Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias | Por Samarone Lima

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Um pouco de silêncio me fará bem

28 de janeiro de 2011, às 17:19h por Samarone Lima

Não sei o que há, mas chegou um tempo de aridez neste Estuário. Tenho postado as coisas com um certo cansaço. Os textos, que antes pareciam surgir de um toque de pelada, que me alegravam só de pensar em escrever, agora batem na trave. A demora em novas postagens é apenas um sintoma. Indício de desejos profundos de mudança.

Então percebo. Estou cansado.

Olhei há pouco no índice. São 672 textos, desde agosto de 2005. Acho que já escrevi crônicas demais. Preciso dar um tempo para mim e para os meus leitores. Hoje mesmo, enquanto a dentista me fazia um canal, contou uma longa e divertida história sobre mediunidade, os sonhos que tinha de que era guilhotinada e cantava em francês, sua ajudante emendou, falando de seu pai, morto, que apareceu num sonho, e não tive a gana de contar a história com os adornos que merecia.

Coisas da vida. Estou cansado.  Constato e aceito. Também não quero ofertar qualquer coisa aos leitores, sempre tão gentís, carinhosos.

Por outro lado, trabalho imensamente em dois projetos que me consomem muita energia, estão sendo a minha alegria, coisas que vou elaborando diariamente, com paciência e entusiasmo. Coisas para compartilhar mais adiante. Preciso também cuidar das outras fontes.

Um pouco de silêncio me fará bem. Aos leitores, obrigado por me terem feito companhia. Um dia volto, mas não sei quando…

“Não sei por que, não sei por que nem como

eu me perdoo a vida a cada dia”.

(Miguel Hernández, poeta espanhol)

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Escrever, prosseguir

25 de janeiro de 2011, às 17:02h por Samarone Lima

Originais ilegíveis

Não sei quando foi que aconteceu, mas aconteceu. Depois do lançamento do meu livro sobre Cuba, o “Viagem ao Crepúsculo”, encontrei um leitor generosíssimo, que se debruçou sobre meus poemas publicados na Internet, e depois de indas e vindas, saiu uma seleção, que agora está sendo editada pela editora Paés. Aguardo com um certo frio na barriga a versão final para fazer o lançamento.

Defensor ardoroso de leituras alheias de originais, imprimi e passei para algumas pessoas que admiro. Elas me deram retorno, algumas foram de uma generosidade extrema, e pude fazer cortes, acertos, tirar algumas coisas que não estavam boas. Agradecerei a todos no livro.

Então descubro que estou sempre fazendo isso – lendo e escrevendo.

Como o livro de poemas já saiu das minhas mãos, retomei um velho projeto, iniciado em 1992. Um livro que venho escrevendo e deixando para decantar, escrevendo e me perdendo dele, cansando e me escondendo também, sobre fatos explosivos acontecidos no Recife, naquele longínquo 1966. Quando comecei a escrevê-lo, era um aluno de Jornalismo da Universidade Católica, fiz várias entrevistas, pesquisei em arquivos, mas a história era complexa demais para ser contada.

Essa foi uma descoberta besta que fiz, ao longo desses anos. As histórias têm seu próprio tempo de serem contadas. A história de José Carlos da Mata Machado chegou, se instalou, cravou sua bandeira e não tive como escapar. Foi meu primeiro livro.

Pois bem, desde novembro do ano passado, voltei ao meu livro de 1992. Eu tinha 23 anos, agora estou com 41. É um bom tempo de maturação.

Voltei e esbarrei num dos piores tormentos para quem se propôe a escrever uma história: Não saber como contá-la. Pior que isso, perceber que ela está mal contada.

Era o que eu vinha sentindo. Tinha duas versões no computador, cada uma com dezenas de capítulos, revisões que se misturavam, uma falta completa de organização, o sentimento de que estava dando voltas, escrevendo a mesma história pela terceira vez. E no íntimo, o sentimento de que ela estava sendo mal contada. Abuff.

