Ademar
Samarone Lima
Tio Ademar sempre foi conhecido como “Careca”, no Crato, coisa que nunca entendi direito, porque ele sempre teve cabelos de sobra. Por isso, nunca chamei meu tio de Careca.
Quando a gente viajava de Imperatriz para o Crato, nas férias de julho, eu ficava especialmente feliz porque encontrava um monte de primos, tios, mas adorava encontrar minha madrinha, que se chama Piinha, uma das mulheres mais lindas que já conheci, e tio Ademar, que era o aventureiro da família, e tinha uma C-10 que fazia nossa alegria. Teve sempre um pequeno desvio de caráter, que foi sua paixão louca pelo Flamengo, mas tudo bem, isso acontece, cada qual com sua cruz, eu vou me virando com meu Santa Cruz.
A família quase toda migrou para Fortaleza, e tio Ademar também.
Os problemas de saúde do velho tio começaram a se tornar crônicos. Nos últimos dois meses, duas cirurgias, complicações, hospital direto, eu sempre pegando notícias por telefone, com minha mãe, tia Teresa, que por sinal se chama Teresa de Lisieux. Vez por outra eu falava com tio pelo celular dele.
“Fala mago”, diz sempre tio.
Semana passada me deu aquele sentimento. Tenho que ver o velho e bom Ademar. Não posso adiar um dia sequer. Na quinta à note, peguei um ônibus, sexta de manhã estava em Fortaleza. Foi o dia da cirurgia número dois dele. Só deu tempo de visitar tia Teresa e tia Maninha, à noite.
No sábado, cheguei ao hospital. O paciente estava na UTI, no pós-operatório. Só uma pessoa poderia entrar. Daqui a pouco chega Sergei, filho de tio Ademar.
“Vamos entrar os dois”, disse, me dando um abraço.
Ele explicou à médica que eu era sobrinho, tinha vindo de São Paulo só para ver o tio, a moça deixou entrar os dois, um de cada vez. Fui na frente.
Tio estava dormindo. Aqueles fios de UTI são de doer. Fiquei ao lado, segurei na mão dele e vi que finalmente o apelido ganhava sentido. Tio Ademar está ficando careca mesmo.
A médica perguntou algo, ele abriu os olhos, respondeu, depois me viu.
“E aí, mago…”
Conversamos uns vinte minutos. Mostrei as fotos que levei, do batizado de sua filha Júlia, em 1976. O bicho era estiloso, com um baita óculos escuros. Reconheceu todo mundo nas fotos, conversamos umas coisas da vida.
Pouco antes de entrar, Sergei tinha me falado que justamente neste dia, era o aniversário do velho.
“Tio, Parabéns”, disse.
“Valeu, Mago”, respondeu, com um sorriso fraco.
Saí, falei com Sergei, que estava emocionado com a coisa do aniversário.
“Acho que vou chorar”, disse.
“Então chora”, respondi.
Sergei entrou na UTI, fiquei no corredor do hospital.
Corredor de hospital é um dos lugares mais solitários do mundo. Pode estar cheio de gente, mas a pessoa está só. Ela e seus sentimentos, saudades, memórias, tristezas. Nessas horas, eu posso ver a humildade, quase tocá-la, com uma ingenuidade de criança que tirava fotos com os bois da Exposição do Crato.
Depois, meu primo saiu. Estava emocionado.
“Hoje ele faz 63 anos. Eu tenho 36”.
Saímos caminhando.
“Sabe o que ele disse quando fui saindo?”
Eu não sabia, mas imaginava.
“Não deixe o Samarone sozinho não. Vá comemorar meu aniversário com ele”.
Fizemos alguns brindes ao aniversariante.
Ontem, ele saiu da UTI. Tinha dez parentes no quarto, esperando por ele. Irmãs, sobrinhos, filha, neta.
Quando a cama dele entrou no quarto, ele me olhou e perguntou:
“Mago, quanto foi o jogo do Flamengo?”
Eu amo esse cara, esse tio, e sei que ele sabe disso.
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18 Comentários »




2 de agosto de 2010, às 13:31h
Saúde para o tio Ademar!
Quando leio seus textos parece-me que conheço e sou íntima de todos…
Obrigada por existir e escrever – sobre dores e alegrias.
2 de agosto de 2010, às 13:31h
Oi Samarone, lindo seu texto. Estou vivendo algo parecido e me emocionei com seu texto.
O amor é isso……
Bj
2 de agosto de 2010, às 16:35h
movimento de amor sempre vale a pena… é a dança da vida… lindo você!
2 de agosto de 2010, às 16:56h
Velho,
te digo o que tenho a dizer ao vivo ou por telefone.
passei por isso em 2008, mas nem pude me despedir de minha Tia Ida, que, na verdade, era Auxiliadora.
2 de agosto de 2010, às 19:28h
Sama, ele, seu tio, sabe disso: desde os tempos imemoriais.
