Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias | Por Samarone Lima

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Deixando de ser cabeça dura

28 de abril de 2010, às 17:30h por Samarone Lima

A pessoa pode ser cabeça dura, turrão, ficar com essa mania de bater na mesma tecla,  “eu sou assim mesmo”, “não tem jeito”, até que um dia uma peça se move, um parafuso escorrega, e a pessoa descobre que não era só assim mesmo, que tinha também outros jeitos, só não fazia mesmo mudar o rumo da prosa.

Estou com 40 anos e o Imposto de Renda era uma assombração na minha vida. Achava um negócio do outro mundo, delegava a terceiros, vivia escorregando para a malha fina, e teve um ano que recebi a restituição e não fui buscar, porque dei o número de uma conta que quase não usava. Ano passado, caí na malha fina pela terceira vez na vida, e escutei da senhora da Receita um “desenrola, carretel”, que não foi mole.

Pois bem. Esta semana me deu um estalo. Vou enfrentar esse dragão da maldade, foi o que pensei. Conversei com uma amiga da Receita, que me falou dos dois programas no site. Um para preenche a declaração, outro para enviar. Um programa para mim já é muito, quanto mais dois. Mas eu pensei intimamente – não posso ficar a vida inteira sofrendo com uma coisa que acontece todo ano.

Hoje, munido de uma inspiração quase divina, cutuquei teclas, cliquei o mouse infinitas vezes, fui pra lá, pra cá, errei um monte de coisas, até que, às 12h34, a Receita Federal do Brasil me informou que minha declaração tinha sido enviada corretamente pela Internet. Ganhei um recibo por isso e um tapinha nas costas do meu anjo da guarda, que não aguentava mais minhas ladainhas.

Para quem está curtido no sol do desenvolvimento das tecnologias pode ser ridículo, mas sinto como se tivesse avançado 100 jardas, ou 233 milhas.

O bom é que não parou por ai. Fui almoçar com o Fernando, dono da editora Novo Livro (www.novolivro.com) para discutir possibilidades de ter meus livros no formato digital. O bom presságio foi que, ao atravessar a Rio Branco, ali no Bairro do Recife (Recife Antigo a Naire não gosta), encontrei o Chico Saboya, presidente do núcleo gestor do Porto Digital, maior polo de empresas de tecnologia da informação e comunicação (TIC) de Pernambuco. O Chico, na época em que eu era dono do La Prensa, era um cliente cativo, um cara boa gente pacas.

Sim, mas onde eu estava mesmo? Caramba, esses avanços na tecnologia interna deixam a gente meio sem uma linha de raciocínio clara, objetiva, que sempre foi meu forte.

Ah, eu falei com o Chico e cheguei ao Royal, para a conversa sobre livro digital com o Fernando.

Pela primeira vez eu vi, peguei, quase cheirei o Amazon Kindle. É bem leve, bonitinho, custa U$ 300,00. O Fernando começou a me explicar, mostrou um bocado de livros que ele tinha.

“A gente pode comprar um livro agora”, disse.

Futucou umas teclas, mostrou um livro, ele apareceu, era o “Kanimambo”, do meu amigo Ivanzinho, seus relatos sobre o período que morou na África. Por U$ 5,00 a gente podia comprar o livro. Usamos outra ferramenta. Ele clicou, o Amazon, todo bonzinho, liberou as 20 primeira páginas.

“Quem tem iphone pode baixar o livro, quem tem a ferramenta no computador pode também”.

Não perguntei sobre a ferramenta, para não passar vergonha.

Uma coisa que eu não sabia. O tal Kindle pode funcionar uns 15 dias, sem acabar a bateria. Coisas da tecnologia, meu bem.

“Você lê normal, porque não tem aquele brilho na tela, parece o livro mesmo. Parece papel. Aqui cabem uns dois mil livros”, disse Fernando.

Glub.

A conversa avançou para outro negócio: A possibilidade de colocarmos o livro que escrevi sobre Cuba, o “Viagem ao Crepúsculo”, no formato digital, para a pessoa comprar mais barato e ler onde quiser.

Tive uma aula completa sobre esse mundo do livro digital, que eu só fazia ler, escutar os debates e achar tudo muito longe da minha realidade clubística. O maior avanço que eu tinha registrado, nos últimos meses, fora a compra de “Meditaciones del Quijote”, pela Estante Virtual, uma primorosa edição de 1922, com a assinatura de um Cristiano Figueiredo, e “São Paulo, 1931″. Essas coisas que acho lindo, das páginas amareladas e com rabiscos do leitor.