Então, num átimo, numa centelha que agradeço, imprimi as duas versões, encadernei, botei ao lado esquerdo, na minha mesa, comprei blocos de papel, canetas, escrevi a data e o nome “Capítulo 1″, e comecei tudo de novo. Do zero. Do nada. Do osso. Voltei à minha pré-história, antes da velha Remington, da época da Casa do Estudante. Eu, um sujeito que já fez várias coisas na vida, entre elas, um curso de Datilografia, naquela Fortaleza da minha adolescência.

O primeiro capítulo saiu diferente, totalmente novo, do original. Fui para o segundo, que emendava com o primeiro. A coisa seguia mais calma, com as palavras querendo saltar da caneta, mas era preciso ter paciência. E depois, os capítulos três, quatro, cinco. De vez em quando, me lembrava de um trecho interessante das edições anteriores, recortava e colava no meu novo original. Recortava com a tesoura e colava com cola mesmo. Não tinha control+C nem control+V.

Hoje, fui almoçar com duas amigas de longa data, que sabem da minha peleja com o livro. Levei a pasta dura, com os originais anexados. Já tenho 22 capítulos prontos. Ela foi olhando, página por página. Não conseguia entender uma linha sequer, mas estava encantada com a minha invenção.

“Quando tu morrer, isso vai dar muito trabalho para ser entendido”.

“É, gracinha, mas pretendo publicar ainda vivo”.

Depois chegou a outra amiga. Olhou, perguntou algumas coisas, é uma história que aconteceu há mais de quatro décadas. Na parte da manhã, eu tinha entrevistado seu tio, que me ajudou a entender alguns buracos que continuavam abertos na história. Foi uma bela conversa sobre aqueles difíceis e conturbados anos de Ditadura.

Enquanto escrevo sobre este novo projeto, fico pensando nessa bênção que me dei. O que preciso, para criar, para me realizar profissionalmente, para me dar uma imensa paz matinal, depende apenas de papel e caneta, uma cadeira e uma mesa. Nos dias mais escuros, uma luminária. Ah, sim, o ventilador no três, porque tenho direito às minha obsessões.

Todo dia de manhã, acordo bem cedo, faço um chimarrão, costume já de duas décadas (agora vejo  que estou envelhecendo mesmo, já conto as coisas em décadas), olho o que fiz no dia anterior, pego a caneta e prossigo.

Sim, escrever é somente isso: Prosseguir.

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Sem homens assim, não há vida noturna (pequeno perfil sentimental dos Irmãos Evento)

18 de janeiro de 2011, às 13:18h por Samarone Lima

O texto abaixo foi publicado no suplemento literário “Pernambuco” de janeiro. É grandinho pacas, leitura ideal para quem está com preguiça de trabalhar.

***

Quando recebi a pauta, achei que seria mais fácil que tocar Asa Branca em flauta doce. Fazer o perfil psicológico e sentimental dos “Irmãos Evento”, figuras que se tornaram famosas em todos os principais eventos sociais do Recife, a partir do final da década de 1970.

Os dois judeus, Joel e Abrahão Datz, ficaram tão famosos, eram tão ativos, abnegados e devotos na missão de comparecer a eventos, que se transformaram em uma espécie de ISSO-9000 de festas, exposições, lançamento de livros e tertúlias mais movimentadas. “Até os Irmãos Evento estavam lá!”, era a garantia de que realmente a coisa tinha dado certo.

O problema é que não sou muito de festas, e desde a morte de um deles,em 1995, o outro perdeu naturalmente a vitalidade orgânica de quem tem um irmão envolvido na mesma aventura. Fui a dois lançamentos e uma exposição, e nada. No Jornalismo, dizemos que a pauta “furou”. Para quem está nessa peleja profissional há mais de 20 anos, não seria nada agradável ligar para o Schneider Carpeggiani e confessar o fracasso.

