Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias | Por Samarone Lima

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Pedidos na estrada

28 de março de 2011, às 15:55h por Samarone Lima

 Sábado de manhã. Viagem marcada a Nazaré da Mata, para ver um espetáculo de circo, uma troupe de palhaças. Acordo meio de ressaca, doido por um bom cuscuz. Como o ônibus sai da Dantas Barreto, consigo encontrar cuscuz fácil, mas não está bom como o que faço em casa.

Às 9h46 o ônibus sai. A passagem custa R$ 6,90. Previsão: Duas horas de viagem, diz o motorista de pouca conversa e cara de brabo.

Não rodamos nem vinte minutos, chega o primeiro pedinte. Esse é profissional. Está arrumado, barba feita, bigode vastíssimo, a la Sarney, mas este parece ter ficha limpa, coisa que agora não altera nada.

Educado, Pedinte Profissional dá bom-dia, espera a resposta, como em programa de auditório, repete o bom-dia, alguns respondem. Estou lendo algo e não tenho muita paciência com os pedintes em geral.

Ele diz que trabalhava no comércio, era um vendedor de jujubas, mas sua mercadoria foi apreendida.

Tive que parar a leitura. O sujeito teve um carregamento de jujubas confiscado? É cada um que me aparece nesta vida…

“Tomaram e nunca devolveram”, diz.

Ele consegue tocar alguns corações, agradece e vai embora.

No mesmo instante, começa o Pedinte Número 2. Esse dá bom-dia, mas não pede resposta do público. Está arrecadando dinheiro para uma suposta casa de recuperação de drogados. Cita Jeremias, 33, versículo 3, acho. Os humildes serão exaltados. Fala pacas, atrapalha minha leitura, depois sai entregando um envelope com duas canetas fuleiríssimas e adesivos do Homem Aranha.

Como nunca fui muito chegado a gibi, não estou nem aí para o Homem Aranha, devolvo o saquinho e sigo a minha leitura. Vez por outra, levanto a venta para olhar a paisagem.

Bastou o Pedinte Número 2 descer, que subiu Sujinho.

O sujeito não botava a roupa para lavar há pelo menos três meses. Acho que viu a posse de Dilma com aquela calça e camisa, depois veio caminhando de Brasília até Carpina.

Tirou de uma mochila mais fuleira que as canetas do outro, saiu entregando um mói de balinhas, mas deu azar. Assim como não sou chegado a gibi, também não tenho muita simpatia por balas, a não ser aquelas redondinhas, de canela.

Sujinho falou algo que não me lembro, as explicações de sempre, para quem quer se safar, pegar uma grana e tocar o barco. Fiquei com as balas na mão, e pensei que Sujinho e Pedinte Profissional poderiam fazer uma sociedade. No lugar de balas, comprava um lote de jujubas, repartiam as vendas e os lucros.

Sujinho foi o que menos arrecadou, porque chegou tarde demais e a mulher ao meu lado reclamou que ele estava fedendo.

Ele desceu e pela graça divina, não subiu mais ninguém.

Cheguei meio-dia em Nazaré. Dei sorte, era dia de feira. Perambulei, comprei uns perfumes, umas misericórdias, saudades antigas, um CD do Carlos André (“EU hoje quebro essa mesa/se o meu amor não chegar”), beberiquei uma água que passarinho não bebe e perguntei a um senhor onde ficava o engenho onde eu ficaria hospedado.

O sujeito era mudo. Eu tenho uma sorte imensa com mudos. Um deles joga no meu time, no Poço. Até hoje não sei o nome dele. Uma vez perguntei, mas deu errado.

“O nome do mudo é Mudo mesmo”.

Rarara.

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Bens e males da convivência

18 de março de 2011, às 14:19h por Samarone Lima

Tenho uma penca de amigos, mas cada um tem suas manias, e acabo sendo influenciado. Os males da convivência começam a se avolumar, causando-me enorme preocupação.

