Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias | Por Samarone Lima

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Os Barba, ano IX

25 de fevereiro de 2011, às 19:43h por Samarone Lima

Sábado, 26 de fevereiro de 2010, nossa Troça Carnavalesca Mista “Os Barba” faz sua nona prévia.

Local: Defronte ao Bar de Seu Vital, Poço da Panela.

Favor levar um bom livro para nossa biblioteca comunitária.

E boa farra!

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Montez Magno & Daniel Lima

18 de fevereiro de 2011, às 16:35h por Samarone Lima

Fui ao lançamento do livro do artista plástico Montez Magno, na segunda-feira, por causa de um poema dele, publicado no Diário de Pernambuco, segunda-feira.

“Há um tempo de escrever

e há tempo de pintar.

E há tempo de não fazer

absolutamente nada”.

À noite, no Museu de Arte Moderna Aloísio Magalhães, eu estava por lá. Queria ver de perto o sujeito, capaz de falar essa maravilha de “não fazer absolutamente nada”.

Era o lançamento do livro com seu nome (Editora Paés), um painel com os 60 anos de produção desse artista plástico pernambucano de 76 anos. Foi organizado por Clarissa Diniz, que já tem outro livro muito bom, intitulado “Crachá”, publicado pela Editora Massangana. No livro de Montez, ela contou com participação de Paulo Herkenhoff e Luiz Carlos Monteiro.

Depois das apresentações dos autores, foi a vez de Montez falar.

“Estive hoje em dois médicos e saí vivo”, disse, antes de lembrar os 60 anos de arte “intensamente vividos, porque penso 24 horas por dia em arte e poesia”.

Montez falou de certas influências,  como Morandi, de suas errâncias, e disse que, atualmente é favorável à contemplação.

“Contemplar é agir dentro”, completou, citando Plotino.

“Contemplar é agir com maior intensidade”.

Depois de contar os caminhos de sua poesia, no complicado mercado editorial brasileiro, ele encerrou falando sobre o excesso que vivemos, hoje.

“Há um excesso de objetos artísticos. Uns 50% não são obra de arte. Isso às vezes me dá um pouco de angústia. Penso em desmaterializar a obra de arte. Enquanto não faço, escrevo poesia”.

Peguei meu livro, não esperei a longa fila dos autógrafos e fui comemorar no Princesa Isabel, ali do lado, mas Seu Azevedo já estava fechando. Nunca vi um boteco fechar às 21h, em plena segunda-feira, quando um sujeito quer ler um livro novo, tomando uma cerveja.

No dia seguinte, novamente no faro, rumei peguei uma carona de última hora e fui ao lançamento do livro de poesias de Daniel Lima, na Livraria Cultura. Fui no faro porque presto atenção ao que os amigos falam. Lourival Holanda já tinha me falado do Daniel Lima. Luzilá Gonçalves também. Jommard Muniz de Brito não menos. Todo mundo que gosta de poesia boa nessa cidade – e não é tanta gente assim -, dizia que Daniel Lima era um grande poeta, mas a avareza era grande. O homem não liberava os poemas para transformar em livro de jeito nenhum.

Quando cheguei à livraria, o auditório estava lotado. Os amantes da boa poesia e de Daniel estavam lá, todos.

O poeta estava lá, quietinho, como um passarinho fora do galho, com seus 95 anos.

Luzilá falou primeiro, disse que o livro era “inspiração para a vida”, e o trabalho que deu, “roubar” os poemas para publicação. Depois, Zeferino Rocha, que considera Daniel um “arauto do indizível”, fez suas considerações.

“Ele tem o dom de ver a beleza essencial das coisas, aquela que nossos olhos cansados, “maculados pela vida e amargurados de tanto amar e padecer as coisas”, já não mais podem ver ou admirar”.

Por último, o mestre Lourival Holanda, sempre falando baixo e poeticamente. Já vi Lourival falar baixo e calar um bar inteiro, lotado. Tem jeito de profeta, embora não exerça o ofício diariamente. É um homem que vai mansamente, pelas dobras da vida, cumprindo seu intento. Desconfio inclusive que Lourival fala com as plantas e animais, especialmente esses passarinhos do entardecer.