Fui salvo por um telefonema, no final de uma tarde de novembro.

“O Irmão Evento está aqui na Sinagoga!”.

Era muita sorte. Um evento em uma Sinagoga, para quem tentava escrever o perfil de um judeu.

Cheguei à Sinagoga Kahal Zur Israel, na Rua do Bom Jesus, Bairro do Recife, à procura do meu personagem. Das últimas vezes que o tinha visto, estava sempre só, tinha engordado bastante, caminhava para algum lugar improvável, e me parecia triste ou cansado.

Ele estava na abertura da exposição “Quadros distantes de uma identidade”, recuperação de um acervo referente à imigração judaica em Pernambuco. Era bem provável que ao final, houvesse aquele momento mágico que os Irmãos Eventos ficavam saltitantes – o ataque efusivo e nada discreto aos salgadinhos.

Na sala pequena, onde acontecia a exposição, estavam umas trinta pessoas. De longe, por um vidro, vi Joel ou Abrahão, nunca consegui distinguir quem era quem. Como a maior parte da minha geração, jurava que eram gêmeos.

Vestia uma camisa pólo azul, com aquele risquinho pra cima da Nike, calça marrom, sapato social e a indefectível sacolinha da Livraria Cultura. O efeito de ser apenas um remanescente da marca Irmãos Evento”, resultou em uma barriga de bebedor de chopp. Está calvo na parte de cima da cabeça e tem aqueles cabelos branco-amarelados, que descem até a nuca, lembrando um pouco aqueles hippies sem pátria, que seguem pela tangente.

A abertura formal da exposição estava terminando. O sujeito da Petrobrás, negro, muito simpático, contava que “negros e judeus vieram no mesmo barco” ao Brasil, o que me pareceu um fenômeno bem complexo, e com uma salva de palmas, a exposição foi declarada aberta.

Então me aproximei da minha pauta. Só não sabia por onde começar, porque os Irmãos Evento nunca foram muito chegados a jornalistas. Se dissesse “olha, preciso de uma entrevista para um perfil”, a conversa acabaria no primeiro salgadinho.

O gelo só quebrou quando o garçom se aproximou, com os quitutes judaicos. Joel (ou Abraão) conversava com um homem, que pegou a carteira e disse que iria lhe dar um cartão.

“Olha, vou pegar um quitute para você”, disse Jacob, estendendo as duas mãos como guindastes, por cima dos ombros de alguém.

Peguei um para mim e perguntei o nome da comida.

“É um Fluden”, respondeu Joel (ou Abraão), extremamente gentil, como se me conhecesse de algum lugar.

“É um doce que é servido em todas as principais cerimônias. É característico. Em todo casamento tem”.

O amigo dele começou a circular pela exposição, e Jacob emendou a conversa. Me mostrou um documento oficial do casamento judaico, uma espécie de contrato.

“Tem a parte religiosa, que acontece debaixo de um Quipá, uma espécie de cabana”.

Enquanto falava, mandava ver nos salgadinhos. Lá pelas tantas, perguntei pelo falecido irmão.

“Ele morreu em 1995. Saímos de um evento ali perto da Praça de Casa Forte, ele se sentiu mal, caiu na praça mesmo. Foi coração. Tinha 52 anos”.

Para Bione, fundador do clássico “Papafigo”, em 1984, a morte de Abraão jogou de vez por terra a tese de que “caminhar faz bem para a saúde”.

“Eles só andavam a pé. Saíam do Bairro do Recife, iam ao Centro de Convenções, viviam caminhando, e o cara morreu de infarto!”

Depois de alguns quitutes, eu precisava ir ao ponto essencial de qualquer reportagem, perfil, crônica – o óbvio.

Perguntei a quantos eventos eles iam por dia.

“Na época áurea, a gente chegava a ir a oito eventos por dia”.

“Eu sempre consultava eles. Os caras eram duas agendas ambulantes”, lembra Bione.

