Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias | Por Samarone Lima

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Yo vengo a ofrecer mi corazón

29 de outubro de 2010, às 13:49h por Samarone Lima

Estava diante do computador, nesta bucólica sexta-feira, já tinha lido todos os email, rebuscado minhas velhas anotações para uma crônica nova, já que meus leitores agora estão calminhos, e nada me ocorria.

Então botei no youtube o nome do Fito Paez, cantor e compositor visceral argentino que adoro, e a canção “Yo vengo a ofrecer mi corazón”‘. Escuto agora a Mercedes Sosa, Victor Heredia e o próprio Fito.

A letra diz algo bom de ser escutado, em qualquer tempo da vida. Quem disse que tudo está perdido, eu venho a oferecer meu coração.

Lá pelas tantas, há um trecho formidável:

“E unirei as pontas de um mesmo laço

e irei tranquilo e irei devagar

e te darei tudo e me darás algo

algo que me alivie um pouco mais”.

Imprimi a letra e fui solfejando aqui, lembrando das muitas viagens que fiz à Argentina, que agora chora a morte do seu ex-presidente. Tantas coisas duras vive este país, e quanta beleza eles também dão  ao mundo. Músicos, poetas, romancistas. Há preciosidades que garimpo há mais de vinte anos.

Lembrei das entrevistas com as mães e avós da Praça de Mayo, as muitas pesquisas em arquivos, uma viagem que fiz a Mercedes, num ônibus lotado de filhos de desaparecidos, cantando animados músicas ao violão, e a passagem fulgurante -  “como um documento inalterado” da canção - por uma interminável plantação de girassóis.

Depois da canção, fiquei pensando nisso. Há pessoas que estão sempre dizendo que as coisas estão perdidas, mas há outras que oferecem o coração. Há pessoas que dão tudo, outras que dão algo, e algo sempre alivia um pouco mais. Quando não há mais nada perto ou longe, há gente que oferece o coração.

Hoje estou naqueles dias emotivos como o quê. Deve ser por causa da biografia da Clarice Lispector, que ando a ler. Pode ser também por causa da vida, que ando a viver, tentando juntar as pontas de um mesmo laço.

Para quem quiser ver essa maravilha, vai o link. 

http://www.youtube.com/watch?v=AAQ9UkuHnko&feature=related

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Anotações sobre um domingo

25 de outubro de 2010, às 13:32h por Samarone Lima

Sou a pessoa mais besta que conheço. Minhas programações são repetidas e banais. No sábado, é comum passar o dia inteiro em casa, após inúmeras programações. Programo um encontro com os amigos, sabendo que cancelarei logo mais. À noite, prometo um cinema ou algo mais cultural, mas sei que chegará uma suculenta preguiça, para abraçar com um bom vinho. No domingo de manhã, estou invariavelmente na pelada dos Caducos F.C. Depois dos jogos, banho na casa de Naná, acompanhado de lauto café da manhã, e caminhada para o bar/mercearia de Seu Vital, para a observação crítica da Liga de Dominó.

Por conta das viagens recentes, há mais de mês não fazia o roteiro dominical. Comecei cancelando a peleja nos Caducos, por conta da grossa chuva. Jogar futebol debaixo da chuva é uma maravilha, desde que você já esteja em campo, aquecido. Tive jogos memoráveis debaixo d`água.

Esperei, li o jornal, tomei café, e só cheguei ao velho Vita lá pelas 10h33. A Liga não tinha começado. Vital me recebeu como sempre. Estava sentado em sua cadeira, feito o pajé da tribo.

“Entra, Samarone!”

Entrei. Falei com ele, dona Severina, sua sócia, filhas, netos. Jamille, que conheci com uns cinco anos, está agora uma moça. Me entregaram o pacote com o livro “Diálogo das Grandezas do Brasil”, de Ambrósio Fernandes Brandão, que Mário Hélio me mandou. É leitura para uma mesa que mediarei na Fliporto, em Novembro, com o Alberto Dines. Coisa para outra conversa.

Saio, vejo Santino, que sempre está por ali. Juca, o papagaio, me recebe com a mesma elegância de sempre. Baixa o cocoruto para que eu faça um carinho. Dou uma volta no Poço, compro frutas a preços bem melhores que os de supermercados, encontro com Lucidélia, que me cobra seu diário, que me emprestou outro dia. É um diário onde ela narra o cotidiano de uma mulher com câncer no seio, o tratamento, os impactos da quimioterapia etc – tudo com um enorme bom humor.

