Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias | Por Samarone Lima

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Mini-recesso

11 de abril de 2010, às 22:29h por Samarone Lima

Camaras leitores, vou aqui num mini-recesso. Viagem para Arcoverde e Santa Cruz da Baixa Verde, a trabalho. Fora isso, a revisão do livro de Cuba, para a terceira edição, e uma longa matéria sobre futebol, para a revista Continente.

Por falar em Cuba, há um precioso artigo do José Arthur Giannotti, na Folha de São Paulo deste domingo, intitulado “Os novos bolchevistas”. Fala do silêncio da esquerda brasileira sobre as violações de direitos humanos em Cuba. Vale a pena ler.

Bem, nessas viagens sempre encontro um tema, uma conversa boa, uma paisagem nova. Quem sabe não mando um textinho novo em folha?

Não largo dois espanhóis. Miguel de Cervantes, pelo Dom Quixote, e Antonio Gamoneda, um poeta amplo, vertical, intenso.

Vai um agrado.

“Nossos lábios envelheceram nas palavras incompreensíveis”.

Quando eu aprender bem espanhol, vou traduzir ele todo.

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Aprendi a tuitar

9 de abril de 2010, às 23:36h por Samarone Lima

Está acabando a segunda edição de “Viagem ao Crepúsculo”, meu livro sobre Cuba.

Vem a terceira, com informações complementares.

Consegui tuitar. Nem deu 140 toques.

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Moela

7 de abril de 2010, às 12:45h por Samarone Lima

Moela, um negro alto, forte, desengonçado um pouco, a la Dadá Maravilha, destrambelhado rumo ao gol. Comparsa das peladas dominicais no Poço da Panela. Jogava no ataque, a falta de habilidade às vezes  nos levava à exasperação. Perdia gols feitos.

“Moela, porra, Moela, como é que tu perde um gol desses”, gritava eu sempre, após alguma canelada.

“Isso é um miserável”, alguém emendava, do lado de fora.

Torcedor de pelada é assim. Superlativiza os lances ruins. No caso de um golaço, o máximo que escutamos é um sussurrado, quase inaudível ”do caralho”.

Às vezes, Moela chegava com o filho nos braços, um negro sorridente e miúdo.  Depois, vestia o padrão e seguia sua meteórica carreira de perder gols feitos.

De uns tempos pra cá, estranhei a ausência do nosso atacante. Quando passava por ele, reclamava.

“Porra, Moela, tas batendo fofo na pelada. Teus gols estão fazendo falta”.

Certas pequenas mentiras são fundamentais para levantar a estima de alguém.

Desconversava, o Moela. Apontava uma contusão, citava uma dor na coxa, essas coisas miúdas que podem estragar uma carreira. Por essa época, outro grande perdedor de gols, Jacó, retornou às peladas. Estava Morando na Enseada dos Corais. De certa forma, ocupou a vaga. As redes agradeciam.

Em alguma conversa, escutei a palavra “pedra” envolvendo Moela. O crack, todos sabem como, é consumido em uma pedra. Pedra que queima a vida por dentro. Fiquei sem acreditar.

Semana passada, exatamente na Sexta-Feira Santa, vinha pela Avenida Norte, de carro, quando um ônibus parou ao lado. Era noite. Alguém botou uma cabeça do lado de fora.

“Sama contigo falar, é uma urgência”.

Era moela. Me viu, reconheceu, falou logo. Parecia aperreado.

Segui o ônibus, parei atrás. desceu Moela. Baixei o vidro.

“Meu Irmão, na pior eu estou.  O menino está com leucemia, Sama, leucemia. Estou vindo do hospital. Exames, essas coisas. Vou passar na casa da ex-patroa agora, é aqui perto, ela vai me dar uma ajuda. Anda vou para o hospital, pegar o resultado do exame”.

Daqui a pouco, comecou a chorar Moela.

“Estou sem comer desde ontem, cara”.

Depois de enxugar Lágrimas, prossegiu.

“O pior foi quando vi o menino careca, Sama. Está sem cabelos. Não sei se vai sobreviver”.

Fiquei sem ação. Perguntei se ele queria que o levasse até a casa da ex-patroa.

“Não, é aqui perto, vou andando. O que preciso é de uma ajuda para as passagens, para comer. Estou desempregado, e nessa hora, a gente vê se a mulher é de verdade. Ela acabou de me largar”.

Nessa hora, achei tudo estranho. Conheço uma esposa de moela, a Maria, Uma mulher simples, calma, ja trabalhou comigo em dos bares que já tive. A Separação não seria por causa da doença do filho, muito pelo contrário, nessas horas a mãe vira uma leoa.

