Foi em dezembro de 2007 que tudo começou. De veneta, resolvi botar a mochila nas costas e conhecer Cuba. Durante quase um mês, perambulei pela ilha de norte a sul, conheci o povo, conversei muito, escutei mais ainda, anotei milhares de coisas, relatos, informações, cenas. Voltei em janeiro de 2008 com quatro cadernos cheios, apinhados. Era a única coisa na bagagem que tinha realmente importância.
Desci no Rio de Janeiro, pedi 15 dias de licença do trabalho e me intoquei no apartamento de Andrezza, em Botafogo. Comecei a passar tudo para o computador, de forma febril. Depois, imprimia e fazia as correções em um bar. O Rio de Janeiro é mesmo uma cidade maravilhosa, tem um barzinho em cada esquina.
Eu tenho uma intuição literária danada. Sinto quando vai sair um livro, quando é a hora. Sou extremamente paciente, mas ali, havia uma certa urgência. A urgência do contar. O sentimento de ter levantado uma cortina, sem que percebessem.
Estava nascendo algo ali, e tentei contato com a editora Objetiva, que tinha editado meu livro “Clamor”, em 2003. A minha editora na época estava de férias. O subeditor disse que eles até estavam pensando mesmo num livro, pois estava bem próximo do cinquentenário da Revolução Cubana, que tiveram muitas reuniões sobre o assunto. Pronto, é agora, foi o que pensei. Combinamos que eu mandaria os primeiros capítulos.
Mandei ver. Passei sebo dos dedos. Mandei os 10 primeiros capítulos, bem parecidos com os que foram publicados. Depois de alguns dias, liguei para saber a resposta.
“Olha, nossa avaliação é que o material é bom, mas se Fidel Castro morrer, o livro fica sem sentido, perde o valor”.
Achei muito engraçado aquilo e toquei em frente. Fidel estava doente, mas a morte dele em nada alterava o rumo da prosa em Cuba. A transição já estava feita, e Raul Castro já saíra da sombra do irmão. Era o novo comandante-em-chefe. Talvez o subeditor não tenha gostado mesmo foi do texto. Acontece.
Voltei para o Recife com a estrutura do livro parcialmente montada, fui trabalhando nos demais capítulos nas horas de folga do trabalho. Depois de alguns meses, terminei tudo. Imprimi o material, mandei para alguns amigos, que acolheram de forma efusiva. Lembro de Homero Fonseca, dizendo que seria um “livrão”, e antecipando que eu levaria muitas chicotadas, especialmente da gente de esquerda. Coube a Flávia Suassuna me dizer o título, em um email, ou conversa, não lembro.
“Mas Samarone, você fez uma Viagem ao Crepúsculo!”
Animado com a acolhida, mandei os originais para cinco editoras, acompanhado de uma cartinha, falando da minha trajetória como escritor. Mandei para Objetiva, Editora 34, Companhia das Letras, Record e Cosac Naify.
Nenhuma respondeu.
Então surgiu a editora Casa das Musas, em Brasília. Gustavo de Castro, o editor, topou a parada, junto com Florence Dravet. Os dois começaram a trabalharam nos originais. Neste momento, Sérgio Buarque me mandou um email longo, fazendo uma análise mais aprofundada sobre o que lera. Era um primor, o texto, e fiquei lisonjeado. Ganhei de presente a orelha do livro.
Em julho, viajei a Brasília. O livro estava quase pronto. Só a foto da capa não me caiu bem. Descobri que o fotógrafo Beto Figueiroa tinha feito uma bela exposição de uma viagem a Cuba. Pedi para ele me mandar algumas imagens. Quando bati o olho em uma delas, disse comigo mesmo – aqui está a foto da capa.
Beto fez um preço camarada e o livro finalmente foi impresso.
O lançamento foi em agosto, no bar Mamulengo, no Bairro do Recife. Uma imensa farra. Como tinha sido em co-edição, eu tinha que vender bastante, para pagar as contas. Vendemos uns 170 livros, creio. Foi um alívio. Deu para pagar a primeira parcela da gráfica. Bebemos um bocado, eu e os amigos.
