Melhoras do pajé e algumas frases da coleção
Samarone Lima
Quanto mais moderno e globalizado o mundo, mais importante minha aldeia, isso é o que penso. Por isso, não esperei a autorização dos médicos ou especialistas para me deslocar ao hospital Unimed II, onde está internado Seu Vital, nosso homem bom, comandante das forças desarmadas, chefe do nosso exército brancaleônico do Poço da Panela.
A cirurgia da coluna foi no sábado, pedi doação de sangue, e pelo visto, tivemos o suficiente. Cheguei ao apartamento 606 após passar aquele álcool com gel nas mãos. Ele já está no quarto, passou menos de 24 horas na UTI, me informou sua filha Rosilda.
Ora, num mundo em que um celular de última tecnologia fica ultrapassado no mês seguinte, num mundo que cultua celebridades, quem vai querer saber do boletim médico de Seu Vital?
Eu e meus amigos. Naná, que leva crianças para a escola em sua Kombi, como voluntário. Boy, que sonha com uma biblioteca na comunidade. Davi, que puxa seu violão e pode tocar bossa nova o dia inteiro, atravessando a noite e pedindo infinitas saideiras. Esses e outros.
Por coincidência, no mesmo horário em que eu me dirigia ao hospital, uma moça da Universidade Católica apresentaria seu trabalho de conclusão do curso de Jornalismo, um documentário sobre o Poço da Panela. Pensei em passar por lá, ver o que ela captou daquele lugar abençoado, onde morei por inesquecíveis cinco anos. Terá conversado longamente com Dona Da Luz? Terá compreendido nossas loucas brigas nas peladas dos Caducos, aos domingos? Conversou com Naná, para ele dizer o que entende por vida comunitária? Chegou a falar com Raimundinho, com sua louca e passional teologia do tempo? Sondou a intrigante liga de dominó, aos domingos?
Preferi não correr o risco de encontrar Seu Vital dormindo.
Cheguei ao quarto, ele acenou. Estava tudo bem, salvo a previsão médica. Quatro semanas no hospital, até receber alta.
“É que ele vai ter que tomar uns remédios e é melhor aqui mesmo”, explicou Rosilda, a filha.
Vital lamentou a demora, justo na época da Copa.
“Vou ter que assistir tudo daqui”.
“Não tem problema, Seu Vital, vou chamar a turma toda, a gente enche o quarto, traz bandeiras, compra uma vulvuzela e assiste aqui mesmo”.
“Menos, Samarone, menos”, foi o que ele respondeu.
Por precaução, parei de ficar falando minhas besteiras, porque ele não pode rir.
Botei Naná para falar com ele no celular.
“Possso levar um dominozinho?”, perguntou o gorducho.
“Menos, Naná, menos”.
Como será uma longa temporada, vamos fazer um rodízio. Seu Vital pode receber visitas das 8h às 20h.
Se a seleção jogar um futebol decente, nosso amigo poderá assistir as quartas-de-final em casa.
Saí do hospital animado com as notícias. Apesar de saber que o Poço da Panela é um sítio histórico, nosso maior patrimônio é mesmo gente. Seu Vital deveria já ter sido tombado. Significa que ninguém pode derrubar ou mexer. É o pajé da nossa aldeia, o sacerdote-feiticeiro e conselheiro-mor. Quando ele pergunta se pode falar, é melhor prestar atenção, porque o conselho vai ser na titela. Ele nunca errou, pelo menos comigo.
A título de cortesia, separei algumas frases de Vital, que fazem parte do meu já clássico projeto “Livros que nunca saíram do papel”, a famosa “Antologia do Instante”, que vem se arrastando desde épocas remotas.
São as “Vitalíssimas”. Vamos lá.
1. “Todo guarda-roupa é armado. Só não pode ter arma dentro”.
2. “Sou o dirigente das forças desarmadas”.
3. “É um traje de antropóide”.
(Falando da roupa estranha de um cliente)
4. “Cliente é assim: quanto mais você zela, mais é desprezado”.
5. “Essa cerveja é daqueles febrentos”.
(Antes de entregar uma cerveja para dois clientes)
6. “Eu já disse a vocês: cerveja gelada não presta”.
7. “Mas todo bêbado não é forte, bonito, sabe dançar, é conquistador, é cabeça, é poeta?”
8. “Lá vem o Capitão Sem-Fronteiras”.
(Vital, se referindo ao filho, Ricardo)
9. “Amanhã é meu dia fatal”.
(Um dia antes do milésimo exame do fígado)
10. “Eu soube que inventaram esta realidade”.
(Falando de algo que não lembro)
11. “Tomei um guaraná Kwait, já que não tinha o Iraque!’.
12. “O pão está chegando. Vem da grã-bretanha”.
(Explicando a demora do pão)
13. “É o mesmo que botar manteiga em venta de gato”.
14. “É o desconvencimento que me atordoa”.
15. “Eu quero fazer o bem para você, mas você não quer? Então… dane-se!”
16. “Tem o Derby do Paraguai, que é o Rossi”.
17. “A besteiridade das pessoas – ou a sabedoria – vem de muito longe”.
18. “O medicamento doeu mais que meu olho – 80 reais”.
19. “A empresa que vai comprar o mundo é a Telemar”
(Explicando os lucros absurdos da Telemar, após receber mais uma conta).
20. “Já toquei no assunto comigo mesmo e eu disse: vai”.
(Explicando uma consulta interior sobre uma viagem).
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