Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias | Por Samarone Lima

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José e Pilar

12 de janeiro de 2011, às 11:36h por Samarone Lima

Desmarquei alguns compromissos e fui ver “José e Pilar”, documentário sobre o escritor português José Saramago e sua mulher, Pilar.

Pelo Saramago eu tinha uma admiração contida, graças a dois ou três livros que achei muito bons, mas não posso dizer que ele ocupava muito tempo nas minhas especulações literárias, sequer um espaço considerável nas minhas prateleiras. Tentei ler outros romances, não gostei, e quando não gosto de um texto, pode ser o tricampeão do Prêmio Nobel, que não ficar ao lado dos meus outros amados livros. É o único poder que tenho, como leitor. Leio o que quero.

Além disso, sentia falta de um sorriso, mesmo que episódico, naquele rosto melancólico, taciturno. Um dia, li algo dele, uma entrevista, creio, dizendo que o ser humano não merecia a vida, algo assim, uma mistura de pessimismo com vaticinios que me pareciam exagerados. Era o homem que eu conhecia.

Então, fui ao filme. Durante duas horas, o documentário vai mostrando o cotidiano de Saramago e sua mulher, Pilar. Aos poucos, aquele homem que eu conhecia foi mudando. Em meio ao cansaço, às exigências de entrevistas, longas e exaustivas viagens, surge um homem simples, com um humor de menino, capaz de resumir tudo em uma pequena frase. Algumas belas frases, que anotei no escuro, mas agora não consigo ler. 

Após uma noite de dança e música na imensa biblioteca, em sua casa, ele anota o seguinte, em seus diários:

“Cansei de sorrir e do esforço de parecer inteligente”.

A cada anoitecer, o sentimento de uma perda irreparável.

“Possivelmente, a velhice é isso”.

Na metade do filme, eu já tinha mergulhado em algumas emoções. Passei, então, a fazer uma relação que me parecia afetiva. Em muitos momentos, José Saramago me lembrou uma pessoa que gosto muito, e que tenho a oportunidade de compartilhar viagens, entrevistas, o assédio dos leitores, com seus livros por autografar, os onipresentes celulares, as dezenas de pedidos de autógrafos, que é Ariano Suassuna.

Há quase dois anos trabalho como jornalista, acompanhando-o em suas aulas-espetáculo e dando o suporte nas infinitas demandas de comunicação. É uma alegria permanente, um aprendizado, um privilégio, conviver com ele. De fato, um grande mestre.  Diria que é muita sorte, nos dias de hoje, ter um chefe como Ariano.

Não sei exatamente onde os dois se parecem, se encontram. Talvez na contradição permanente entre o desejo perpétuco de ficar em casa, seguir construindo sua obra, e as demandas do mundo. Em um determinado momento, exausto de mais uma viagem, o ateu Saramago desabafa:

“Na próxima encarnação, quero ser árvore, com as raízes bem enfiadas na terra”.

Sobre os jornalistas, Saramago é atormentado por algo que conheço, a febre das perguntas que se repetem.

“Vocês fazem sempre as mesmas perguntas, eu dou as mesmas respostas”.

O amor de Saramago e Pilar atravessa toda a película. É tocante ver como seus olhos de menino brilham, quando está com ela, e como Pilar, uma espécie de locomotiva a todo vapor, segue levando o homem que ama para que o mundo compartilhe.

Em algum momento, Saramago disse algo do tipo “Continuar-me”, como um mote para a vida. Gostei muito daquilo.

Saí do cinema com a cara lavada de emoção, como há muito não me ocorria com um filme.

O homem que eu conhecia, na superfície, era um. Havia outro, mais profundo, generoso, amoroso com a humanidade, levando sua força expressiva para várias partes do planeta. Faltava apenas conhecê-lo. O taciturno Saramago deu lugar, em mim, a um contido menino brincalhão, dotado de um humor inteligentíssimo e discreto. Um homem que levou a vida com sabedoria e paciência, que ao final da jornada, refletia profundamente sobre o tempo e a vida. Que bênção.

Aos meus leitores, peço que não deixem de ver. Para o bem da vida, ou para o simples continuar dela.

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