Um amigo, Josafá, me alertou outro dia, a caminho do almoço, sobre o problema das árvores. Puxa vida, que frase cheia de vírgulas!

Batou eu me colocar ao lado de uma, com uma escoliose acentuada para o meu lado, aqui na rua Princesa Isabel, para o amigo me puxar, com um ar de extrema preocupação.

“É um perigo. Se a árvore cair, estás morto”.

Eu nunca tinha pensado nisso. Jamais passou pela minha cabeça morrer numa calçada, vítima de uma árvore, que resolveu cair justo no momento em que estou parado ao seu lado.

O pior é que fui influenciado. Agora, quando vou parar ao lado de uma árvore, dou uma olhada oblíqua, de esguelha, lembro do meu amigo e mudo de lugar, se a situação estiver ameaçadora. Depois, vejo quem ficou no meu lugar e fico pensando “coitado, não sabe o perigo que está passando”.

Da convivência com Iramarai, acabei pegando a mania de chamar whisky de “óisque” e dizer “ixculpaí”, no lugar de “desculpe aí”. Além disso, retomei a velha tradição das longas caminhadas, algumas inesquecíveis, como a travessia Crato-Juazeiro, pela Serra do Araripe.

Quando morei com meu amigo Gustavo, peguei o hábito de rezar, que até hoje me faz muito bem. Só depois vim entender que era uma religação com minha avó, que costumava rezar o rosário, embalada na rede. O rosário eu já acho demais, e lembro da felicidade que ficamos, eu e os primos, quando a rede da avó caiu, na metade do rosário. Isso foi no Crato, há muitos e muitos anos. Também me acostumei ao silêncio, e hoje tenho dificuldades de ficar em lugares barulhentos. Fico pra morrer quando Seu Azevedo, aqui do Princesa Isabel, inventa de ligar a TV num volume anormal. Quando é no programa daquele idiota do Datena, penso que ele quer que eu vá embora.

Dos bons tempos de redação, ganhei muitos amigos e bons profissionais, mas nada comparável a Josmar Josino, o velho “Valente”. Dele, herdei a obsessão pela apuração, a procura pelos detalhes, a mania de encher cadernos e mais cadernos, mesmo que tudo fique de fora. Isso vi no dia-a-dia, mesmo para a matéria mais simples e bucólica.

Certa vez, Josmar estava trabalhando em uma matéria especial e passou 15 dias à procura de um depoimento para fechar a matéria. Dele herdei também o bordão “Calma valente!”, para as horas de maior aperreio, ou para baixar a bola de quem está contando vantagem demais.

Da convivência com o velho amigo Naná herdei uma maior preocupação com o outro. Ajudar sempre que for possível, visitar um amigo doente logo que for possível, ver o lado bom das coisas sempre que for possível, ser um pouco generoso sempre que for possível. Mas alto lá! São coisas que ainda estou bem longe de conseguir, porque Naná é Naná e nunca teremos outro igual. É um sujeito que está sempre maquinando para o bem. Sem a convivência com ele, sem as milhares de horas como seu co-piloto, em quatro Kombis que já teve, desde 2001, eu seria bem pior do que sou hoje, tenho certeza.

Depois continuo. Vou pensar aqui em outras influências, que é pensar em outros amigos.

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Diário paralelo

14 de março de 2011, às 18:45h por Samarone Lima

Segunda-feira, 7 de março.

Show de Odair José no Rec Beat. Já tinha assistido no Festival de Inverno de Garanhuns, ano passado, creio. O show foi melhor ainda. “Chup/chup/chup/chu”. “Foi tudo culpa do amor”. Tinha uma penca de amigos. Choveu muito ao final da apresentação. É bom chuva também quando o sujeito está jogando bola ou deitado numa rede, bestando.

Terça-feira, 8 de março.