Joel mastigou um bolinho que esqueci de anotar o nome e completou:

“A gente ia a pé mesmo. Andávamos a cidade inteira. Uma vez perdida, a gente pegava um ônibus. As pessoas paravam, ofereciam carona, mas a gente preferia seguir a pé mesmo”.

A tática para mapear os eventos era simples. Olhavam os jornais, tomavam notas, e se organizavam, para fazer o circuito estabelecido no dia. Quando insistiam muito num convite, eles acabavam dando uma passadinha.

Já nesse primeiro encontro, resolvi um problema existencial que me persegue desde o final dos anos 80, quando cheguei ao Recife. Eu tinha certeza que eles eram gêmeos. Abrahão, o que morreu, tinha cinco anos a mais que Joel. Eram apenas irmãos idênticos.

“O que morreu era o mais alto”, é tudo o que me informaram minhas fontes, antes de começar minha procura pelo irmão que está vivo.

Fama e patrocínio – Tarcísio Pereira, ex-dono da lendária Livro 7, lembra que o batismo oficial da dupla aconteceu num dos carnavais do “Nóis Sofre Mas Nóis Goza”, na rua Sete de Setembro.

“Mandei fazer uma faixa grande, escrito “Irmãos Evento”, botei eles em cima do caminhão e coloquei a faixa. Então colou”.

A dupla ganhou tanta fama na cidade, que uma loja grande do Recife, de malhas, ofereceu um inusitado patrocínio.

“Eles só tinham que ir aos eventos usando a camisa, fornecida pela malharia. Do lado esquerdo, tinha o anúncio. Era uma camisa azul escura, Polo. Dizem que eles recebiam uma ajuda para se locomover”.

Como eram freqüentadores habituais de sua livraria, Tarcisio fez amizade com a dupla, chegou a cogitar um anúncio da Livro 7, no mesmo molde, mas desistiu. Meses depois, não se sabe exatamente o motivo, a empresa desistiu do negócio e encerrou o contrato, que era de boca mesmo. Durante um tempo, os Irmãos Evento usaram a camisa ao avesso.

Perguntei a Joel sobre o patrocínio da Casa das Rendas. Ele não só confirmou, como acrescentou que foram garotos-propaganda de outras empresas, como a cervejaria Brahma.

“A gente tinha só que usar a camisa”, disse, com um bom sorriso e o olhar de lince a qualquer movimento em falso dos garçons.

Saímos da sala pequena, fomos para um espaço mais amplo. Jacob contou então a gênese da marca “Irmãos Evento”.

“Meu irmão tocava violino, eu acordeom. A gente tocava, depois as pessoas chamavam a gente para ir a outros eventos, começamos a ir”.

Eles pegaram gosto pela brincadeira. Ao que tudo indica, a brincadeira também pegou gosto por eles. Como iam sempre, se tornaram parte da paisagem cultural de um Recife instigado e vigoroso, no período pós-ditadura.

“Com o tempo, passaram a convidar a gente para tudo, até para casamento. A gente dizia: Mas não temos paletó! As pessoas respondiam: Ariano Suassuna também não tem e vai aos casamentos!”.

Eles tinham lá suas táticas. Escolhiam sempre lugares mais “abertos” para ir, que não exigiam convite ou pulseiras das cada vez mais espaçosas e disputadas “Sala VIP” de hoje.

“Para evento fechado, só quando convidavam. E eram muitos os convites”, diz, com uma certa satisfação.

A fama espalhou-se de tal forma, que a partir de certo momento, os eventos da cidade precisavam de uma chancela física: A presença daqueles dois irmãos judeus, barba de eremitas, um mais alto que o outro, sujeitos que não eram muito de beber, de falar alto, não gostavam de confusão, que não perdoavam uma bandeja, criaturas que ficavam pouco tempo num lugar, o suficiente para marcar presença, que depois seguiam em uma obsessiva peregrinação para outro evento, a pé.