“Entreguei agorinha a Seu Vital”, minto.

Volto. Eduardo já chegou, Seu Paulo, Vovó Irene etc. Vai começar o espetáculo do dominó, na esquina de Vital. As pedras fazem aquele barulho bom. Tec. Tec.

Fico por ali, vai dando onze e pouco, vejo que o velho Walter Barba se aproxima. Chega, fala com todos, entra.

“Vital, estou morrendo de sede”.

Vital bota uma cerveja na mesa. Sento com Walter, começamos um bom papo sobre as últimas eleições. Ele me conta detalhes, já que estive fora um bom tempo. A campanha, votações, surpresas etc. Depois conversamos sobre os amigos, Walter depois me conta um longo episódio de sua vida, quando ficou um ano inteiro internado no Hospital da Restauração, com uma infecção na perna. Só mesmo nessas conversas, para saber a história de cada um. Lembramos do amigo comum, Raimundo Carrero, que está internado, após sofrer um AVC. Walter me conta uns episódios divertidos da época em que trabalhavam como repórteres, e bebiam ali, naquele lugar delicioso, o entorno do velho prédio do Diário de Pernambuco.

Ainda peguei o clima de boemia e jornalismo, quando os Diário e Jornal do Commercio funcionavam no centro, a “Cristal” funcionava, e era possível, numa sexta-feira à noite, em meio ao fechamento das edições de sábado e parte do domingo, tomar uma cerveja com fotógrafos, editores e repórteres dos dois jornais. Hoje, tudo ficou muito empresarial, longe da boemia.

Foram quatro cervejas bem nutridas, com o velho Barba, que tem muitas histórias para contar. Naná passou, com sua eterna Kombi, Boy acompanhando. Era o aniversário de Nem, mas preferi não ir, porque as farras no Poço começam e nunca terminam. Além disso, eu iria dirigir.

Antes de me despedir, Dona Severina me trouxe um lote de ovos de galinha de capoeira, que ela cria. Tentei comprar na minha última viagem a Jupi, mas não consegui.

Ainda tinha que passar no chá de fraldas de Alessandra, esposa de Gerrá. Precisava comprar fraldas, mas deixei uma farmácia de Casa Forte pra trás, dei com os burros n’água. No centro, não tinha nenhuma aberta.

“Gerrá, posso entregar as fraldas depois?”

“Pode sim, a gente já sabe que tu és farrapeiro mesmo”, respondeu.

Foi um bom domingo, só isso.

Nota: Amanhã (terça-feira) estarei no restaurante “O Banquete”, para uma conversa com os amantes da literatura. O negócio vai se chamar “Do manuscrito ao livro”, e falarei sobre os caminhos e descaminhos que encontrei para publicar meus quatro livros. Levarei o que tenho para vender, com descontos. 

SERVIÇO

Do manuscrito ao livro – bate-papo com Samarone Lima sobre edição de livros
26/10 – 20h
Espaço Cultural Banquete – R. do Lima, 195 – Santo Amaro
Informações:  3423-9427

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Novo livro e uma nota triste

20 de outubro de 2010, às 3:42h por Samarone Lima

Toda vez que a gente publica um livro (meu último foi em outubro de 2009), as pessoas perguntam logo qual será o próximo.

Andei curtindo meu “Viagem ao Crepúsculo”, que me deu muitas alegrias, estava com planos de traduzi-lo para o espanhol, mas é muito dinheiro, não vai dar. Mas ele já fez seu percurso, consegui vender duas edições completas, não posso reclamar de nada.

Só agora, praticamente um ano depois, posso dizer que estou mergulhado em outro projeto, que me dá um frio na barriga. Vou finalmente publicar um livro de poesia.

Sempre fui muito cauteloso com a poesia, até que um amigo novo, o Arsênio, que é um grande amante e conhecedor da poesia, topou fazer uma seleção de tudo o que publiquei, entre 2005 e 2010 (www.quemerospoemas.blogspot.com)

Foi um trabalho e tanto, mas valeu a pena. No caminho, ganhei um novo amigo, capaz de citar poetas de várias gerações, tendências, movimentos. Não é todo dia que se encontra, por aí, um grande leitor de poesia. O Arsênio é um deles.