Puxei uma bolsa. Tinha R $ 15,00. Sou muito solidário com o sofrimento alheio, mas prefiro estender as mãos. Dei os R$ 10,00 para o momento e menti.

“Moela, é tudo o que tenho agora”.

“Não, tá bom demais pode crer, vai ajudar. Vou pegar a ajuda da ex-patroa e comer alguma coisa. Valeu, velho”.

Antes de sair, ele pediu com muita atenção.

“Sama, não conta nada ao Bigode, visse? Por favor”.

Ele saiu, voltei para casa, com esse anti-conto de Sexta-Feira da Paixão. Se eu já estava preocupado, fiquei cabreiro com o lance de não avisar ao Bigode, que todo domingo joga na mesma pelada.

Na pelada do último domingo, conversei com Bigode, que é parente da Maria. Contei o caso todo, enquanto esperávamos mais três jogadores para começar o primeiro jogo.

Bigode escutou, enquanto chutava uma bola na parede, a título de aquecimento.

“Aquilo é safadeza. Já roubou duas bicicletas, uma delas era de Maria. Disse que roubaram a outra em Casa Amarela. Saiu de casa. Outro dia, foi pego roubando no trabalho e foi demitido. Justa causa. Tá envolvido com o crack”.

“Com esse dinheiro que tu desse, logo ele comprou uma pedra” , completou.

“Se tu tivesse dado cinqüenta reais, eram cinco pedras”.

Pouco depois, a bola rolou, no campo de Seu Abdias. 

Deu muita pena não ver o velho e desençonçado Moela no ataque, correndo atrás de uma pelota. Lembrei de gol que ele fez de, de cabeça, no finalzinho de um jogo, e comemoramos muito. Foi o gol da vitória.

Pena mesmo é saber que velho camarada agora corre atrás da pedra do crack, e que a derrota se avizinha.

Desta vez, talvez, sem direito a revanches.

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Last, but not least

1 de abril de 2010, às 9:23h por Samarone Lima

Pelo que eu sei, a Sexta Santa acontece somente na sexta-feira, mas ontem à noite, o centro do Recife transpirava feriado longo. Ontem à noite, que digo, é quarta-feira à noite, e Jesus ainda estavas vivinho da silva. A gente percebe isso pela quantidade de sacolas que as mulheres seguram, nas paradas de ônibus, e pela quantidade de gente bebendo até mais tarde, nos botecos. A Sete de Setembro, por exemplo, estava com um congestionamento de carrinhos que vendem espetinho na brasa, parecia mais a Marginal Tietê do churrasco.

Fui ao lançamento do livro do Alexandre Furtado (“De ruas e inti-nerários”) e depois de ver um pedaço do recital, me mandei para a o Cinema da Fundação, para ver um filme do Corneliu Porumboiu, que nunca vi mais gordo, intitulado “Policial, Adjetivo”. O jornal marcou o horário errado, fiquei por ali, lendo o maravilhoso “A ralé brasileira – como é e como vive” (Editora ufmg, tudo em minúsculo mesmo), um trabalho formidável do Jessé Souza, um livro que recomendo a todo mundo que está farto dos lugares comuns sobre o povo brasileiro, sobre a ralé brasileira, principalmente aos que não aguentam a sociologia barata que não vai às feridas. O capítulo sobre a Igreja Universal do Reino de Deus é fenomenal. “A miséria do amor dos pobres” é comovente. Só pelos títulos dá para ver que o livro é sensacional: “O trabalho que (in)dignifica o homem”; “A instituição do fracasso – a educação da ralé”; “A má-fé da Justiça”; “A dor e o estigma da puta pobre”. É por ai.

A água mineral pequena do café do Cinema estava com preço de aeroporto: R$ 2,50. Só faltava a moça da voz anunciando o horário do embarque. Bebi porque estava com muita sede, e não tinha percebido o bebedouro no térreo. Fiquei lendo. Pelo menos a mesa era boa e tinha pouca gente.

Fui salvo do filme porque fui olhar as críticas. Tinha uma do André Dib, do Diário de Pernambuco, um cara de muito bom gosto. Faltava ainda meia hora para a película começar, eu já cansado, e fui ver. O texto falava de algo como “filme com longas tomadas”, uma cena que demorava uns vinte minutos, que exige “paciência” o que acendeu a minha luz interna da intuição. Esse filme é chato, foi o que pensei comigo. Eu corro léguas de filme chato, cabeça, que o cara usa para momentos solenes, quando quer impressionar. Mas isso é coisa de época da faculdade, e já passei dessa.

