Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias | Por Samarone Lima

Apresentação


Oficinas


Livros


Artigos recentes


Comentários Recentes


Aproximações


Destaque


Calendário

maio 2010
D S T Q Q S S
« abr   jun »
 1
2345678
9101112131415
16171819202122
23242526272829
3031  

Arquivos


Usuários online

2 Usuários Online
Leitores:

2 Caranguejos

Conferência íntima

12 de maio de 2010, às 14:31h por Samarone Lima

Me impressiona um pouco quando me convidam para esses avanços da Internet, o compartilhamento de fotos, de labirintos e pandemônios, e vejo que algumas pessoas têm 456 amigos numa tacada só, ou num arquivo, ou num sistema.

Eu ficaria paralisado, sem saber a quem recorrer, no caso de uma aflição, um cansaço, uma deselegância, esses chauvinismos dos dias desafortunados. Olho, louvo a disposição para tanta gente, mas fico lembrando da época em que eu recebia cartas, direcionadas apenas para mim, com o selo pregado, o papel, o carimbo dos Correios etc. As cartas tinham rosto. Era a caligrafia da pessoa, a força de suas mãos. Tenho caixas dessas cartas comigo.

Lembro também de telefonemas do tipo “não estou bem, preciso conversar ainda hoje contigo”, e tudo se providenciava para o encontro, porque o “ainda hoje”, dito por um amigo, é o maior dos mandamentos.

É que sou de uma civilização do papel, dos amigos de carne e osso e de uma dose importante de conversa fiada. O que tem me preocupado mais nesse meu mundo, não é que eu tenha muitos ou poucos amigos. O alarmante mesmo é que estou vendo menos os amigos que ganhei da vida. Há uma certa dispersão de minha parte, que se acomoda gentilmente com minhas viagens, projetos, escritos. Era preciso que a gente tivesse menos obrigações, menos pensamentos lá adiante. Eu queria viver com menos, deixar todo o supérfluo de lado.

Ultimamente, as promessas de cafés se avolumam, os “precisamos nos encontrar” se renovam, e às vezes me lembro do “olá como vai” do Paulinho da Viola, embora o meu sinal esteja aberto para tantas coisas lindas. Outro dia, desmarquei um almoço com um velho amigo e depois pensei que era ridículo não peitar as demandas, fazer da agenda somente um objeto quadrado e relegado, dizendo “espera ai, compadre, que nos vemos daqui a pouco, isso é o mais importante para hoje”.

Há pouco, fui olhar uma coletânea de textos lindos, de pessoas queridas, que me chegaram pelo email ao longo dos últimos anos. Me deu uma saudade, mas atravessou-me o sentimento da distância reparável, uma constatação sem dor da dispersão natural. Aconteceu. Algumas pessoas que gosto muito eu raramente encontro, apesar de queridíssimas, de saber da importância. Outro dia, o velho e bom Lourival Holanda disse que eu era avaro de mim mesmo, e fiquei a pensar sem nostalgia nisso, à beira do Parque 13 de Maio.

Talvez eu esteja somente distraído, introspectivo, nesse dia chuvoso no Recife. Muitas vezes acontece isso. Estou tão distraído, que não vejo o melhor. Talvez nós humanos sejamos um pouco assim, distraídos e dados ao efêmero.

Então escrevo, buscando talvez alguma espécie de redenção.

Postado em Crônicas | 24 Comentários »

24 Comentários

  1. garota descalça Disse:

    tá lindo…

  2. Madureira Disse:

    Sinto a mesma coisa Sama, por isso que não troco um livro por um pdf nem por um kindle da vida.
    Grande Abraço!

  3. O Analista - DF Disse:

    Estamos reféns das novas tecnologias…? Parece que sim, infelizmente. Outro dia, fui cobrado pra valer por não ter comparecido numa baia festa de formtura. Daí, respondi: não fui convidado. Foi sim seu tratante, veja lá seu e-mail. É mole? Pois é, além do trabalho, temos agora que ficar ligados 7 x 7, 24 H por dia. Ah, não se esqueçam da famigerada caixa postal.
    Não abro mão das facilidades das novas tecnologias, porém, prefiro manter alguns costumes e, quem sabe assim, consiga encontrar, de verdade, pelo menos dois amigos a qualquer momento.
    http://www.@#*&%$@#.₢(¨#

  4. O Analista - DF Disse:

    Famigerada caixa postal do celular.