Mas foi um dia completo de anti-cabeça-durismo. Entendi tudo do processo para o livro ficar no formato digital, entendi que não maltrata ninguém, não macula a natureza, nem vou ter que jogar meus livros numa fogueira.

Fiquei de mandar o original do livro de Cuba para o Fernando. Em algumas semanas, se tudo correr bem, o livro vai estar em formato digital, para quem quiser baixá-lo, em qualquer parte do globo terrestre. Vai ter a vantagem de colocarmos fotos e um capítulo final, sobre os desdobramentos da viagem, os últimos fatos relacionados com Cuba etc.

Depois do livro de Cuba, vamos fazer o mesmo com “Zé”, “Estuário” e “Clamor”. Antes, vou ter que processar o Google, porque disponibilizou todo o livro “Clamor” sem nem perguntar se o autor paga a escola do menino.

Para celebrar esse dia amplamente virtual, passei na livraria Cultura e decidi: Hoje eu levo “Os Demônios” para casa, do Fiódor.

Estava por R$72,00 na última vez, fiquei fazendo cera. Quando passei o livro na maquininha, estava na promoção, por R$ 58,00. Já estou lambendo os beiços com as 696 páginas que me esperam.

O Miller, camarada que faz o contato comigo das vendas de “Viagem ao Crepúsculo”, ainda disse que venderam 50 exemplares, e liberou o pagamento da minha parte. Nesse caso, ainda peguei o “Sem trama e sem final – 99 conselhos de escrita”, do Anton Tchékhov, para comemorar.

Só falta mesmo o Santa Cruz se classificar para a final do estadual, hoje à noite.

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Os livros e uma leitura de Dom Quixote

23 de abril de 2010, às 11:19h por Samarone Lima

Recebi um email da uma amigona da Bahia. Eu que sou meio distraído, fiquei sabendo que hoje, dia 23 de abril, é o “Dia Mundial do Livro”. Como eu tinha agendado uma atividade literária no Centro da Juventude de Santo Amaro, achei que tinha tudo a ver. Fui lá, com minha sacola cheia de livros, celebrar o tal Dia Mundial.

Levei as seguintes belezas para compartilhar com os alunos, jovens entre 18 e 25 anos que não fizeram ainda amizade com os livros:

“Não te deixarei morrer, David Crockett”, de Miguel de Souza Tavares;

“A Trégua”, de Primo Levi;

“1933 foi um ano ruim”, de John Fante;

“Cartas de viagem e outras crônicas”, de Campos de Carvalho;

“125 contos de Guy de Maupassant”;

“Cartas a um jovem poeta”, de Rilke;

“Poesia de Álvaro de Campos”;

“Mapa do mundo – crônicas sobre literatura”, de Maria Moraes da Costa;

“Papillon, o homem que fugiu do inferno”, de Henri Charriére.

Minhas oficinas literárias são assim. Levo de tudo um pouco. Nem só de um pão vive o homem. Eu quero é ler um texto com eles e sacolejar o espírito, o conformismo, o tédio. No encontro passado, uma moça levou meu Rubem Braga (200 crônicas escolhidas) e ganhei o dia.

Estava uma chuvinha mansa, e quanto estava chegando ao Centro, Peste, meu velho amigo, me avisou:

“Sama, não vai rolar a atividade com a moçada, por conta de um evento do Sesc”.

Mesmo assim, fui lá, deixei uns livros, conversei um pouco com Peste, que está tentando fazer com que a biblioteca do Centro seja um espaço de descoberta dos livros. A tarefa não é nada fácil, especialmente porque gerações inteiras – especialmente os pobres - passam longe de uma introdução decente aos livros, à leitura, à felicidade de encontrar essa fonte cristalina.

Pois é uma das coisas que até hoje mais me comove. Esse momento em que a livro entra na vida de alguém. É um encontro irreversível.

Alguns são abençoados com pais leitores, que cuidam disso, contam histórias. Outros têm uma escola que tem projeto de incentivo à leitura. Uns vão pela curiosidade, pelo instinto. Outros, desgraçadamente, vão passar longe de um dos maiores tesouros da humanidade, que são os livros.

Tive sorte. Em minha casa tinha uma boa biblioteca, e comecei a desvendar aquele mistério. Um dia, encontrei “Papillon”, comecei a ler e de repente, aconteceu aquilo que Ariano Suassuna fala, ao descobrir os livros – um mundo novo se abriu para mim.

Carreguei esse exemplar de Papillon comigo para todas as casas que morei – e foram muitas -, mas um dia o perdi. Reencontrei o velho amigo numa edição da Difel, de 1974, em um sebo. Comprei-o em São Paulo, em julho de 1997. Não tem nada de extraordinário no texto, mas aquelas primeiras linhas me puxaram para o mundo dos leitores.

