Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias | Por Samarone Lima

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Andanças pelo sertão, 51 e outras conversas paralelas

29 de maio de 2010, às 16:07h por Samarone Lima

Em uma semana, foram mais de mil quilômetros, na caravana das aulas-espetáculo de Ariano Suassuna. Petrolândia e Floresta, com direito a tilápia à beira do rio São Francisco, desencontro da caravana que iria a Floresta e uma viagem no final da tarde com Dom Guilherme, um homem bom que tocava sua caminhonte por uma estrada interminável, com a pança encostando na direção, lembrando os seis meses que trabalho no Iraque, nos anos 80, ganhando em dólares mas não suportando o tratamento dos homens de lá com as mulheres.

“Foram os seis piores meses da minha vida”, lembrou.

Dom Guilherme teve apenas uma mulher, no período, uma francesa que também estava carente e tomou umas biritas nas intocas, ficaram uma só vez, esses amores silenciosos que duram uma noite, a noite da carência, e nunca mais tocaram no assunto. Ele recorda que ela era sardenta. Falou disso com carinho.

As pessoas foram descendo no caminho, e os últimos quilômetros fizemos sozinhos.

“Esse é o trecho mais perigoso da estrada”, disse, e pensei que nada aconteceria, só para que eu não perdesse a longa e boa conversa com o homem que teve quatro mulheres, viajou para a Grécia, Amsterdam, tinha dado entrada no pedido da aposentadoria naquela manhã, teve quatro mulheres, uma já falecida e as outras três, que eram meio briguentas ele dispensou, porque não suporta discussão.

“Se é para brigar, prefiro viver só mesmo”, contou, sem acender cigarro nenhum.

Desci em Floresta, paguei os R$ 10,00 e fui encontrar a turma da viagem. Dom Guilherme, que disse ter tido já mais de 100 carros na vida, coisa de compra e venda, acelerou o carro, que circula diariamente de Petrolândia para Floresta, a fumaça escura a la Havana subiu, ele pegou a estrada de volta, já escurecendo, e sei que dificilmente nos veremos novamente.

Nada de mal pode acontecer com este bom homem, foi o que pensei, como uma oração de viajante.

Juro que tentei atualizar meu Estuário das lan house de Petrolândia e Floresta, mas não sou tão raçudo assim. O clima de lan house é estranho, há cada vez mais adolescentes, parece que estou numa McDonalds do espírito. Falta-me clima, um certo silêncio, alguma nostalgia perdida, para emplacar algum texto decente. Como não sou adepto de quantidade, nem acho que meus leitores são tão avexados assim, penso que é melhor não postar nada, que ficar atualizando este blog só com pequenas novidades vencidas, bobagens viscerais, verdejâncias ou aleatórias.

Numa dessas espiadas no email e eventuais comentários no blog, fiquei sabendo pelo Wellington de Melo, um dos organizadores da Free Porto, que o leilão de manuscritos de autores pernambucanos, realizado na terça-feira passada, rendeu R$ 1.800,00.

Ele me agradeceu muito por ter cedido os originais corrigidos de “Viagem ao Crepúsculo”, para o leilão, numa amável cartinha que me chegou no trabalho, antes da viagem.  Os originais são a última prova que a editora me mandou, de Brasília, com umas 200 correções que fiz, dezenas de chateações, fora a capa, que recusei, porque não gostei da foto.

No lugar, entrou a belíssima foto do Beto Figueiroa, um craque da imagem em Pernambuco, que me vendeu com um desconto enorme, coisa que agradeço, pois o pagamento foi do próprio bolso do autor.

Fiquei sabendo que os originais foram arrematados numa disputa feroz, ameaças e litígios os mais diversos, quase envolvendo os homens da Polícia Militar, por R$ 51,00. Comentei com o Wellington que tinha sido “Uma boa idéia”, o que revela meu humor refinado e barroco, sem nenhuma alusão à caninha 51. Uma fonte paralela me disse que um camarada que acompanhava a “batalha dos originais” ficou arrasado, porque estava sem dinheiro para oferecer sessentinha, essas coisas da vida.

Bem, mas vejam a surpresa. Quem arrematou o material, após quase uma hora de lances e relances, blefes e estratégias, segundo fontes fidedignas, foi o próprio Beto Figueiroa. Dizem que ele gostou muito do risco na capa que, com a frase “foto da capa ruim”, com minha letra cuneiforme e arábica. É bem provável que ele não entenda grande parte das correções, porque minha letra é tão ruim, que às vezes nem eu entendo.

