Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias | Por Samarone Lima

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Ademar

2 de agosto de 2010, às 11:47h por Samarone Lima

Tio Ademar sempre foi conhecido como “Careca”, no Crato, coisa que nunca entendi direito, porque ele sempre teve cabelos de sobra. Por isso, nunca chamei meu tio de Careca.

Quando a gente viajava de Imperatriz para o Crato, nas férias de julho, eu ficava especialmente feliz porque encontrava um monte de primos, tios, mas adorava encontrar minha madrinha, que se chama Piinha, uma das mulheres mais lindas que já conheci, e tio Ademar, que era o aventureiro da família, e tinha uma C-10 que fazia nossa alegria. Teve sempre um pequeno desvio de caráter, que foi sua paixão louca pelo Flamengo, mas tudo bem, isso acontece, cada qual com sua cruz, eu vou me virando com meu Santa Cruz.

A família quase toda migrou para Fortaleza, e tio Ademar também.

Os problemas de saúde do velho tio começaram a se tornar crônicos. Nos últimos dois meses, duas cirurgias, complicações, hospital direto, eu sempre pegando notícias por telefone, com minha mãe, tia Teresa, que por sinal se chama Teresa de Lisieux. Vez por outra eu falava com tio pelo celular dele.

“Fala mago”, diz sempre tio.

Semana passada me deu aquele sentimento. Tenho que ver o velho e bom Ademar. Não posso adiar um dia sequer. Na quinta à note, peguei um ônibus, sexta de manhã estava em Fortaleza. Foi o dia da cirurgia número dois dele. Só deu tempo de visitar  tia Teresa e tia Maninha, à noite.

No sábado, cheguei ao hospital. O paciente estava na UTI, no pós-operatório. Só uma pessoa poderia entrar. Daqui a pouco chega Sergei, filho de tio Ademar.

“Vamos entrar os dois”, disse, me dando um abraço.

Ele explicou à médica que eu era sobrinho, tinha vindo de São Paulo só para ver o tio, a moça deixou entrar os dois, um de cada vez. Fui na frente.

Tio estava dormindo. Aqueles fios de UTI são de doer. Fiquei ao lado, segurei na mão dele e vi que finalmente o apelido ganhava sentido. Tio Ademar está ficando careca mesmo.

A médica perguntou algo, ele abriu os olhos, respondeu, depois me viu.

“E aí, mago…”

Conversamos uns vinte minutos. Mostrei as fotos que levei, do batizado de sua filha Júlia, em 1976. O bicho era estiloso, com um baita óculos escuros. Reconheceu todo mundo nas fotos, conversamos umas coisas da vida.

Pouco antes de entrar, Sergei tinha me falado que justamente neste dia, era o aniversário do velho.

“Tio, Parabéns”, disse.

“Valeu, Mago”, respondeu, com um sorriso fraco.

Saí, falei com Sergei, que estava emocionado com a coisa do aniversário.

“Acho que vou chorar”, disse.

“Então chora”, respondi.

Sergei entrou na UTI, fiquei no corredor do hospital.

Corredor de hospital é um dos lugares mais solitários do mundo. Pode estar cheio de gente, mas a pessoa está só. Ela e seus sentimentos, saudades, memórias, tristezas. Nessas horas, eu posso ver a humildade, quase tocá-la, com uma ingenuidade de criança que tirava fotos com os bois da Exposição do Crato.

Depois, meu primo saiu. Estava emocionado.

“Hoje ele faz 63 anos. Eu tenho 36”.

Saímos caminhando.

“Sabe o que ele disse quando fui saindo?”

Eu não sabia, mas imaginava.

“Não deixe o Samarone sozinho não. Vá comemorar meu aniversário com ele”.

Fizemos alguns brindes ao aniversariante.

Ontem, ele saiu da UTI. Tinha dez parentes no quarto, esperando por ele. Irmãs, sobrinhos, filha, neta.

Quando a cama dele entrou no quarto, ele me olhou e perguntou:

“Mago, quanto foi o jogo do Flamengo?”

Eu amo esse cara, esse tio, e sei que ele sabe disso.

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