Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias | Por Samarone Lima

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O crimes, os Datenas da TV e Um rio de gente

23 de março de 2010, às 14:39h por Samarone Lima

Não sei como está no restante do Brasil, mas em Pernambuco há algo que ganhou contornos de um folhetim de terceira, daqueles que ninguém aguenta mais olhar. Falo do assassinato da alemã Jennifer Kliker, na quarta feira de cinzas. É uma história interminável, cheia de labirintos e descobertas, conflitos e maldades, que se tornaram enfadonhos, cansativos, repetitivos. Não suporto mais olhar nada disso. Mudo o canal, a qualquer novidade. Não me interessa.

Por dever de ofício, todos os dias tenho que ler os três jornais locais. A tal clipagem. De imediato, pulo todas as informações sobre a alemã, os autores do crime, o valor acertado para matar a moça, essas merrecas do mundo do crime.  Lembro dos meus amigos jornalistas, escalados para cobrir “O caso da alemã”. Todos os dias, a obrigação é de empurrar uma pedra até o alto da montanha. No outro dia, ela está de novo no chão. Sísifos da informação. Às vezes, nós jornalistas não passamos disso.

Falo por conhecer de dentro esse mundo louco da comunicação. Por muitos anos, estive dentro da engenhoca. Estava na redação do Diário Popular, em São Paulo, quando mataram aquele menino de oito anos, o Ives Ota, de oito anos. Isso foi em 1997. Aquela comoção habitual, seguida de protestos, camisas brancas, muitos e muitos dias defronte à delegacia, entrevista com o pai, seu Masataka Ota, que segue os preceitos do budismo. Uma noite, cheguei à casa da família, e estava tendo um ritual. Era algo para perdoar os assassinos.  

Essa curiosidade estou perdendo completamente. Não acrescenta nada à minha humanidade saber quem disparou a arma contra a alemã. Quantas mulheres foram mortas em Pernambuco, em 2010, e não ganharam sequer cinco linhas ou o direito a uma investigação decente?

Me interessa muito menos as cenas do próximo capítulo dessa novela envolvendo a morte da menina Isabella Nardoni. De março de 2008, quando aconteceu o crime, até hoje, quando se desenrola o espetáculo do julgamento, foram milhares de horas na TV, centenas de páginas de jornal, depoimentos, especialistas. E que bom, meu Deus, que bom saber que disso tudo, não vi mais que 0,01%. Se muito.

Talvez seja a idade, não sei. Estou envelhecendo com paciência e buscando outras coisas, de preferências as mais bonitas, agradáveis, calmas. O fato é que entre ver uma criatura estúpida como um desses Datenas da vida, vociferando suas verdades, na TV (e como têm certeza de tudo, os Datenas da TV), prefiro meus livros, minhas músicas, filmes, ou mesmo o meu silêncio. É um poder que tenho, o de escolher o que vou ver e escutar.

Não sei quando termina o julgamento dos pais da Nardoni, nem os rumos da investigação da morte da alemã, apesar do esforço enorme da mídia para conquistar audiências. Sei que ontem foi o Dia Mundial da Água, e que a manchete do Jornal do Commercio de hoje é a seguinte:

“Água poluída mata mais que violência”.

É um alerta do Secretário-geral da ONU, Ban ki-moon.

Mas tem umas esperanças correndo por fora. Na quinta-feira, um velho e bom jornalista, Inácio França, vai lançar seu primeiro livro, “Um rio de gente”.

São personagens que ele pescou em uma viagem longa pelo rio Capibaribe, esse que corta minha aldeia. Do homem que mora a poucos metros da nascente do rio, ao que conta arco-íris desde a década de 1940. Uma jóia de livro, que será lançado no Mamam (às 19h), agora sob a batuta da queridíssima Beth da Mata, declarada colecionadora de afetos.

Gente que conta arco-íris, que engarrafa nuvens, que pesca palavras, que coleciona afetos, que vai às fontes de todas as águas. Essa é a gente que me importa. Esses são os temas que me interessam. Ou, no linguajar jornalístico, minhas pautas são outras.

Serviço

Lançamento do livro “Um rio de Gente”, com textos de Inácio França e fotos de Tuca Siqueira.

Local: Mamam (Museu de Arte Moderna Aloísio Magalhães)

Rua da Aurora, 265 – Boa Vista

Data: 25 de março, quinta-feira

Horário: 19h

(Os 300 primeiros a chegar terão direito a um livro grátis)

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