Abraços
2 de agosto de 2010, às 19:55h
Pra não fugir da regra, um texto pleno de sensibilidade! Saúde!
Abaço.
2 de agosto de 2010, às 21:26h
Oi Samarone
Concordo com você, trabalho em UTI e sinto como as pessoas se sentem sós, mesmo rodeadas de muita gente.Cada qual com sua dor, sua angústia, sua esperança … ou não.
Luisiana
2 de agosto de 2010, às 21:42h
Complementando:
Que bom ter dado tempo,sua ficha caiu e você viu seu tio.Momentos não voltam mas os bons devem ser lembrados.Saiba que sua visita fez um bem danado ao seu tio,principalmente no aniversário dele.
UTI é fria,gelada até, mas a gente aquece os corações gelados com estes gestos ,corações que também batem de saudade.
Luisiana
2 de agosto de 2010, às 21:50h
Sabe, já vim aqui e li esse texto, algumas vezes, e é um daqueles em que as palavras tornam-se inefáveis. Não li apenas com os olhos, mas com a alma, os poros e toda emoção (como sempre), e me deixei levar pela delicadeza do amor, do respeito que tens pelas pessoas, e da importância que é essa partilha.
Deixo um abraço afetuoso para os dois.
5 de agosto de 2010, às 17:04h
Força Sama.
5 de agosto de 2010, às 18:14h
Ufa! Ainda bem que teve final feliz, bicho. Salve, salve!
7 de agosto de 2010, às 17:07h
Atualiza ai o blog do Gustavo http://casadasmusas.org.br/blogs/gustavo/
bj.
Yvette
8 de agosto de 2010, às 11:50h
O velho Samarone, que escreve leve e emociona.
Tô fazendo um trabalho e na equipe tem um conhecido seu. Herivelton. Um garoto gente boa de Recife.
grande abraço, escritor
9 de agosto de 2010, às 11:26h
OI NOBRE SAMA,
SENSIBILIDADE À FLOR DA PELE!!!
É ISSO!!!
ABRAÇÃO FRATERNO,
GEYSON MONTE
9 de agosto de 2010, às 13:44h
Grande Samarone, muito bom reencontrá-lo. Um grande abraço meu velho.
9 de agosto de 2010, às 22:12h
Samarone, espero que nesta data ele já esteja melhor. Concordo que corredor de hospital é um dos lugares mais solitários do mundo. Concordo inteiramente com suas palavras em relação à solidão experimentada quando se está nessas situações. Mas leito de hospital também não é agradável, sobretudo de UTI. É tão solitário quanto o corredor. Já estive dos dois lados. Beijos. Até mais!
9 de agosto de 2010, às 22:25h
Samarone, achei interessante esta resenha, do jornalista Daniel Piza, sobre um dos livro de Bruno Tolentino, e quero compartilhar neste espaço, já que todos por aqui gostam de poesia, e para muitos, Bruno Tolentino foi e é o melhor poeta brasileiro.
Por que “A Balada do Cárcere” é bom
fonte: Gazeta Mercantil 06 de dezembro de 1996
Esqueçam os poetas. Estamos com sede de poesia. Esqueçam as classificações. Precisamos de criadores. Bruno Talentino é conhecido por amizades com escritores famosos, por revistas que dirigiu, por ter estado preso, por ter morado em diversos países, por polêmicas que vem mantendo com pessoas que confundem vanguarda com vantagens e só querem saber de contá-la em vez de produzir poesia, “poiesis”, “Dichten”, arte. Mas esqueçam Bruno Talentino. E leiam “A Balada do Cárcere”, seu melhor livro.
Havia muitos anos um livro de poemas de tal qualidade não era publicado nos tristes trópicos. É de vanguarda ou tradicionalista? É romântico ou moderno? É moderno ou pós-moderno? Esqueçam as respostas. O que nos está fazendo falta são as perguntas. “Pobre infeliz! Nunca tem mais que a bruma e, aflita,/só entre assombrações,/sua alma pavoneia-se, torna-se a gralha, imita/os gritos do povão ciscando entre os pinhões./Se um som assim te irrita,/leitor, feche este livro e vai ouvir canções…” Pobre é aquele que, por prestar atenção a tantos discursos, não consegue ouvir esses sons.
O que essa poesia nos dá? Nos dá imagens, metáforas, símiles que misturam concreto e abstrato, luz e sombra, figura e fundo, sugerindo o “chiaroscuro” sofrido da prisão. “Os pântanos do ser”, “exaustas de tossir contra um céu frio”, “aqui, onde fez sombra um movimento, cobre de esquecimento o ouro das manhãs soltas na brisa”, “Penélope fria que tece a escuridão”, “o amor, essa cisterna cheia dos sons mais ocos”, “um soluço de amor estrangulado”, “a alma curvada sobre o esfarelamento das palavras”, “o dente do desejo é traiçoeiro”, “chega ofegante à curva do limite”.