Recuperação. A sorte é que tomo chimarrão, que faz bem para o organismo. Leio apaixonadamente “Memórias, sonhos, reflexões”, do Jung. Uma maravilha. Tomo notas o tempo inteiro. “A eternidade na qual tudo nasce e tudo já está morto”.  “…aquele que fere o outro fere a si próprio”. “Experimento o sentimento de ser levado pelas coisas”. Penso sobre o destino, e nosso desejo inútil de controlar as coisas. Mas penso muitas besteiras e inutilidades também.

Quarta-feira, 9 de março.

Encontro meu pai, o Zé Vicente, defronte às Lojas Americanas, no centro. Ele veio para o Carnaval no Recife, mas perdeu meu número, desencontramos. Ele estava com a nova esposa, que eu ainda não conhecia. Fomos lá em casa. Conheceram minha companheira Silvia, a casa, a gata, os quadros e, finalmente, a grande bagunça do meu quarto. Conversamos, eles viram umas fotos. Fomos deixá-los em Boa Viagem e pegamos bigu no almoço. Depois vimos um DVD com as imagens da última enchente no Crato, em janeiro, filmadas por “Júnior do Bom Bom”. É o tal “mundo globalizado”, como diz Iramarai.

Noite. Os miseráveis da pelada cancelaram nosso jogo semanal, com a desculpa da ressaca do Carnaval.

Quinta-feira, 10 de março.

Volta ao trabalho. Tenho exatamente 15 jornais para ler, e uma penca de email, 73% inúteis. Meus amigos todos sobreviveram bem à folia. Não sei como estão os fígados. Tentamos (eu e minha consorte) assistir pela segunda vez “O Discurso do Rei”, no Shopping Tacaruna. Na primeira, não tinha vaga no estacionamento. Agora, perdemos o horário. Esse rei que se lasque pra lá. Procuro erva-mate no “Rei do Mate”, mas continua faltando. Não sei exatamente o motivo, mas acho que shopping center sempre tem gente demais, fico louco para ir embora.

Mando brasa no Jung. Até a página 321, ele não sofreu uma  dor de corno, nunca viveu uma fossa, nunca tomou um porre até escorar a cabeça na mesa, nunca viveu uma ressaca monumental. Estava preocupado com outras coisas, creio. Mas como escreve, o miserável! Fala da “embriaguez dos grandes números” e a “reivindicação sem limites dos poderes políticos”.

Sexta-feira, 11 de março

Pego novamente o Rui Knopfli, poeta moçambicano. Fiz as primeiras leituras por indicação da amiga Yvette. Antes do Carnaval, o Arsênio me deu um exemplar “Poetas de Moçambique”. É uma antologia, e logo vejo que o Rui é dos meus.

Em “Sociologia”:

“Tenho o meu pequeno tratado de sociologia,

uma sociologia de horizontes modestos.

Ponho-me a remorder

continentes, povos, hábitos e costumes,

mas a minha sociologia não

passa disto,

uma sociologia das esquinas.”

Sábado, 12 de março.

Encontro no Poço da Panela, para um mutirão na biblioteca comunitária que estamos organizando. Luzilá chega com uns livros, quadros, começamos o trabalho. Logo chegam Willi, Marquinho, Márcio e Richard, meninos da comunidade, que nos ajudam. Aos poucos, a biblioteca vai nascendo.

Encontrei minha erva-mate na rua da Praia. Logoda Fontana, que é ótima.

À tarde o Santa Cruz ganhou de 2 x 0. A vida é bela.

Domingo, 13 de março.

Pelada no Caducos F.C. O primeiro jogo foi duríssimo, um empate de 1 x 1. No finalzinho, toquei mal para Day, perdi a bola e levamos o segundo gol e perdemos o jogo. Foi um golpe duríssimo. A sorte é que tivemos outros jogos, e aquilo foi se dissipando um pouco interiormente. Lá pelas tantas, ninguém lembrava, mas eu sim. O filminho ficou passando na minha cabeça o dia inteiro. 