Não sei o que o Beto vai fazer com os originais, mas vou entrar em contato com ele, propondo a troca de dois livros pelo material que ele arrematou. Dois livros custam R$ 60,00 e ele gastou somente R$ 51,00.

Liguei há pouco para Beto, mas ele não atendeu. Sábado à tarde, fotógrafo deve estar andando pela cidade, tirando fotos para o acervo ou fazendo algum frila para algum ministério, para ganhar uma boa grana.

Acho que Beto não vai topar a proposta ridícula.

Eu tinha pensado em ir disfarçado para o leilão, para arrematar e trazer os originais de volta para casa, para ficar ao lado de “Clamor” e de “Estuário”, já que os originais de “Zé” eu perdi. Matava dois coelhos com uma caixa dágua só, porque ajudava o pessoal da Free Porto e trazia os originais de volta, mas o problema era: Como ir disfarçado a um leilão literário, com tantos cabelos e tanta barba?

Cogitei falar com o Geyson Monte, lá do Princesa Isabel, para ir em meu lugar, mas meu emissário gosta de tomar doses duplas de whysky e campari. Se o leilão demorasse a começar, ele iria tomar suas garapas, poderia se animar, e na volta eu poderia ter uma notícia do tipo:

“Sama, tudo certo, puxei o valor pra cima. Comprei os originais por quinhentos paus”.

Glub.

Melhor deixar as coisas como estão. Às veze invento moda e me meto em cada enrascada. Um dia escrevo uma crônica lancinante só com as enrascadas que já me meti na vida. São muitas.

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Na estrada

28 de maio de 2010, às 15:46h por Samarone Lima

No sertão, 1.500 quilômetros, entre Petrolândia e Floresta.

Perdão, leitores, em breve retornarei.

E aviso: A Shineray venceu o jumento.

Sama

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Casa vazia

21 de maio de 2010, às 17:21h por Samarone Lima

Cheguei em frente ao portão da casa da tia-avó, Dona Flocely, com um documento para Rosa assinar. Rosa foi a mulher que cuidou de tia durante 18 anos, sem feriado ou dia santo. Felizmente, foi incluída no testamento com metade da herança. Santa tia.

Tia morreu na quinta-feira pré-Carnaval, em 2009. Eu morava no Cabo, no primeiro andar, e acompanhei seus últimos três anos, entre hospitais, hemodiálise, filmes, conversas, e um clima familiar intenso. Éramos cinco: Tia, Rosa, Renato (filho de Rosa), eu e Bambam, o vira-lata de tia. Ela uma vez ficou chateada porque chamei Bam Bam de vira-lata, em uma de minhas crônicas.

Depois que tia morreu, eu casei, vim morar no Recife, o Cabo se tornou tão longe que eu nunca entendi direito. Antes, os 40 quilômetros que eu percorria de noite, num Fiat Uno 1992, sem ar, passavam rápido.

No primeiro andar da casa, eu tinha um quarto com banheiro, muitas prateleiras e meus livros, além de uma mesinha ao pé de uma janela, que dava para uma goiabeira.

Acho que foi por isso que quase não fui mais ao Cabo, desde a morte de tia. Os 40 quilômetros afetivos de antes se tornaram apenas uma imensa e solitária rodovia com carros loucos, caminhões a mil, buzinas, luzes acendendo atrás de mim, para ultrapassagens. A humanidade vai morrer é de pressa, é o que penso, uma pressa de louca de chegar a algum lugar antes dos outros, para depois ver que bastava ter saído mais cedo.

Cheguei com o documento para Rosa assinar. Pela primeira vez, em muitos anos, esqueci meu molho de chaves, onde estava a chave da casa de tia. Essa nem Freud precisava me explicar, porque entendi bem. A casa estava vazia. Sem tia Flocely, nada tinha mais sentido. Rosa, Renato, Bambam, eu, os pássaros, todos fomos embora.

Esperei Rosa chegar. Fiquei em frente ao portão, lembrando do Roberto Carlos. O cachorro não me esperava latindo, nem nada estava igual como era antes. Tudo se modificou muito, para algo vazio e silencioso. Olhei para o primeiro andar, onde morei. Nem um sopro de vida.