“Chegou a tal ponto, que em um evento fraco, as pessoas diziam: Foi tão ruim, que nem os Irmãos Evento apareceram”, diz Tarcísio.

O cineasta Rafael Luna Filho convidou Joel para ser ator do seu curta “Eisenstein”, em 2005. Ele aceitou, participou das gravações, fez o papel de um professor mas a cena acabou não entrando.

“O peso do personagem é porque ele era um Irmão Evento. A graça era essa”, diz.

Ele recorda que em 1993, abriu o livro “Sociedade Pernambucana”, do colunista social João Alberto, e encontrou o nome dos dois: Joel e Abrahão Datz. De figurantes na cena da cidade, os Irmãos Evento tinham e tornado “colunáveis”.

Antes de sair da Sinagoga, peguei as últimas informações com meu personagem. Joel disse que dava aula particular de Matemática. É engenheiro de formação.

“Ainda faço uns projetos”, diz.

Época áurea – Depois da conversa inicial, senti que a matéria começava a existir. Na semana seguinte, atravessando o Paço Alfândega rumo a um café com um amigo, vi de longe um braço levantado. Um sujeito com barriga de bebedor de chopp, camisa azul da Nike etc. Era Joel, na abertura da exposição de arte sacra da Arquidiocese de Olinda e Recife, intitulada “100 anos de missão a serviço da vida”.

“Tem uns salgadinhos ali”, antecipou, enquanto mastigava algo.

Descobri imediatamente o caráter ecumênico do Irmão Evento. Um dia está numa exposição na Sinagoga, no outro, metido entre os católicos, cascavilhando uma coxinha de buffet.

Conversamos mais um pouco. Com algumas pessoas que eu tinha falado, levantando informações sobre a pauta, havia sempre uma referência à casa deles, na Praça Chora Menino. Na verdade, um casarão abandonado, que “mais parecia o cenário de Clube da Luta”, como disse Rafael Luna.

Joel disse que depois da morte do irmão, vai muito pouco lá.

“Tem também uma Brasília velha, que está se acabando”, contou meu bom personagem.

A morte do irmão, como era de se esperar, teve uma grande repercussão na vida de Joel. Era novo (52 anos), caminhava muito, tinha saúde.

“A gente caminhava muito mesmo. Na época áurea, eu pesava 60 quilos. Agora estou com 90”.

“Senti que ele estava muito reticente em falar das coisas do passado”, conta Rafael Luna. “Entendi que essa coisa folclórica dos Irmãos Evento não era muito agradável, não queria se restringir a isso. Eu conversava outras coisas com ele”.

A fama dos Irmãos tem também a ver com uma época áurea do centro do Recife, uma vida intelectual que passava por lugares emblemáticos, varridos da arquitetura da cidade e transformados em recordações – quando muito, reflexões.

O trecho que recentemente foi palco de rusgas entre a Prefeitura e a legião de camelôs de produtos piratas – espinafrados para outros lugares -, nos anos 1970 e 1980 era conhecido como “Quartier Latin”.

A rua Sete de Setembro abrigava as livrarias Livro 7, Síntese e Saraiva. No Beco da Fome, os poetas independentes entornavam quartinhos de Pitú e declamavam suas novidades, ao lado das livrarias Dom Quixote e Quilombo. Ali perto, funcionava a Disco 7.

Era uma época de muitos bares, sem essa de “bar da moda”, onde todos vão, para verem e serem vistos. Bar Calabouço (hoje Recanto do Poeta). Na frente, o “Trailler”. Ao lado, “O balcão” (hoje loja de ferragens), onde cantava Ana Lúcia Leão.

“A própria rua já chamava. Eu botava um box na calçada. Era a “Academia da Calçada”, lembra Tarcísio Pereira.