Dias depois…

Inácio França me liga. Uma leitora distante pediu um livro seu (“Um rio de gente”), deu o endereço, tudo nos conformes. Deve ser de Goiás. Se não for, fica sendo.

Inácio foi aos Correios, postou o exemplar, colocou o endereço direitinho, pagou tudo.

Dois dias, chegou um envelope pardo em sua casa, na Avenida Norte.

Inácio postara o livro para seu próprio endereço.

Nessas horas, me acho um sujeito normal.

***

“Adeus Xico”, do Rui Knopfli, eu gostaria de ter escrito.

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Anotações carnavalescas-I, II, III e IV

6 de março de 2011, às 15:35h por Samarone Lima

I- Sexta

Sexta-feira, 4 de março de 2011. Tenho um encontro marcado com meu tradutor na livraria Cultura, às 12h33. Sim, meu livrinho sobre Cuba finalmente vai ser traduzido para o espanhol. Martin Palácios, é o nome da fera, um uruguaio.

No caminho, vou reparando na cidade, que pinga, respinga, transborda Carnaval. Saio rua da União, atravesso a ponte de Santa Isabel, contorno a praça da República, avanço na ponte Buarque de Macedo e finalmente chego ao Bairro do Recife.

No caminho, fico impressionado com duas imagens. Primeiro, um homem que não tem o braço direito. No meio da ponte de Santa Isabel, ele passa por mim, e penso onde esse homem perdeu o braço direito. Num acidente? Em alguma guerra perdida? Terá vindo da Líbia?

No caminho, dezenas de barracas de cerveja e espetinho, improvisadas nesse colossal jogo da vida. O trânsito está parado, os motoristas intranquilos ainda mais intranquilos. A faixa de pedestre se torna uma área absolutamente perigosa.

Ao chegar no final da ponte Buarque de Macedo, esfrego os olhos. Outro homem, sem o braço direito.

Tenho o encontro com meu tradutor. Ele está animado, já traduziu três capítulos. Está chateado, porque procurou em várias ruas o “caldo de cana”, e não encontrou. É seu lanche predileto: coxinha e caldo de cana. O sujeito é econômico pacas, por sinal.

Tomamos um café, nos despedimos, saio caminhando de volta pra casa. Basta c hegar ao final da ponte Maurício de Nassau, vejo uma barraca com caldo de cana, feito na hora. Penso em ligar para o Martin, mas ele foi roubado outro dia e está meio incomunicável.

Passo defronte à Cristal, o bar que me acolheu nos primórdios do jornalismo. Droga, aquele velho boteco, com um imenso balcão de mármore, com o livro preto dos clientes que podiam pagar fiado, virou agora a sede do Banco Cruzeiro do Sul!

Olho para dentro. Quatro atendentes, balcões, ar-condicionado, portas de vidro. Maldito Cruzeiro do Sul, não importa quem seja o dono ou o fim social. Pelo que sei, o único fim social de banco, aqui ou na China, é o lucro. Acabou a Cristal e agora um banco gelado arrecada dinheiro.

Passo defronte ao prédio que abrigou o Diário de Pernambuco durante tantos anos. A Praça do Diário está ocupada de norte a sul por um camarote. Olho, reparo, vejo que a TVGlobo ocupou o lugar. Será, com certeza, um dos camarotes mais disputados durante o desfile do Galo.

Chego à avenida Dantas Barreto. Tudo parado, tudo sendo preparado para o desfile do Galo da Madrugada. Defronte à igreja de Santo Antônio, os pedintes de sempre.

Então sigo caminhando pela rua, debaixo de um sol interminável. Do lado esquerdo, camarote. Longos, intermináveis, colossais camarotes. As bolhas. No sábado do Galo da Madrugada, milhares de pessoas estarão no vuco-vuco da rua, no calor, comprando o latão de cerveja a R$ 2,50, se espremendo. Os camarotes vão abrigar os que olham tudo de cima, no ar-condicionado, na birita e comida livre, com as indefectíveis pulseirinhas ou credenciais. A moda agora é pulseirinha. Sem ela, você não vai a lugar nenhum.

