A mulher que perdeu os medos
Samarone Lima
(texto publicado originalmente em abril de 2007)
Foi na semana passada, e como dizem os psicólogos, estou elaborando o diálogo, pela rara intensidade. Eu conversava com duas pessoas, na despedida de um amigo, a conversa seguia boa, cheia de coisas ricas, delicadas, falávamos de coisas da vida (acho melhor não citar o nome porque nem todo mundo quer ver seu nome em uma crônica, e daqui a pouco não vão querer conversar mais comigo, porque posso publicar conversas).
Fomos trocando impressões sobre as mais diferentes coisas, lembrando coisas de nossas vidas. Uma disse que foi apaixonada por um garoto do Jardim I até a 4a série, então rimos muito. A outra disse uma frase e tanto: “Desde que eu me lembro, estou apaixonada por alguém”. Ela tinha um pôster do He-Man e cada vez que acordava, dava um beijo nele. A amiga confessou que adorava o He-Man, mas que não chegou a ficar apaixonada pelo super-herói.
Até que, em um determinado momento da conversa, uma delas me disse que não tinha mais medo de nada. Ela disse que nada, absolutamente nada, lhe dava medo.
Fiquei assombrado. Como assim, sem medo de nada?
Então ela me contou que no ano passado perdeu a irmã mais nova, vítima de uma doença. Não entrou em detalhes, e nem precisava. Mas o que ela mais temia na vida era perder aquela irmã tão amada, e foi justamente o que aconteceu. Uma esquina no meio da vida. Hoje, ela não tem mais medo da solidão, da morte, de ficar desempregada, nada. Simplesmente perdeu o medo, nada mais que isso. Não havia convencimento em suas palavras, não se tratava de nenhuma tentativa de demonstrar força, mas pelo contrário. É como se tivesse chegado ao ponto mais frágil da vida, quase um graveto, e aquele graveto quase quebrou, mas depois ela conseguiu se redimir, sobreviver.
Quando ela terminou de falar, fizemos um breve silêncio, e dos seus olhos vazava uma luz muito forte, serena, que guardei como quem está recebendo um presente para a humanidade inteira.
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13 Comentários »




19 de março de 2010, às 20:55h
Lindo e mágico.
Bj
20 de março de 2010, às 0:57h
Faz refletir naquilo que gostamos ou que não queremos perder.
20 de março de 2010, às 17:42h
Oi Samarone
Sabe ,ainda tenho alguns medos , hoje foi o da prova do DETRAN, que ridículo, mas que tive, tive!Sabe que a maioria das questões foi de primeiros socorros? Pensei que eu tinha que saber primeiro das regras de trânsito para evitar acidentes ,mas , precisei hoje de entender como socorrer , principalmente motoqueiros, até a roupa tinha que saber.Tenho a ligeira impressão que isto se deve ao maior número de acidentes com motos, refletiu na minha prova.Nem sei se acertei, mas pelo menos passei e estou livre por mais cinco anos.Espero que o número de acidentes pelo menos diminua!
Luisiana
20 de março de 2010, às 21:54h
sama, obrigada por publicar essa boniteza novamente. reconheci-me nesta mulher e nas tuas palavras. também perdi meus medos quando quem eu mais amava foi pescar nuvens.
22 de março de 2010, às 13:39h
Mulher sem medo fica perigosa, poderosa, traquina, presepeira.Pense num negócio de futuro. (risos)
22 de março de 2010, às 14:25h
Tenho é medo de não ter medo. Se não se tem medo é porque todo é permitido ou não vale a pena. E eu realmente não acho que nem tudo seja permitido e que algumas coisas sim que valem a pena. Abracos,
22 de março de 2010, às 15:49h
Para mim não existiria coragem, se não fosse o medo: ainda tenho muitos medo, mas também tenho muitas coragem.
Abraços,
23 de março de 2010, às 7:02h
adorei
23 de março de 2010, às 12:16h
A pior coisa que existe é perder o que mais ama, aonde estão depositados nossos sonhos e esperanças. Isso é o maior de todos os medos. Quando perdemos algo deste valor dentro de nós, tudo mais se torna insignificante. Acho que talvez por isso ela não tenha mais medo de nada. Acho que o pior medo é o medo de perder! abraços!
23 de março de 2010, às 13:23h
Carlos Eduardo, você entendeu tudo. Depois da pior perda, as coisas ganham outra dimensão, nada mais é tão grave.
6 de abril de 2010, às 3:33h
Adorei o texto. Lindo e profundo. Tanto que me fez pensar que tô quase chegando a esse estágio do “sem medos” e me dá um MEDO enorme, pois a sensação é a de que vc também tá perdendo a esperança…. tomara que não… tenho me identificado muito com seus textos. Parabéns
9 de abril de 2010, às 7:01h
Entendo perfeitamente a dor da
mulher sem medo,eu a tive aos vinte e dois anos,logo depois que tive esta perda precisei ir ao dentista tratar um canal e
pedi que ele não anestisiasse fi
zesse a sangue frio,queria saber se uma dor física seria maior que aquela em minha alma,a conclusão que cheguei foi; nada é pior do que perder
alguém que se ama muito.
9 de abril de 2010, às 7:34h
Quando perdemos alguém que amamos, mesmo que essa perda não seja por morte é um vázio….sem fim.
Será que passa um dia?