Ali perto, atrás do Cinema São Luís, bares pequenos e inventivos: Verde que te quero verde, Sócratesw e “Ora Bolas”. Na hoje arruinada Avenida Conde da Boa Vista, tinha o bar “Olho Nu”, onde surgiu a Banda de Pau e Corda, fora o Mustang. Atrás dele, funcionava um bar onde as garçonetes atendiam vestidas de índias, com os peitos de fora, arrancando suspiros de muitos marmanjos. Onde hoje há uma agência do Bradesco, funcionava a Funny´s, uma elogiadíssima batata frita.

As redações do Jornal do Commercio e Diário de Pernambuco funcionavam no centro. As sucursais tinham uma presença forte em Pernambuco, como o Jornal do Brasil, na rua do Riachuelo, O Globo, no Cículo Católico, além do Estado de São Paulo.

Jornalistas, artistas plásticos, escritores, artistas, se encontravam com rara freqüência em diversos lançamento de livros, vernissages, festas, edições do Papa-Figo. Tudo parecia conspirar para que a presença ostensiva daquela dupla ficasse impregnada na memória da cidade.

“A gente começou a botar umas fotos, dizia que eram eles, os irmãos ficavam orgulhosos. Eram fãs do Papa-Figo. Não perdiam um lançamento”, diz Bione.

Muitas histórias – As muitas especulações envolvendo os Irmãos Evento esbarram do caráter reservado dos dois, na morte súbita morte de Abrahão, na solidão que restou a Joel. Há quem diga que eles não comiam em casa, aproveitando as aparições noturnas para atacar as bandejas. Que teriam uma loja de parafusos na Rua da Praia, que vive fechada. Para quem é engenheiro, e ainda faz uns “projetinho”, isso parece mais lenda que realidade. Muita gente comedida na alimentação se transforma no comedor compulsivo de salgadinhos, até em batizado.

A casa onde moravam está mesmo abandonada, mas Joel tem um apartamento. Não, ele não vive entre as ruínas de um casarão prestes a cair. Vai lá, dá uma olhadinha, depois segue.

“Ele não vende por questões sentimentais. Entra, fica pouco tempo. Acho que os dois eram um time. Depois que o irmão morreu, não é mais a mesma coisa”, diz Luna.

Joel diz que já tentaram por três vezes fazer documentários com eles, mas a resposta sempre foi negativa.

“Três pessoas diferentes quiseram fazer, mas nunca aceitamos. A produção do Jô Soares convidou a gente para uma entrevista, mas não fomos”.

Um dos lemas da dupla – que segue com Joel – é simples.

“Jornalistas? Não”.

Quase no final do difícil trabalho de apuração, encontrei novamente meu personagem. Ele chegou atrasadíssimo, no final da abertura da exposição sobre os “40 anos do Movimento Armorial”, novamente no Paço Alfândega.

Quando me viu, veio falar comigo. Usava a camisa azul da Nike, novamente.

“Ariano está por ai?”, perguntou.

“Saiu agorinha”.

Ele lamentou muito.

“Ariano gosta muito de mim”.

Ariano Suassuna me contou que no seu aniversário de 60 anos, os Irmãos Evento foram. Foi uma celebração na rua do Chacon, em Casa Forte. Alguém gravou as imagens. Joel e Abrahão aparecem no documentário.

“O que um dizia, o outro completava dizendo: Concordo com tudo o que ele disse”.

Desolado com a partida de Ariano, Joel mandou ver nos salgadinhos.

Lembrei que em nosso primeiro encontro, na Sinagoga, Joel tinha me confessado algo que interessa muito ao mercado editorial.

“Estou escrevendo um livro sobre todas essas nossas coisas”.

Depois arrematou.

“Estou no segundo volume. Escrevo tudo à mão, num caderno”.

Olhou para mim, deu um sorriso e finalizou dizendo o que, de certa forma, todo mundo especula e espera.

“É muita história”.

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José e Pilar

12 de janeiro de 2011, às 11:36h por Samarone Lima

Desmarquei alguns compromissos e fui ver “José e Pilar”, documentário sobre o escritor português José Saramago e sua mulher, Pilar.

