv por assinatura… como estais chique!
abraços.
16 de março de 2010, às 0:38h
Samarone:
Que tal você ir aos Estados Unidos e tentar entrevistar os cinco cubanos, condenados à prisão perpétua naquele país, e considerados pelo regime cubano como presos políticos ?
Será que o Consulado Americano, aí no Recife, vai te dar o visto ?
Será que a CIA vai te autorizar ?
Se você topar, posso tentar arranjar um financiamento para a viagem, que você me pagaria com a receita de um livro publicado sobre o assunto ?
Que tal testar os limites da democracia americana ?
16 de março de 2010, às 11:07h
Estimado Jorge, eu não escrevi um livro sobre Os Estados Unidos, apesar de já conhecer o país. Escrevi um livro sobre a vida cotidiana do povo cubano.
Não tenho pretensão nenhuma de testar limite da democratia norte-americana.
Quanto ao financiamento que você pretende oferecer à minha viagem, muito obrigado, eu mesmo financio as minhas andanças.
Samarone Lima
16 de março de 2010, às 12:11h
Samarone eu assisti o programa e adorei seu posicionamento. E fiquei orgulhosa de você e seu sucesso merecido com esse livro maravilhoso. Que nos transporta para Cuba e viver tudo q você viveu. Parabéns amigo.