Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias | Por Samarone Lima

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Lenteza

29 de março de 2010, às 23:10h por Samarone Lima

Sadhana

Bendita hora essa em que resolvi voltar à yoga. Duas vezes por semana saio do ritmo frenético do centro do Recife e megulho no tempo da lenteza, do largo, ou adágio. Saio da prática com a absoluta e necessária falta de pressa, de aperreio, de complicações no juízo. Isso dura algumas horas.

Imaginem. Saio do trabalho, que fica na Rua da União, às 17h, caminho três quarteirões e chego à avenida Conde da Boa Vista, seguramente a mais infernal do Recife. Nesse horário, o calor já não é o mesmo, mas o sujeito leva um mormaço no espírito que fica rapidamente suado e cansado. A Conde da Boa Vista, depois de uma reforma desastrada, ano passado, se tornou uma unanimidade. É ruim para os motoristas de ônibus, de táxi, para quem pega ônibus, para quem vai de carro ao centro, uma tragédia para deficientes, velhos, cansados, e principalmente para quem tenta atravessá-la, a qualquer hora do dia. Certamente, uma das piores obras de engenharia que já se produziu por aqui.

Espero o Alto Santa Isabel ou Sítio dos Pintos Dois Irmãos. Há uma placa com o nome dos ônibus que param em tal local, mas não adianta esperar. Ele sempre vai parar onde der, e você tem que seguir rapidinho, passando por camelôs os mais diversos, desviando de gente que vem no sentido contrário, em busca do seu ônibus, que também parou fora da parada.

Os ônibus no Recife geralmente estão lotados. O melhor para mim é o Alto Santa Isabel, porque passa com mais frequência. A passagem custa R$ 1,85. A distância até a aula de yoga é relativamente pequena, mas o trânsito, às 17h, já está uma desgraça. Aliás, como agora todo mundo tem um carro para ir na esquina, toda hora o trânsito está do mesmo jeito. Lentíssimo e cheio de nervosinhos.

Depois de sacolejos, desço defronte à Mcdonalds da Agamenom. É assim que as pessoas conhecem sua cidade. Por esses pontos de referência. Desce defronte ao Hiper de Casa Forte. Te espero na frente do Arruda. Ela vai te encontrar no Sesc de Casa Amarela. Pena que não tenhamos mais uma frase linda: A gente se encontra na frente da Livro 7. Fora os becos. Beco da Facada. Beco da Fome. Beco da Chave. Córregos são mais de 250. Até meu amigo tem um córrego só para ele: Córrego do Inácio.

Pois bem, acabo de descer do ônibus. O relógio vai caminhando para 5h33. Vou atravessar a Praça do Entroncamento e caminhar mais cinco quarteirões (aqui ninguém chama quarteirão de quadra) para chegar ao Sadhana Yoga, da professora Maristela Lupe. Vou no meu galope manso, já entrando no clima. Pego a Rui Barbosa no sentido contrário. Ou seja, eu vou para um lado, e um batalhão de carros vem para o outro. Um aperreio completo, essa turma do volante. Buzinas infernais, gente queimando sinal, motoqueiros fazendo ziguezagues loucos. Viro à esquerda finalmente, entro na Rua das Graças (vejam só o nome da rua) e já estou pertinho. O barulho já diminui. Então ando mais dois quarteirões e meio, toco a campainha e a Ana abre a porta lá de dentro.

Então, súbito, a pessoa entra numa casa com um enorme e bem cuidado jardim, árvores, banquinhos de madeira, uma fonte de água. Não sei de onde, surge um silêncio essencial para o entardecer. Agora é só trocar de roupa, beber água ou chá e seguir para a sala. Antes, tem uma mangueirinha e um lugar, para você lavar os pés. Quem lembra de lavar os pés, ao entardecer?

Na sala, uma música bem suave recebe os alunos. No geral, cada aluno tem seu tapetinho, que tem um nome indiano, creio. Se pronuncia méti, mas não sei como se escreve, vou ter que perguntar à minha professora. Ainda não tenho o meu, então pego os que ficam à disposição dos alunos mais lisos.

A professora chega. Vai começar a prática. A pessoa que tem uma vida relativamente movimentada, como eu, capaz de jogar três peladas por semana, acha que está todo nos conformes. Basta a primeira aula para perceber que há muito tempo os músculos e tendões foram perdendo a flexibilidade, que a respiração ficou esquecida nas correrias do cotidiano. Nas três primeiras práticas, as coisas ficam meio esquisitas, o equilíbrio é precário, mas rapidinho o corpo entende a mensagem, responde, depois agradece.