“A poesia contemporânea parece sofrer de uma paradoxal fraqueza: a indigência por excesso. Excesso de facilidade dos novos meios – que possibilitam pressa, mais que cuidado, na exposição de sua póetica”.

Lourival falava dos blogs, sites etc. Lembrou a avareza do amigo Daniel, e do tesouro que temos agora, em mãos. Um trecho da apresentação do livro merece transcrição.

“Poética clandestina como as festas íntimas. Resta dar razão a Daniel por resistir aos assédios dos críticos: em seu jardim interior as orquídias levam longo tempo em paz preparando o esplendor de sua floração”.

Comprei meu exemplar, conversei umas águas boas com o Ângelo Monteiro, beberiquei o Concha y Toro básico (vinho tinto na Cultura, não é todo dia) e voltei para casa, novamente sem dedicatória.

À noite, em casa, entendi tudo o que os palestrantes disseram, e o que vinham me dizendo ao longo dos anos. Resumindo, faz tempo que não leio uma poesia tão forte, intensa e ao mesmo tempo cristalina. Uma fonte nova bem aqui, na cara da gente. A CEPE (Companhia Editora de Pernambuco) fez um belo trabalho.

Deixo aos meus leitores apenas um pouco da colheita da semana, um poema de Daniel Lima.

“Meu irmão, te verei um dia
despojado de tudo o que não és
desse rosto não teu
das aparências, dos guisos, das mentiras
dos disfarces.
Te verei meu irmão
tão diferente
e desnudo e pequeno
tão tu mesmo e tão outro
e passearemos por galáxias vadias
e céus e infernos longos
e falaremos nada tantas horas
que o tempo se fará de nossas falas.
 
Te verei meu irmão
mas talvez não me vejas
tão diferente estarei
tão pequeno e desnudo
tão parecido a ti nas vaidades mortas
na humildade do rosto enfim reencontrado”.

 
(Daniel Lima)

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Tudo muito

15 de fevereiro de 2011, às 14:14h por Samarone Lima

Vejo no jornal uma nota sobre as “Virgens de Verdade” o megaevento que acontece domingo, em Olinda, a partir das 10h. O organizador espera reunir 800 mil pessoas. Estranhei ele não ter citado um milhão de pessoas”, porque o pernambucano é chegado a uma mania de grandeza que eu vou dizer.

Não é crítica, só constatação. Essa mania, nos últimos anos, vem aumentando. Minto. Está se tornando uma obsessão.

O “Galo da Madrugada”, que começou com uma brincadeira inocente nas ruas do centro, hoje vive de milhões. A cada ano, parece que o clube carnavalesco atrai mais 500 mil foliões.  Ano passado, disseram que 1,5 milhão de criaturas se espremeram nas ruas do Recife. Em 2011, claro, o número com certeza vai aumentar, acançando a casa dos dois milhões. Se continuar nesse ritmo, daqui a alguns anos, os jornais terão que estampar:

“Cinco mil pessoas ficaram em casa no Recife, durante o desfile do Galo”.

Com o advento do “Tudo muito”, observo, do meu posto de observação, o crescimento vertiginoso das áreas VIP, camarotes, “lounge”, “Back Stage” e afins. São locais onde a turma não se mistura tanto, até porque tem gente demais, sol demais, empurra-empurra demais.

Não sei também qual o fenômeno psico-social-afetivo que se instalou em nossa pátria pernambucana (sim, porque já fui adotado, agora é tarde), mas a música baianha está reinando em todos os dias de nossa mais tradicional festa.

Posso estar enganado, mas creio que este ano, até o Luís Caldas deve tocar em alguma festa.

Não duvidarei nada se escutar, de algum trio elétrico, o Ricardo Chaves puxar  ”É o bicho é o bicho/ Vou te devorar/Crocodilo eu sou”, que marcou meu começou de trabalho como “repórter de Carnaval”, no Diário de Pernambuco.

Os blocos e troças que entram nessa, geralmente arranjam dissidências, cisões internas e chateações brabas – quando não viram empresas. Alguns dos velhos fundadores resolvem “fazer dinheiro” com a antiga brincadeira, terceirizam a festa, e fica por isso mesmo.

