Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias | Por Samarone Lima

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Anti-crônica dos pequenos pecados. Algumas coisas terríveis que já fiz, a modo de confissão

16 de julho de 2010, às 13:00h por Samarone Lima

Admito alguns erros clássicos nesta vida errante. Manchas, momentos ruis, vacilos, devaneios, afanos e suspeitas. Com o tempo, tudo vai se curando, já dizem os zorbas e os gregos, e depois o sujeito começa a rir dessa grande tragicomédia que é a vida. Listo algumas coisas que já fiz, já sem o arrependimento rondando na casa dos 8, na esperança de que os leitores também soltem seus crimes de menor potencial ofensivo para nosso deleite.

Assisti a um show do Biafra

Tudo bem, foi mal, essa é horrível, são os momentos ruins na vida de uma pessoa. Eu tinha uns 13 anos poxa! Sei lá, a turma do bairro resolveu ir, e topei. “Meu mel não diga adeus/Eu tenho tanto tempo”. Não sei se era dele, mas fica sendo. Essas músicas de mel. Aconteceu, não posso fazer mais nada, é só aceitar.

Gostei muito do Gilliard

Meu irmão, o Tonho, adorava o Gilliard, e acho que foi por osmose. No aniversário dele, a minha mãe dava um jeito de comprar o vinil, com a foto do cara na capa. “Aquela nuvem que passa/ Mar afora sou eu/ Aquela folha que passa”. Por aí vai. Quero dizer, ía. Gilliard era um boa praça danado. O incrível é isso. Se juntar Biafra e Gilliard no Chevrolet Hall eu viajo para Manaus, só para não passar perto. Outro dia fiquei sabendo que o Gilliard virou dono de farmácia.

Confisquei comida dos outros em geladeira de albergue

Novamente, aconteceu, e não foi nada de extraordinário. Foi no albergue de Buenos Aires, em San Telmo, onde fiquei várias vezes, fazendo minhas pesquisas do mestrado. Nas duas geladeiras, cada hóspede montava sua caixinha de plástico com sua comida e botava o nome. A turma, no geral, só comia o que era seu mesmo, nessa ética dos viajantes que tanto prezo.

Mas tinha uma moça da Suiça que era chata pacas, e mesmo sendo suiça, era feia pacas. Ela tinha um olhar preconceituoso que conheço de longe. Arranjava arenga por qualquer besteira, a sacaninha.

Então, na calada da noite, eu seguia com meu pé de lã, andava de mansinho, abria a geladeira e olhava o nome dela: Laila. Não sei se o nome é esse, mas fica sendo, porque a memória é mais forte que a reles lembrança.

Eu pegava a caixinha da Laila, e era uma delícia (a caixa, não a Laila). Queijo suiço, chocolate suiço, azeite, pão e queijo. Só não tinha relógio suiço, que pena. Eu fazia um baita de um sanduiche e depois dormia como um passarinho. No outro dia, era uma confusão dos diabos, para saber quem tinha mexido nas coisas da Laila.  Ra ra ra nunca fui descoberto.

Furtei a Livro 7

Quando soube que a Livro 7 tinha quebrado, eu morava em São Paulo. Fui para um boteco, chorar minhas dores, sabendo que nunca mais marcaria um encontro com alguém na Livro 7.  No começo, me senti culpado, fiz alguns ataques àquelas e memoráveis prateleiras, usando táticas de guerrilha literária que posteriormente transformarei em um guia para iniciantes.

Fiquei com este sentimento de culpa até que escrevi uma crônica no JC On line, em 2006, creio, confessando o crime, e recebi uma penca de comentários, de outros larápios. Teve uma pessoa que conseguiu leva, nas intocas, até o Aurélio! Se fossem fazer uma CPI sobre os ataques à velha e boa livraria, poucos escapariam, inclusive sujeitos que hoje são deputados, senadores, funcionários da Justiça, ex-xepeiros em geral. Só os homens e mulheres de bem. E de bens.

Já dei um pinguim de geladeira a uma aeromoça

Calma, amigos, não é o caso clássico de “dar em cima da aeromoça gostosa e linda”, porque as aeromoças de hoje estão deixando muito a desejar. Também, quem precisa de beleza para entregar uma barrinha de cereal dizendo “senhor, suco ou água?”

A aeromoça em questão era gente finíssima, e eu estava mesmo nervoso pacas, temendo o pior para mim e todos os confrades dentro da aeronave – uma eventual queda, com nenhum sobrevivente.

