Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias | Por Samarone Lima

Apresentação


Oficinas


Livros


Artigos recentes


Comentários Recentes


Aproximações


Destaque


Calendário

novembro 2010
D S T Q Q S S
« out   dez »
 123456
78910111213
14151617181920
21222324252627
282930  

Arquivos


Usuários online

Usuários: %GUESTS_SEPERATOR%5 Caranguejos%BOTS_SEPERATOR%

Validade: 31 de julho de 1990. Memórias de um “pobre gold”.

29 de novembro de 2010, às 18:50h por Samarone Lima

    

Na vida, a gente tem muitas coisas com prazo de validade.  Umas vencem e a gente não percebe. Outras perdem o prazo de validade. Outras ficam para sempre, mas a gente às vezes demora a perceber.

Essas minhas reflexões inúteis surgiram do mar de papéis que sempre tenho por perto. Costumo dizer que sou um homem da civilização do papel. Cadernos, tenho dezenas. Blocos, dezenas. Cadernetinhas, centenas. Posso perder tudo do meu computador, mas tenho minhas coisas todas em papel.

 De vez em quando, portanto, sou assaltado por coisas da memória, em caixas com cartas, documentos, fotos etc. Hoje de manhã, encontrei uma velha carteira da Casa do Estudante Universitário (CEU). A data de validade: 31 de julho de 1990.

Com essa carteirinha, eu tinha direito ao café, almoço e janta no “Erre U”, o Restaurante Universitário. Era uma vida que dependia muito de siglas: “CEU” e “RU”. Com as poucas letras (três vogais e duas consoantes), dava para formar “Cru”, “eu”. Tinha também UFPE (onde eu fazia Educação Artística), e Católica, onde cursava Jornalismo.

A foto da carteira não sei onde foi parar. Certamente tirei para colocar em outro documento, em época de vacas esqueléticas.

Acho que renovei a carteirinha por mais um ano, porque me formei em 1993, na Católica, e nunca terminei Educação Artística, uma coisa ridícula da minha parte, abandonar o curso faltando três disciplinas para receber o diploma.

Para conseguir entrar na CEU tive que exercitar minha criatividade, de formas que a vida também ajuda a gente a escrever. Sem mentir, eu  não conseguiria minha vaga.

Inventei uma história cabeluda. Que minha mãe (coitada da Dona Ermira) tinha me abandonado quando eu nasci, que fui criado pela minha avó, Dona Zeneuda, que morava num pensionato em Fortaleza. Misturava verdades com meias-verdades, acelerava outros processos históricos pessoais, tornava situações simples em hecatombes. De fato, morei com minha avó o primeiro ano, mas foi no Crato, e porque minha mãe já estava com dois filhos pequenos, o Paulo e o Tonho, quando cheguei.

Minha avó, na época da seleção para a CEU, morava de fato em um pensionato, usei toda a documentação dela para provar que não tinha como sobreviver, porque recebia uma “ajudinha” dela, com o dinheiro da aposentadoria. Na verdade, o desafio que o Serviço Social me exigia era um só – provar que eu era pobre.

Tem umas coisas muito engraçadas na vida. O sujeito, aos 20 anos, tem que provar que é pobre, para ter vaga em uma Casa do Estudante, e comer no bandejão. Não podia mostrar os documentos originais da família, de classe média, com casa própria, porque a assistente social avisou que a CEU era para “gente carente”.

Além de pobre, tinha que ser carente. É fogo. Pobre e carente. Já fui, com carimbo e tudo.

O fato é que consegui minha vaga, e foi uma das coisas mais importantes para aquele período de formação. Todas as vezes que passo diante da velha CEU, faço alguma pequena oração, ou só agradeço. Ali, passei quatro anos fundamentais da minha vida, de 1988 a 1992. Estudava de manhã, fazia algum trabalho à tarde, estudava à noite, emendava madrugadas na base do Nescafé, e diante da liseira quase perpétua, saía pouco para as baladas do Recife.

De 1987, quando cheguei, até 1993, quando me formei, era um sujeito ridículo, um ser absolutamente anti-social, arredio, que quase não brincava Carnaval e acompanhava os jogos do Santa Cruz pelo radinho.

Usei a mesma mentira tática no serviço social da Católica, e quando terminei minha história, a moça que analisava o drama de cada um estava quase às lágrimas. Tentava uma bolsa de 25%, mas me saí tão bem, que me deram uma especial, o “pobre gold”, com desconto de 50%.