Levei os 52 poemas selecionados para a viagem na Espanha e Portugal, li e reli com olhos severos, cortei uma penca, e chegamos a 29. A última remessa publicada, que meu editor considerou boa, aumentou para 35 poemas.  Já é um bom começo. Na segunda parte do livro, teremos um longo poema, que gosto muito, uma espécie de memória da minha imaginação, ou uma imaginação da minha memória, intitulado “Tempo de Vidro”. O prefácio, muito mais bonito que o poema, é do Lourival Holanda, um grande mestre.

Deve sair em dezembro. Daqui a pouco viajo para Jupi, no Agreste, vou levando todo o material para mais uma releitura, antes de começar o processo mesmo da edição. É bom porque pode ser presente de Natal e de amigo secreto.

Na verdade, tenho sempre algum livro em mente. Já estava trabalhando em outro, uma história que persigo (e me persegue) desde 1992, mas a poesia, desta vez, entrou na frente e disse: Ops, agora é minha vez.

Vou respeitar. Com literatura, cada vez sou mais paciente e respeitador. Só publico quando acho que está mesmo na hora, e tento ir no meu ritmo, que é lento mesmo. Imagina, estar trabalhando num projeto de um livro desde 1992! Pois estou, e só vou publicar quando achar que está pronto. Pronto, que falo, é primeiro por dentro, nos meus labirintos e sonhos, depois no papel.

**

A novidade é que topei ser um dos integrantes da chapa de oposição do Santa Cruz Futebol Clube, que disputa as eleições dia 28 de outubro. É minha vocação para enrascadas, talvez. Mas é que gosto mesmo de uns desafios, umas loucuras. É uma turma boa, jovem, tomara que consigamos. Temos muito o que fazer para levantar o Santinha.

Se algum leitor deste blog for sócio do Santa, favor votar na chapa de Sérgio Murilo. Sou o primeiro vice-presidente de comunicação. Vamos ver o que dizem as urnas.

Estamos, realmente, em tempos de urnas…

***

E uma nota triste, preocupante. No fim da tarde de ontem, fiquei sabendo que o querido Raimundo Carrero, uma figura fabulosa, grande escritor e ser humano, sofreu um AVC e está internado na UTI, sob avaliação. No sábado, eu tinha ligado para a gente tomar umas e botar os papos em dia, mas não deu, ele estava ocupado. Tomara que ele se recupere logo. Daqui, faço minhas orações.

***

E pela primeira vez neste espaço, resolvi colocar como spam um sujeito ridículo que só vinha ao blog escrever suas asneiras.

Sou muito paciente, mas não com os estúpidos.

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Pois eu me emociono com ela, a Democracia

16 de outubro de 2010, às 11:36h por Samarone Lima

Passei quase um mês fora do Brasil, entre Espanha e Portugal, e voltei após o primeiro turno. Não entendi muito um clima religioso nas eleições, e me espantei com tanta paixão do Serra pelo Nosso Senhor Jesus Cristo. Vi uma foto dele, na Folha de São Paulo, beijando um terço!

A ficha foi caindo aos poucos. Marina cresceu, possibilitou o segundo turno, agora ela fica num donzelismo extremo, consultando as bases para dizer em quem vai votar.

O crescimento de José Serra nas pesquisas causou um fenômeno interessante aqui no Recife, onde vivo. Ontem à noite, no Clube dos Oficiais, tivemos uma reunião com milhares de cabos eleitorais de Dilma. A intenção era somente uma: Juntar o povo, animar, empolgar as bases e cair na rua.

De primeira, achei isso fantástico. Como amante da Democracia, adorei o fato de o encontro ter sido realizado no Clube dos Oficiais. Há alguns anos, isto seria impossível, porque vivíamos em uma ditadura.

Encontrei um mar de amigos, todos empolgados, sabendo que faltou gente na rua, faltou bandeira, faltou a velha e boa militância.

Em cada discurso, em cada conversa, eu me embalava, me emocionava mesmo era por isso. Estamos em uma Democracia, caralho!