Rosa chegou, abriu o portão, entrei. Percorri a casa. Estava gelada. Subi ao primeiro andar. Nem sombra do Samarone que morou ali três anos, que era chamado para o café e almoço, nas horas fixas, e encontrava tia lamentando das dores na coluna e Bambam fazendo rodopios de alegria.

Durou uns vinte minutos a visita. Rosa assinou o documento. Debaixo da escada, estava um bom lote de livros que ficaram. Peguei alguns e três máquinas de datilografia da minha coleção.

Me despedi de Rosa,  entrei no carro e engatei a ré. Não tinha tia para me acenar da mureta amarelada, nem Bambam com o focinho enfiado nos buracos do portão.

Então eu voltei sem pressa, sem aperreio, sem dor. Algo tinha terminado, um ciclo se fechou.

O fim, às vezes, é abençoado.

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Conferência íntima

12 de maio de 2010, às 14:31h por Samarone Lima

Me impressiona um pouco quando me convidam para esses avanços da Internet, o compartilhamento de fotos, de labirintos e pandemônios, e vejo que algumas pessoas têm 456 amigos numa tacada só, ou num arquivo, ou num sistema.

Eu ficaria paralisado, sem saber a quem recorrer, no caso de uma aflição, um cansaço, uma deselegância, esses chauvinismos dos dias desafortunados. Olho, louvo a disposição para tanta gente, mas fico lembrando da época em que eu recebia cartas, direcionadas apenas para mim, com o selo pregado, o papel, o carimbo dos Correios etc. As cartas tinham rosto. Era a caligrafia da pessoa, a força de suas mãos. Tenho caixas dessas cartas comigo.

Lembro também de telefonemas do tipo “não estou bem, preciso conversar ainda hoje contigo”, e tudo se providenciava para o encontro, porque o “ainda hoje”, dito por um amigo, é o maior dos mandamentos.

É que sou de uma civilização do papel, dos amigos de carne e osso e de uma dose importante de conversa fiada. O que tem me preocupado mais nesse meu mundo, não é que eu tenha muitos ou poucos amigos. O alarmante mesmo é que estou vendo menos os amigos que ganhei da vida. Há uma certa dispersão de minha parte, que se acomoda gentilmente com minhas viagens, projetos, escritos. Era preciso que a gente tivesse menos obrigações, menos pensamentos lá adiante. Eu queria viver com menos, deixar todo o supérfluo de lado.

Ultimamente, as promessas de cafés se avolumam, os “precisamos nos encontrar” se renovam, e às vezes me lembro do “olá como vai” do Paulinho da Viola, embora o meu sinal esteja aberto para tantas coisas lindas. Outro dia, desmarquei um almoço com um velho amigo e depois pensei que era ridículo não peitar as demandas, fazer da agenda somente um objeto quadrado e relegado, dizendo “espera ai, compadre, que nos vemos daqui a pouco, isso é o mais importante para hoje”.

Há pouco, fui olhar uma coletânea de textos lindos, de pessoas queridas, que me chegaram pelo email ao longo dos últimos anos. Me deu uma saudade, mas atravessou-me o sentimento da distância reparável, uma constatação sem dor da dispersão natural. Aconteceu. Algumas pessoas que gosto muito eu raramente encontro, apesar de queridíssimas, de saber da importância. Outro dia, o velho e bom Lourival Holanda disse que eu era avaro de mim mesmo, e fiquei a pensar sem nostalgia nisso, à beira do Parque 13 de Maio.

Talvez eu esteja somente distraído, introspectivo, nesse dia chuvoso no Recife. Muitas vezes acontece isso. Estou tão distraído, que não vejo o melhor. Talvez nós humanos sejamos um pouco assim, distraídos e dados ao efêmero.

Então escrevo, buscando talvez alguma espécie de redenção.

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A gente não perde o que não é nosso

3 de maio de 2010, às 15:42h por Samarone Lima

Aos leitores, uma nota: Estou abarrotado de trabalhos e demandas, só amanhã poderei postar alguma crônica nova.

Digamos que tirei uma mini-férias de Estuário, por conta do aniversário.

Até amanhã.

