Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias | Por Samarone Lima

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Pausa

24 de dezembro de 2010, às 20:11h por Samarone Lima

Ao lado do querido amigo Cervantes, em Havana...

Amados leitores;

Anuncio pausa de alguns dias para respirar outros ares, descansar, ler, essas coisas.

A todos, um fim de ano venturoso.

Meu único conselho nesta tempestade de ritmos e eventos é simples: Tentar o exercício da lentidão em 2011. E nada de se chatear com besteiras.

Ah, mas quem sou eu para essa de conselhos? Sigam por onde achar mais bonito, melhor assim.

Em janeiro anuncio a abertura de minha oficina literária, uma parceria parceria com o senhor Inácio França (www.caotico.com.br) e Vandeck Santiago, grande jornalista do Diário de Pernambuco. Cada um vai ter sua oficina, e acho que vai ser muito bacana, vamos ver.

Abraços,

Samarone.

ps. Yvette, aguardo o convite para o casório! Parabéns. O marido é gente finíssima.

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O cheiro dos cabelos

17 de dezembro de 2010, às 17:15h por Samarone Lima

Ela era casada, mas sempre que ele passava, geralmente de bicicleta, ela sentia aquela fagulha, ou aquela “coceirinha no coração”, como me disse outro dia um grande amigo. Olhava o rapaz, seu jeito de pedalar meio manso, como se estivesse saboreando cada sopro daquele vento. Achava lindo ele e aquela bicicleta verde. Ele, por sua vez, tinha reparado nela, mas sabia que era casada, tinha um filho, então seguia pedalando, pedalando.

O tempo passou, ela separou. Um dia, ela foi a uma mercearia, próximo da sua casa, encontrou um amigo. Tomaram uma cerveja, mataram saudades, até que o rapaz chegou, em sua bicicleta verde. Ela teve um susto. O amigo conhecia o rapaz e a apresentou. Ele morava ali próximo, ela nem desconfiava, mas era quase sua vizinha.

Foi tudo rápido. Ele comprou um saco de bolachas e saiu pedalando. Talvez fugisse. Essas coisas de quem espera e sofre.

O tempo passou. Há alguns dias, ela me contou que o encontrou. Saiu de casa para comprar uma melancia, numa tarde de sábado. Coisas de Casa Amarela, isso de melancia. Quando passou pela venda, ele estava tomando uma cerveja com um amigo e a convidou para sentar. Só a cerveja mesmo, para tanta coragem.

Ela, assustada, deixou a melancia para depois.

 Foi uma conversa boa, cheia de sorrisos e pequenos esboços de luz. O bêbado que passou, falando de futebol, o dominó à sombra de uma grande árvore, cães mansos cochilando.

Quando ela estava para sair, ele a convidou sem muito pudor.

“Vamos tomar a saideira lá em casa?”.

Ela foi. Ela sempre quis ir. Quase lhe deu a mão no caminho.

Sabe-se que se amaram a tarde inteira. Já era noitinha, quando ela cheirou os cabelos dele. Não, não cheirou, ela respirou profundamente os cabelos dele.

“Eu sempre quis cheirar teus cabelos”, disse.

Foi assim, tão simples.

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Na volta, a ótima notícia

15 de dezembro de 2010, às 9:25h por Samarone Lima

Mal chego de viagem, recebo a ótima notícia. Finalmente, depois de uma longa espera e várias frustrações, conseguimos uma casinha deliciosa, no Poço da Panela, às margens do rio Capibaribe e do campinho de Seu Abdias.

Será lá a biblioteca comunitária da comunidade.

Hoje pegamos as chaves. Depois passarei o chapéu, pedindo a ajuda em livros, estantes e participação aos meus amados leitores.

Já somos padrinhos: Naná, Boy, Ninha, Luzilá, Flávia Suassuna, Arsênio, Gerrá, Marcus Galindo, Bruno Raposo, Iramarai etc.

Digamos que meu Natal já chegou, e foi hoje.

ps. quem quiser ajudar, é só mandar uma mensagem para este blog, deixando contatos. Caso queira algo mais discreto, meu email:: samalima@gmail.com

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Notas de viagem

13 de dezembro de 2010, às 1:58h por Samarone Lima

De Taperoá-PB.

