Yo vengo a ofrecer mi corazón
Samarone Lima
Estava diante do computador, nesta bucólica sexta-feira, já tinha lido todos os email, rebuscado minhas velhas anotações para uma crônica nova, já que meus leitores agora estão calminhos, e nada me ocorria.
Então botei no youtube o nome do Fito Paez, cantor e compositor visceral argentino que adoro, e a canção “Yo vengo a ofrecer mi corazón”‘. Escuto agora a Mercedes Sosa, Victor Heredia e o próprio Fito.
A letra diz algo bom de ser escutado, em qualquer tempo da vida. Quem disse que tudo está perdido, eu venho a oferecer meu coração.
Lá pelas tantas, há um trecho formidável:
“E unirei as pontas de um mesmo laço
e irei tranquilo e irei devagar
e te darei tudo e me darás algo
algo que me alivie um pouco mais”.
Imprimi a letra e fui solfejando aqui, lembrando das muitas viagens que fiz à Argentina, que agora chora a morte do seu ex-presidente. Tantas coisas duras vive este país, e quanta beleza eles também dão ao mundo. Músicos, poetas, romancistas. Há preciosidades que garimpo há mais de vinte anos.
Lembrei das entrevistas com as mães e avós da Praça de Mayo, as muitas pesquisas em arquivos, uma viagem que fiz a Mercedes, num ônibus lotado de filhos de desaparecidos, cantando animados músicas ao violão, e a passagem fulgurante - “como um documento inalterado” da canção - por uma interminável plantação de girassóis.
Depois da canção, fiquei pensando nisso. Há pessoas que estão sempre dizendo que as coisas estão perdidas, mas há outras que oferecem o coração. Há pessoas que dão tudo, outras que dão algo, e algo sempre alivia um pouco mais. Quando não há mais nada perto ou longe, há gente que oferece o coração.
Hoje estou naqueles dias emotivos como o quê. Deve ser por causa da biografia da Clarice Lispector, que ando a ler. Pode ser também por causa da vida, que ando a viver, tentando juntar as pontas de um mesmo laço.
Para quem quiser ver essa maravilha, vai o link.
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