Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias | Por Samarone Lima

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Na estrada, versão Cervantes

13 de setembro de 2010, às 10:46h por Samarone Lima

Desocupados leitores. Quando vocês lerem estas poucas e desaprumadas linhas, estarei cruzando o Atlântico, rumo a Madri, para uma merecida temporada na terra de Cervantes.

Irei caminhar, perambular, errar, encontrar, seguindo meu velho instinto de andarilho. Claro que tenho a íntima esperança de esbarrar em Quixote, Sancho, ou no próprio Cervantes, que Deus o tenha.

A última jornada internacional (Cuba, 2007), me rendeu muitos amigos e um livro. Agora vou apenas desfrutar, descansar, e, quem sabe, embelezar a alma.

Mandarei postagens de lá. Tentarei compartilhar mais esta aventura com meus desocupados leitores.

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Procura-se

9 de setembro de 2010, às 2:41h por Samarone Lima

Procura-se caderno, amigos. Minto. Um caderno de capa amarela e dura, de uns 25 centímetros por 20, cheio de anotações pessoais, trechos de livros, poemas, rabiscos, inutilidades, pensamentos sem futuro, desabafos. Não é um caderno qualquer, é somente este.

Sumiu na segunda-feira, na livraria Cultura, após o lançamento de “Chabadabada”, do Xico Sá, junto com o delicioso “Manual de Antropologia Cultural”, do Angel Espina Barrio, presente do amigo Mário Hélio. O livro estava inteiramente rabiscado, como sempre faço, quando vou lendo coisas que gosto, agora que estou pensando em estudar antropologia.

A culpa foi do vinho do lançamento. Pela primeira vez, e graças ao prestígio do Xico Sá, a  Cultura colocou vinho tinto, no lugar daquele terrível vinho branco gelado. Estava tudo bem bom, com vários amigos, gente conhecida. De lá, seguimos para outros bares, e perdi minhas coisas. Até o livro do Xico, outro presente, sumiu.

O pior é o sentimento de estar a mercê. Minha letra é péssima, muitas vezes nem eu entendo o que escrevi, mas vai que o caderno tenha caído justamente nas mãos de um decifrador profissional de garranchos?

Sempre, na primeira página, boto que recompenso quem encontrar e devolver. Forneço também o telefone e email. Até agora, nada.

Ontem, fui aos bares que frequentamos. Respostas frias, como se eu procurasse um guarda-chuva, um cachecol, um isqueiro com o escudo do Santa Cruz. Eu procurava meu diário, caramba!

É talvez meu mais antigo vício. Desde os 13 anos, tenho esses cadernos comigo. São meus laboratórios, minhas oficinas, meus comparsas. Escrevo todos os dias, anoto inutilidades, pensamentos ermos, confesso tristezas, alegrias, decepções. Às vezes, pego um desses cadernos de dez anos atrás, e vou ver o que estava fazendo, onde morava. Como colo notas fiscais, contas de bares, faço minha arqueologia íntima.

Pego o caderno de maio de 1999. Eu morava com o velho amigo Gustavo na rua Canuto do Val, 146/11, Santa Cecília. Era um homem felizardo. Tinha saído da Veja e fazia meu mestrado.

No dia 14 de fevereiro de 1999, às 10h59, comprei no Ática Shopping de São Paulo o livro “Ascese – os salvadores de Deus”, de Nikos Kazantzakis. Ainda o tenho por perto.

Tem uma lista das pessoas que eu precisava “passar um bip”, aquele aparelhinho simpático que a gente usava para mandar mensagem, e uma moça escutava tudo o que a gente dizia de mais íntimo. Depois, minhas anotações sobre o aniversário de 30 anos. Há poemas de Mário Benedetti anotados, Claribel Alegria. Sempre gostei desse nome – Claribel Alegria.

Seguindo um velho costume, nas páginas ímpares há frases, trechos de poetas. “La realidad para ser necesita la imaginación”, pesquei do poeta argentino Roberto Juarroz. Muitas páginas têm trechos de anotações das aulas. Eu estava no mestrado. Vamos ver aqui. Em 21 de maio de 1999, eu fazia uma disciplina com a professora Maria Aparecida Aquino. Ela explicava os detalhes do projeto Brasil: Nunca Mais. Sabia de todos os detalhes. “Quero ser enterrado num cemitério com vista para o mar”. Meu Deus, como eu escrevo besteiras.