Nessa época, ataquei muito as livrarias, mas isso conto depois, os crimes ainda não prescreveram.

De vez em quando, encontro com um eventual ex-xepeiro. A maior parte dos amigos, dos que comigo conviveram, estão bem. Muitos passaram em concursos bons, estão bem financeiramente. Outro dia passei rapidamente pelo Árbio, mas ele me parecia muito concentrado em algo, passou muito rápido, não deu tempo falar. Achei ele um pouco aperreado, mas ele passou, a vida segue.

Soube que estão agendando um almoço para o fim do ano, pode ser uma boa rever os camaradas. Pena que Alencar, o bom Alencar, tenha morrido tão moço, num acidente de carro.

Foi um tempo importante na minha vida. O período de formação, de botar as bases em algum projeto de vida, de estudar, ler, aprender. Eu queria ser jornalista, queria ser escritor, queria ser gente, e arregacei as mangas.

Já se passaram vinte anos dessa coisa toda, da citada carteirinha da CEU, eu estou ficando é velho, isso sim.

Postado em Crônicas | 12 Comentários »

Faces

24 de novembro de 2010, às 13:17h por Samarone Lima

Uma amiga me perguntou hoje se tenho facebook, twitter ou msn, passei uma vergonha danada, porque só uso aquele gtalk de vez em quando, e de vez em quando ainda sou convidado para participar de debates sobre “literatura e internet”.

Fiz meu trocadilho básico, dizendo que não tenho facebook, apenas face. Rarara. Isso aconteceu meia hora antes de receber dois envelopes com dezenas de fotografias que mandei revelar naquelas lojinhas, atrás do Cine São Luis, em nosso depauperado centro do Recife.

Foram fotos que tirei com máquina comum, com filme mesmo. Fui guardando numa caixinha, guardando, sem pressa, sabendo que um dia os rolos de filme sairiam do silêncio, do escuro e da solidão, para a minha vida.

Não tenho nada contra nenhuma tecnologia, muito pelo contrário. Eu apenas vou pela minha natureza caseira, doméstica, além de uma vocação muito antiga para ser do contra. Não quero compartilhar fotos minhas numa rede mundial de internet, só isso.

Então peguei as fotos, todas reveladas, que vão para meus muitos albuns, coisa concreta. Tem uma foto do velho amigo Gustavo de Castro, o Jacaré, na cadeira de balanço muito antiga. Não tem a data, mas como foi tirada no quarto onde eu morava, na casa de tia Flocely, no Cabo, deve ser coisa de cinco anos atrás. Ele, o Jacaré, está todo de branco, rindo muito, parece mais um pai de santo. Mas Gustavo é um pai de santo! Na outra footo, Emanuel, meu afilhado, escreve algo em uma das minhas 11 máquinas de datilografia.

Uma das fotos me tocou particularmente. É uma de tia Flocely, no pátio de sua casa no Cabo, ao lado de Bam Bam, seu inseparável cachorrinho de estimação. Tirei do primeiro andar, na hora que ela olhou para mim, vou dar de presente para Rosa, que cuidou dela por mais de 15 anos.

Várias fotos estão relacionadas, claro, com o Poço da Panela, minha eterna pátria espiritual, agora dividida com a rua da Aurora, onde moro. Algumas delas são de um dia em que fizemos um mutirão, para pintar a fachada da minha casa. Acho que foi na primeira eleição de João Paulo para prefeito, porque Iramarai colocou várias estrelas brancas, sobre um fundo azul, e as bordas da janela ficaram vermelhas. Não lembro a data, mas faz tempo, porque Samuca, neto de Seu Vital, era bem pequeno, e agora está um rapazote.

Tem umas fotos de um torneio da criançada do Poço. Essas são bem antigas mesmo, porque os meninos, reles molecotes, estão já rapazes. Totonho está do meu tamanho e já faz teste para jogar em algum clube. Fernando, vulgo “Peixe”, é mecânico e joga aos domingos nos “Caducos”, o que é uma loucura, porque ele tem uns 18 anos e eu, com 41, às vezes tenho que marcá-lo. Numa foto, uma vaca preta, com manchas brancas nas pernas, digo, nas patas, atravessa o campo, mas o jogo seguiu normalmente.

