O trabalho tinha terminado, foi meio puxado porque a cerimônia atrasou, então ficamos livres somente lá pelas 18h40. Meu chefe já estava me olhando com aquela cara de quem quer tomar umas. Era quarta-feira, e chegamos vivos ao mês de dezembro, quando os bares ficam ainda mais simpáticos.
Na cerimônia, tinha um coquetel, fomos lá, mas como era coisa da secretaria de Saúde, apenas suco, refrigerante e salgadinhos. Meu amigo queria pegar uma carona para ir ao Bar Royal, no Bairro do Recife, onde estava outro comparsa nosso já com fogo nas ventas, mas fui conversando com velhos amigos e ganhando tempo. No fundo estava cavando uma alternativa melhor – o amado Princesa Isabel.
Meu amigo percebeu e ficou cismado. Ele acha o Princesa muito barulhento e tem um cartaz “proibido fumar”, que a garçonete do bar descumpre diariamente.
Vi que tinha mudas de planta sendo doadas, peguei logo duas, dei uma para meu chefe levar, ele já estava ficando contrariado, quando consegui uma carona para o centro. Nisso, a carona que nos deixaria no Royal foi embora. Nisso, que falo, era minha cera intencional.
No caminho desconversei, disse que poderíamos tomar umas no Parque 13 de Maio, ele engoliu essa corda, e de fato, a carona nos deixou no Parque. Não deu tempo sentar no primeiro bar, minha tapia básica, porque só tinha Nova Schin.
Entramos triunfalmente no Princesa. Ele não quis pagar o mico de andar com planta na mão, cheguei com as duas mudas e pedi a Seu Azevedo para guardar “até amanhã”, que é hoje. Robertilha, digo, Gomes, perguntou logo qual era a planta;
“Jacarandá Estrela e Andiroba Cancão”, respondi, porque sou rápido no improviso.
“Ah, logo vi”, respondeu.
Sentamos na calçada. Meu chefe precisava fumar. A Skol veio gelada. Bebemos o primeiro gole e “zuuuuuum” passou um José Bonifácio quase rasgando o meio fio. Foi apenas o primeiro, dos 156 ônibus que passaram, cospindo fumaça na gente, durante uma reles cerveja.
“Sama!”, exclamou.
Já sei, não está gostando. Resignei-me. O barulho estava mesmo infernal, eu nunca tinha percebido que no Recife os ônibus eram tão barulhentos e fumacentos. Sugeri outro bar, no final da rua contígua, no final da Rua da Saudade.
E ainda me perguntam por que sou louco por essa cidade. Como pode, em três quarteirões, o sujeito sair da Rua da Aurora, passar pela Rua da União e chegar à Rua da Saudade?
Ele topou. Fomos ao “Caldaço”, com mesas na rua. Sentamos, um amigo jornalista avisou:
“Aqui não tem garçom”.
Meu chefe olhou com chispas nos olhos. Para evitar agressão física, ele foi comprar algo. Fiquei na mesa, solfejando uma ópera de Verdi.
Depois de cinco minutos, fui lá.
“Melhor a gente ir para outro bar, não é?”, disse eu, tentando evitar o pior.
Fomos para um bar próximo, com mesas na calçada. Sentamos, pedimos uma Skol, ele acendeu seu cigarrinho e finalmente parecia que tudo estava em paz.
A moça trouxe uma bela e deliciosa cerveja morna. É o famoso “pisar em rastro de corno”.
De comum acordo, resolvemos ir ao quinto bar. Cabisbaixos, seguimos pera Rua da Saudade e voltamos à rua Princesa Isabel. Ele olhou para meu bar predileto e justamente naquele momento, um ônibus passava defronte, jogando uma fumaça grossa e escura como a dos carros cubanos.
“Para aquele fumacê não vou nem amarrado!”
Ficamos no bar da esquina. Um garço encurvado, sério, meticuloso, dado a pouquíssimas palavaras, como se pagasse por cada sílaba falada, nos atendeu. Perguntei o preço da cerveja, ele disse a maior frase da noite, um polissílabo, salvo engano, que Flávia Suassuna não me leia:
“Três-e-cinquenta”
“Mas no cardápio está três reais”, reclamei.
“Aumentou-hoje”.
Josafá, digo, meu chefe, pediu que Encurvado trouxesse logo a cerveja, acendeu outro cigarro e a sorte estava lançada.
Veio milimetricamente gelada. Encurvado não é muito chegado a esse negócio que surge eventualmente no rosto, chamado sorriso. Tinha as mãos longas e polidas, poderia ser um excelente proctologista, e pelo que percebi, não gostava de ser chamado pelos clientes. Era quase um incômodo levantar a mão em sua direção.
Meu chefe descobriu que o cano de escapamento dos ônibus estava sempre do lado esquerdo, e por isso, constatou, a fumaça ía sempre para dentro do Princesa. Agora, creio, toda vez que bebo um gole de cerveja no Princesa, absorvo dois litros de CO2. Vou falar com Seu Azevedo, para pedir um desconto. É rezar para a turma do Greenpeace não saber dessa, pode haver manifestação com mulher pelada na frente, por causa da Camada de Ozônio.
A conversa rumou tranquila. Os bons amigos sabem da conversa do outro. Os grandes amigos, na verdade, são monotemáticos, falam sempre dos mesmos assuntos, geralmente na mesma sequência, e esperam a vez, antes de emendar.
Lá pelas tantas, umas 20h30, o Princesa começou a fechar.
“Tá vendo? A gente já estava sendo enxotados”.
Encurvado veio, disse mais três ou quatro sílabas.
“Sim”, ao ser perguntado se tinha caldinho.
“De sopa”, ao ser perguntado se tinha caldinho de feijão.
“Marisco”, ao ser perguntado se tinha outro tipo de caldo.
Saímos de lá depois de esgotar todos os assuntos e prognósticos. Acertamos algumas ações para melhorar a humanidade e determinamos algumas coordenadas para o amanhã. Como sempre, repeti histórias que já tinha contado na cervejada anterior, e meu amigo, educadamente, não disse o lamentável “já contasse essa, Sama”, que estraga qualquer relato. Mantendo uma promessa de cinco anos, não contei nenhuma piada. Depois, fui solfejando aquela área de Puccini pela rua da Aurora.
Hoje, que é o amanhã de ontem, já está quase terminando e não peguei as plantas. Aposto que Robertilha já está de olho no meu Jacarandá Estrela e no Andiroba Cancão. Vou lá, buscar agorinha, antes que seja tarde.