Durante uma hora, vamos para outra paisagem. Corpo e espírito em uma lenteza necessária. Ao contrário das fotos de revistas de yoga, com aquelas fotos malucas de gente que tem a perna em cima do cocoruto, enquanto as mãos seguram o outro tornozelo a 360 graus, as posturas são relativamente fáceis, a pessoa não tem que fazer malabarismo nenhum. Se não consegue fazer algo, naquele momento, ninguém liga, não tem carão, nem um personal trainer empurrando a perna até o limite. Não tem objetivo nenhum, a não ser de ter uma vida mais saudável.

O bom é que a gente nunca sabe como vai ser a aula. Nunca é igual. Hoje mesmo, tivemos vários exercícios de respiração. Depois dos “asanas”, da coisa toda, a prática termina com um relaxamento. Nessa hora, o corpo chega fica manhoso. Se acontecer de a pessoa relaxar tanto a ponto de dormir, Maristela tem um sininho que acorda até carneirinho. Bliiim, e  a gente vai voltando de algum lugar bem longe do Recife.

A gente começa e termina a aula com a saudação, que é só uma palavra: Namastê. Quer dizer mais ou menos “O deus que está em mim sauda o deus que está dentro de você”.

Desculpem aí se não está ao pé da letra, é que comecei em outubro e ainda não entendo muito bem de sânscrito. Mas é algo bom que você diz para outra pessoa, ou para todas as outras pessoas do mundo.

Na aula do sábado, todos se abraçam. É quando você conhece um pouco as pessoas, porque ninguém tem horário fixo. Eu tenho duas aulas por semana, e vou quando me der na telha. No último sábado de cada mês, tem um café da manhã coletivo, mas tenho perdido essa boquinha. Dizem que é cada comida arretada. Quando eu for, vou levar um cuscuz, que é barato, forte (tem ácido fólico) e é saudável.

São 18h05, quando saio da minha aula. O trânsito está pior 337 vezes, mas isso já é o obvio. O calor reduziu bastante, é hora de voltar para casa. Os ônibus, que voltam da periferia, estão bem mais vazios, dá para escolher várias opções.

Quando tenho aula de espanhol (também duas vezes por semana), vou perambulando até o Instituto Cervantes. Eu, se puder evitar carro, faço tudo a pé mesmo, que dá para ir olhando a paisagem e o povo, além de escutar as conversas alheias.

Tenho que atravessar a Agamenom Magalhães, aquela loucura toda. Geralmente, chego meia hora antes da aula, tomo um capuccino e vou para a biblioteca, que fica no primeiro andar. Então eu sento, naquele silêncio abrangente e luminoso de qualquer biblioteca, separo uns dois livros de poesia espanhola e coloco meu dicionário ao lado. Oh, meu Deus, que felicidade descobrir os poetas que ainda não chegaram á língua portuguesa, me debruçar com paixão no Antonio Gamoneda, recé-descoberto, ou no Luís Cernuda…

“De otra manera, en otra lengua, yo te respiro sin encontrarte. Eres incierta y ésta es tu plenitud”.

“Yo no tengo esperanza sino una pasión cuyo nombre/ tu no vas a decirme”.

Pelo vidro da janela, dá para ver o trânsito das 18h30 na Agamenom. Em meia hora, passam umas 22 ambulâncias, gemendo suas sirenes com alguém sendo levado ou sendo buscado. Isso quando não é a polícia.

Por dentro, sinto um vento manso, maroto, desses ventos que farfalham as coisas sem importâncias, as bagatelas. É a confirmação íntima de que vivo melhor com este tempo. Lento, pouco agitado, brando. Entre o largo e o adagio. Na lenteza. Nem sempre é possível, mas tenho feito minha parte. Abro frestas no cotidiano, no trabalho, me dou esses presentes. Agora estou tentando cativar amigos para a yoga. Não é fácil, mas sou insistente pacas.

Ps. Agradeço aos comentários dos meus leitores sobre as loas e boas do twitter. Hoje resolvo a questão. Por pura contradição, creio que talvez não custe nada tentar, já que se eu desistir, não serei processado. Vamos ver.

Namastê.

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