Começava então a fase da “provação”. Agora, os leitores é quem dariam destino à minha viagem, aos meus escritos, minhas impressões.
Não sabia que teria outra provação: a luta pela distribuição dos livros. Como a Casa das Musas é uma editora pequena, sem muitos recursos, dividi com Gustavo a missão de mula da minha obra. Ele, em seu Ford K vermelho todo remendado, botava a carga pela Itapemirim, eu buscava na Kombi de Naná, trazia para casa. Numa das vezes, dei um livro de presente à secretária da Itapemirim, ela ficou eufórica.
Comecei a levar lotes para a livraria Cultura, que enviava para a rede inteira. Fui conhecendo todos os vendedores. Miller, Chassel etc. Os pedidos que me chegavam por email, a Gabriela, que é quase minha secretária, postava. E assim fomos andando, devagarzinho, aos poucos, por fora, sem alarde.
Um belo dia, cheguei na Cultura com mais um lote (livro pesa pacas!) e o Chassel, comentou:
“Chegou nosso best-seller”.
Descobri que estávamos vendendo uma média de 20 livros por semana. A maré estava virando. Minha esposa, Sílvia, que tem uma assessoria de Imprensa, a Íntegra, me ajudou na divulgação. Ela, Aninha e Flávia.
Veio a segunda edição. Mais mil livros. A mesma luta. Escritor-mula. Mas muitos retornos positivos, email de gente que começou a refletir um pouco mais sobre a realidade de Cuba, sem as idealizações de quem está distante. Muitos email de cubanos que vivem no Brasil me deixaram bem feliz. Agradeciam por ter contado o outro lado da realidade do país, a repressão, enfim.
Na Bienal do Livro de Pernambuco, tomei um pau no debate. O debatedor, amante da Revolução Cubana, tratou meu livro como um lixo, não aceitava crítica a Cuba, ao seu sonho revolucionário, em hipótese alguma. Ao final, a deselegância desnecessária. Sugeriu que eu tinha recebido alguma dinheiro, “para falar mal de Cuba”. Foi uma pena o comentário, achei ofensivo, mas não precisei fazer muito esforço – o público tratou de dar as resposta. No dia seguinte, perambulando pela Bienal, uma senhora me parou.
“Você não é o autor do Viagem ao Crepúsculo?”
“Sou sim”.
“Pois me dê um autógrafo. Achei aquele senhor tão mal educado, tão grosso, que pensei – esse livro deve ser bom”.
Eu teria dezenas de histórias para contar, o radialista que me esculhambou ao vivo em seu programa diário, mas fiquemos por aqui. Quero mais é compartilhar essa alegria.
Como alguns leitores já sabem, o livro “Viagem ao Crepúsculo” ficou entre os 10 finalistas do Prêmio Jabuti, o maior prêmio literário do Brasil. Fui olhar a lista. A Casa das Musas é a única editora pequena que entrou no bolo. Estamos lá. Furamos um cerco, eu sei. Uma façanha literária e humana.
Vamos para a terceira edição, agora com a ajuda de um amigo, que entende de distribuição, e vai cuidar desse duro trabalho, que é fazer o livro circular. Creio que me livrarei dos livros nas costas.
Também semana que vem, será disponibilizado no formato de e-book (depois dou os detalhes).
Estou muito feliz com a trajétória toda desse livrinho, que tem circulado de mão em mão, de boca em boca. Muitos leitores disseram que viajaram comigo a Cuba, e alguns me mandaram dinheiro para ajudar Celeste, a cubana que me abrigou em sua pequena casa.
Agradeço a todos os que caminharam comigo, que ajudaram de alguma forma, indicando para um amigo, emprestando, incentivando, dialogando.
Agradecimentos especiais a Gustavo de Castro e Florence Dravet, que sonharam e realizaram comigo.