Em muitos casos, as tradicionais 50 camisas, que eram vendidas junto aos amigos para levantar o dinheiro da orquetra de 16 músicos, junto com o dinheiro da prévia no bar de um amigo, passam pelo comovente frenesi.

“Ano que vem, tem que ser 150, visse!”

O número de camisas tem que aumentar, a orquestra tem que dobrar de músicos e a brincadeira, que é a melhor coisa do Carnaval, vai sendo atropelada por esse negócio esquisito de querer sempre mais, como se o muito fosse o sinal de satisfação. Por último, alguém sugere a farra em um bar mais amplo, mais bem localizado, que aceite cartão de crédito, porque “nem todo mundo leva dinheiro para o Carnaval”.

Depois do quatro ou cinco ano de folia com a turma de amigos, os melhores anos, aquela coisa maravilhosa, um belo dia o sujeito olha para os lados. Sim, venderam as 350 camisas, o recorde dos últimos anos, mas ele olha para os lados e percebe que a brincadeira tem mais gente estranha que os velhos conhecidos, e já nem pode ficar bêbado em paz. Resumindo, a farra virou outra coisa, que ainda não sei o nome.

“Ano que vem, a gente precisa ter uma diretoria, para organizar melhor as coisas”, diz alguém da Troça, que surgiu durante uma cervejada, num boteco antigo e despojado.

Pior: O amigo está falando sério.

É hora de dar o fora, penso eu, ou pedir a saideira.

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O catador de moedas

11 de fevereiro de 2011, às 9:56h por Samarone Lima

Rumo à dentista, com meu caderno e o exemplar de “Recordações da casa dos mortos”, que leio apaixonadamente e luto para não terminar.

Na parada da avenida mais feia, suja e maltratada do Recife, a Conde da Boa Vista, calor e caos se irmanam. Estamos todos ao sol, os ônibus podem parar bem junto, ou vinte metros adiante, temos que correr para conseguir entrar, há vendedores de água mineral, amendoim, pipoca, DVD pirata. Tudo é muito ruim na Conde da Boa Vista, em qualquer hora, sei disso porque vivo na pele, sou pedestre, rupestre, cabra da peste.

Aguardo o CDU/Várzea ou o Barbalho/Detran. Por R$ 2,00 chego em dez minutos ao consultório da doutora Mirna Rojas, se os estudantes não resolverem parar a cidade novamente, por causa do aumento das passagens.

Penso apenas em pegar uma cadeira vazia, a obsessão de quem anda de ônibus. Assim, vou lendo meu Fiódor ou olhando a paisagem.

Então acontece a cena. O vendedor entrega um copo de água mineral a um sujeito que está num ônibus. Na hora de entregar o dinheiro, há um desencontro de mãos, o motorista acelera, e os R$ 0,50 caem na avenida. São dez moedas de R$ 0,05.

Fico paralisado. O vendedor olha para o trânsito e para o chão. Todos sabemos que ele vai lutar agora contra os ônibus que passam, eventuais motos, bicicletas. Estou a um metro da cena.

Na primeira tentativa, quase é atingido por uma moto, que passa buzinando alto e tira um raspão. Volta para a calçada. Tem um isonor pendurado no ombro esquerdo. Aquilo deve pesar pacas, imagino o dia inteiro. Ao meu  lado, um mulato alto e forte repete com rara monotonia e descrédito “Olha a pipoca!Olha a pipoca!” No Recife, toneladas de pipoca são consumidas diariamente.

O homem deixa passar dois ônibus. Não tira os olhos de suas moedas. Depois avança, pega algumas, mas tem que recuar para não ser atropelado. Ainda tem algumas ali, no asfalto. As moedas parece estar vivas. Para ele, estão sim.

Esqueço meu ônibus. Algo me angustia. Não sei o que é. Sinto uma afobação íntima. Essa luta sem limites pela sobrevivência. Qualquer sofrimento meu torna-se ridículo, diante desta luta por cinquenta centavos, arremessados na avenida Conde da Boa Vista, numa tarde quente de quinta-feira. Chego a pensar em tirar um real da carteira, dar ao homem, mas seria petulância minha, interromper sua luta.