Sim, podemos lutar pelo voto, podemos sonhar, discutir. Encontrei várias pessoas, de diferentes gerações. Uma ex-aluna, amigos de trabalhos anteriores, de projetos. Gente preocupada com o futuro do país, pegando material, prometendo entrar na luta pela candidata Dilma.

Para mim, foi uma viagem no tempo. Luciana Santos, que era do movimento estudantil quando eu morava na Casa do Estudante Universitário (CEU), estava lá, no palco. Foi bonito ver uma mulher guerreira, doce, recém-eleita deputada federal, falar dos sonhos de tantas gerações. Depois, Fernando Ferro, que foi morador da CEU, um sujeito que admiro há tempos.

Pode parecer besteira, carola, mas eu me emociono com isso. A possibilidade de discutir, de debater projetos, de reunir pessoas em torno de um sonho. Todos os que estavam ali acreditam que o Brasil pode ser melhor, que podemos avançar.

O encontro foi justamente num dia em que um bom amigo, o Sérgio Buarque, me mandou seu email com os argumentos para justificar seu voto em Serra. Achei isso maravillhoso. O argumento. Sua visão das coisas. Sua opinião.

Imprimi o texto, li, e vou mandar meus comentários. Ele também acredita em outra possibilidade para o Brasil, e respeito isso demais. Seu irmão, Cristovão Buarque, aparece na TV defendendo a candidatura de Dilma. Não é bonito, isso, esta possibilidade de discordar com ternura?

Talvez por ter já pesquisado e escrito muito sober ditaduras no Brasil e na América Latina, acho esses momentos cívicos de uma importância absoluta. Estamos vivos, inteiros, nos envolvendo, militando, discutindo. Acreditamos em algo. Desde a pessoa que me manda dez email por dia com artigos pró-Dilma, ao camarada que sai com o adesivo na bolsa, para algum eleitor indeciso.

Claro que achei estranho o clima religioso nesta campanha, mas é que eu estava fora, e não acompanhei direito o primeiro turno. Talvez esta eleição esteja mostrando um país muito mais conservador do que pensávamos. Temos uma Parada Gay com milhões de pessoas, em São Paulo, e ao mesmo tempo, e uma discussão absolutamente caricatural sobre os direitos reprodutivos da mulher, um retrocesso na conversa e na linguagem.

Aguardo a definição de Marina Silva, que me pareceu uma nova força em tempos morgados. Mas acho que a própria indefinição dela já é um mal. Vinte milhões de votos foram conquistados por um sonho. Dizer simplesmente que não vai apoiar ninguém é jogar fora muitas coisas lindas. Ela sabe para onde caminha seu sonho. Se não diz, está jogando fora uma grande força política, e perderá muito. Ficará conhecida apenas como “a candidata que possibilitou o segundo turno”. Só isso. Se acontecer isso, não votarei nela nem para vereadora. Uma pena.

Eu queria dizer que me emociono muito com a Democracia em nosso país, mas hoje estou enrolado pacas.

Voto em Dilma e peço votos para ela. Não posso dizer que “Seja o que Deus quiser”, porque Deus está sendo muito manipulado nesta campanha.

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Leituras e releituras

12 de outubro de 2010, às 19:45h por Samarone Lima

Tenho varios costumes (que também chamam mania). Um deles é ter sempre um ventilador no três por perto e outro é ler vários livros ao mesmo tempo, destinando um pedaço do tempo para cada um. É muito normal, nas minhas viagens, eu levar vários livros, e trazer outros tantos.

Sei que não interessa a quase ninguém, mas atualmente estou lendo e relendo algumas maravilhas.

“O Laboratório do escritor”, do argentino Ricardo Piglia (Iluminuras, 1994)

Um livraço, para quem gosta de coisa boa e se interessa pelos meandros e descaminhos da literatura. Coisas autobiográficas, ensaios, entrevistas, problemas da ficção etc. O Píglia é um dos grandes e vai estar na Fliporto, em Olinda, dia 13 de novembro. Sua conferência vai ser sobre “O escritor como crítico”. Impagável.

