Homem molhado, vida seca. Ou: “Os fuzis da senhora Carrar”
Samarone Lima
Foi um sábado cheio de bondades, esse que a vida me deu. Desde a manhã ao anoitecer, pessoas queridas, descobertas, um bom almoço com o velho amigo Inácio, palestra razoável na Livraria Cultura, café no Bairro do Recife, até que veio o crepúsculo, e decidi. Era o momento de assistir “Os fuzis da senhora Carrar”, de Brecht, sob a direção do velho amigo e mestre João Dênys.
Mais que isso, queria ver em cena a adorável Stella Maris Saldanha, minha amiga de Universidade Católica, que outro dia me entrevistou, aqui em casa, e me fez tirar os poemas das gavetas, ou das caixas.
Pouco antes das 18h, entrei naquele pequeno e aconchegante Teatro Hermilo Borba Filho. Não imaginava que seria inundado por uma emoção tão grande. A beleza do espetáculo, a atuação impecável de todo o elenco, a direção sempre certeira de Dênys e a soberba, deslumbrante presença de Stella, me levaram às lágrimas. Há tempos não sentia isso no teatro.
Ao final, não me contive. Fui ao camarim abraçar os atores. Pedi um autógrafo a Stella e disse aos atores que estavam de parabéns. Não sei como está a vida cênica da cidade, mas sei que temos uma peça extraordinária em cartaz, aos sábados e domingos, às 18h, no teatro Hermilo Borba Filho.
Saí do teatro debaixo de uma chuva fina, com muito vento. Saí lembrando de algumas cenas, de muitas falas, e de um momento especial da peça, em que a senhora Pérez diz à senhora Carrar:
“Para quem é pobre, não há segurança alguma na vida. Nós somos sempre os que apanham, de um jeito ou de outro. E a essses que apanham sempre é que dão o nome de pobres. E aos pobres, não há providência que salve”.
Rapidamente fiquei molhado, à espera de um táxi, na esquina, até que parou um ônibus, o Nova Descoberta/Derby.
“Amigo, passa na Conde da Boa Vista?”
O motorista, um senhor bigodudo de uns cinquenta e poucos anos, respondeu duro que não, mas disse um “entra aí, que tu fica lá na frente, aqui é muito ruim com essa chuva”.
Descobri que o ônibus passaria perto da minha casa. O homem sério e duro disse “fica aí mesmo, não precisa passar, tu vai já descer mesmo”, enquanto engatava marchas no Recife debaixo de uma chuva fina mas persistente, dessas que molham plantas, gentes, cães, distraídos, que não respeitam guarda-chuva. Chuva de assanhar a paisagem.
Perguntei ao homem se era a última viagem, o suficiente para que ele me resumisse sua vida seca em alguns segundos.
“É a última, graças a Deus. Entrei às cinco da manhã, vou saindo agora”
Eram quase oito da noite.
“Mas amanhã tás de folga, né?”
“Amanhã entro de quatro da manhã, saio de duas da tarde. Só no outro domingo terei folga”, respondeu, enquanto chegávamos ao Parque 13 de Maio.
“Vou descer aqui. Vou para a rua da Aurora”, disse.
O que parecia um homem duro disse que não me preocupasse, que ele me deixava na esquina, porque era “mais perto de casa”.
E súbito, aquela vida seca me pareceu uma falha no meu entendimento. Era apenas um homem exausto, sugado pela máquina de trabalhar deste meu país, e que certamente não trocou mais que algumas palavras, ao longo de várias horas dirigindo um ônibus. Chegaria em casa exausto. Teria o tempo somente de comer algo, descansar algumas horas e acordar novamente, na madrugada do domingo.
Enquanto ele dirigia, me lembrei de cada palavra da senhorar Pérez, e da intensidade da senhora Carrar.
Desci, caminhei tentando não molhar o programa, com o autógrafo de Stella, e agradeci por algo que não sei o nome.
**
Trecho de João Dênys no programa:
“A obra Os fuzis da senhorar Carrar nos situa frente a uma retomada de posições em guerras silenciosas, sem marchas solenes, sem pronunciamentos bombásticos, sem palavras de ordem, em territórios aparentemente sem muros, sem união de gentes diferentes, sem bandeiras a defender e desfraldar, mas com igrejas inflexíveis, com anestesia global, com o terror banalizado, com um capitalismo cada vez mais bruto, com armas tão exageradamente letais que fazem dos velhos fuzis de Teresa Carrar, ou de quem quer que os esconda, alfinetes de insegurança com conexão virtual total”.
O espetáculo está em cartaz no teatro Hermilo Borba Filho, aos sábados e domingos, às 18h.
NOTA: O estuário está com um problema técnico, e ninguém consegue comentar. Quando a pessoa clica, vai para o site globo.com
Informo que não é intenção do autor (este tipo de parceria), e que ele não está recebendo por isso. O provedor está tentando resolver. (Samarone)
Postado em Crônicas |
3 Comentários »





1 de setembro de 2010, às 17:37h
1, 2, 3, testando…
probelma resolvido.
2 de setembro de 2010, às 0:44h
Agora tento reproduzir o que escrevi quando o blog ficou doido.
Bela crônica. O alento cultural ou alimento (a letra da canção pop “comida” dos finados titãs traduz bem isso), ao lado do desalento nu e cru da realidade, na passagem do personagem que dirige o ônibus, afugentado por uma dor crua, a de ser pobre, trabalhador e não ter direito a nada. Ou quase nada.
Sou meio desconfiado com a poesia dita política, porque – não raro – ela incorre em panfletarismos, e águas rasas que desnaturam as palavras, datando os poemos e envelhecendo so versos.
Mas já que o assunt é Bretch, lá vai um poema clássico, que casa bem com o final da crônica:
“PERGUNTAS DE UM OPERÁRIO QUE LÊ
Quem construiu a Tebas das Sete Portas?
Nos livros constam nomes de reis.
Foram eles que carregaram as rochas?
E a Babilônia destruída tantas vezes?
Quem a reconstruiu de novo, de novo e de novo?
Quais as casas de Lima dourada
abrigavam os pedreiros?
Na noite em que se terminou a muralha da China
para onde foram os operários da construção?
A eterna Roma está cheia de arcos de triunfo.
Quem os construiu?
Sobre quem triunfavam os césares?
A tão decantada Bizâncio era feita só de palácios?
Mesmo na legendária Atlântida
os moribundos chamavam pelos seus escravos
na noite em que o mar os engolia.
O jovem Alexandre conquistou a índia.
Conquistou sozinho?
César bateu os gauleses.
Não tinha ao menos um cozinheiro consigo?
Quando a “Invencível Armada” naufragou,
dizem que Felipe da Espanha chorou
Só ele chorou?
Frederico II ganhou a guerra dos Sete Anos.
Quem mais ganhou a guerra?
Cada página uma vitória.
Quem preparava os banquetes da vitória?
De dez em dez anos um grande homem.
Quem paga as suas despesas?
Tantas histórias.
Tantas perguntas.”
Bertold Brecht
20 de outubro de 2011, às 22:44h
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