Pelo Saramago eu tinha uma admiração contida, graças a dois ou três livros que achei muito bons, mas não posso dizer que ele ocupava muito tempo nas minhas especulações literárias, sequer um espaço considerável nas minhas prateleiras. Tentei ler outros romances, não gostei, e quando não gosto de um texto, pode ser o tricampeão do Prêmio Nobel, que não ficar ao lado dos meus outros amados livros. É o único poder que tenho, como leitor. Leio o que quero.

Além disso, sentia falta de um sorriso, mesmo que episódico, naquele rosto melancólico, taciturno. Um dia, li algo dele, uma entrevista, creio, dizendo que o ser humano não merecia a vida, algo assim, uma mistura de pessimismo com vaticinios que me pareciam exagerados. Era o homem que eu conhecia.

Então, fui ao filme. Durante duas horas, o documentário vai mostrando o cotidiano de Saramago e sua mulher, Pilar. Aos poucos, aquele homem que eu conhecia foi mudando. Em meio ao cansaço, às exigências de entrevistas, longas e exaustivas viagens, surge um homem simples, com um humor de menino, capaz de resumir tudo em uma pequena frase. Algumas belas frases, que anotei no escuro, mas agora não consigo ler. 

Após uma noite de dança e música na imensa biblioteca, em sua casa, ele anota o seguinte, em seus diários:

“Cansei de sorrir e do esforço de parecer inteligente”.

A cada anoitecer, o sentimento de uma perda irreparável.

“Possivelmente, a velhice é isso”.

Na metade do filme, eu já tinha mergulhado em algumas emoções. Passei, então, a fazer uma relação que me parecia afetiva. Em muitos momentos, José Saramago me lembrou uma pessoa que gosto muito, e que tenho a oportunidade de compartilhar viagens, entrevistas, o assédio dos leitores, com seus livros por autografar, os onipresentes celulares, as dezenas de pedidos de autógrafos, que é Ariano Suassuna.

Há quase dois anos trabalho como jornalista, acompanhando-o em suas aulas-espetáculo e dando o suporte nas infinitas demandas de comunicação. É uma alegria permanente, um aprendizado, um privilégio, conviver com ele. De fato, um grande mestre.  Diria que é muita sorte, nos dias de hoje, ter um chefe como Ariano.

Não sei exatamente onde os dois se parecem, se encontram. Talvez na contradição permanente entre o desejo perpétuco de ficar em casa, seguir construindo sua obra, e as demandas do mundo. Em um determinado momento, exausto de mais uma viagem, o ateu Saramago desabafa:

“Na próxima encarnação, quero ser árvore, com as raízes bem enfiadas na terra”.

Sobre os jornalistas, Saramago é atormentado por algo que conheço, a febre das perguntas que se repetem.

“Vocês fazem sempre as mesmas perguntas, eu dou as mesmas respostas”.

O amor de Saramago e Pilar atravessa toda a película. É tocante ver como seus olhos de menino brilham, quando está com ela, e como Pilar, uma espécie de locomotiva a todo vapor, segue levando o homem que ama para que o mundo compartilhe.

Em algum momento, Saramago disse algo do tipo “Continuar-me”, como um mote para a vida. Gostei muito daquilo.

Saí do cinema com a cara lavada de emoção, como há muito não me ocorria com um filme.

O homem que eu conhecia, na superfície, era um. Havia outro, mais profundo, generoso, amoroso com a humanidade, levando sua força expressiva para várias partes do planeta. Faltava apenas conhecê-lo. O taciturno Saramago deu lugar, em mim, a um contido menino brincalhão, dotado de um humor inteligentíssimo e discreto. Um homem que levou a vida com sabedoria e paciência, que ao final da jornada, refletia profundamente sobre o tempo e a vida. Que bênção.

Aos meus leitores, peço que não deixem de ver. Para o bem da vida, ou para o simples continuar dela.

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