“Richard Ellmann conta que Joyce nunca quis admitir que sua filha Lucia estava psicótica. Adaptava-se às manias da garota e tentava entendê-la e a seguia durante horas em estranhas conversas nas quais pareciam usar uma língua desconhecida. Animava-a a desenhar e escrever. Mas não podia suportar que Lucia não o reconhecesse e que o insultasse o chamasse de Mister Shit. Por isso pediu uma entrevista a Carl Jung, que admirava sua obra e que escrevera um artigo exaltando o Ulisses. Joyce, que nesse momento escrevia Finnegan´s Wake, mostrou-lhe vários textos de Lúcia.

“Ela usa a linguagem como eu”, disse.

“Sim, respondeu-lhe Jung, “mas ali onde você nada, ela se afoga”.

**

“A vida passada a Limpo” . Carlos Drummond de Andrade. (Record, 2010).

Presente espetacular do meu amigo Arsenio. Na verdade, ele me deu três livros do grande poeta mineiro, novinhos em folha, com dedicatória. Isso sim, é que é amigo de verdade.

Os poemas foram escritos entre 1954 e 1958. A primeira edição é de 1959.

Não há uma palavra fora do lugar. Vejamos o começo de “Ciclo”.

“Sorrimos para as mulheres bojudas que passam como cargueiros adernando,

sorrimos sem interesse, porque a prenhez as circunda.

E levamos balões às crianças que afinal se revelam,

vemo-las criar folhas e temos cuidados especiais com sua segurança,

porque a rua é mortal e a seara não amadureceu.

Assistimos ao crescimento colegial das meninas, e como é rude

infundir ritmo ao puro desengonço, forma ao espaço!

Nosso desejo, de ainda não desejar, não se sabe desejo,

e espera,

como o bicho espera outro bicho.

E o furto espera o ladrão.

E a morte espera o morto.

E a mesma espera, sua esperança”.

**

“Viagens interiores”, do Bert Hellinger (Editora Atman).

Bert Hellinger é famoso no mundo inteiro porque foi quem desenvolveu o método de trabalho das constelações familiares, que se espalhou pelo mundo e me ajudou deveras na caminhada. Já li quase tudo dele, acho esse alemão um dos grandes homens vivos do planeta. Aqui no Recife, o Barthô Nigro leva adiante o trabalho com as constelações, é algo emocionante e profundo. Participar das constelações é algo muito forte. Ler as coisas dele é como um sopro de vento à tardinha, mas um sopro que faz a gente pensar.

Os textos do Hellinger são poéticos e simples, é uma sabedoria de quem viveu muito e percebeu a alma humana. “A simetria oculta do amor” é outra jóia.

Vamos a um trechinho de “Viagens”:

“A indulgência consiste, muitas vezes, em deixarmos passar algo que alguém nos tenha feito, sem voltar ao assunto. Essa indulgência é uma expressão de amor no convívio humano. Dá-se o assunto por encerrado, não se fala mais nisso”.

Adorei isso.

**

“Juntacadáveres”, do Juan Carlos Onetti (Seix Barral/Biblioteca Onetti).

Onetti, urugaio que morreu em 1994, em Madrid, é um dos grandes da literatura mundial, que estou sempre lendo e relendo. O prólogo é do Antonio Muñoz Molina, um espanhol que descobri na última viagem. “Pura Alegria” é um livro fabuloso.

Onetti é soberbo. Cada folha escrita tem a imensidão da literatura que preenche tudo. Ironia, personagens intrigantes, descrições. Como diz o Molina, “Cada livro, cada relato, parecem capítulos que vão se agregando a uma vasta novela que já existia antes de ser escrita”.

Não vou transcrever coisas em espanhol, mas há alguns livros do Onetti em português, é um autor para estar em qualquer biblioteca que se preze. Uma boa dica é o livro “47 contos de Juan Carlos Onetti”, traduzidos por Josely Vianna Baptista, publicado pela Companhia das Letras. “A cara da desgraça” é algo absoluto.

Mário Vargas Llosa, que acabou de ganhar o Nobel de Literatura, escreveu um livro intitulado “El viaje a la ficción”. Trata-se de um estudo sobre o mundo ficcional de Onetti. Será que é fraco, o rapaz? Vejam a foto dele, que milagrosamente consegui postar.

Juan Carlos Onetti, possivelmente em sua casa, em Madri

Hoje estou parecendo crítico literário. Mas estou apenas compartilhando paixões da minha modesta, desarrumada, e sempre boa biblioteca.

Boa semana a todos e me mandem sugestões também.

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