Em certas estrofes, atinge a harmonia inesquecível, como no poema “A Gralha”. “É então que aquele pária das próprias ilusões,/o encarcerado que ninguém visita,/gruda-se às grades como a parasita/ao fim das estações/e, a sós com os nevoeiros, se limita/a desfolhar visões”. Há versos com achados de linguagem – “o soco olhar do sicário”, “sem escuta e sem escolta”, “a angústia de gerações/como inquilina constante” – e há versos plenos de sensibilidade intelectual. E não são versos pinçados: há farta distribuição de bons versos nesse livro. O poema “O Numeropata”, sobre um preso que exibe seu número na nuca, é todo ele um exemplo – “um escombro cujas queixas/ninguém se dera ao trabalho/de ouvir cair como a chuva,/como as garoas do orvalho/sobre as ruínas da culpa”.
Por vezes, essa poesia assume o paramorfismo, indicando na própria construção verbal o objeto que descreve: “Da memória, essa inimiga/que tece e retece a teia/em torno de um prisioneiro,/a aranha que volta e meia/enreda e solta o desejo”. O poeta se tece como a aranha e a memória. Por outras, a imagem ganha a força do escape, num correlato objetivo: “A aranha que da memória/fazia a teia em visita/aos vértices do vazio”. A memória se amarrando no vazio… Que outra poesia feita nos anos 90 ofereceu imagem tão forte, com tanto teor e tear filosófico? Quem dirá que os seguintes versos não são dos maiores que se escrevem hoje? “Se a alma é sempre o suporte/daquela metamorfose/que faz e desfaz o forte,/o conta-gotas da morte/serve as almas dose a dose”. Se assinadas, digamos, por Murilo Mendes, essas aliterações sombrias em “o” e “e” seriam saudadas como impressionantes. Não há teoria poética deste século cuja limitação não fique exposta diante de tais versos.
“A Balada do Cárcere” junta melopéia, fanopéia e logopéia, nos termos de Ezra Pound: recorre a melodias, imagens e idéias para realizar sua dança soturna. Mas o que faz sua força não só a sofisticação verbal; é também sua congruência com o assunto. O poema “Descobertas”, por exemplo, diz que a paixão e a primavera não passam de “mera, febril aproximação da jaula aberta da fera” e aí vêm mais cortes metonímicos, “tremor contínuo da mão/que agarra o gradil e enterra/as unhas na solidão/que força mas não descerra”. Da cadeia para o preso, do preso para a mão, da mão para a unha, e da unha de volta para a solidão da cadeia. Essa sucessão comunica a sensação claustrofóbica, somada ao poder sugestivo da imagem de uma mão tentando rasgar o escuro e, a não ser pelo breve instante do gesto, nunca vencendo-o. O homem, nesses poemas, é visto entre a culpa e a pose, entre o desengano e a contrafação, entre o desejo e a alma.
“O coração desdenha quase tudo depois, senão durante”. “O perigo para a criatura/É não confiar no invisível”. “A beleza é um precipício”. “O ser é a visão que procura”. Dentro de um repertório gótico, a seqüência de poemas vai criando uma atmosfera em que presos resignados sofrem a letargia num local quieto e escuro, onde até a luz que entra de vez em quando é fria, onde imperam o vento e o desalento e “a carne é lenha condenada”. Mas o estilo não é gótico; não se encaixa em definições, porque não exalta nem condena. Ele flui à força de “enjambements”, embora não seja palavroso ou melífluo; ganha arestas no fato de que o esquema rímico e estrófico raramente coincide com os sintagmas das orações.
Aquela atmosfera é apenas o produto de substantivos e adjetivos, de ritmos e conceitos, de fatos e paradoxos, de dores e sinceridades, de referências e descrições – enfim, de tudo que a linguagem, carregada de sentido, pode fazer sentir e pensar. Num curto verso, “A véspera desespera”, todos esses elementos estão condensados. É este o grande mérito dessa poesia, a melhor que o Brasil dispõe nesta década. Que se leia e que se recupere o valor da arte diante de todo reducionismo e personalismo, diante de toda a crise cultural do visível.
14 de agosto de 2010, às 0:38h
Esse sentimento compreeendo perfeitamente,pois quando passei parte da minha infância em Arapiraca,meu tio me levava para vê-lo jogar,era um lateral cheio de estilo,porém era um puta boêmio,contador de piadas,vascaíno,pense num “mala”.Quando cheguei na adolescência vários foram os porres que tomamos juntos,coisas do interior,outro dia veio ao Recife,quando me perguntou pela cachorra de peruca,não hesitei,levei-o ao ARRUDA e dei-lhe de presente uma caneca do SANTA CRUZ.Assim a vida segue e tenho certeza que seu tio se recuperará!!!