Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias | Por Samarone Lima

Apresentação


Oficinas


Livros


Artigos recentes


Comentários Recentes


Aproximações


Destaque


Calendário

junho 2010
D S T Q Q S S
« mai   jul »
 12345
6789101112
13141516171819
20212223242526
27282930  

Arquivos


Usuários online

4 Usuários Online
Leitores:

4 Caranguejos

Um pouco de poesia

28 de junho de 2010, às 9:53h por Samarone Lima

Uma leitora querida resolveu dar uma nova cara ao meu blog de poesias. Olhei há pouco, ficou bem mais leve e bonito que o original. Já agradeci pela gentileza. Meus leitores são geralmente muito generosos.

Para quem quiser dar uma olhada: www.quemerospoemas.blogspot.com

Há poemas novos, seminovos e usados.

Postado em Crônicas | 7 Comentários »

Guardar

23 de junho de 2010, às 11:31h por Samarone Lima

Hoje de manhã acordei com um pensamento: Preciso fazer algo para ajudar essas pessoas que perderam tudo, por causa das enchentes. As notícias são devastadoras, milhares de pessoas perderam tudo, terão que começar do zero, depois de tanta luta. Fora isso, os mortos, os desaparecidos. Quanta dor, quanto desalento, nesse naufrágio de tantas cidades.

Nessas horas eu penso: E seu eu perdesse tudo? Meus livros, cadernos, centenas de retratos da família, que  fui contrabandeando lá de casa, minhas milhares de anotações aleatórias, que me alimentam para outras histórias, minhas coleções de besteiras, minhas quinquilharias afetivas? Isso me dá um calafrio.

Só então me ocorre a descoberta. Usei o “meu” todo o tempo. Não é por acaso que se chama “pronome possessivo”.

Então abri o guarda-roupa e fui separando camisas, calções, calças, meiões que estão a mais. Coisas que venho guardando. Sou um péssimo comprador de roupas. Entro numa loja, vejo se tem camisa manga comprida branca, calça creme, provo em cinco minutos e se estiver na promoção, levo tudo duplicado, para não precisar voltar tão cedo. Triste é saber que calça creme e camisa branca é o fardamento dos presidiários em São Paulo. Mas compro e vou acumulando.

Em meia hora eu tinha uma penca boa de coisas para doar, roupas que vinha guardando, acumulando ao longo da caminhada. Amanhã levarei para algum posto de coleta.

Mais tarde, vou olhar outras coisas. Copos, talheres, cadeiras. Vou separar bons livros também. Tenho certeza que nas enchentes, milhares de livros viraram correnteza ou ficaram com as páginas pregadas para sempre. Depois, vou comprar uns mantimentos e mandar para quem precisa. Como um grande amigo tem Kombi, tentarei levar direto ao local. Não, melhor deixar com a Defesa Civil mesmo, talvez eu vá só atrapalhar. E melhor que a doação seja anônima. Tem gente que quer dar algo, mas pensa mesmo é no retorno emocional. Quer se salvar se valendo da mais-valia da solidariedade. Quem tem muito dinheiro e dá um piano a um jovem talento do piano, devia exigir o sigilo. Mas não. Precisam doar soltando fogos, como quem diz “vejam como sou bom e generoso”.

Dizem que toda tragédia nos ensina alguma coisa. Hoje de manhã eu talvez não tenha aprendido nada, mas descobrio que vinha guardando coisas demais. Quero viver com menos. Menos, Samarone, menos, era o que eu pensava, a cada peça que saía do guarda-roupa. E aquilo me deu uma pequena paz matinal. Espero que essas roupas aqueçam algumas criaturas que estão ao relento, e que alguns objetos que vou separar, ajudem a recomeçar a vida. A minha, hoje, também recomeçou um bocado.

Postado em Crônicas | 14 Comentários »

Muito estranho: Jogo da Copa no hospital

20 de junho de 2010, às 21:46h por Samarone Lima

Nota da redação: Seu Vital, o pajé citado nesta crônica, recebeu alta ontem, já está em casa. Por outro lado, meus palpites futebolísticos seguiram o destino de sempre: absolutamente infelizes.

***

Meu cunhado me ligou à noite, depois do jogo do Brasil contra a Costa do Marfim. Queria saber por onde andei, o que fiz, onde assisti a vitória do Brasil.

“Chupeta, descobri que sou um cara meio estranho”, respondi.

