Fui ao lançamento do livro do artista plástico Montez Magno, na segunda-feira, por causa de um poema dele, publicado no Diário de Pernambuco, segunda-feira.
“Há um tempo de escrever
e há tempo de pintar.
E há tempo de não fazer
absolutamente nada”.
À noite, no Museu de Arte Moderna Aloísio Magalhães, eu estava por lá. Queria ver de perto o sujeito, capaz de falar essa maravilha de “não fazer absolutamente nada”.
Era o lançamento do livro com seu nome (Editora Paés), um painel com os 60 anos de produção desse artista plástico pernambucano de 76 anos. Foi organizado por Clarissa Diniz, que já tem outro livro muito bom, intitulado “Crachá”, publicado pela Editora Massangana. No livro de Montez, ela contou com participação de Paulo Herkenhoff e Luiz Carlos Monteiro.
Depois das apresentações dos autores, foi a vez de Montez falar.
“Estive hoje em dois médicos e saí vivo”, disse, antes de lembrar os 60 anos de arte “intensamente vividos, porque penso 24 horas por dia em arte e poesia”.
Montez falou de certas influências, como Morandi, de suas errâncias, e disse que, atualmente é favorável à contemplação.
“Contemplar é agir dentro”, completou, citando Plotino.
“Contemplar é agir com maior intensidade”.
Depois de contar os caminhos de sua poesia, no complicado mercado editorial brasileiro, ele encerrou falando sobre o excesso que vivemos, hoje.
“Há um excesso de objetos artísticos. Uns 50% não são obra de arte. Isso às vezes me dá um pouco de angústia. Penso em desmaterializar a obra de arte. Enquanto não faço, escrevo poesia”.
Peguei meu livro, não esperei a longa fila dos autógrafos e fui comemorar no Princesa Isabel, ali do lado, mas Seu Azevedo já estava fechando. Nunca vi um boteco fechar às 21h, em plena segunda-feira, quando um sujeito quer ler um livro novo, tomando uma cerveja.
No dia seguinte, novamente no faro, rumei peguei uma carona de última hora e fui ao lançamento do livro de poesias de Daniel Lima, na Livraria Cultura. Fui no faro porque presto atenção ao que os amigos falam. Lourival Holanda já tinha me falado do Daniel Lima. Luzilá Gonçalves também. Jommard Muniz de Brito não menos. Todo mundo que gosta de poesia boa nessa cidade – e não é tanta gente assim -, dizia que Daniel Lima era um grande poeta, mas a avareza era grande. O homem não liberava os poemas para transformar em livro de jeito nenhum.
Quando cheguei à livraria, o auditório estava lotado. Os amantes da boa poesia e de Daniel estavam lá, todos.
O poeta estava lá, quietinho, como um passarinho fora do galho, com seus 95 anos.
Luzilá falou primeiro, disse que o livro era “inspiração para a vida”, e o trabalho que deu, “roubar” os poemas para publicação. Depois, Zeferino Rocha, que considera Daniel um “arauto do indizível”, fez suas considerações.
“Ele tem o dom de ver a beleza essencial das coisas, aquela que nossos olhos cansados, “maculados pela vida e amargurados de tanto amar e padecer as coisas”, já não mais podem ver ou admirar”.
Por último, o mestre Lourival Holanda, sempre falando baixo e poeticamente. Já vi Lourival falar baixo e calar um bar inteiro, lotado. Tem jeito de profeta, embora não exerça o ofício diariamente. É um homem que vai mansamente, pelas dobras da vida, cumprindo seu intento. Desconfio inclusive que Lourival fala com as plantas e animais, especialmente esses passarinhos do entardecer.
“A poesia contemporânea parece sofrer de uma paradoxal fraqueza: a indigência por excesso. Excesso de facilidade dos novos meios – que possibilitam pressa, mais que cuidado, na exposição de sua póetica”.
Lourival falava dos blogs, sites etc. Lembrou a avareza do amigo Daniel, e do tesouro que temos agora, em mãos. Um trecho da apresentação do livro merece transcrição.
“Poética clandestina como as festas íntimas. Resta dar razão a Daniel por resistir aos assédios dos críticos: em seu jardim interior as orquídias levam longo tempo em paz preparando o esplendor de sua floração”.
Comprei meu exemplar, conversei umas águas boas com o Ângelo Monteiro, beberiquei o Concha y Toro básico (vinho tinto na Cultura, não é todo dia) e voltei para casa, novamente sem dedicatória.
À noite, em casa, entendi tudo o que os palestrantes disseram, e o que vinham me dizendo ao longo dos anos. Resumindo, faz tempo que não leio uma poesia tão forte, intensa e ao mesmo tempo cristalina. Uma fonte nova bem aqui, na cara da gente. A CEPE (Companhia Editora de Pernambuco) fez um belo trabalho.
Deixo aos meus leitores apenas um pouco da colheita da semana, um poema de Daniel Lima.
“Meu irmão, te verei um dia
despojado de tudo o que não és
desse rosto não teu
das aparências, dos guisos, das mentiras
dos disfarces.
Te verei meu irmão
tão diferente
e desnudo e pequeno
tão tu mesmo e tão outro
e passearemos por galáxias vadias
e céus e infernos longos
e falaremos nada tantas horas
que o tempo se fará de nossas falas.
Te verei meu irmão
mas talvez não me vejas
tão diferente estarei
tão pequeno e desnudo
tão parecido a ti nas vaidades mortas
na humildade do rosto enfim reencontrado”.
(Daniel Lima)