  5. Raphinha Disse:

    Mesmo tendo pouco mais de 20 anos e que meu trabalho exija softwares cada vez mais avançados e uma convivência intensa com telas e teclados, ainda uso o caderno para escrever, mando cartas e deixo bilhetes sempre que possível. O teclado neutraliza os sentimentos que papel e caneta deixam transparecer… mais ou menos pressão na ponta, o capricho com a letra, o borrão feito pela lágrima e até um risco causado pelo sono incontrolável. Mas confesso que me admiro e alegro com as possibilidades tecnológicas, não fosse webcam e microfones, não poderia fazer companhia a minha melhor amiga no Japão, enquanto ela prepara o almoço.

    Com essa coisa de avanço a gente sempre perde um bocado, mas ganha outro tanto.

  6. anonimo Disse:

    Nós trabalhamos muito mais do que devemos trabalhar para sobreviver. E muito mais do que trabalhavamos antigamente, sem as ferramentas facilitadoras, email, web, celular….
    É preciso ter consciência deste fato.

  7. Luiza Martins Disse:

    As cartas são pura vida!!! Eram…!? Novos tempos, novos formatos… Também tenho saudade desse outro tempo. Um beijo

  8. ana de Fátima Disse:

    Vixe…É muito bom ter ombro amigo na hora que estamos precisando por aflição e por saudade mesmo.
    Procuro manter esses laços sempre. Mesmo com toda tecnologia, etc……

  9. Noronha Disse:

    É. Precisamos de novas tecnologias, até certo ponto, sem esquecer a convivência com as pessoas queridas, e um bom livro. Como já falou um poeta de caruaru; “o que é que eu vou dizer ao meu computador, se a home page não tem cheiro e nem chora?”

  10. Clériston Disse:

    Samara (perdão pela intimidade, acho que ouvi o Pedroca chamando assim), também sou do papel, da textura, do cheiro do livro novo quando o abrimos pela primeira vez. Mas, amigo, dos ganhos e perdas, é pela tecnologia digital que apreciei este seu texto, e o anterior…

  11. Thaís Disse:

    sama, há muito tempo não conseguiam me deixar com olhos marinhos!

  12. Magna Disse:

    Sama, acabei de ficar quase uma semana inteira com os meus. Estavam aqui. Tirei uma espécie de férias para poder dar assistência e também cumprir com a urgência do coração. Não lembro de dias tão bons com eles, pois “os tempos” nunca coincidiam. Rolou risada, boas conversas, lembranças e muita conversa fiada, muita presepada. Eles foram embora e fiquei num banzo terrível; chorei por 3 dias.
    Hoje lendo tua crônica, não preciso dizer do quanto me identifiquei com tuas palavras.
    Tenho procurado ficar atenta aos momentos, ao que ando fazendo com meu tempo…mas, ao mesmo tempo, me vejo recebendo a notícia da gravidez (muito esperada) de uma amiga – o que me deixou muito feliz – e não tendo condições e ir vê-la, festejar a nova vida. Então,penso que, apesar da vida me dar muitas exclamações de presente, não posso escapar das interrogações. Talvez por isto eu também escreva.
    Esta crônica está algo fundamental, diferente das que ultimamente tens escrito(embora também boas)…parece ter resgatado algo bom, esquecido, sei lá…me faz lembrar outra tua sobre o dia “Hoje”(não lembro mais o título).
    Beijo.
    Magna

  13. Magna Disse:

    Descobri tua crônica: “Hoje, e somente hoje” publicada dia 15 de setembro de 2005. Vale a pena reler.
    Há poucos dias publiquei algo que escrevi (na ocasião-2005) a partir de uma reflexão sobre esse escrito teu. Coincidências acontecem ou eu é que estou predisposta a pensar sobre o tema.