Essa minha facilidade para atrair doido está começando a me preocupar. Cheguei ontem em Taperoá, na Paraíba, para umas pesquisas de um documentário que estou realizando, e no café da manhã, numa barraca perto da igreja, antes de pedir o pão com ovo e o café, um sujeito senta ao meu lado.

“Sai já dai!”, diz a mulher que atende.

Ele ri.

“Deixa ele”, digo.

Ele olha para mim, tem umas pálpebras meio arqueadas e as pupilas de bode. 

“Vou deixar a barba crescer também”, diz o camarada, com um rosto que mais parecia uma escada.

“Ele é doido”, diz a mulher para mim, baixinho.

Eu quero é novidade, foi o que pensei, já subindo no primeiro degrau.

Depois chega um sujeito, brincalhão, e pergunta onde meu amigo vai parir.

“Acho que em São José do Egito”.

Sim, o doido diz que está grávido. Todos riem, chega meu pão com ovo, e só agora entendo a paixão de Ariano Suassuna por doido. Na terra dele parece ter de sobra.

O personagem do café da manhã, porém, não é o doido, é a brincadeira.

Faz tempo que não vejo um povo tão brincalhão como esse de Taperoá. O riso corre frouxo, um cutuca o outro, as três funcionárias da barraquinha se derramam em sorrisos. Do nada, surgem umas duas boas histórias sobre vento e chuva, previsões que passam por avaliações do tipo “o vento hoje está soprando de banda”.

Saio para minha missão, faço umas entrevistas boas pacas. Conversei com um sujeito que é total e intencionalmente ágrafo.

“Só escrevo minhas fichas sobre museus, nada mais que isso”, disse.

Foi a primeira vez que conheci um sujeito que tem domínio da língua, mas se recusa a utilizar, mas não senti inveja nenhuma disso.

Depois, entrevistei Manelito, um dos maiores cabrólogos do Brasil. O homem entende de cabras, sabe a diferença das raças pelo tamanho da unha, aponta a nacionalidade pela espessura do pelo, entende a língua que falam, indica a procedência a partir da pupila, explica o tamanho a partir da colonização da África e diz que na Bíblia, as cabras são citadas 132 vezes, motivo de sobrar para o homem do Semi-Árido Brasileiro ter se interessado há muitos anos pela criação do citado animal, no lugar do gado.

Falou sobre outras coisas interessantíssimas, é um sujeito dono de uma prosa que mais parece uma fonte d’ água, mas são coisas para meu documentário, não posso tirar o ineditismo desta minha invenção.

À noite, depois de um dia cheio, cheguei à pousada, um lugar simples, com o básico para minha sobrevivência por uma noite: Cama, banheiro e ventilador no três. Isso tudo por R$ 15,00.

Após um banho, fui para a sala, botar meus apontamentos em dia. Não tinha viv’alma por ali, levei o ventilador, meu chimarrão e comecei a garatujar. O dono da pousada apenas me recebeu, entregou a chave e sumiu. Eu parecia estar num navio abandonado, na terceira classe, sem timoneiro. Logo começou a chover.

Já era perto de meia-noite, quando chegou um casal. Duas criaturas malamanhadíssimas, andavam meio que trôpegas, topando nas próprias unhas, inacreditavelmente enxutas. Ou vieram se desvencilhando dos pingos, ou foram protegidos por uma auréola que não era visível aos incautos, foi o que pensei.

Cinco minutos depois, a mulher vem e fala bem próximo de minha orelha esquerda, justo no meu ouvido mais defeituoso:

“Qual é o canal de sexo?”

Eu me meto em cada uma, que vou dizer. Acho que se estivesse num hotel cinco estrelas, no Cairo, no Egito, apareceria um vendedor me oferecendo um camelo novinho, de raça boa, com desconto, ou parcelado em 36 vezes.

“Sei não, minha senhora, eu não sou daqui de Taperoá não”.

Ela me apontou o controle remoto, como se eu realmente me entendesse com este objeto, algum dia da minha vida. Era também uma pessoa indiferente às respostas.

“O canal de sexo, qual é?”

Que bafo, amigos, que bafo! Metade das muriçocas entraram em óbito após a pergunta.