“É nada!”, disse ele, num tom que me pareceu irônico.

“Resolvi assistir a partida no Unimed II, junto com Seu Vital, que se recupera de uma cirurgia”.

Ele tinha tomado uns aperitivos, de forma que o que falei passou batido. Mas foi o seguinte.

No começo da tarde, fiquei maquinando onde assistir nosso segundo jogo da Copa, mas os amigos todos estavam muito ocupados. Todos os números que não liguei, também não atenderam.

Diante da falta de propostas mirabolantes, um bar no Alto José do Pinho, a venda de Seu Vital, o Mercado de Casa Amarela ou da Boa Vista, decidi o mais óbvio: acompanhar a pelada no apartamento 606 do Unimed II, onde se recupera Seu Vital.

Saí às 14h37, para uma boa caminhada, porque sou uma verdadeira mula. Fui atravessando a cidade em seu frenesi. Camisas, bandeiras, buzinas. A Agamenon estava a mil, faltando meia hora para o jogo. Um ônibus bateu num carro, e pude ver a frustração dos motoristas, com a camisa do Brasil, discutindo o prejuízo.

Às 15h22 eu entrava no quarto, igual aos jogadores, que entravam em campo. Estava lá Régis, o filho de Vital, e o próprio Vital, que só pode sair depois da alta. Acho que Vital é o nome mais falado neste meu estuário.

Enquanto o hino tocava, o Recife era sacudido por fogos. Um bombardeio. Do sexto andar eu vi. Não tinha um ser humano passeando despreocupado. Todos estavam de olho na jabulândia.

Pouco depois chegam Dona Severina, esposa do homem em questão, Ricardo e Ângela, filhos do dito cujo. O meu amigo, nesse intervalo, tinha ido ao banheiro duas vezes.

O jogo nem estava quente, quando houve uma reunião da célula familiar, para discutir os preços. O dono da venda sabe de tudo decorado, e como não tem nada anotado, só ele pode dizer quanto tudo custa.

Às 16h40, quando o pajé foi ao banheiro pela terceira vez, o Brasil fez 3 x 0.

Não sei o motivo, talvez a morte do Saramago, as exéquias, mas me veio um desejo póstumo. Eu queria ser enterrado de óculos.

Meu Deus, como eu penso besteira.

Ângela saiu da monotemática pergunta feminina de cada copa (“o que é impedimento?”) e me surpreendeu:

“O tempo de jogo é 40 minutos?”

Desde que a humanidade é humanidade, todos sabem que o tempo de jogo é 45 minutos, acrescentados de três no Brasil, e de quatro, na Copa.

Na metade do segundo tempo, pensei em bolar alguma tramóia para chamar o enfermeiro de plantão, mas o soro de Vital estava só na metade. Não tive como.

Desde o começo do jogo, o homem em questão (dizem que estou falando demais o nome dele) ficou repetindo que o placar seria 3 x 1 para o Brasil.

Estava tudo bem, céu de brigadeiro, os brasileiros levando umas lapadas, até que o Drogbá faz o gol dos costenses. Resultado: Brasil 3 x 1. Só que o convalescente, por estar no hospital, não tinha apostado em nenhum bolão.

Antes de sair, tomei café que Ângela levou. Se a direção do Unimed souber disso…

Voltei com Ricardo, filho do convalescente. As ruas estavam coalhadas de gente com a camisa do Brasil. Enquanto escrevo estas notas copísticas, um camarada lá embaixo, na rua, fica assoprando uma vuvuzela recifense, um barulho infernal. Ele está num contexto cultural diferente, acha que está em Johannesburgo, e acha isso o máximo. O jeito é deixar esse infeliz em paz.

Se a moda pega, no entanto, estamos ferrados.

Por mim, a Coréia do Norte ganhava de Portugal, depois perdia para a Costa do Marfim, e o Brasil dava uma lapada boa em Portugal. Então se classificavam Brasil e Costa do Marfim. Eu tenho uma birra enorme com Portugal, porque não entendo o que eles falam, e eles insistem em dizer que é português.

Por falar nisso, lembrei que Clávio Valença (pai), após tentar inutilmente conversar com o funcionário da TAP, sem conseguir entender uma vírgula, perguntou ao gajo:

“Do you speak english?”

O portuga ficou bravo, achou que Dom Clávio estava chacoalhando. Clávio gosta de tirar onda, mas nesse caso não foi por maldade. É que não entendia patavinas.