  14. Boca Disse:

    Sabe, Samarone, é de fato incomparável a leitura de um livro, ou a emoção de receber uma carta de pessoas queridas -coisa cada vez mais rara-, o encontro com os amigos, falar besteiras, rir até a barriga doer; ou contar sobre as nossas inquietações, um segredo absurdo, querer uma opinião… Mas te conto que as TIC´s também são fundamentais, não sei o que seria de mim sem a internet, quando estou longe de casa por bem mais de uma semana, o fio do portátil funciona como o cordão umbilical, já há muito cortado, mas permanentemente atado, contrariando qualquer teoria psicológica ou afins. É só não fazermos dessas ferramentas as únicas fontes e nem tampouco nos tornarmos escravos delas… Mas o tempo é de fato o produto mais escasso da pós-modernidade, haveremos de desconstruir isso. Sem angústias, amigos são “resilientes” (gostei pacas dessa palavra por causa do sentido e significado dela).

    Abraço!

  15. Tércio Disse:

    Cartas pelo Correio? Só se for de cobranças rsrs.. , infelizmente.

    Onde andam meus fieiz amigos de esquina de toda Santa noite? O tempo passa, a vida corre e o que nós sobra? MSN! Putz! É uma desgraça mesmo. Rever-mos juntos, todos juntos novamente? Tá mais fácil o Dunga RE-convocar Adriano no lugar de Grafite.

  16. Inácio França Disse:

    Tás em forma, hein, meu velho Sama!? Melancólico, mas em forma na escrita.

  17. naire Disse:

    Gosto dos três. Da rede, das cartas de papel e tinta, e de tu, “miseráve”!
    Beijo

  18. Halano Disse:

    Sou uma pessoa amatutada e me falta a autoridade necessária para a lida com os botões. Esse veículo virtual não tem arreios, nem rédeas. Mas sei que ela é rápida, tem pernas de sobra e faz o nosso contato mais fácil. Mas se perdeu aquela agoniazinha da espera, o fervor daquelas letras vindas de longe. Com as facilidades veio as relações superficiais ou vice-versa.
    Lembro do meu avô dizer que “mais vale um cachorro amigo que um amigo cachorro”, só que os animais não tem o mundo dos botões. Então podemos talvez ter amigos cachorros adicionados na nossa relação de amigos,ou até mesmo na sessão intitulada de fãs. As relações são expostas, descobertas aos olhos alheios, sem apertos de mãos ou troca de olhares. São fotos e palavretas, acho que códigos. E ainda exclamam: fulano anda sumido.
    A internet virou sala de visita, só que é sala de lembrança. Talvez ela sirva para o não esquecimento e a complexidade das relações. Preciso desse materialismo, de estar perto, de aperto de mão, de olhar o olho, olhar a ferida, se tem cheiro e ver se tem cura. As pessoas precisam sentir e não só serem lembradas.
    Halano

  19. Hélio Mattos Disse:

    Pois é Sama, se serve de consolo eu também não consigo me ater às trocas de afagos e notícias sociais via internet.

    Ainda dou prioridade total ao olho no olho, à presença física, nem que seja pelo telefone, que também não gosto muito..

    Mas o sinal está fechado mesmo para todos, nestes dias de farta opção de comunicação.
    Afinal de contas somos, enquanto raça humana, contraditórios por vocação.

  20. GEYSON MONTE Disse:

    OI NOBRE SAMA,

    “Eu queria viver com menos, deixar todo o supérfluo de lado”.
    BATEU FORTE, HEIN MEU VELHO!!!

    ABRAÇÃO FRATERNO,
    GEYSON MONTE

  21. tita Disse:

    Sempre adoro teus textos, teu saudosismo, tua forma linda de expressar o que já passou pela minha cabeça…é exatamente assim….=D

  22. João Valadares Disse:

    Mai só a veve pendurado no bate-papo do gmail..aviciado…

  23. Cristiano Disse:

    Enviar cartas é cada vez mais complexo. Antes os correios traziam novidades, hoje traz cobranças e extratos.

    Caro a proposito qual é teu endereço postal?

  24. younkers coupons Disse:

    Was passiert mit dem Wasser bei Frost in der Anlage oder handelt es sich um ein frostbeständiges Medium? Dank für die Antwort

Conversinhas

Nota: A moderação de comentários está ativada e isto pode retardar a publicação do seu comentário. Por favor, não envie o seu comentário novamente.