A Igrreja do Carmo, belíssima, está encoberta por um camarote. Parece que é de uma marca de cerveja.

A loja de fantasias “O baratão” está cheia. O vendedor, com o microfone, chama a turma.

Chego até a rua Tobias Barreto, vi tudo o que precisava e senti uma preguiça ampla e irrevogável. Hora de procurar um bar.

No meio do caminho, encontro Sempre Reclama. É músico. Sempre que me vê, vem falar em tom de reclamação. Que ficou de fora da programação Carnaval. Que cancelearam algum trabalho seu na última hora. Que isso. Que aquilo. Aquele tipo de gente adepta da reclamação perpétua, que gera mais energia negativa, e o sujeito nunca sai do canto. Vai piorando à medida que pragueja.

Já chegando na desgraçada Conde da Boa Vista, Sempre Reclama me diz que vai para o outro lado. Pela primeira vez na vida, escuto ele dizer algo positivo.

“Ainda bem que já almocei”

“Eu também”, me diz uma mulher, que passa com a filha de lado, sem perder a viagem.

Sigo. Já chegando no parque 13 de maio, vejo um sujeito numa cadeira de rodas. Usa a farda da Guarda Civil Metropolitana. Não tem as duas pernas.

Estou vendo coisas?

Ele segue, atravessa a rua, pedalando com as mãos. Um batalhador, isso sim.

Finalmente aterriso no Princesa Isabel. Já está aquele churuço, aquela coisa tribosana. Vou à cozinha, falo com dona Nininha.

“Dona Nininha, e amanhã?”

“Vou viajar para São Paulo”, responde.

Hora de abrir uma cerveja.

II – Sábado

Galo da Madrugada. Não lembro de nada.

III – Domingo

A grande covardia do Carnaval, o que me chateia profundamente, é que não tem jogo do Santa Cruz no Arruda. Fica o registro.

Me vinguei esvaziando todas as garrafas possíveis.

IV – Segunda-feira

Final da manhã. Todavia sigo vivo. Uma volta pelo recife com minha mulher. Na Dantas Barreto, desmontam os gigantescos camarotes. Fortunas são gastas nessas coisas. Ocupam o espaço destinado ao povo. O Brasil é um país chegado a áreas VIP, camarotes, essas coisas. O privado invadir o público é uma chaga nacional.

Barraca de coco. Um velho jovem beberica seu coco, o celular toca, ele atende.

“Estou aqui, tomando um porre de água de coco”.

Cantou ao ouvido da mulher amada um frevo antigo, que aqui não recordo. Depois, arrematou:

“E você, é visível quando?”

Seguimos. Num bar, perto do Princesa Isabel (que é fechado na segunda-feira de carnaval, um absurdo), um sujeito conta sua vida. A história é longa. A história de amor era tão fodida, que resumo numa frase dele:

“Naquele sábado me tornei alcoólatra”

Depois chegou Edinho.

Edinho é um sujeito que sempre chega. Você pode estar no Malecon, em Cuba, de férias com a família, e daqui a pouco pode chegar Edinho, estendendo a mão e dizendo:

“Já fechei três negócios com os irmãos cubanos”.

Você pode estar no mercado de Santa Rita, eperando um ônibus, e Edinho pode passar, do nada, oferecendo uma carona. Você pode estar na Guatemala, num encontro de Antropologia forense, e Edinho pode estar tomando uma cerveja, à beira da piscina.

Você está na Espanha, vendo uma tourada em Madri, e pode sentir um cutucão nas costas, acompanhado de um clássico portunhol:

“Y tu por aqui, amigo brasileño…”

Edinho, pra variar, contou uma história. Ao final, o arremate:

“Naquele dia, porque não bebi, fui atropelado”.