Seu Vital está bem, obrigado. Deve ficar mais duas semanas de molho, só a título de observação. Ele ganhou uma camisa da seleção brasileira com o número 10. Atrás estava escrito “Vital”. Mas era sem aspas.

Postado em Crônicas | 12 Comentários »

Saramago e a graça de morrer bem

18 de junho de 2010, às 13:55h por Samarone Lima

Foi no intervalo do jogo em que os sérvios venceram os alemães que o locutor anunciou, com a gravidade peculiar, a morte do escritor português José Saramago, de 87 anos.

Durante a manhã, recebi uma penca de email, com textos sobre Saramago. Todos com aquele tom de solene perda. Um amigo disse que hoje seu dia estava “muito triste e estranho”.

A mim bastou ler sobre a morte do nobre Saramago, para entender que ele morreu bem. Seu derradeiro suspiro foi em casa, na ilha de Lanzarote, nas canárias. Estava em casa, ao lado da esposa, que agora me foge o nome.

Salvo engano, Saramago também viveu bem pacas. O homem escreveu uma penca de livros,  o que já é uma alegria. Deles, gosto muito do Evangelho Segundo Jesus Cristo, mas outras coisas me entediaram profundamente, e larguei antes da metade. Segundo o amigo Inácio França, Jangada de Pedra e A história do Cerco de Lisboa são fabulosos, especialmente o segundo, que conta a história de Antônio, um revisor contido que se apaixona pela editora e acaba pegando a coragem dos mouros. Vou ver se encontro os dois. Pensando bem, tenho umas coisas enfileiradas, o Saramago fica para mais tarde. Só se me derem de presente. Neste momento, estou envolto na poesia.

Mas voltando à morte do Saramago. Ele foi aplaudido no mundo inteiro, ganhou prêmios, abençoaram-lhe com o Nobel, morava numa bela ilha e, salvo engano, não tinha problemas com credores ou vizinhos. Não podemos negar que viveu bem.

Morreu em casa, ao lado da mulher, longe de hospitais, enfermarias, tubos, remédios, alguma UTI. Morreu bem.

Gosto disso. Morrer bem, junto dos parentes, em casa, é encerrar um ciclo de forma humana e simples. É algo cheio de paz, mesmo com a incerteza e o medo que devem rondar este momento.

Não estou nem um pouco triste com isso.

Num dos textos, fiquei sabendo que ele ter sido registrado com o mesmo nome do pai, mas o tabelião acrescentou o apelido pelo qual o chefe da família era conhecido na aldeia, Saramago.

Saramago é o nome de uma planta que serve de alimento para os pobres em tempos difíceis. Até no nascimento, o homem foi abençoado.

Isso me lembrou um episódio formidável, na última Fliporto. Quando cheguei, para assistir a uma conferência meio morna do Eduardo Galeano, alguém comentou com uma moça, que me conhece e jura que lê minhas coisas na Internet:

“Olha, o Saramago está ai”

A moça saiu correndo, já com o bloquinho na mão, creio, e máquina para fotos. Quando me viu, deu meia volta.

“Não era o Saramago não, era o Samarone, esse eu conheço daqui”, disse para a amiga, certamente frustrada.

Depois ela me contou o episódio, e rimos muito. Saramago. Ra ra ra. Essa é boa.

Eu planejava contar essa para ele num boteco, lá na ilha de Lanzarote, mas fica para depois. Espero que bem depois.

Postado em Crônicas | 17 Comentários »

Minha Copa (1). Argentina 1 x 0 Nigéria. Hospital Unimed II, Recife

12 de junho de 2010, às 16:43h por Samarone Lima

Saio da massagem para uma boa caminhada até o hospital Unimed II, na Ilha do Leite, onde está internado Seu Vital. É hora de ver como está nosso pajé, que fez uma cirurgia da coluna, semana passada.

Ele está no apartamento 606, mas por distração, desci no quinto andar e entrei direto no 506, onde um doente magro me olhou com uma aflição facilmente compreendida. Diante da vergonha, não tive tempo de pedir desculpas. Dei no pé e entrei no elevador, que descia.

Meu plano era assistir, com Seu Vital, Argentina X Nigéria, torcendo pela Nigéria desde menino.

Cheguei com 10 minutos de atraso. O pajé estava sentado, ao lado da irmã, Marinita, e da sobrinha. Ele assistia ao jogo, as duas conversavam.

