Tenho varios costumes (que também chamam mania). Um deles é ter sempre um ventilador no três por perto e outro é ler vários livros ao mesmo tempo, destinando um pedaço do tempo para cada um. É muito normal, nas minhas viagens, eu levar vários livros, e trazer outros tantos.
Sei que não interessa a quase ninguém, mas atualmente estou lendo e relendo algumas maravilhas.
“O Laboratório do escritor”, do argentino Ricardo Piglia (Iluminuras, 1994)
Um livraço, para quem gosta de coisa boa e se interessa pelos meandros e descaminhos da literatura. Coisas autobiográficas, ensaios, entrevistas, problemas da ficção etc. O Píglia é um dos grandes e vai estar na Fliporto, em Olinda, dia 13 de novembro. Sua conferência vai ser sobre “O escritor como crítico”. Impagável.
“Richard Ellmann conta que Joyce nunca quis admitir que sua filha Lucia estava psicótica. Adaptava-se às manias da garota e tentava entendê-la e a seguia durante horas em estranhas conversas nas quais pareciam usar uma língua desconhecida. Animava-a a desenhar e escrever. Mas não podia suportar que Lucia não o reconhecesse e que o insultasse o chamasse de Mister Shit. Por isso pediu uma entrevista a Carl Jung, que admirava sua obra e que escrevera um artigo exaltando o Ulisses. Joyce, que nesse momento escrevia Finnegan´s Wake, mostrou-lhe vários textos de Lúcia.
“Ela usa a linguagem como eu”, disse.
“Sim, respondeu-lhe Jung, “mas ali onde você nada, ela se afoga”.
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“A vida passada a Limpo” . Carlos Drummond de Andrade. (Record, 2010).
Presente espetacular do meu amigo Arsenio. Na verdade, ele me deu três livros do grande poeta mineiro, novinhos em folha, com dedicatória. Isso sim, é que é amigo de verdade.
Os poemas foram escritos entre 1954 e 1958. A primeira edição é de 1959.
Não há uma palavra fora do lugar. Vejamos o começo de “Ciclo”.
“Sorrimos para as mulheres bojudas que passam como cargueiros adernando,
sorrimos sem interesse, porque a prenhez as circunda.
E levamos balões às crianças que afinal se revelam,
vemo-las criar folhas e temos cuidados especiais com sua segurança,
porque a rua é mortal e a seara não amadureceu.
Assistimos ao crescimento colegial das meninas, e como é rude
infundir ritmo ao puro desengonço, forma ao espaço!
Nosso desejo, de ainda não desejar, não se sabe desejo,
e espera,
como o bicho espera outro bicho.
E o furto espera o ladrão.
E a morte espera o morto.
E a mesma espera, sua esperança”.
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“Viagens interiores”, do Bert Hellinger (Editora Atman).
Bert Hellinger é famoso no mundo inteiro porque foi quem desenvolveu o método de trabalho das constelações familiares, que se espalhou pelo mundo e me ajudou deveras na caminhada. Já li quase tudo dele, acho esse alemão um dos grandes homens vivos do planeta. Aqui no Recife, o Barthô Nigro leva adiante o trabalho com as constelações, é algo emocionante e profundo. Participar das constelações é algo muito forte. Ler as coisas dele é como um sopro de vento à tardinha, mas um sopro que faz a gente pensar.
Os textos do Hellinger são poéticos e simples, é uma sabedoria de quem viveu muito e percebeu a alma humana. “A simetria oculta do amor” é outra jóia.
Vamos a um trechinho de “Viagens”:
“A indulgência consiste, muitas vezes, em deixarmos passar algo que alguém nos tenha feito, sem voltar ao assunto. Essa indulgência é uma expressão de amor no convívio humano. Dá-se o assunto por encerrado, não se fala mais nisso”.
Adorei isso.
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“Juntacadáveres”, do Juan Carlos Onetti (Seix Barral/Biblioteca Onetti).
Onetti, urugaio que morreu em 1994, em Madrid, é um dos grandes da literatura mundial, que estou sempre lendo e relendo. O prólogo é do Antonio Muñoz Molina, um espanhol que descobri na última viagem. “Pura Alegria” é um livro fabuloso.
Onetti é soberbo. Cada folha escrita tem a imensidão da literatura que preenche tudo. Ironia, personagens intrigantes, descrições. Como diz o Molina, “Cada livro, cada relato, parecem capítulos que vão se agregando a uma vasta novela que já existia antes de ser escrita”.
Não vou transcrever coisas em espanhol, mas há alguns livros do Onetti em português, é um autor para estar em qualquer biblioteca que se preze. Uma boa dica é o livro “47 contos de Juan Carlos Onetti”, traduzidos por Josely Vianna Baptista, publicado pela Companhia das Letras. “A cara da desgraça” é algo absoluto.
Mário Vargas Llosa, que acabou de ganhar o Nobel de Literatura, escreveu um livro intitulado “El viaje a la ficción”. Trata-se de um estudo sobre o mundo ficcional de Onetti. Será que é fraco, o rapaz? Vejam a foto dele, que milagrosamente consegui postar.

Hoje estou parecendo crítico literário. Mas estou apenas compartilhando paixões da minha modesta, desarrumada, e sempre boa biblioteca.
Boa semana a todos e me mandem sugestões também.