Não sei quanto tempo durou a operação. O homem, em meio ao risco de ser atropelado e à brutal luta pela sobrevivência, conseguiu resgatar todas as moedas, como uma galinha que dá bicadas precisas no milho do terreiro. Depois, ele retomou as vendas.

Meu ônibus finalmente chega. Consigo uma cadeira vazia. Que sorte, ter Dostoievski às mãos, falando de um “veemente anseio de ressurreição”, para seguir a viagem, lembrando do catador de moedas e nas moedas que ganhamos e perdemos todos os dias.

ps. Ao terminar este pequeno texto, vi a libertação do povo egipcio, após trinta anos de ditadura. Viva!

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Liberdade no mundo árabe

7 de fevereiro de 2011, às 15:56h por Samarone Lima

(Artigo publicado na página de Opinião, do Jornal do Commercio, em 6.02.2011)

E a bandeira do país ainda é igual à do Santa...

Todos os que consideram a liberdade um dos dons mais preciosos que o céu deu aos homens, como bem dizia Miguel de Cervantes, devem estar sentindo, mesmo de longe, o cheiro de liberdade que nos chega do mundo árabe. Enquanto escrevo este artigo, milhões de egípcios tomam as ruas para derrubar o ditador Hosni Mubarak, há 30 anos no poder.

Os egípcios seguem o exemplo dos tunisianos, que dia 14 de janeiro, após imensas mobilizações nas ruas, viram o ditador Zine el Abidine Ben Ali, após 23 anos mandando no país, fugir para a Arábia Saudita. O cheiro da liberdade já se espalhou para Argélia, Iêmen, Líbia e Mauritânia. É difícil prever até onde esta onda libertária vai chegar, mas ela já é uma realidade para cerca de 180 milhões de pessoas.

A rebelião que já está mudando a vida no mundo árabe, uma verdadeira onda libertária, começou dia 17 de dezembro, quando um vendedor ambulante de frutas, Mohamed Bouazizi, de 26 anos, jogou solvente sobre o corpo e ateou fogo. Era o protesto desesperado de quem teve sua mercadoria apreendida e foi impedido de prestar queixa. Mohamed morreu dias depois. Foi o estopim para os tunisianos, que perderam o medo e saíram às ruas. Assim terminou a ditadura tunisiana.

Há várias explicações sobre o “paradoxo árabe”, como o aumento da expectativa de vida, maior acesso à educação, liberalização econômica, mas o ponto principal é o que nos fala o autor de Dom Quixote – a Liberdade.

Em todos esses países que vivem dias de transbordamento, sonho, de um grito contido que comove os mais distantes, há graus diferentes de liberdade, mas nenhum é democrático.

Nas manifestações, há um momento em que o medo é ultrapassado, deixa de ser paralisante, aterrador. A humanidade avança, ao preço das mortes, prisões, cacetetes, gás lacrimogêneo. Nós, brasileiros, perdemos grandes homens e mulheres, até que a um dia, já não havia como segurar – liberdade voltou.

Numa de minhas muitas viagens pela América Latina, conheci dezenas de pessoas que lutaram contra as ditaduras no Chile, Uruguai, Argentina, Paraguai. Uma chilena me contou que um dia, a caminho de uma passeata, esbarrou nos temidos carabineiros, a feroz polícia repressiva do general Augusto Pinochet. Ela usava um adesivo contra Pinochet, junto ao coração, e um dos policiais apontou a arma e ordenou que ela tirasse o adesivo.

“Não tiro. Pode atirar. O local já está até marcado”, respondeu a chilena.

O carabineiro, então, baixou a arma.

“Naquele dia, senti que a Democracia estava a caminho”, me disse a amiga.

De fato, pouco depois os chilenos puderam novamente sentir suas alamedas inundadas de gente cantando e pulando pelo fim da tirania de Pinochet.

Mohamed Bouazizi não sobreviveu para ver seu país livre, mas será sempre lembrado.

Torço para que os tiranos sejam varridos, e que o maravilhoso povo árabe viva dias de frondosa liberdade.

Me ocorre agora a tradicional saudação muçulmana, a título de celebração por este momento histórico que ainda não sabemos a dimensão:

“Sallaam aleikum”.

A paz esteja convosco.

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