Começamos a conversar nossas águas, Vital me contava os detalhes do forró dos namorados, que fizeram ontem em sua venda, no Poço da Panela, quando um telefonema interrompeu o diálogo. Marinita atendeu. Alguém na venda queria saber detalhes dos preços.

“Vital, quanto é a Coca Cola de dois litros?”

Vital disse o preço, que não lembro. Eu dificilmente tomo refrigerante.

Depois do caso solucionado, tive a primeira decepção. A Argentina já ganhava de uma zero.

“Estou pensando em comprar um caderno. Vou anotar quantas vezes vou ao banheiro”, me informou Vital. Achei uma ótima idéia.

A irmã de Vital tem 77 anos, é muito divertida e faz yoga na UFPE. Por isso ela parece mais nova que Vital. 

Vital contou a ela o caso da época em que eu morava sozinho no Poço, estava com dengue e fui à bodega dele, me arrastando, baleado, com os cabelos desgrenhados e todo de brando. Um menino que comprava pirulito me viu de longe e saiu correndo, morrendo de medo.

A história é muito grande, não vem ao caso, e Vital conta melhor.

O telefone toca novamente e termina o primeiro tempo. Resolvo atender.

“Residencial Vital, bom dia”.

“Só podia ser tu, Samarone. Olha, pergunta a painho quanto é a maionese”, diz Rosilda, uma das filhas de Vital.

“Dois e cinquenta”, responde o pajé.

“Dois e cinquenta”, repito.

“Olha, fiz um caderno de visitas, mas esqueci de levar ontem. Ângela vai levar hoje”, completou.

Chega Régis, o filho de Vital, está resolvendo umas coisas na recepção, vou lá, espiar as ocorrências. É um exame que falta mandar para São Paulo, essas coisas. A enfermeira me olha e diz:

“É a melhor imagem do dia”.

Fez um bem para o ego, mas durou pouco.

“Essa camisa do Santa é linda”, compla.

A coisa do exame foi resolvida.

“Tem café por aqui?”, pergunto.

“Tem não”, responde outra moça.

“Tem no sétimo andar”, completa a enfermeira do Santa.`

“É, mas ele disse aqui”.

Fiquei de tomar um café depois com Régis. Voltei ao quarto. Dom Vital estava almoçando a contragosto, porque seu horário de comer mesmo é 14h30. O jogo já tinha recomeçado e os negões da Nigéria estavam mais animados.

“Sabe por que a vaca dá leite?”, perguntou a irmã de Seu Vital.

Glub. Eu nunca consigo responder a essas perguntas infames.

“Sei não”.

“Porque não sabe vender”.

Rarara. Damos umas risadas, mas sem exagerar, porque Vital não pode forçar o espinhaço.

“E sabe por que ela baba?”

Glub.

“Porque não sabe cuspir”.

A conversa ficou nesse ritmo, enquanto os nigerianos tentavam empatar o jogo.

“Esses negões correm assim porque desde pequeno têm que correr dos leões”, diz Vital.

Lá pelas tantas, Regis diz que vai partir e que Ângela, sua irmã, está chegando. Descolei carona, é o que entendi.

Ângela chega. Traz o caderno de visitas, com uma capa bonita. Boto a data, assino meu nome, com o resultado maligno do jogo: Argentina 1 x 0 Nigéria.  Boto também um “Força, Vital”, uma frase que agora me parece meio redundante.

A moça do hospital responsável pela comida chega com uma prancheta, pergunta se Vital quer janta ou ceia. Ficamos num diálogo a la Ionesco, porque não conseguíamos entender a diferença entre as duas opções. Depois de uns diálogos misteriosos, o mestre do Poço resolveu ir pelo mais simples. Pediu janta, porque tinha sopa. 

Peguei a carona, fiquei na esquina de casa. Amanhã tem mais. Vou ver se pego Alemanha x Austrália no 606.

Quem for amigo de Seu Vital deve visitá-lo sem pena. Apartamento 606, do Unimed II, na Ilha do Leite. Diz um cartaz para não levar comida ou flores, coisa muito relativa. Ângela levou umas bananas prata, que Vital adora, e comi logo duas. Não esquecer de passar o gel nas mãos e braços e, na saída, assinar o livro de visitas.

Postado em Crônicas | 10 Comentários »

« Artigos anteriores