Saio da massagem para uma boa caminhada até o hospital Unimed II, na Ilha do Leite, onde está internado Seu Vital. É hora de ver como está nosso pajé, que fez uma cirurgia da coluna, semana passada.
Ele está no apartamento 606, mas por distração, desci no quinto andar e entrei direto no 506, onde um doente magro me olhou com uma aflição facilmente compreendida. Diante da vergonha, não tive tempo de pedir desculpas. Dei no pé e entrei no elevador, que descia.
Meu plano era assistir, com Seu Vital, Argentina X Nigéria, torcendo pela Nigéria desde menino.
Cheguei com 10 minutos de atraso. O pajé estava sentado, ao lado da irmã, Marinita, e da sobrinha. Ele assistia ao jogo, as duas conversavam.
Começamos a conversar nossas águas, Vital me contava os detalhes do forró dos namorados, que fizeram ontem em sua venda, no Poço da Panela, quando um telefonema interrompeu o diálogo. Marinita atendeu. Alguém na venda queria saber detalhes dos preços.
“Vital, quanto é a Coca Cola de dois litros?”
Vital disse o preço, que não lembro. Eu dificilmente tomo refrigerante.
Depois do caso solucionado, tive a primeira decepção. A Argentina já ganhava de uma zero.
“Estou pensando em comprar um caderno. Vou anotar quantas vezes vou ao banheiro”, me informou Vital. Achei uma ótima idéia.
A irmã de Vital tem 77 anos, é muito divertida e faz yoga na UFPE. Por isso ela parece mais nova que Vital.
Vital contou a ela o caso da época em que eu morava sozinho no Poço, estava com dengue e fui à bodega dele, me arrastando, baleado, com os cabelos desgrenhados e todo de brando. Um menino que comprava pirulito me viu de longe e saiu correndo, morrendo de medo.
A história é muito grande, não vem ao caso, e Vital conta melhor.
O telefone toca novamente e termina o primeiro tempo. Resolvo atender.
“Residencial Vital, bom dia”.
“Só podia ser tu, Samarone. Olha, pergunta a painho quanto é a maionese”, diz Rosilda, uma das filhas de Vital.
“Dois e cinquenta”, responde o pajé.
“Dois e cinquenta”, repito.
“Olha, fiz um caderno de visitas, mas esqueci de levar ontem. Ângela vai levar hoje”, completou.
Chega Régis, o filho de Vital, está resolvendo umas coisas na recepção, vou lá, espiar as ocorrências. É um exame que falta mandar para São Paulo, essas coisas. A enfermeira me olha e diz:
“É a melhor imagem do dia”.
Fez um bem para o ego, mas durou pouco.
“Essa camisa do Santa é linda”, compla.
A coisa do exame foi resolvida.
“Tem café por aqui?”, pergunto.
“Tem não”, responde outra moça.
“Tem no sétimo andar”, completa a enfermeira do Santa.`
“É, mas ele disse aqui”.
Fiquei de tomar um café depois com Régis. Voltei ao quarto. Dom Vital estava almoçando a contragosto, porque seu horário de comer mesmo é 14h30. O jogo já tinha recomeçado e os negões da Nigéria estavam mais animados.
“Sabe por que a vaca dá leite?”, perguntou a irmã de Seu Vital.
Glub. Eu nunca consigo responder a essas perguntas infames.
“Sei não”.
“Porque não sabe vender”.
Rarara. Damos umas risadas, mas sem exagerar, porque Vital não pode forçar o espinhaço.
“E sabe por que ela baba?”
Glub.
“Porque não sabe cuspir”.
A conversa ficou nesse ritmo, enquanto os nigerianos tentavam empatar o jogo.
“Esses negões correm assim porque desde pequeno têm que correr dos leões”, diz Vital.
Lá pelas tantas, Regis diz que vai partir e que Ângela, sua irmã, está chegando. Descolei carona, é o que entendi.
Ângela chega. Traz o caderno de visitas, com uma capa bonita. Boto a data, assino meu nome, com o resultado maligno do jogo: Argentina 1 x 0 Nigéria. Boto também um “Força, Vital”, uma frase que agora me parece meio redundante.
A moça do hospital responsável pela comida chega com uma prancheta, pergunta se Vital quer janta ou ceia. Ficamos num diálogo a la Ionesco, porque não conseguíamos entender a diferença entre as duas opções. Depois de uns diálogos misteriosos, o mestre do Poço resolveu ir pelo mais simples. Pediu janta, porque tinha sopa.
Peguei a carona, fiquei na esquina de casa. Amanhã tem mais. Vou ver se pego Alemanha x Austrália no 606.
Quem for amigo de Seu Vital deve visitá-lo sem pena. Apartamento 606, do Unimed II, na Ilha do Leite. Diz um cartaz para não levar comida ou flores, coisa muito relativa. Ângela levou umas bananas prata, que Vital adora, e comi logo duas. Não esquecer de passar o gel nas mãos e braços e, na saída, assinar o livro de visitas.