Validade: 31 de julho de 1990. Memórias de um “pobre gold”.
Samarone Lima
Na vida, a gente tem muitas coisas com prazo de validade. Umas vencem e a gente não percebe. Outras perdem o prazo de validade. Outras ficam para sempre, mas a gente às vezes demora a perceber.
Essas minhas reflexões inúteis surgiram do mar de papéis que sempre tenho por perto. Costumo dizer que sou um homem da civilização do papel. Cadernos, tenho dezenas. Blocos, dezenas. Cadernetinhas, centenas. Posso perder tudo do meu computador, mas tenho minhas coisas todas em papel.
De vez em quando, portanto, sou assaltado por coisas da memória, em caixas com cartas, documentos, fotos etc. Hoje de manhã, encontrei uma velha carteira da Casa do Estudante Universitário (CEU). A data de validade: 31 de julho de 1990.
Com essa carteirinha, eu tinha direito ao café, almoço e janta no “Erre U”, o Restaurante Universitário. Era uma vida que dependia muito de siglas: “CEU” e “RU”. Com as poucas letras (três vogais e duas consoantes), dava para formar “Cru”, “eu”. Tinha também UFPE (onde eu fazia Educação Artística), e Católica, onde cursava Jornalismo.
A foto da carteira não sei onde foi parar. Certamente tirei para colocar em outro documento, em época de vacas esqueléticas.
Acho que renovei a carteirinha por mais um ano, porque me formei em 1993, na Católica, e nunca terminei Educação Artística, uma coisa ridícula da minha parte, abandonar o curso faltando três disciplinas para receber o diploma.
Para conseguir entrar na CEU tive que exercitar minha criatividade, de formas que a vida também ajuda a gente a escrever. Sem mentir, eu não conseguiria minha vaga.
Inventei uma história cabeluda. Que minha mãe (coitada da Dona Ermira) tinha me abandonado quando eu nasci, que fui criado pela minha avó, Dona Zeneuda, que morava num pensionato em Fortaleza. Misturava verdades com meias-verdades, acelerava outros processos históricos pessoais, tornava situações simples em hecatombes. De fato, morei com minha avó o primeiro ano, mas foi no Crato, e porque minha mãe já estava com dois filhos pequenos, o Paulo e o Tonho, quando cheguei.
Minha avó, na época da seleção para a CEU, morava de fato em um pensionato, usei toda a documentação dela para provar que não tinha como sobreviver, porque recebia uma “ajudinha” dela, com o dinheiro da aposentadoria. Na verdade, o desafio que o Serviço Social me exigia era um só – provar que eu era pobre.
Tem umas coisas muito engraçadas na vida. O sujeito, aos 20 anos, tem que provar que é pobre, para ter vaga em uma Casa do Estudante, e comer no bandejão. Não podia mostrar os documentos originais da família, de classe média, com casa própria, porque a assistente social avisou que a CEU era para “gente carente”.
Além de pobre, tinha que ser carente. É fogo. Pobre e carente. Já fui, com carimbo e tudo.
O fato é que consegui minha vaga, e foi uma das coisas mais importantes para aquele período de formação. Todas as vezes que passo diante da velha CEU, faço alguma pequena oração, ou só agradeço. Ali, passei quatro anos fundamentais da minha vida, de 1988 a 1992. Estudava de manhã, fazia algum trabalho à tarde, estudava à noite, emendava madrugadas na base do Nescafé, e diante da liseira quase perpétua, saía pouco para as baladas do Recife.
De 1987, quando cheguei, até 1993, quando me formei, era um sujeito ridículo, um ser absolutamente anti-social, arredio, que quase não brincava Carnaval e acompanhava os jogos do Santa Cruz pelo radinho.
Usei a mesma mentira tática no serviço social da Católica, e quando terminei minha história, a moça que analisava o drama de cada um estava quase às lágrimas. Tentava uma bolsa de 25%, mas me saí tão bem, que me deram uma especial, o “pobre gold”, com desconto de 50%.
Nessa época, ataquei muito as livrarias, mas isso conto depois, os crimes ainda não prescreveram.
De vez em quando, encontro com um eventual ex-xepeiro. A maior parte dos amigos, dos que comigo conviveram, estão bem. Muitos passaram em concursos bons, estão bem financeiramente. Outro dia passei rapidamente pelo Árbio, mas ele me parecia muito concentrado em algo, passou muito rápido, não deu tempo falar. Achei ele um pouco aperreado, mas ele passou, a vida segue.
Soube que estão agendando um almoço para o fim do ano, pode ser uma boa rever os camaradas. Pena que Alencar, o bom Alencar, tenha morrido tão moço, num acidente de carro.
Foi um tempo importante na minha vida. O período de formação, de botar as bases em algum projeto de vida, de estudar, ler, aprender. Eu queria ser jornalista, queria ser escritor, queria ser gente, e arregacei as mangas.
Já se passaram vinte anos dessa coisa toda, da citada carteirinha da CEU, eu estou ficando é velho, isso sim.
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