Várias fotos são dos meus ex-adoráveis alunos da Kabum! Creio que uma delas foi em nossa incursão pelo “Olinda arte em toda parte”, quando percorremos as velhas ladeiras à procura dos artistas e seus ateliês. Uma foto tem Beth da Mata, minha dileta amiga, colega de ofício, e que hoje está à frente do Mamam. Todos os alunos estão rindo, mas aluno, quando está fora da sala de aula, está sempre rindo.

Separei uma para mostrar aos meus leitores. É de uma viagem que fiz às terras da família Paulino, quando inauguraram uma biblioteca na comunidade. Foi um belo final de semana, com direito a cantorias, pelada, umas boas cachaças, conversas fiadas, enfim. Isso faz um tempo danado.

É uma foto de três homens, em um bar.

Tentei postar aqui, mas não consegui. Vou ver se algum amigo desenrolado consegue. Se a Internet é a revolução do mundo, como alardeiam por aí, estou no bloco dos lesos, bem atrás, sentado numa carroça, olhando a paisagem e pensando besteiras. De qualquer forma, se não tenho o facebook, tenho cá muitas faces para lembrar.

Em tempo:

Começa hoje, no Sesc Santa Rita, e vai até domingo, a Mostra Sesc de Literatura Contemporânea. A programação tem um bocado de coisa boa. Amanhã (sábado, 14h30), Wellington de Melo vai ler “O Peso do medo: 30 poemas em fúria”. Às 15h, participo da mesa redonda “Literatura na rede”,  com André Vallias (RJ / Site Errática), José Aloise Bahia (MG / Revista Online Germina), Pipol (SP / Site Cronópios) e Cida Pedrosa (PE / Site Interpoética). À noite, às 19h, Lirinha (PE/SP), Marcelino Freire (PE/SP), Xico Sá (SP) e Chico Pedrosa (PE), debatem “Que prosa é essa?”. Se fosse só Xico Sá, acho que seria melhor colocar “Que porra é essa?”.

Postado em Crônicas | 15 Comentários »

Aleluias

18 de novembro de 2010, às 15:16h por Samarone Lima

O melhor remédio para crise criativa, para quem escreve, é andar, olhar, escutar as conversas, cheirar o mundo.

Estava hoje sem rumo ou esperança de algo para oferecer aos meus leitores. O melhor que me ocorreu foi o comentário de uma amiga sobre um palco de teatro, que estava com “poeira entranhada”, quando decidi que estava com fome, e fui ao Princesa Isabel, buscar meu almoço. Já caminhávamos para 14h.

Nesse horário, Seu Azevedo está com as penas repousadas na outra cadeira. Levo um jornal que já li, ele mergulha nas notícias. Dona Nice, sua esposa, transitava com um saco de alho, que começou diligentemente a descascar. Dona Nice é a esposa de Seu Azevedo. Os dois parecem muito Seu Vital e Dona Severina, lá do Poço da Panela. Gomes, perdão, Robertilha, a garçonete, ciscava por ali, sem nada a declarar, pelo menos por enquanto.

E o texto do dia?

Fui à cozinha, pedi um peixe assado a Dona Nininha, a cozinheira. Ela só me chama de “Seu Gageroje”, porque Samarone é um nome estranho, dividido ao meio, com quatro vogais e quatro consoantes, uma consoante e uma vogal, uma consoante e uma vogal, alternando até o fim. Se “Gagerone” é mais fácil que Samarone, fica por isso mesmo.

Sentei na minha mesa azul, liguei o ventilador no três e nada do texto chegar. Gomes, digo, Robertilha, pediu uma mão de vaca e ficou por ali. Anotei umas coisas para fazer, à tarde, e quando meu prato chegou, ele veio descolar um pedaço, a título de tira-gosto.

“Seu Azevedo, a garçonete está atacando outra vez!”

“Ela é assim mesmo”, respondeu de lá, enquanto fazia um bom molho, com pimentas contrabandeadas de Serra Talhada.

Eu já estava no fim, quando o prato de Robertilha chegou. Dona Nininha botou na minha mesa. Mão de vaca e feijão.

A fome era grande, tenham certeza.

Para minha surpresa, dona Nininha sentou do lado direito da mesa, pela primeira vez em minha vida.

Fiquei cercado de duas celebridades do Princesa: Robertilha à esquerda, Nininha à direita.

Puxei assunto. Ela disse que tinha 21 anos de cozinha no bar. Completou dia 9 de agosto.

Robertilha pediu que ela botasse mais uma dose de whisky.

“É o trique?”

Dona Nininha faz brincadeiras com as palavras. Queria dizer “Teachers”.

