Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias | Por Samarone Lima

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Escrever, prosseguir

25 de janeiro de 2011, às 17:02h por Samarone Lima

Originais ilegíveis

Não sei quando foi que aconteceu, mas aconteceu. Depois do lançamento do meu livro sobre Cuba, o “Viagem ao Crepúsculo”, encontrei um leitor generosíssimo, que se debruçou sobre meus poemas publicados na Internet, e depois de indas e vindas, saiu uma seleção, que agora está sendo editada pela editora Paés. Aguardo com um certo frio na barriga a versão final para fazer o lançamento.

Defensor ardoroso de leituras alheias de originais, imprimi e passei para algumas pessoas que admiro. Elas me deram retorno, algumas foram de uma generosidade extrema, e pude fazer cortes, acertos, tirar algumas coisas que não estavam boas. Agradecerei a todos no livro.

Então descubro que estou sempre fazendo isso – lendo e escrevendo.

Como o livro de poemas já saiu das minhas mãos, retomei um velho projeto, iniciado em 1992. Um livro que venho escrevendo e deixando para decantar, escrevendo e me perdendo dele, cansando e me escondendo também, sobre fatos explosivos acontecidos no Recife, naquele longínquo 1966. Quando comecei a escrevê-lo, era um aluno de Jornalismo da Universidade Católica, fiz várias entrevistas, pesquisei em arquivos, mas a história era complexa demais para ser contada.

Essa foi uma descoberta besta que fiz, ao longo desses anos. As histórias têm seu próprio tempo de serem contadas. A história de José Carlos da Mata Machado chegou, se instalou, cravou sua bandeira e não tive como escapar. Foi meu primeiro livro.

Pois bem, desde novembro do ano passado, voltei ao meu livro de 1992. Eu tinha 23 anos, agora estou com 41. É um bom tempo de maturação.

Voltei e esbarrei num dos piores tormentos para quem se propôe a escrever uma história: Não saber como contá-la. Pior que isso, perceber que ela está mal contada.

Era o que eu vinha sentindo. Tinha duas versões no computador, cada uma com dezenas de capítulos, revisões que se misturavam, uma falta completa de organização, o sentimento de que estava dando voltas, escrevendo a mesma história pela terceira vez. E no íntimo, o sentimento de que ela estava sendo mal contada. Abuff.

Então, num átimo, numa centelha que agradeço, imprimi as duas versões, encadernei, botei ao lado esquerdo, na minha mesa, comprei blocos de papel, canetas, escrevi a data e o nome “Capítulo 1″, e comecei tudo de novo. Do zero. Do nada. Do osso. Voltei à minha pré-história, antes da velha Remington, da época da Casa do Estudante. Eu, um sujeito que já fez várias coisas na vida, entre elas, um curso de Datilografia, naquela Fortaleza da minha adolescência.

O primeiro capítulo saiu diferente, totalmente novo, do original. Fui para o segundo, que emendava com o primeiro. A coisa seguia mais calma, com as palavras querendo saltar da caneta, mas era preciso ter paciência. E depois, os capítulos três, quatro, cinco. De vez em quando, me lembrava de um trecho interessante das edições anteriores, recortava e colava no meu novo original. Recortava com a tesoura e colava com cola mesmo. Não tinha control+C nem control+V.

Hoje, fui almoçar com duas amigas de longa data, que sabem da minha peleja com o livro. Levei a pasta dura, com os originais anexados. Já tenho 22 capítulos prontos. Ela foi olhando, página por página. Não conseguia entender uma linha sequer, mas estava encantada com a minha invenção.

“Quando tu morrer, isso vai dar muito trabalho para ser entendido”.

“É, gracinha, mas pretendo publicar ainda vivo”.

Depois chegou a outra amiga. Olhou, perguntou algumas coisas, é uma história que aconteceu há mais de quatro décadas. Na parte da manhã, eu tinha entrevistado seu tio, que me ajudou a entender alguns buracos que continuavam abertos na história. Foi uma bela conversa sobre aqueles difíceis e conturbados anos de Ditadura.

Enquanto escrevo sobre este novo projeto, fico pensando nessa bênção que me dei. O que preciso, para criar, para me realizar profissionalmente, para me dar uma imensa paz matinal, depende apenas de papel e caneta, uma cadeira e uma mesa. Nos dias mais escuros, uma luminária. Ah, sim, o ventilador no três, porque tenho direito às minha obsessões.

Todo dia de manhã, acordo bem cedo, faço um chimarrão, costume já de duas décadas (agora vejo  que estou envelhecendo mesmo, já conto as coisas em décadas), olho o que fiz no dia anterior, pego a caneta e prossigo.

Sim, escrever é somente isso: Prosseguir.

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