Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias | Por Samarone Lima

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Inauguração

13 de julho de 2010, às 6:08h por Samarone Lima

Foi há uma semana, e ainda estou a lembrar com uma certa alegria desta inaguração íntima.

Era o lançamento do novo site da Interpoética (www.interpoetica.com.br) o espaço poético que Cida Pedrosa valorosamente vem mantendo, ampliando, embelezando há alguns anos. Iria mostrar aos poetas da cidade o novo formato, as mudañças, e fui lá, no aconchegante Espaço Muda, na rua do Lima, dar uma olhada, encontrar os amigos que escrevem, sejam cartas, poemas xerocados, bilhetes, romances, diários, bulas de remédio. Como eu tinha mandado alguns poemas para a Cida, no íntimo aguardava algo, que eu não sabia o nome. Não era elogio, mas troca, que é bem melhor.

Não lembro se chovia, porque o Recife é uma cidade que agora vive molhada. Lembro que eu estava de guarda-chuva, e que dei uma longa caminhada com ele. Logo que entrei no Muda, ganhei um abraço quente de Cida, com algumas palavras que eram pura troca poética, coisas que não vou falar. 

Tinha uma penca de gente boa por lá. Jommard Muniz, Miró, Malungo, Lara, Meca Moreno, Pedro Américo, a turma que circula pela cidade, umas andorinhas que levam palavras, metáforas, belezas, remédios para a vida.

Depois da apresentação do novo site, começou o sarau. Microfone ao centro, palavra aberta. Continuei sentado no sofá, ao lado de Meca Moreno. Os poetas se revezavam, diziam decorado suas coisas, coisa que sempre me deixou numa inveja absoluta. Uma vez, passei meses tentando decorar um poema de uma página do Fernando Pessoa, mas nunca consegui. Vale salientar que o mini-teatro estava cheio.

Lá pelas tantas, mesmo sem ter bebido nada, senti uma fisgada.

“Vai lá! Lê um poema teu!”

Senti uma tremedeira geral, um frio na espinha, um aperto nos pulmões. Apesar de ter que falar em público por conta de várias demandas profissionais (professor, por exemplo, tem que falar em público), nunca, ao longo de quatro décadas, me arvorei a ler coisas minhas em um sarau. Isso é coisa para gente de raça, e meu vira-latismo fica por ali, rondando o poste. É timidez mesmo. Eu também não sou dessas pessoas resolvidas, que fazem tudo o que dá na lata. Tenho ainda este hábito feliz de respeitar o meu tempo para as coisas.

Então falei ao ouvido do Meca Moreno:

“Se eu ler um poema, tu segura o microfone para mim?”

“Claro”, respondeu Meca, que se tornaria o Grande Traidor da noite.

A coisa começou a ficar complicada quando avisei ao ouvido de Cida.

“Olha, vou cometer um desatino. Pela primeira vez na vida, vou ler um poema em público”.

“Ah, então vou avisar ao menino para filmar”.

Eu e meu bocão, foi o que pensei.

A idéia era relativamente simples. Do sofá mesmo, bem quieto, com Meca ao lado, segurando o microfone, ler dois poemas de um caderno que tinha levado, cheio de anotações. Por sorte, muita gente queria mostrar suas coisas, a pauta estava cheia, e por alguns momentos pensei que escaparia dessa, que o tempo esgotaria, que não precisaria cometer o desatino.

Meca, então, me traiu. Quando o microfone vagou alguns segundos, foi ao centro do palco e alardeou que eu iria ler meus poemas pela primeira vez. Me chamou ao microfone, com alegria e alvíssaras. Tive que sair do aconchegante sofá, que tinha a enorme vantagem de ser ao lado do palco, longe dos holofotes.

Com a língua seca, nervoso como no primeiro debate que participei no curso de Jornalismo da Católica, há 22 anos, fui ao palco. Fiquei ao lado de Meca, que segurou o microfone, e li dois poemas. Juro que as duas pernas tremiam.

Foi uma inauguração em minha vida. O sarau seguiu e voltei para o aconchegante sofá, para me acalmar. Depois saí, fui para um barzinho menor, e tomei duas cervejas solitárias. Voltei, encontrei os amigos, o velho e bom Ésio, e fomos para outro bar, onde fizemos uma enorme mesa, e ficamos em nossas lorotas.

No dia seguinte, mandei um email a Cida, agradecendo. Ela respondeu assim:

“Ontem você encontrou a fala da poesia. É apenas o começo. Vicia e não dói”.

Sim, apenas o começo. Uma inauguração, pois.

ps. Os poemas em questão estão no www.quemerospoemas.blogspot.com

Postado em Crônicas | 17 Comentários »

17 Comentários

  1. tatiana pelinca Disse:

    O que admiro em vc é isso,”Humano,demasiadamente,humano”bj,Tati.

  2. ana de Fátima Disse:

    Parabéns Samarone, imagino a tremedeira corajosa….
    Mas a sua timidez é charmosa(risos)
    Fiquei curiosa para saber quais os poemas que vc leu….
    Abraço. Ana

  3. George Guedes Disse:

    Ora pois! Pensei até que tinhas empacotado. Verdade seja dita, quem tá vivo aparece, ou não.
    Boa sorte com as demandas declamatórias.

