De volta ao Brasil: Dilma, Marina, Veja, o aborto e o rapaz do IBGE
Samarone Lima
Depois de quase um mês perambulando entre terras de Espanha e Portugal, chego ao Brasil após as eleições. Entre mortos e feridos, salvaram-se alguns, mas vicejou mesmo foi nossa recém-nascida democracia.
Recebo uma corrente de email de uma infelicidade sem tamanho. O senhor Maurício Abdalla, professor de filosofia da UFES, autor de “Iara e a arca da filosofia”, escreve “Marina… você se pintou?”, questionando a candidatura de uma das forças emergentes deste país, uma mulher que veio defender suas idéias, propor alguns temas, novas pautas para a política, com um percurso absolutamente digno, firme, que me encanta. Lá pelas tantas, o infeliz diz:
“A batalha não era para ser sua. Era de Dilma contra Serra”.
Uai, então não se pode mais entrar nas batalhas, nem para ser esmagado? Quem determina as batalhas de uma mulher que ousou enfrentar os dois blocos hegemônicos na política nacional? É proibido agora entrar na luta política? Não foi por causa disso que tantos morreram, foram presos, para expor suas idéias e defender suas convicções?
Diz o texto que “usaram a marina como trampolim para levar o tucano para o segundo turno e ganhar tempo para a guerra suja”.
Meu deus, que discurso anacrônico, superficial, como se a Marina não tivesse consistência, como se ela não tivesse sido votada justamente pelas pessoas que não engoliram uma Dilma “goela abaixo” (com Michel Temer como vice-presidente), como se a sua proposta fosse a de uma “inocente útil”, manipulada pela mídia. Lamento, Maurício Abdala, mas pintar Marina Silva de tucana é algo lamentável.
Então acabo de ver. O PSDB ofereceu quatro ministérios em troca do seu apoio e ela respondeu que não aceita, que não era esta sua proposta, que não entenderam sua mensagem, que não se barganha sentimentos, propostas, sonhos.
A todos os que me mandaram o “Marina… você se pintou”, agradeço muito, mas eu acho a Marina Silva uma grande mulher, uma força política a ser escutada e respeitada. Votarei na Dilma por falta de opção, só isso, como muitos e muitos amigos que militarem pelo PT, que acreditam em sonhos, em candidaturas que nascem da luta do cotidiano, não de invenções palacianas.
Então vejo que a questão do aborto virou “O” tema da eleição. Olho a capa da Veja de hoje e sinto nojo. São opiniões contraditórias da Dilma sobre o aborto, neste jogo sujo e barato que a Veja adora, e que mais de um milhão de pessoas engole.
No dia em que os leitores se sentirem lesados por revistas e jornais, e devolverem à redação algo que consideram ofensivo, as coisas começarão a mudar.
Um milhão de assinantes garantem a sobrevida de uma revista que não tem a coragem de dizer:
“Esta revista apóia a candidatura de José Serra à presidência da República”.
O recenseador
Cheguei, mal tive tempo de ver a realidade do meu país, e recebo uma ligação da portaria do prédio.
“Seu Samarone, o rapaz do IBGE pode entrevistá-lo?”
“Sim, claro”.
Eu estava tomando minhas Bramha, escutando “Valsinha”, “Grande amor”, do Chico Buarque trovador, fazendo uma comida no sabadão, quando autorizei. O pessoal do IBGE precisa garantir o seu.
O rapaz subiu. Marcus, gente boa, me chamava de senhor o tempo todo. Lembrei imediatamente do Censo de 2.000, quando eu tinha acabado de voltar de São Paulo e morava no Poço da Panela. A recenseadora era uma moça tão linda, que eu ficava sem resposta, quando ela perguntava algo.
Fez perguntas, o Marcus, fiz o dobro. Das 30 entrevistas da semana, não fez nem 15, porque os moradores do prédio não o atendem. Achei isso uma tremenda sacanagem, vou ver se amoleço os corações daqui do Edifício Capibaribe.
Queria saber quantos banheiros tem o apartamento (2), quanto ganho por mês, minha esposa, se alguém morreu aqui de julho para cá etc. O que sei é que minha vida, nos últimos anos, melhorou muito. Creio que a vida da população brasileira segue a mesma tendência.
Lá pelas tantas, pergunta pela minha cor. Branco, negro, amarelo, pardo ou indío?
Tive que ir pelo óbvio: Pardo.
E sua esposa?
Lembrei que ela tem uns traços indígenas, uns cabelos escorridos.
“Índia”.
“O senhor sabe a tribo?”
Não sabia direito qual é a tribo do pessoal de Garanhuns, arrisquei:
“Fulniô”.
Ele cutucou lá seu negocinho, um coputadorzinho do IBGE, e apareceu:
“Fulni-ô”.
A entrevista foi rápida, o que lamentei. Era apenas um questionário padrão. Tem um, que é mais complexo, mas não era o caso. Lamentei.
Ele não quis água nem nada. Queria mesmo era que o restante do prédio o recebesse.
Ele não perguntou, mas vou votar na Dilma. A Veja vai ter que botar na capa, com muito sofrimento e dor:
“Dilma é eleita a primeira mulher presidente do Brasil”.
Desculpem, meus singelos leitores, mas foda-se a Veja, e tudo o que ela representa. Já trabalhei lá, sei como a máquina funciona.
Postado em Crônicas |
23 Comentários »