“É um louco! É um louco!” (de uma expectadora, ao ouvir pela primeira vez o Bolero de Ravel).

Fui a um show da Ângela Rôrô no Centro Cultural Vergueiro. Nessa época ela ainda bebia rios.

“Preciso colocar pólvora debaixo de mim” (Tchekov, em carta escrita a 4 de maio de 1889). Nessa época, eu estava lendo apaixonadamente tudo dele, do Tchekov. Tenho esses ciclos com escritores.

No dia 2 de julho, recortei de algum jornal o seguinte convite:

“A esposa, a filha e os netos de Italo Sammarone agradecem as manifestações de carinho….”

Era o convite para a missa de sétimo dia de algum familiar meu que jamais conheci, já que há uma abastada família Sammarone na Itália.

“O homem, em tudo e por tudo, é apenas remendo e miscelânia”, dizia o bom Montaigne, em seus Ensaios.

No final de julho, comecei um tratamento anti-rábico. Nove dias de vacina, após tentar segurar um gato pelo pescoço, em um bar de Fortaleza. Eu e minhas invenções.

Por esses cadernos, vejo que já fiz um bocado de coisas nessa vida. “Amanheci com os violeiros em Morada Nova”; “Igreja de São Francisco, em Mariana. Concerto de órgão”; “Noite com os doidos e bregas em Salvador”.

Só este caderno, que é bem robusto, tem 317 páginas.

Fico na expectativa de que alguma alma santificada encontre o meu caderno perdido na segunda-feira, o da capa amarela. Estava pela metade. Pelo que vi agora, as anotações são as mesmas, há mais de duas décadas. Minha leseira mental pouco melhorou. A letra continua péssima. Além disso, já disse que gratifico bem. Aguardo.

Nota final:

O caderno acaba de ser encontrado. Ficou dormindo no banco traseiro do Fusca do senhor João Magro Valadares, que me deu carona num sábado interminável. Começamos os trabalhos no bar Princesa Isabel, seguimos para o Bode Dourado e concluímos as atividades copísticas no Tepan, onde pude utilizar a mesa como travesseiro.

Grato a todos os leitores pela solidariedade. O sentimento de alívio é imenso.

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Breve relato de uma façanha literária: Viagem ao Crepúsculo

3 de setembro de 2010, às 8:02h por Samarone Lima

Foi em dezembro de 2007 que tudo começou. De veneta, resolvi botar a mochila nas costas e conhecer Cuba. Durante quase um mês, perambulei pela ilha de norte a sul, conheci o povo, conversei muito, escutei mais ainda, anotei milhares de coisas, relatos, informações, cenas. Voltei em janeiro de 2008 com quatro cadernos cheios, apinhados. Era a única coisa na bagagem que tinha realmente importância.

Desci no Rio de Janeiro, pedi 15 dias de licença do trabalho e me intoquei no apartamento de Andrezza, em Botafogo. Comecei a passar tudo para o computador, de forma febril. Depois, imprimia e fazia as correções em um bar. O Rio de Janeiro é mesmo uma cidade maravilhosa, tem um barzinho em cada esquina.

Eu tenho uma intuição literária danada. Sinto quando vai sair um livro, quando é a hora. Sou extremamente paciente, mas ali, havia uma certa urgência. A urgência do contar. O sentimento de ter levantado uma cortina, sem que percebessem.

Estava nascendo algo ali, e tentei contato com a editora Objetiva, que tinha editado meu livro “Clamor”, em 2003. A minha editora na época estava de férias. O subeditor disse que eles até estavam pensando mesmo num livro, pois estava bem próximo do cinquentenário da Revolução Cubana, que tiveram muitas reuniões sobre o assunto. Pronto, é agora, foi o que pensei. Combinamos que eu mandaria os primeiros capítulos.

Mandei ver. Passei sebo dos dedos. Mandei os 10 primeiros capítulos, bem parecidos com os que foram publicados. Depois de alguns dias, liguei para saber a resposta.

“Olha, nossa avaliação é que o material é bom, mas se Fidel Castro morrer, o livro fica sem sentido, perde o valor”.

Achei muito engraçado aquilo e toquei em frente. Fidel estava doente, mas a morte dele em nada alterava o rumo da prosa em Cuba. A transição já estava feita, e Raul Castro já saíra da sombra do irmão. Era o novo comandante-em-chefe. Talvez o subeditor não tenha gostado mesmo foi do texto. Acontece.