Seu Vital chama Old Eight de “Odeiote”. É assim a vida, cheia de brincadeiras e marmotas.

Gomes não me ofereceu mão de vaca, mas meu peixinho tinha resolvido tudo. Estava novinho em folha.

Resolvi arranjar arenga.

“Seu Azevedo, a garçonete não teve coragem de me oferecer um pedaço de mão de vaca!”

“Ela é assim mesmo”.

Gomes me disse que era só pegar, não precisava nem oferecer.

“Não negar é uma coisa, oferecer é outra”, respondi. O negócio estava virando um dramalhão em 12 cenas.

Terminei, perguntei a dona Nininha se tinha café.

“Na hora. Se não tivesse, eu fazia um agorinha”.

No final, paguei a conta. Vi a “Caixinha de Natal”. Perguntei se era somente para Dona Nininha, ou se iria dividir com a garçonete.

“Ele não precisa disso. É classe média”, respondeu Nininha.

Botei meu agrado. Já estava para sair, e não sei de onde a garçonete veio com essa pergunta.

“Você sabe o que quer dizer aleluia, em latim?”

“Que Jesus nasceu”, respondeu dona Nininha.

“Deus seja louvado”, esclareceu Gomes.

“E Amém?

“Amem”, respondi.

“Assim seja”, explicou.

Depois disse que “isso é latim”, e só me restou concordar, por falta de argumento e conhecimentos.

Postado em Crônicas | 4 Comentários »

Encontro com Alberto Dines

16 de novembro de 2010, às 11:40h por Samarone Lima

Ontem, conheci pessoalmente o Alberto Dines, sujeito que admiro há tempos, um jornalista e escritor com uma trajetória memorável, sempre buscando a excelência em seu ofício, seja com o debate envolvendo a ética na mídia.

Um sujeito calmo, afável, doce, acompanhado de sua esposa, também jornalista, Norma Couri. O belo casal é uma coisa que o Brasil esbanja . Ele é judeu, ela é descendente de árabes, de libaneses. Amor sem barreiras raciais.

Há umas três semanas eu sabia que iria mediar a mesa do Dines na Fliporto, que falaria sobre Ambrósio Brandão e Stefan Zweig. O primeiro escreveu “Diálogo das grandezas do Brasil”, o segundo foi o autor do famoso “Brasil, país do futuro”.

No final da manhã, trocamos idéias, fiz perguntas, tirei dúvidas. O Dines sempre solícito, gentil. Jornalista reconhecido, autor de mais de 15 livros, apresentador do Observatório da Imprensa, mas de uma simplicidade absoluta. Passei a admirá-lo mais.

Foi nessas conversas que fiquei sabendo que no final dos anos 1980, o Dines escreveu um texto para a folha de São Paulo sobre o Paulo Maluf. O texto não foi publicado e ele foi demitido. Pegou a indenização, o FGTS, e foi escrever a biografia do Stefan Zweig. Pela primeira vez, em muitos anos, tinha tempo e dinheiro, já que investiu o dinheiro para ficar com rendimentos. Não podemos negar que algo de bom o Maluf fez para a cultura do Brasil – tirou o Dines das redações.

Faz tempo também que não escuto uma definição tão boa para a famosa questão do “jornalismo” e “jornalismo literário”, que aparece em todo debate com jornalistas.

“Como todo jornalista, eu sempre quis fazer literatura. Ao invés de ser algo esporádico, aos finais de semana, à noite, fazer jornalismo e literatura à luz do dia, em tempo integral. Foi o que fiz após a demissão. APliquei o dinheiro e fui pesquisar, escrever, em tempo integral. Hoje chamam isso de jornalismo literário”.

O livro, intitulado “Stefan Zweig – Morte no Paraíso”,  foi publicado em 1981, teve a segunda edição em 1982. Em 2004, ganhou a terceira versão, mais encorpada e densa, e já foi publicada em Portugal e Alemanha. Em 2011, sai a edição espanhola. Digo a vocês que se trata de um livrão, desses que engrandecem qualquer biblioteca.

A conferência do Dines na Fliporto foi memorável. Falou sobre Clarice Lispector, Stefan Zweig, lembrou que o Brasil “produz encantamentos há 510 anos”, mas observou que o passado produz mais curiosidade do que os “exercícios de futurismo”.

