Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias | Por Samarone Lima

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De volta ao Brasil: Dilma, Marina, Veja, o aborto e o rapaz do IBGE

9 de outubro de 2010, às 17:38h por Samarone Lima

Depois de quase um mês perambulando entre terras de Espanha e Portugal, chego ao Brasil após as eleições. Entre mortos e feridos, salvaram-se alguns, mas vicejou mesmo foi nossa recém-nascida democracia.

Recebo uma corrente de email de uma infelicidade sem tamanho. O senhor Maurício Abdalla, professor de filosofia da UFES, autor de “Iara e a arca da filosofia”, escreve “Marina… você se pintou?”, questionando a candidatura de uma das forças emergentes deste país, uma mulher que veio defender suas idéias, propor alguns temas, novas pautas para a política, com um percurso absolutamente digno, firme, que me encanta. Lá pelas tantas, o infeliz diz:

“A batalha não era para ser sua. Era de Dilma contra Serra”.

Uai, então não se pode mais entrar nas batalhas, nem para ser esmagado? Quem determina as batalhas de uma mulher que ousou enfrentar os dois blocos hegemônicos na política nacional? É proibido agora entrar na luta política? Não foi por causa disso que tantos morreram, foram presos, para expor suas idéias e defender suas convicções?

Diz o texto que “usaram a marina como trampolim para levar o tucano para o segundo turno e ganhar tempo para a guerra suja”.

Meu deus, que discurso anacrônico, superficial, como se a Marina não tivesse consistência, como se ela não tivesse sido votada justamente pelas pessoas que não engoliram uma Dilma “goela abaixo” (com Michel Temer como vice-presidente), como se a sua proposta fosse a de uma “inocente útil”, manipulada pela mídia. Lamento, Maurício Abdala, mas pintar Marina Silva de tucana é algo lamentável.

Então acabo de ver. O PSDB ofereceu quatro ministérios em troca do seu apoio e ela respondeu que não aceita, que não era esta sua proposta, que não entenderam sua mensagem, que não se barganha sentimentos, propostas, sonhos.

A todos os que me mandaram o “Marina… você se pintou”, agradeço muito, mas eu acho a Marina Silva uma grande mulher, uma força política a ser escutada e respeitada. Votarei na Dilma por falta de opção, só isso, como muitos e muitos amigos que militarem pelo PT, que acreditam em sonhos, em candidaturas que nascem da luta do cotidiano, não de invenções palacianas.

Então vejo que a questão do aborto virou “O”  tema da eleição. Olho a capa da Veja de hoje e sinto nojo. São opiniões contraditórias da Dilma sobre o aborto, neste jogo sujo e barato que a Veja adora, e que mais de um milhão de pessoas engole.

No dia em que os leitores se sentirem lesados por revistas e jornais, e devolverem à redação algo que consideram ofensivo, as coisas começarão a mudar.

Um milhão de assinantes garantem a sobrevida de uma revista que não tem a coragem de dizer:

“Esta revista apóia a candidatura de José Serra à presidência da República”.

O recenseador

Cheguei, mal tive tempo de ver a realidade do meu país, e recebo uma ligação da portaria do prédio.

“Seu Samarone, o rapaz do IBGE pode entrevistá-lo?”

“Sim, claro”.

Eu estava tomando minhas Bramha, escutando “Valsinha”, “Grande amor”, do Chico Buarque trovador, fazendo uma comida no sabadão, quando autorizei. O pessoal do IBGE precisa garantir o seu.

O rapaz subiu. Marcus, gente boa, me chamava de senhor o tempo todo. Lembrei imediatamente do Censo de 2.000, quando eu tinha acabado de voltar de São Paulo e morava no Poço da Panela. A recenseadora era uma moça tão linda, que eu ficava sem resposta, quando ela perguntava algo.

Fez perguntas, o Marcus, fiz o dobro. Das 30 entrevistas da semana, não fez nem 15, porque os moradores do prédio não o atendem. Achei isso uma tremenda sacanagem, vou ver se amoleço os corações daqui do Edifício Capibaribe.

Queria saber quantos banheiros tem o apartamento (2), quanto ganho por mês, minha esposa, se alguém morreu aqui de julho para cá etc. O que sei é que minha vida, nos últimos anos, melhorou muito. Creio que a vida da população brasileira segue a mesma tendência.