“Sei não, minha senhora, não sou daqui de Taperoá não”, respondi, como se em Taperoá tivesse um canal de TV exclusivo para sexo explícito, a Taperosex.

Eu estava até sem saber o que escrever, ultimamente ando muito sem assunto, quando ela voltou, para me dar o que escrever.

“Qual é o canal da Bandeirantes?”

O controle estava de cabeça pra baixo, isso eu sei reconhecer.  No Recife, a Bandeirantes é no nove, não sei como é na Paraíba. Cada estado tem sua muganga.

Se eu dissesse que era o 9, ela apertaria no 6, porque o troço estava de cabeça pra baixo. Na dúvida, apertei no pitoco ao avesso, que daria o 9 mesmo, para não tumultuar a noite de orgia do casal.

Ela foi embora. Lembrei que no meu quarto tinha aquela raquete mata-muriçoca, feita na China, que dá um choque e torra a muriçoca na hora. Inácio tem uma em sua casa, é um barato, brinquei muito com o Bruno, filho de Inácio, mas onde moro, no vigésimo andar, não tem como o inseto chegar. Fui lá, peguei minha raquete. Era amarela, por sinal.

“Bzzz! Bzzz!”

Matei logo duas no primeiro lance, mas não tinha ninguém para ver minha maestria. Me senti o próprio Guga, jogando sozinho em Rolland Garros.

A mulher não voltou mais. Deve ter acertado no pitoco da TV ou em outro pitoco.

Depois, tudo ficou no mais profundo silêncio, interrompido somente por meus eventuais e precisos movimentos com a raquete chinesa.

“Bzzz! Bzzz!”

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Errâncias (ou: cinco caminhos em busca de um bar)

2 de dezembro de 2010, às 18:32h por Samarone Lima

O trabalho tinha terminado, foi meio puxado porque a cerimônia atrasou, então ficamos livres somente lá pelas 18h40. Meu chefe já estava me olhando com aquela cara de quem quer tomar umas. Era quarta-feira, e chegamos vivos ao mês de dezembro, quando os bares ficam ainda mais simpáticos.

Na cerimônia, tinha um coquetel, fomos lá, mas como era coisa da secretaria de Saúde, apenas suco, refrigerante e salgadinhos. Meu amigo queria pegar uma carona para ir ao Bar Royal, no Bairro do Recife, onde estava outro comparsa nosso já com fogo nas ventas, mas fui conversando com velhos amigos e ganhando tempo. No fundo estava cavando uma alternativa melhor – o amado Princesa Isabel.

Meu amigo percebeu e ficou cismado. Ele acha o Princesa muito barulhento e tem um cartaz “proibido fumar”, que a garçonete do bar descumpre diariamente.

Vi que tinha mudas de planta sendo doadas, peguei logo duas, dei uma para meu chefe levar, ele já estava ficando contrariado, quando consegui uma carona para o centro. Nisso, a carona que nos deixaria no Royal foi embora. Nisso, que falo, era minha cera intencional.

No caminho desconversei, disse que poderíamos tomar umas no Parque 13 de Maio, ele engoliu essa corda, e de fato, a carona nos deixou no Parque. Não deu tempo sentar no primeiro bar, minha tapia básica, porque só tinha Nova Schin.

Entramos triunfalmente no Princesa. Ele não quis pagar o mico de andar com planta na mão, cheguei com as duas mudas e pedi a Seu Azevedo para guardar “até amanhã”, que é hoje. Robertilha, digo, Gomes, perguntou logo qual era a planta;

“Jacarandá Estrela e Andiroba Cancão”, respondi, porque sou rápido no improviso.

“Ah, logo vi”, respondeu.

Sentamos na calçada. Meu chefe precisava fumar. A Skol veio gelada. Bebemos o primeiro gole e “zuuuuuum” passou um José Bonifácio quase rasgando o meio fio. Foi apenas o primeiro, dos 156 ônibus que passaram, cospindo fumaça na gente, durante uma reles cerveja.

“Sama!”, exclamou.

Já sei, não está gostando. Resignei-me. O barulho estava mesmo infernal, eu nunca tinha percebido que no Recife os ônibus eram tão barulhentos e fumacentos. Sugeri outro bar, no final da rua contígua, no final da Rua da Saudade.