“Foi um trompaço tão forte, que só me levantei da queda treze anos mais tarde. Com efeito, não foi um bofetão comum. Para desfechá-lo foi preciso se juntar muita gente”.

O primeiro capítulo se intitula “O caminho da podridão”.

Mas muita gente não tem sorte de pais leitores, uma boa biblioteca, um professor que consiga despertar para esse mundo. É uma multidão. Os pobres, a ralé, como diz o magistral Jessé Souza, ainda vai penar muito, para encontrar bibliotecas e bons livros, lugares confortáveis e silenciosos.

À tarde, vou ter o meu momento de alegria literária extrema. Hoje, às 15h, no Instituto Cervantes, vai ter a leitura continuada de Dom Quixote, do Cervantes. A idéia não poderia ser melhor. Um púlpito, o livro, e as pessoas vão lendo os primeiros capítulos, aos poucos, até 18h. A oralidade. Escutar essa maravilha que é Quixote.

No email da minha amiga, fiquei sabendo que o dia 23 de abril é também o dia da morte de Cervantes e o dia de São Jorge.

De São Jorge, sei que ele lutou contra um dragão que não era fraco, para salvar uma donzela ou uma cidade. Para ser santo, salvou uma cidade, creio.

De Cervantes, posso dizer que ele não morreu. Passou ontem por mim na Conde da Boa Vista com seu andar de cavaleiro andante, meio cansado, parou para acender um cigarro e comentou, com um certo enfado:

“Mas o Recife está um forno, heim?”

ps. O Instituto Cervantes fica na avenida Agamenon Magalhães, 4535. Mais informações pelo telefone 3334.0450.

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Altos e baixos

19 de abril de 2010, às 14:07h por Samarone Lima

Chego ao trabalho, vejo em cima da minha mesa a carta de uma editora, que estava analisando meu primeiro livro, o “Zé”, para uma possível reedição, ainda este ano. Quando botam “Ilustríssimo Senhor”, já sei que vem bomba.

“Após cuidadosa análise dos seus membros, o Conselho concluiu, infelizmente, pela não recomendação do seu livro para ser publicado”.

Nada novo. O “Zé” foi renegado por algumas editoras, mas acabou sendo publicado em 1998, quando eu não tinha ainda nem trinta anos. Hoje eu fico até espantado. Muita gente gostou do “Zé”, a segunda edição vendeu inteira e o livro nunca mais foi reeditado. Mas é melhor ter um livro esgotado que encalhado.

Outros livros meus foram negados, com cartas sinceras, algumas com o “infelizmente”, “lamentavelmente” e outros mente que agora não me vêm à mente, perdão pelo trocadilho. “Clamor” levou pau numas duas editoras, e o de Cuba, o mais recente, recebeu negativas de umas três editoras, até o acolhimento da modesta e alvissareira “Casa das Musas”.

O curioso é que hoje de manhã, antes da carta, recebi um telefonema de um amigo, que está organizando um leilão de originais de alguns escritores. Um projeto bacanas pacas, que já aconteceu ano passado, aqui no Recife. Ele perguntou se eu podia entrar no evento, cedendo algum original meu. Vou disponibilizar a boneca do meu “Viagem ao Crepúsculo”, livro sobre Cuba.

A boneca é o livro em seu último momento. É, digamos, a planta baixa do livro. O sujeito só pode mexer até ali. Depois de ver cada detalhe, os erros, ele corrige, e finalmente assina um formulário e libera para a impressão. Libera e se liberta, porque na verdade, a gente que gosta de escrever livro fica curtindo esse derradeiro instante até o limite.

 Lambemos a cria por dias e dias, até que o editor diz um “basta” e o texto vai ser impresso. Quando fica pronto, ainda tem erro. Se o autor der sorte de uma nova reimpressão (ou segunda edição), ele corrige e fica mais feliz. “Viagem ao Crepúsculo” vem me dando muitas alegrias, e agora vai para a segunda reimpressão, salve salve.

São os altos e baixos da vida. Não e sim no mesmo dia. Coisas que venho vivendo, desde o primeiro livro, há mais de uma década. Os percalços, digamos. Por isso, quando alguém vem me perguntar sobre os caminhos para ser escritor, eu cito uma inabalável insistência/resistência, trabalho duro e não ficar cego com a luminosidade do “não”.

Mas nada supera certas alegrias, mínimas alegrias que surgem em conversas miúdas.

Outro dia, um grande sujeito, uma pessoa que admiro muito, foi internada num hospital. Fui lá visitá-lo. Ele estava com seu humor benevolente, suas piadas com a situação, até que começamos a conversar sobre livros, literatura etc. Eu sabia que ele tinha lido “Zé”, há muitos anos, e que tinha gostado.