Lá pelas tantas, pergunta pela minha cor. Branco, negro, amarelo, pardo ou indío?

Tive que ir pelo óbvio: Pardo.

E sua esposa?

Lembrei que ela tem uns traços indígenas, uns cabelos escorridos.

“Índia”.

“O senhor sabe a tribo?”

Não sabia direito qual é a tribo do pessoal de Garanhuns, arrisquei:

“Fulniô”.

Ele cutucou lá seu negocinho, um coputadorzinho do IBGE, e apareceu:

“Fulni-ô”.

A entrevista foi rápida, o que lamentei. Era apenas um questionário padrão. Tem um, que é mais complexo, mas não era o caso. Lamentei.

Ele não quis água nem nada. Queria mesmo era que o restante do prédio o recebesse.

Ele não perguntou, mas vou votar na Dilma. A Veja vai ter que botar na capa, com muito sofrimento e dor:

“Dilma é eleita a primeira mulher presidente do Brasil”.

Desculpem, meus singelos leitores, mas foda-se a Veja, e tudo o que ela representa. Já trabalhei lá, sei como a máquina funciona.

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Largo da Trindade, Lisboa.

5 de outubro de 2010, às 9:56h por Samarone Lima

Cheguei em Lisboa à tarde, depois da larga temporada em terras de Espanha. O ônibus me deixou em algum lugar que nao lembro. Era o mais próximo da parte velha da cidade. Sempre procuro isso, a parte onde as coisas ainda estao com uma história mais velha, e nas paredes posso escutar histórias.

Subi escadas sem rumo, depois que tentei, via Internet, encontrar um albergue decente, uma pousada. Inútil. Tudo cheio ou tudo muito caro.

Foram muitas escadas, prometo, e já sem muita esperança, fiquei numa encruzilhada. Subir pela rua da direita, da esquerda? Aguardei um pouco, até que escutei uma música antiga, de procissao, e lembrei da minha avó. Fui para a esquerda, subi e cheguei ao pátio da Santa Casa de Misericórdia. A procissao, com roupas muito antigas, estava saindo. Sentei, bebi água, olhei.

Já anoitecia quando levantei os olhos e vi, ao meu lado:

“Estrela de Ouro – Casa de Hóspedes”.

Toquei a campainha, a porta abriu. Subi três andares com os degraus gemendo. Uma madeira muito antiga, pois.

Uma senhora rechonchuda e simpática me recebeu, mostrou os quartos. Eu estava em uma Lisboa dos anos 1950. O quarto que escolhi, com cama de casal, dava para a Santa Casa. Cortina, vento soprando, mesinha, cômoda. Essas coisa antigas da minha vida também. Dona Fernanda acertou tudo, me deu o cartao, que colei no caderno. Todo o cenário, tudo aqui, me lembra os contos de Juan Carlos Onetti, meu sagrado uruguaio.

“Estrela de Ouro. Casa de Hóspedes. Rigoroso asseio. Preços acessíveis. Boa casa de banho”.

No banheiro, está escrito:

“É favor deitar os papéis no caixote”. Significa “nao coloque papel no vaso sanitário”.

Estou no Bairro Alto, uma das partes mais belas de Lisboa. As sardinhas da Adega de S. Roque, junto com o vinho, me deram uma certa alegria.

Há dois dias estou aqui. Ao lado, o Tom, da Alemanha, um sujeito muito gente boa, que conhece toda a cidade e já viajou muito pelo mundo. Na primeira saída, esbarrei no cafezinho “A Brasileira”, onde está a estátua de Fernando Pessoa.

Tomei um cafezinho lembrando de “A Tabacaria”.

A viagem segue, já caminhando para o fim. Hoje se comemora o centenário da República Portuguesa. Pensei que fosse mais, já que eles sao bem antigos. Tem um bocado de coisas agendadas, comemoraçoes, celebraçoes, muito embora a crise econômica esteja nos cascos deles.

Vejo nos jornais as notícias sobre as eleiçoes no Brasil. Marina aqui ganhou grande destaque nos jornais como o peso da balança do segundo turno. Em Pernambuco, comemoro algumas vitórias que nao sao apenas minhas, mas de muita gente boa, que acredita em democracia, ética, sonhos, esperanças.