Samarone

***

Os anos vão passando devagar, feito uns murmúrios de menino, e acho bom. Fico lembrando o que fazia, onde estava, como era minha cabeça nos anos anteriores. Aos dez, estávamos em 1979, o Brasil fazia sua transição negociada para a Anistia, e muita gente que partiu naquele rabo de foguete conseguiu voltar. Não me lembro muito disso. Aliás, não lembro nada desse momento que muitos não esquecem.

Mas tenho uma foto do ano anterior, em Pentecostes, no interior do Ceará. Eu estava de calção amarelo, camisa amarela e o símbolo: Argentina 1978. Por esses desígnios da vida, acabei percorrendo arquivos, memórias e ruas de Buenos Aires, para escrever sobre o que acontecia durante aquela Copa de milhares de desaparecidos. Creio, portanto, que meu cumpleaños de dez anos foi já em Fortaleza, quando meu pai foi promovido pelo Banco do Brasil.

Em 1989, aos vinte, com certeza eu estava morando na Casa do Estudante Universitário (CEU). Não sei se teve bolo, festa, creio que não. Recordo o debate Lula X Collor, que gravei na sala de TV da CEU, num equipamento grande. Outro dia encontrei a fita, mas não sei onde foi parar o gravador. Muitas coisas a gente vai perdendo ou deixando ao longo da vida.

Aos trinta anos eu estava em São Paulo. Dividia o apartamento com o velho amigo Gustavo. Lembro que foi um período bom, de muitas viagens, a única vez na vida em que tive uma bolsa de pesquisa. Viajei muito para o Chile, Uruguai, Argentina, encontrei a América Latina que sempre esteve em mim. Se tudo correu bem, o velho Daniel Raton chegou por lá, diretamente de Buenos Aires, me deu conselhos inúteis, falou sobre seus planos de ganhar muito dinheiro e passarmos uma boa temporada na França. O “Petit Groupe”, como ele dizia, sonhando com cafés em Paris, seu eterno cigarro na boca viraria um Gitanes, certamente teríamos charlas com Jacques Brel e nossas perambulações fariam nascer um novo ciclo literário, pleno de vagabundagem e gargalhadas.

Devagar, eles vão passando. Os dias, meses, anos. Ano passado, cheguei aos quarenta como quem inaugura um submarino mas não sabe usar. Foi somente uma informação, nunca entendi isso das faixas etárias, você agora é um pai de família, comporte-se direito, você não é mais um menino, essas divisões clássicas e de uma inutilidade que chega a me comover. De manhã posso ser um menino, ao meio dia um velho rabugento, à tarde um adolescente empolgado e à noite um sujeito de idade desconhecida, ruminando algo sem muito futuro.

Hoje, me ocorreu a chegada dos 41 anos. Olho, mas parece que não é comigo. Eu fico é cheio de um agradecimento sem fim. Estou vivo. Isso é um milagre. Nos dois assaltos, não me mataram. Na capotada do Fusca do meu pai, ninguém bateu as botas. Quando dormi ao volante, acordei num Honda Civic, mas nada me perfurou. Tenho as coisas perfeitas, salvo algum exame novo, capaz de descobrir uma célula com labirintite, no calcanhar esquerdo.

Tenho meus esquecimentos, mas não creio que é coisa séria. Eu sou mais distraído que esquecido. Repito a mesma história em vários momentos, como se fosse a coisa mais natural do mundo. Ah, mas isso muita gente faz. O bom é que não sou uma pessoa cansada de nada. Tudo me interessa. Cada dia eu acho um assombro. Abrir os olhos e ver é o maior milagre.

Mas que cronicazinha mais carola essa!

Acho que tergivesei tanto, que não cheguei ao ponto. Queria dizer algo, mas foi me escapando a sequência das palavras, as idéias se dispersaram como camelos. Durante o dia, veio forte o sentimento de que os anos estão passando, talvez para meu bem. Mas isso é uma constatação simplória. Tudo passa mesmo, sempre.

Então lembrei de uma frase que escutei no final de semana, no Sítio Terra Pura. Lá pelas tantas, o Barthô disse:

“A gente não perde o que não é nosso”.

Peguei essa frase de presente para meu aniversário.

No trabalho, teve bolo, brigadeiro e parabéns, até pandeiro.

Mas de vez em quando, a frase ressurge límpida, como uma fonte.

“A gente não perde o que não é nosso”.

Acho que nesta crônica eu só queria agradecer por algo que não tem nome nem disfarce.

À dona Ermira e seu Zé Vicente, que me deram essa vida de presente.

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