Então ele me contou um segredo, à boca miúda.

“Olhe, foram os dois únicos livros na vida que li e chorei”.

Fiquei curioso, claro.

“Quais foram?”

“Zé e Meu Pé de Laranja Lima”.

Rimos muito e senti uma alegria de menino, aquela de achar que tudo está valendo muito a pena.

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Revolução a um real

15 de abril de 2010, às 16:34h por Samarone Lima

No caminho para uma lan house, aqui em Triunfo, agreste de Pernambuco, escuto uma mulher falar com alguém distante, ao celular.

- A novidade por aqui é que está tudo bem, minha filha.

Chego à lan house. Seis computadores, dois ocupados. A hora custa R$ 1,50. Sento e começo a ler os email e eventuais comentários no estuário e no meu blog de poesias.

Vinte minutos depois, chegam duas senhoras, na faixa dos quarenta e poucos anos.

- Minha filha, você faz pesquisa aqui?

- Faço. O que é o assunto.

- É a Revolução Industrial. A primeira e a segunda.

- É tudo igual.

- Mas mulher, eu já não te disse que tem no livro de história, lá na escola?

- …

- Tu copia, é igualzinho.

- É mesmo, ela copeia.

A moça começa a pesquisa.

- Não é muita coisa, mulher?

- Não, é só uma coisa e outra.

- Então vai, mulher, puxa aí a Revolução Industrial e a segunda Revolução Industrial.

- É um real, visse?

- Vou logo caçar o dinheiro. Aceita dólar?

As mulheres riem. Adoro esse riso fácil do brasileiro, do nordestino.

- Só não me passe cheque, porque vai que não tem fundo…

- Aí tu dança, né?

A moça faz a pesquisa.

- Ai, estou tão cansada, comenta.

- Menina, tu chegando em casa, toma um banho bem quentinho, que passa.

- É a primeira ou a segunda revolução mesmo?

- A primeira.

- É revolução ou evolução?

- Revolução. Vê logo a primeira, que deve ser a mais antiga.

As duas mulheres se olham.

- Ela vai ter que ler o principal, depois é que copia, eu já disse.

- Peguei um pouquinho de cada coisa. A segunda evolução industrial ficou melhor.

- É revolução.

- Ah sim. Deu um real.

- Tá bom, minha filha. tome. E lembre do banho quentinho. É tiro e queda.

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O princípio da Insignificância

14 de abril de 2010, às 15:55h por Samarone Lima

Viajei a Arcoverde com uma pilha de jornais atrasados para ler. Eu adoro ler jornais para ver o que trazem nas entrelinhas. Confirmo minha tese de que tamanho não importa, o que vale mesmo é a significância das coisas.

Na Van, após algumas horas de viagem, esbarro em uma nota do “Repórter JC”, do querido Paulo Scarpa. É uma notinha simples, na edição do dia 10 de abril. São 13 linhas.

Conta de alguns casos julgados pelo ministro do Superior Tribunal de Justiça (STJ), Og Marques Fernandes. Ele absolveu um homem condenado em Minas Gerais, pelo furto de espigas de milho.

O mesmo ministro negou recurso do Ministério Público do Rio Grande do Sul, contra a absolvição de um sujeito, condenado a dois anos de reclusão pelo furto de ovos e quatro galinhas, no valor de R$ 180,00.

Og Marques Fernandes. É preciso escrever seu nome inteiro. Em seus julgamentos, ele usou algo precioso – o “Princípio da Insignificância”.

Não é preciso muito entendimento jurídico, curso algum de Direito, para saber que o homem que furtou espigas de milho estava à beira do precipício.  O que ele fez foi de uma insignificância sem nome.

Parei de ler as outras matérias que me esperavam, as coisas de duas páginas, as entrevistas possíveis, as intermináveis especulações sobre os futuros candidatos a algum cargo público, em Pernambuco e no Brasil (meu Deus, a obsessão pelo Senado é algo comovente), e fiquei matutando somente isso: O que é insignificante em minha vida, e não tomei por princípio?

Não sei. A viagem promete ser longa. Recife, Arcoverde, Triunfo, Santa Cruz da Baixa Verde. Tempo demais para pensar nas insignificâncias. Por enquanto, penso que o mundo está cheio demais de gente importante. Daqui a pouco, não vai caber esse povo todo na revista Caras.

Modestamente, sei de duas coisas que não são mesmo insignificantes: A vida e o amor.

E este camarada, o Og Fernandes, que não conheço, jamais será insignificante para os que querem mudar o mundo pelas beiras, como eu.

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