Agradeci ao Dib, peguei o Alto Santa Isabel e desci na Conda da Boa Vista, A Desgraçada.

Iria para casa, depois de trabalhar pacas, mas tem dia que o sujeito não quer ir para casa, quer ir para o bar. Pelo adiantado da hora, 21h10, o Princesa certamente estaria fechado.

Quando cheguei perto do Parque 13 de Maio, vi as luzes acesas e pensei que o paraíso às vezes tem hora extra.

Entrei. Seu Azevedo se organizava para fechar. Gomes, digo, Robertilha, tinha saído. Um paciente, meditativo, yogue da cerveja bebericava na mesa do fundão, contemplando o copo como se fosse o corpo de uma miss.

- Tá fechando, Seu Azevedo?

- Daqui a pouco. Véspera de feriado sempre o povo bebe mais.

Pelos meus cálculos, o feriado era somente na sexta, mas tudo bem, não vou encrencar com nosso sagrado direito de feriado, que é quando a turma descansa.

- Dá tempo tomar uma cerveja?

- Olha aqui.

Seu Azevedo abriu a geladeirona. Tinha uma Brahma cheia de poeira de gelo.

Lembrei que era a primeira Brahma, desde o domingo. E agora eu sou santo, é?

Sento junto ao balcão, que tem um ventilador no três em cima. Fico ali, olhando o movimento, a parada de ônibus entupida de gente. Uma mulher segura 22 sacos.

Daqui a pouco, Seu Azevedo me traz duas postas de peixe assado, na cortesia.

- Foi assado agora há pouco.

Dou uma mordiscada.

- Queres uma bicada?

Bicada é um aperitivo que ele faz com 435 ervas medicinais, cura tudo.

Sou um sujeito sem pudor nenhum para puxar conversa.

- O senhor vai por onde, pra casa?

Ele me conta o roteiro, que vai pela Imbiribeira, “entra naquele motel”, e já estou situado. É no Ipsep, um nome de bairro que sinceramente. Outros eventuais clientes chegam e saem.

- Pimenta boa danada, Azevedo.

- Semana Santa é peixe até umas horas.

- Falou, irmão, feliz Páscoa.

- Deus te proteja, responde Azevedo.

- Azevedo, obrigado pela confiança, até a próxima.

Tomo minha bicadinha e pergunto pela garçonete.

- Seu Azevedo, cadê Robertilha?

- Está em Igarassu, a menina.

Olho novamente o outro lado da rua. Quanta gente nas paradas, meu Deus, às 21h37. Ainda tem uns miseráveis para dizer que o povo brasileiro é preguiçoso. Vai dizer isso ao cara que passou o dia inteiro numa sapataria.

Seu Azevedo começa a desligar os freezers. Não sei o plural de freezer, devia ter usado “geladeiras”, que é mais fácil.

- Olha a bunda aparecendo, diz uma mulher, que vai atrás do marido. Ele ajeita o cós da calça.

- Por que você demorou? Já estava impaciente, diz uma mulher, para um sujeito que chegou de moto.

- Que barulho é esse?

- Você se entregou. E ainda dançou o rebolation.

Retomo meus diálogos fundamentais para a humanidade.

- O senhor comprou o bacalhau a quanto, Seu Azevedo?

- A dezoito.

- Aonde?

- Em Afogados. Mas lá tinha a 19, 20.

Como minhas postas de peixe com azeite, tomo minha bicada e a cerveja. Dona Nice, esposa de Seu Azevedo, passou algumas vezes, cantarolando algo, acho que “Café Nice”.

Olho na parede. Tem um texto meu sobre o Princesa, numa moldura. Essa sim, é uma glória literária, ter um texto seu numa moldura do seu boteco predileto no centro do Recife. Acima, outra moldura, com um poema.

“Velho bar, paredes grossas

O Princesa Isabel,

para os boêmios fiéis

sala-de-espera do céu,

sem ti, o Recife inteiro

é uma colméia sem mel”

(Alberto da Cunha Melo, 25.11.98)

Teve gente que estranhou o “sala-de-espera-do-céu”, mas é a tal “licença poética”.

Olho as empresas de ônibus que passam defronte ao Princesa: São Paulo, Borborema, Pedrosa, Itamaracá, Globo, Caxangá, Cidade Alta. Estou ficando maníaco com esse negócio de anotar coisas, ainda bem que desisti do twitter. Achei muita afobação para meu gosto.

- Dá quanto, Seu Azevedo?

- Você vai pagar só a cerveja mesmo.

Pago os R$ 2,80. Dou um agrado à cozinheira, Dona Nininha e saio sem rumo. A noite, como dizem, é uma criança.

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