Coisas da vida.

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Um carão fundamental de um amigo

2 de março de 2011, às 14:04h por Samarone Lima

Estandarte dos Barbas

Sempre fui adepto do carão como forma educativa. Um carão bem dado pelo pai, pela mãe, por um tio, avô, é mais saudável e construtivo que proibições, cortes em mesadas, trancar menino no quarto etc. Já levei muitas pisas nesta vida, mas alguns carões eu lembro com detalhes, porque me fizeram pensar na vida.

E sou adepto do carão de amigos. Eu mesmo já dei vários. Tem uma hora que baixa o santo, pego um amigo que, a meu ver, está fazendo muita besteira, achando isso o máximo, e descasco. Falo tudo o que penso, não dou tempo nem para o sujeito respirar. Não é amigo? Então agüente o tranco.

Amigo ou amiga, não importa. Tem afeto, tem o desejo de ver a pessoa sair de certas situações que se repetem, tem a abertura, eu descasco. Mas também sou um bom levador de carão. Quando vejo que o amigo está certo, baixo as orelhinhas e escuto, penso, depois agradeço.

Há duas semanas eu estava cheio de coisas com meu bloco de Carnaval, “Os Barba”, que fundei com Walter Barba e Maurício Silva, em 2002, no Poço da Panela. Sei lá, achando as coisas complicadas, muita discussão por besteira, arengas do nada, estava seriamente propenso a não participar, cair fora, fazer outra coisa no sábado da nossa prévia.

Eu na farra, dos amigos do “Amantes de Glória”, aquela alegria invencível, tudo às mil maravilhas, quando um amigo me perguntou pelos “Barba”, falei que talvez não fosse, estava meio de saco cheio, essas coisas boiolais.

O amigo botou a mão no meu ombro e descascou. Na boa. Já tinha tomado umas aguardentes, facilitou. Disse o bloco tinha também minha mão, que sou um dos fundadores, que ele mesmo deixa a barba crescer para encontrar os amigos, que fica chateado quando vai e um dos anfitriões não aparece.

“Porra, o cara morga, Sama. Deixa da tua besteira. Se tem problema, vai lá, ajuda a resolver e participa da festa!”

Ele falou mais coisas, num tom mais duro. Foi um carão pra valer, desses dos bons.

Na volta, dos Amantes, senti que minha cornura pré-carnavalesca tinha passado.

Durante a semana, encontrei os amigos dos “Barba”, nos reunimos, decidimos várias coisas, pendências foram encaminhadas, problemas resolvidos. No sábado passado, o Poço da Panela estava enfeitado para receber os muitos amigos. Foi uma bela farra, com orquestras, grupos de maracatu, gente animada, alegria, uma lindeza.

Boy e Ninha, rei e rainha dos Barbas

No dia seguinte, no bar de Seu Abdias, lá bem dentro da comunidade, tomamos umas cervejas com arrumadinho, para comemorar. Eu, Boy e Ninha (novos reis da troça), Iramarai, Walter e Naná (três ex-reis). Lembramos os melhores momentos, a coroação dos reis, a alegria, num clima de absoluta tranqüilidade, a participação da comunidade do Poço, enfim.

Entre um gole e outro, reforçamos a amizade, o sentimento de grupo e decidimos que o dinheiro que vai sobrar deste Carnaval, será revertido integralmente para uma moradora do Poço, uma amiga querida, que está precisando de fraldas descartáveis. Hoje Naná (sempre ele) vai comprar uma penca de fraldas.

À tardinha, foi a vez de botar a criançada para dançar frevo, na troça “Os Barbinha”, que acaba de completar quatro anos. Este ano, foram mais de 100 crianças do Poço participando.

Voltei para casa feliz, e agradecendo ao Diogo pelo merecido e fundamental carão.

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