Fiquei ao seu lado, no palco, no meu clássico estilo de tocar a bola para o convidado, aparecer o mínimo possível ou não atrapalhar.  Tudo correu bem. Ele conseguiu ler todo o texto, apesar dos avisos da moça da produção, de que o tempo estava sempre acabando.

Ao final, ele foi aplaudido de pé.

Foi um belo momento da Fliporto, creio.

Postado em Crônicas | 7 Comentários »

Manguel chama Vargas Llosa de “imundo”, na Fliporto

14 de novembro de 2010, às 12:18h por Samarone Lima

Momento radical hoje de manhã na Fliporto. Já no final de seu delicioso bate papo com José Eduardo Agualusa e com o público, mandei uma pergunta ao Alberto Manguel:

“O que achas do Prêmio Nobel que foi dado ao Vargas Llosa? E qual a importância dos prêmios literários, para os escritores?”

Ele começou pelo fim. Disse que os prêmios literários representam, sobretudo, dinheiro, e como “temos que viver”, fica muito contente com a existência dos prêmios.

Sobre Vargas Llosa, Manguel desejou que ele fosse um escritor menos “imundo”, uma pessoa que não tem nada que ver com sua obra.

“Ele inclusive deveria aproveitar o prêmio que recebeu para ler sua própria obra, e ver se se torna alguém melhor”.

Foi seu último comentário. A tradução pecou, ao tentar amenizar, porque traduziu “imundo” por “deficiente”.

Tirando este desabafo radical, o encontro de Agualusa e Alberto Manguel foi um dos melhores momentos da Fliporto.

Antecipo alguns trechos:

Origens

“Quando comecei a escrever, percebi que nunca iria colocar meus livros na minha biblioteca, ao lado das coisas que me encantavam. Na minha biblioteca, não há nenhum de meus livros”.

“Borges dizia que o leitor lê o que quer, e o escritor escreve o que pode. Nos resignamos a escrever  o que podemos”.

O caso do professor

“Nos anos 1980 eu queria escrever ficção. Tinha estudado o secundário no Colégio Nacional de Buenos Aire, e durante a ditadura, os militares buscavam guerrilheiros. Era evidente que alguém apontava. Nessa escola, tinha um professor que nos abriu sua biblioteca universal, nos mostrava romances.

Fui embora da Argentina antes do golpe, e muitos dos meus colegas, professores, foram presos, mortos, desaparecidos, ou exilados.

Muitos anos depois, no Brasil, encontrei um amigo da escola. Ele me disse que quem denunciava os estudantes, professores, era justamente esse professor de literatura, que representava para mim tudo o que mais quero, que mais creio – a função humanizante das letras.

O que eu poderia fazer? Tinha três opoções.

1. Rechaçar tudo;

2. Fazer de conta que não tinha acontecido a traição; 

3. Mater a tensão entre as duas perguntas.

Isso é o que faz a literatura: Mantém a tensão entre essas duas perguntas”.

Demonizar o outro

Manguel citou o “ato malvado”, ou a facilidade que temos para demonizar uma pessoa, de tratá-la como monstro.

“Todos somos capazes dos atos mais terríveis – e todos somos capazes de não fazê-lo. Temos que ser capazer de imaginar este ato, e a capacidade de dizer: Isso eu não vou fazer”.

“Eu creio que a literatura serve para nos fazer perguntar acerca da maldade e também acerca da bondade. Borges dizia que, num mesmo dia, vivemos o céu e o inferno”.

Nacionalidade

Ao ser perguntado pelo público sobre suas múltiplas nacionalidades (Manguel nasceu na Argentina, morou no Canadá, em Israel, hoje vive na França), e se isso beneficia ou prejudica o escritor, ele respondeu:

“Não gosto das etiquetas. Isso [o lugar onde nasceu] não significa nada, são pontos no mapa. Minha identidade não está no lugar onde minha mãe estava, quando nasci.

Não gosto dos casamentos arrumados. O Canadá é um país onde a idéia de Democracia me parece possível. Na América Latina, não se pode pronunciar a Democracia sem uma certa ironia.

Bibliotecas

“Uma biblioteca é uma autobiografia. Em minha biblioteca, outro dia, havia 30 mil livros, agora são 35 mil. Os livros se reproduzem como coelhos”.

Leitura para Borges

Aos 15 anos, Manguel começou um trabalho de dar inveja: Lia para Jorge Luís Borges, que estava cego.

Sobre isso escrevo depois. Vou perambular um pouco pela feira de livros…

Postado em Crônicas | 4 Comentários »

« Artigos anteriores