Voltei para o Recife com a estrutura do livro parcialmente montada, fui trabalhando nos demais capítulos nas horas de folga do trabalho. Depois de alguns meses, terminei tudo. Imprimi o material, mandei para alguns amigos, que acolheram de forma efusiva. Lembro de Homero Fonseca, dizendo que seria um “livrão”, e antecipando que eu levaria muitas chicotadas, especialmente da gente de esquerda. Coube a Flávia Suassuna me dizer o título, em um email, ou conversa, não lembro.

“Mas Samarone, você fez uma Viagem ao Crepúsculo!”

Animado com a acolhida, mandei os originais para cinco editoras, acompanhado de uma cartinha, falando da minha trajetória como escritor. Mandei para Objetiva, Editora 34, Companhia das Letras, Record e Cosac Naify.

Nenhuma respondeu.

Então surgiu a editora Casa das Musas, em Brasília. Gustavo de Castro, o editor, topou a parada, junto com Florence Dravet. Os dois começaram a trabalharam nos originais. Neste momento, Sérgio Buarque me mandou um email longo, fazendo uma análise mais aprofundada sobre o que lera. Era um primor, o texto, e fiquei lisonjeado. Ganhei de presente a orelha do livro.

Em julho, viajei a Brasília. O livro estava quase pronto. Só a foto da capa não me caiu bem. Descobri que o fotógrafo Beto Figueiroa tinha feito uma bela exposição de uma viagem a Cuba. Pedi para ele me mandar algumas imagens. Quando bati o olho em uma delas, disse comigo mesmo  – aqui está a foto da capa.

Beto fez um preço camarada e o livro finalmente foi impresso.

O lançamento foi em agosto, no bar Mamulengo, no Bairro do Recife. Uma imensa farra. Como tinha sido em co-edição, eu tinha que vender bastante, para pagar as contas. Vendemos uns 170 livros, creio. Foi um alívio. Deu para pagar a primeira parcela da gráfica. Bebemos um bocado, eu e os amigos.

Começava então a fase da “provação”. Agora, os leitores é quem dariam destino à minha viagem, aos meus escritos, minhas impressões.

Não sabia que teria outra provação: a luta pela distribuição dos livros. Como a Casa das Musas é uma editora pequena, sem muitos recursos, dividi com Gustavo a missão de mula da minha obra. Ele, em seu Ford K vermelho todo remendado,  botava a carga pela Itapemirim, eu buscava na Kombi de Naná, trazia para casa.  Numa das vezes, dei um livro de presente à secretária da Itapemirim, ela ficou eufórica.

Comecei a levar lotes para a livraria Cultura, que enviava para a rede inteira. Fui conhecendo todos os vendedores. Miller, Chassel etc. Os pedidos que me chegavam por email, a Gabriela, que é quase minha secretária, postava. E assim fomos andando, devagarzinho, aos poucos, por fora, sem alarde.

Um belo dia, cheguei na Cultura com mais um lote (livro pesa pacas!) e o Chassel, comentou:

“Chegou nosso best-seller”.

Descobri que estávamos vendendo uma média de 20 livros por semana. A maré estava virando. Minha esposa, Sílvia, que tem uma assessoria de Imprensa, a Íntegra, me ajudou na divulgação. Ela, Aninha e Flávia.

Veio a segunda edição. Mais mil livros. A mesma luta. Escritor-mula. Mas muitos retornos positivos, email de gente que começou a refletir um pouco mais sobre a realidade de Cuba, sem as idealizações de quem está distante. Muitos email de cubanos que vivem no Brasil me deixaram bem feliz. Agradeciam por ter contado o outro lado da realidade do país, a repressão, enfim.

Na Bienal do Livro de Pernambuco, tomei um pau no debate. O debatedor, amante da Revolução Cubana, tratou meu livro como um lixo, não aceitava crítica a Cuba, ao seu sonho revolucionário, em hipótese alguma. Ao final, a deselegância desnecessária. Sugeriu que eu tinha recebido alguma dinheiro, “para falar mal de Cuba”. Foi uma pena o comentário, achei ofensivo, mas não precisei fazer muito esforço – o público tratou de dar as resposta. No dia seguinte, perambulando pela Bienal, uma senhora me parou.

“Você não é o autor do Viagem ao Crepúsculo?”

“Sou sim”.

“Pois me dê um autógrafo. Achei aquele senhor tão mal educado, tão grosso, que pensei – esse livro deve ser bom”.