  4. Sirley Disse:

    Na próxima estreia nos convida!… rss.
    Abraços,

  5. Joao Disse:

    Sá,.. que ousadiam hein?. Mas é justamente desse que que vim falar. O que é uma pena. mas, que que isso? que tanto que é esse no começo do texto? quando vc es-que-ce esses ques aí, que beleza, o texto ficar bemais a melhor de ler.
    ah, cadê os encorajadores poemas?

  6. cida pedrosa Disse:

    Sama,
    Independe de eu fazer parte da história. Amei o texto.
    Vamos fazer um próximo, com menos tremor.
    um cheiro
    cida

  7. cida pedrosa Disse:

    Sama,

    Valeu. vai virar lenda.
    cheiro
    cida

  8. Arsenio Meira Junior Disse:

    Uma estreia é uma estreia, é uma estreia, e pariri, parará…

    Bacana, Samarone.

    Embora pouco inclinado à saraus, vejo que o importante foi a vitória do poema (Lágrimas), o sentimento de reciprocidade e a reunião e o encontro com os amigos.

    Sem esquecer os aperitivos e os bar. Afinal de contas, “Intelectual não vai à praia. Intelectual bebe” (Salvo engano, do temeroso Paulo Francis).

    Por isso pode chover à vontade, menos no interior e nos bairros com encostas ou situações periclitantes.

    Ah, a conversa fiada. Que serve pra matar o tempo, enquanto ele nos mata, como dizia o velho Machado. É fundamental.

  9. anonimo Disse:

    parabéns

  10. adrianacleao Disse:

    e que venham os poemas.

  11. Dito Disse:

    Ester estreou estranha
    estivera em eterna espera
    enfim, ela estreia
    estremece, embrenha, entranha

  12. Canto da Boca Disse:

    Da inexorabilidade do destino nem mesmo os deuses estão salvo… Esse é o caminho e o destino do poeta: poetar!

  13. GEYSON MONTE Disse:

    OI NOBRE SAMA,

    CHOREI DE RIR COM O SEU “vira-latismo, rondando o poste”. HE,HE,HE. VALEU, SAMA!!! DEPOIS DA PRIMEIRA VEM O RESTO.

    ABRAÇÃO FRATERNO,
    GEYSON MONTE

  14. Luisiana Lamour Disse:

    Samarone
    os viralatas são ótimos e rondam postes, latas,esquinas, enfim, estão sempre presentes, de uma forma ou de outra.Com poesia, melhor ainda ,amansam, acalmam,e, se forem felinos, até ronronam.
    Parabéns pela estreia, e como diz sua amiga, “vicia e não doi”.
    Luisiana

  15. Ana de Fátima Disse:

    Caro Samarone, fui lá e adorei…

    Bjos.Ana

  16. Zanelli Gomes Alencar Disse:

    Achei interessante uma entrevista publicada no site da revista Veja com Ferreira Gular, no blog Veja Meus Livros e reproduzo aqui uma das respostas que foi dada na ocasião.

    O que distingue o poeta do não-poeta?
    Ah, isso eu não sei dizer. É pelo feeling que você percebe se é ou não é. Você vê pela maneira como o cara lida com as palavras. O modo de tratar as palavras de um poeta não é igual à maneira de tratar as palavras de um jornalista, de um escriturário. Um jornalista escreve bem, mas o modo de tratar a palavra que ele tem não é o que tem o poeta. É outra maneira. Isso você percebe quando o poema está bem escrito, mas não é poesia. Aquela não é a maneira de tratar a linguagem. É claro que não é uma questão puramente de linguagem. A linguagem é um instrumento. Ali, há uma relação entre a linguagem e a visão de mundo, a sensibilidade. É toda uma maneira de ver a realidade. Ser poeta é ter uma atitude específica diante do mundo que não é a do filósofo, não é a do cientista. O poeta não é filósofo. A filosofia é diferente da poesia, ela tem um sistema, ela quer buscar coerência etc. etc. O cientista quer a verdade comprovada, é outra coisa. O poeta, não. Ele não quer ser coerente e, se for, ele não está preocupado com isso. Ele vive de descobertas e de espantos a cada momento. O poeta não cria sistemas. O poema que ele faz hoje não precisa ser coerente com o poema que ele fez há um ano. Ele não tem esse tipo de preocupação ou de compromisso. Ele também não tem por objetivo explicar o mundo e, ao mesmo tempo, ele tem liberdade para descobrir um mundo que o cientista e o filósofo não veem. Ele está a fim de revelar para as pessoas o seu espanto, o mistério e a beleza da vida, o que ela tem de incompreensível, de transcendente e de inexplicável. É claro que eu não vou buscar todas essas coisas no poema que um jovem me pede para ler. O que importa é que o modo do poeta se relacionar com as palavras é outro. Isso eu não sei explicar, mas eu sinto quando um cara tem um relacionamento com as palavras – e com o pensamento, consequentemente – que é próprio do poeta. Eu posso me enganar também, evidentemente, mas eu suponho perceber isso. E raramente me engano.

    Maria Carolina Maia

    Tags: Ferreira Gullar

  17. Meca Moreno Disse:

    Foi a melhor traição da minha vida.
    Já tínhamos o poeta. Ganhamos o declamador.
    .
    Abração, minha gente!

Conversinhas

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