E ainda me perguntam por que sou louco por essa cidade. Como pode, em três quarteirões, o sujeito sair da Rua da Aurora, passar pela Rua da União e chegar à Rua da Saudade?

Ele topou. Fomos ao “Caldaço”, com mesas na rua. Sentamos, um amigo jornalista avisou:

“Aqui não tem garçom”.

Meu chefe olhou com chispas nos olhos. Para evitar agressão física, ele foi comprar algo. Fiquei na mesa, solfejando uma ópera de Verdi.

Depois de cinco minutos, fui lá.

“Melhor a gente ir para outro bar, não é?”, disse eu, tentando evitar o pior.

Fomos para um bar próximo, com mesas na calçada. Sentamos, pedimos uma Skol, ele acendeu seu cigarrinho e finalmente parecia que tudo estava em paz.

A moça trouxe uma bela e deliciosa cerveja morna. É o famoso “pisar em rastro de corno”.

De comum acordo, resolvemos ir ao quinto bar. Cabisbaixos, seguimos pera Rua da Saudade e voltamos à rua Princesa Isabel. Ele olhou para meu bar predileto e justamente naquele momento, um ônibus passava defronte, jogando uma fumaça grossa e escura como a dos carros cubanos.

“Para aquele fumacê não vou nem amarrado!”

Ficamos no bar da esquina. Um garço encurvado, sério, meticuloso, dado a pouquíssimas palavaras, como se pagasse por cada sílaba falada, nos atendeu. Perguntei o preço da cerveja, ele disse a maior frase da noite, um polissílabo, salvo engano, que Flávia Suassuna não me leia:

“Três-e-cinquenta”

“Mas no cardápio está três reais”, reclamei.

“Aumentou-hoje”.

Josafá, digo, meu chefe, pediu que Encurvado trouxesse logo a cerveja, acendeu outro cigarro e a sorte estava lançada.

Veio milimetricamente gelada. Encurvado não é muito chegado a esse negócio que surge eventualmente no rosto, chamado sorriso. Tinha as mãos longas e polidas, poderia ser um excelente proctologista, e pelo que percebi, não gostava de ser chamado pelos clientes. Era quase um incômodo levantar a mão em sua direção.

Meu chefe descobriu que o cano de escapamento dos ônibus estava sempre do lado esquerdo, e por isso, constatou, a fumaça ía sempre para dentro do Princesa. Agora, creio, toda vez que bebo um gole de cerveja no Princesa, absorvo dois litros de CO2. Vou falar com Seu Azevedo, para pedir um desconto. É rezar para a turma do Greenpeace não saber dessa, pode haver manifestação com mulher pelada na frente, por causa da Camada de Ozônio.

A conversa rumou tranquila. Os bons amigos sabem da conversa do outro. Os grandes amigos, na verdade, são monotemáticos, falam sempre dos mesmos assuntos, geralmente na mesma sequência, e esperam a vez, antes de emendar.

Lá pelas tantas, umas 20h30, o Princesa começou a fechar.

“Tá vendo? A gente já estava sendo enxotados”.

Encurvado veio, disse mais três ou quatro sílabas.

“Sim”, ao ser perguntado se tinha caldinho.

“De sopa”, ao ser perguntado se tinha caldinho de feijão.

“Marisco”, ao ser perguntado se tinha outro tipo de caldo.

Saímos de lá depois de esgotar todos os assuntos e prognósticos. Acertamos algumas ações para melhorar a humanidade e determinamos algumas coordenadas para o amanhã. Como sempre, repeti histórias que já tinha contado na cervejada anterior, e meu amigo, educadamente, não disse o lamentável “já contasse essa, Sama”, que estraga qualquer relato. Mantendo uma promessa de cinco anos, não contei nenhuma piada. Depois, fui solfejando aquela área de Puccini pela rua da Aurora.

Hoje, que é o amanhã de ontem, já está quase terminando e não peguei as plantas. Aposto que Robertilha já está de olho no meu Jacarandá Estrela e no Andiroba Cancão. Vou lá, buscar agorinha, antes que seja tarde.

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