Eu teria dezenas de histórias para contar, o radialista que me esculhambou ao vivo em seu programa diário, mas fiquemos por aqui. Quero mais é compartilhar essa alegria.

Como alguns leitores já sabem, o livro “Viagem ao Crepúsculo” ficou entre os 10 finalistas do Prêmio Jabuti, o maior prêmio literário do Brasil. Fui olhar a lista. A Casa das Musas é a única editora pequena que entrou no bolo. Estamos lá. Furamos um cerco, eu sei. Uma façanha literária e humana.

Vamos para a terceira edição, agora com a ajuda de um amigo, que entende de distribuição, e vai cuidar desse duro trabalho, que é fazer o livro circular. Creio que me livrarei dos livros nas costas.  

Também semana que vem, será disponibilizado no formato de e-book (depois dou os detalhes).

Estou muito feliz com a trajétória toda desse livrinho, que tem circulado de mão em mão, de boca em boca. Muitos leitores disseram que viajaram comigo a Cuba, e alguns me mandaram dinheiro para ajudar Celeste, a cubana que me abrigou em sua pequena casa.

Agradeço a todos os que caminharam comigo, que ajudaram de alguma forma, indicando para um amigo, emprestando, incentivando, dialogando.

Agradecimentos especiais a Gustavo de Castro e Florence Dravet, que sonharam e realizaram comigo.

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Uma ótima notícia sobre Viagem ao Crepúsculo

1 de setembro de 2010, às 17:58h por Samarone Lima

Acaba de ser publicado, pela Câmara Brasileira do Livro (CBL), o resultado dos dez finalistas de cada uma das 21 categorias do Prêmio Jabuti, considerado o mais importante prêmio literário do país.

“Viagem ao Crepúsculo”, o raçudo livro sobre Cuba, lançado pela editora Casa das Musas, em 2009, está entre os finalistas na categoria livro-reportagem.

Vejam a lista e a reportagem do JC on line:

http://jc.uol.com.br/canal/lazer-e-turismo/noticia/2010/09/01/livroreportagem-de-samarone-lima-na-final-do-premio-jabuti-234863.php

::REPORTAGEM
“OLHO POR OLHO-OS LIVROS SECRETOS DA DITADURA” (RECORD) – LUCAS FIGUEIREDO
“CONVERSAS DE CAFETINAS” (ARQUIPÉLAGO EDITORIAL) - SÉRGIO MAGGIO
“O LEITOR APAIXONADO- PRAZERES À LUZ DO ABAJUR” (COMPANHIA DAS LETRAS) – RUY CASTRO
“A ROTATIVA PAROU!” (CIVILIZAÇÃO BRASILEIRA) – BENÍCIO MEDEIROS
“ELEIÇÕES NA ESTRADA : JORNALISMO E REALIDADE NOS GROTÕES DO PAÍS” (PUBLIFOLHA) – EDUARDO SCOLESE E HUDSON CORRÊA
“VIAGEM AO CREPÚSCULO” (CASA DAS MUSAS) – SAMARONE LIMA DE OLIVEIRA
“O MUNDO NÃO É PLANO – A TRAGÉDIA SILENCIOSA DE 1 BILHÃO DE FAMINTOS” (EDITORA SARAIVA) – JAMIL CHADE
“IMPRENSA E O DEVER DA LIBERDADE” (EDITORA CONTEXTO) – EUGÊNIO BUCCI
“ELES FORAM PARA PETRÓPOLIS- UMA CORRESPONDÊNCIA VIRTUAL NA VIRADA DO SÉCULO” (COMPANHIA DAS LETRAS) – IVAN LESSA E MÁRIO SÉRGIO CONTI
“HONORÁVEIS BANDIDOS – UM RETRATO DO BRASIL NA ERA SARNEY” (GERAÇÃO EDITORIAL LTDA) – PALMÉRIO DÓRIA
“BINLADENISTÃO- UM REPÓRTER BRASILEIRO NA REGIÃO MAIS PERIGOSA DO MUNDO” (EDITORA ILUMINURAS LTDA) – LUIZ ANTÔNIO ARAUJO

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Já podem comentar

1 de setembro de 2010, às 17:42h por Samarone Lima

Amados leitores,

O Estuário passou vários dias sem liberar acesso aos comentários (caía sempre no site globo.com). Hoje o problema terminou. O culpado foi um tal de “Pluguin”, que pretendo processar.

Podem comentar à vontade. Por precaução, vou botar outro texto a mais tarde.

Samarone.

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