Na época, éramos felizes, porque serviam bebida no voo, e na época, vôo tinha acento, que era muito lindo. Sibele (se não for, fica sendo), me tratou tão bem, me serviu tantas doses a mais, que dormi feito uma criancinha e não senti nenhuma trepidação.  Antes de descer, peguei um pinguim de geladeira que estava na minha mochila (acho que tinha comprado em Belo Horizonte, não lembro, faço cada maluquice) e ofereci de presente. Não é que a moça ficou exultante, dizendo que era um presente maravilhoso?

Os tempos mudaram, nunca mais viajei com pinguim de geladeira na mochila, nem me ofereceram dose alguma a mais, as não ser amendoim ou barra de cereal. Tenho vários sonhos, um deles é encontrar o dono da Gol e dizer que ele não revolucionou a aviação brasileira, ele mediocrizou nossa merenda nas viagens, isso sim, por isso que nunca viajo pela Gol.

Usei o WC da Sorbonne

Este realmente foi um momento inesquecível deste velho vagabundo semi-profissional. Estava andando em Paris, um flaneur nascido no Crato, quando me vi dentro da Sorbonne. Ora ora, foi o que pensei, a catedral do saber. Por aqui já passaram todos os grandes, e eu de bobeira, sem realizar um ato de impacto, sem uma reflexão que ficasse para a humanidade, uma parábola, uma frase de efeito.

Quando estava nessa alegria, me veio uma dor de barriga afrancesada e rapidamente encontrei o WC da Sorbonne. Utilizei-o com pensamentos filosóficos. Pensei em escrever algo na porta, do tipo “vim, vi e fiz das minhas”, mas me pareceu vulgar demais, fiquei somente meditando sobre a importância do WC no pensamento filosófico ocidental.

Usei também o WC da sede da ONU

Sinceramente, não achei nada de tão importante assim. Acho a ONU, inclusive, uma entidade reaça pacas.

Vou ali, no Caudinho do Biu, no Alto José do Pinho, tomar uma gelada, que hoje é feriado no Recife. Lá, tentarei lembrar de mais coisas para concluir esta postagem. Para quem acha que estou brega demais, adianto que conheço três amigas que foram para o show dos Menudos, e hoje são todas mães de família. Elas gritavam pacas “Robbin!”

“Não se reprima, não se reprima, ôôô…”

Parte 2

Dei um ganho no caderno de fiados do meu bar predileto

Não sei quando foi, mas certa vez, eu estava bastante mamadinho no meu bar predileto, em São Paulo, e vi que o caderno dos fiados estava de bobeira, dando sopa. Não vacilei. Num bote clássico e rápido, surrupiei o cobiçado objeto e levei para casa. No outro dia, quando acordei, ele estava ao lado da minha cama. Os dois portugueses estavam loucos já. Desci para o café com aquela cara conhecida de uma pessoa que fez besteira, mas não entreguei o ouro ao bandido.

Pedi um café, escutei as reclamações de Manuel, atormentado com o sumiço do caderno, repeti aqueles bucólicos “que coisa, né”, e esperei Manuel pegar algo lá dentro. Sorrateiramente, coloquei no mesmo local, terminei meu desjejum e dei no pé. Não sei se o portuga percebeu, mas nunca falou nada.

Me hospedei em albergue com o nome do meu querido poeta argentino

Essa teve a participação especial do potiguar Sir Gustavo de Castro, que agora vive em Brasília. Estávamos perambulando por Salvador, e quando nos hospedamos num albergue que fica no Pelourinho, pediram para preenchermos a ficha. Instintivamente, botei meu nome como Juan Guelman, ele colocou Roberto Juarroz, ou vice-versa. O fato é que passamos um dia hospedados, como sendo os dois maiores poetas da argentina, segundo nossas avaliações e impressões. Aproveitei para botar o endereço misturando ruas e bairros das cidades que vivi, de modo que se o albergue incendiasse e morressem todos, não teriam como comunicar às nossas famílias.  

Mas bastou ler as primeiras confissões dos leitores, para ver que sou café com leite nos pequenos pecados. O senhor George, por exemploi,  furtou um pinguim de geladeira de um boteco e fingiu que era sequestro, com carta e tudo! Esse sim, é um gênio da raça.

Vou tentar o mesmo com Seu Vital. Depois conto como foi.

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