Escrevo pegando bigu em um albergue, num computador com acentos loucos e sinto que estou ficando velho.

Já me bate um bocado a saudade.

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Perambulando pela Espanha (Volume 6). Marcus, o homem do silêncio

1 de outubro de 2010, às 5:41h por Samarone Lima

Foi no almoço de ontem que o conheci. Cheguei no albergue com umas compras, passava das 15h, quando fui à cozinha do albergue San Fermin, onde estou. Entrei, tinha apenas um sujeito, calado, quieto, branco, alto. Escutava atentamente, com carinho, uma belíssima música clássica, que nao identifiquei. O som vinha de um rádio-gravador preto, velho, daqueles que pegam fita.

A música era tao bonita, que fiquei  encabulado de abrir a lata de atum e botar algo para esquentar. Esperei um pouco. Tomei uma água, fiquei quieto,na outra mesa. Quando terminou  a música, ele disse:

“Es el Adágio de Samuel Barber, para cordas”.

Depois ele escreveu, no meu caderno:

“Samuel Barber. Adágio for strings Opus 11″.

Nao tivemos tempo de conversar muito. Ele teve que sair para trabalhar em algo que eu nao sabia. Antes, me mostrou como funcionava o fogao elétrico.

**

Noite, já caminhando para 22h.

Voltava para o albergue, depois de uma longa e feliz jornada. Exposiçao na “Caixa Forum de Madrid” – “Dali, Lorca y la Residencia de Estudiantes”. Um andar inteiro só com o fruto da amizade entre os dois. Fotos, poemas, cartas.

No terceiro andar, outro regalo espanhol. Um andar inteiro dedicado ao Frederico Fellini. Fotos, imagens, depoimentos dele.

Saí da Caixa Fórum, ainda cheguei a entrar no Museu da Raínha Sofia, mas era muito. Eu precisava processar tanta beleza. Precisava de paz, silêncio, quietude. Fiquei num café, tomando minhas notas, olhando os livrinhos que entregaram na entrada (de cada exposiçao), e voltei ao albergue devagar, a passo manco, lembrando do Adágio da tarde. Passei numa mercearia e comprei pao e um pedaço de queijo, a modo de jantar.

Entao chego, peço a chave da cozinha, que estava escura. A mulher reclama, diz que alguém esqueceu de devolver, vou olhar, alguém pode ter esquecido a porta aberta.

Está lá, novamente, o sujeito calmo e calado. Novamente, escutando música clássica. Desconfio que apagou as luzes de propósito, para nao ser incomodado. A luz que vinha de fora iluminava algumas mesas. A cozinha parecia um cafè de alguma cidadezinha perdida.

Entrei e fiquei sem graça.

“De novo, estou interrompendo sua tranquilidade”.

“Nao se incomode”, respondeu.

Botei as coisas na mesa, peguei água (desta vez estava com muita sede), deixei o jantar para depois. Tocava uma bela música, mais forte que a anterior, como se contasse uma história. Ao final de um dos movimentos, o amigo comentou:

“Shostakovich. Sherazade”.

Sim, Rimsky Shostakovich. O locutor da rádio, confirmou.

Ficamos em silêncio. Depois veio a Sonata nùmero 3, de Rossini, e algo de Rachmaninóv.

Quando terminou a audiçao, finalmente conversamos. Seu  nome é Marcus, nascido na Escócia. Vive num povoado, a 100 quilômetros de Madri. “Lilio”, se bem entendi. Dá aulas de inglês, interage socialmente, mas adora quando volta para seu reduto. Vive em uma pequena casa, sozinho.

Antes de sair, Marcus me mostrou na geladeira uma tijela com verduras, que eu  poderia comer.

“Amanha vou embora, fique à vontade”.

Antes, me informou onde ficava o supermercado com frutas e verduras com preços bons.

Nos despedimos com um aperto de mao.

Talvez nunca mais veja esse camarada tao silencioso e bom, que já saiu do albergue, quando acordei. Mas devo a ele ter escutado, em um albergue longe de tudo, em Madri, o Adágio para cordas do Samuel Barber.

Quem puder escutar, vai também agradecer ao homem do silêncio que conheci nesta viagem.

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