Pedidos na estrada
Samarone Lima
Sábado de manhã. Viagem marcada a Nazaré da Mata, para ver um espetáculo de circo, uma troupe de palhaças. Acordo meio de ressaca, doido por um bom cuscuz. Como o ônibus sai da Dantas Barreto, consigo encontrar cuscuz fácil, mas não está bom como o que faço em casa.
Às 9h46 o ônibus sai. A passagem custa R$ 6,90. Previsão: Duas horas de viagem, diz o motorista de pouca conversa e cara de brabo.
Não rodamos nem vinte minutos, chega o primeiro pedinte. Esse é profissional. Está arrumado, barba feita, bigode vastíssimo, a la Sarney, mas este parece ter ficha limpa, coisa que agora não altera nada.
Educado, Pedinte Profissional dá bom-dia, espera a resposta, como em programa de auditório, repete o bom-dia, alguns respondem. Estou lendo algo e não tenho muita paciência com os pedintes em geral.
Ele diz que trabalhava no comércio, era um vendedor de jujubas, mas sua mercadoria foi apreendida.
Tive que parar a leitura. O sujeito teve um carregamento de jujubas confiscado? É cada um que me aparece nesta vida…
“Tomaram e nunca devolveram”, diz.
Ele consegue tocar alguns corações, agradece e vai embora.
No mesmo instante, começa o Pedinte Número 2. Esse dá bom-dia, mas não pede resposta do público. Está arrecadando dinheiro para uma suposta casa de recuperação de drogados. Cita Jeremias, 33, versículo 3, acho. Os humildes serão exaltados. Fala pacas, atrapalha minha leitura, depois sai entregando um envelope com duas canetas fuleiríssimas e adesivos do Homem Aranha.
Como nunca fui muito chegado a gibi, não estou nem aí para o Homem Aranha, devolvo o saquinho e sigo a minha leitura. Vez por outra, levanto a venta para olhar a paisagem.
Bastou o Pedinte Número 2 descer, que subiu Sujinho.
O sujeito não botava a roupa para lavar há pelo menos três meses. Acho que viu a posse de Dilma com aquela calça e camisa, depois veio caminhando de Brasília até Carpina.
Tirou de uma mochila mais fuleira que as canetas do outro, saiu entregando um mói de balinhas, mas deu azar. Assim como não sou chegado a gibi, também não tenho muita simpatia por balas, a não ser aquelas redondinhas, de canela.
Sujinho falou algo que não me lembro, as explicações de sempre, para quem quer se safar, pegar uma grana e tocar o barco. Fiquei com as balas na mão, e pensei que Sujinho e Pedinte Profissional poderiam fazer uma sociedade. No lugar de balas, comprava um lote de jujubas, repartiam as vendas e os lucros.
Sujinho foi o que menos arrecadou, porque chegou tarde demais e a mulher ao meu lado reclamou que ele estava fedendo.
Ele desceu e pela graça divina, não subiu mais ninguém.
Cheguei meio-dia em Nazaré. Dei sorte, era dia de feira. Perambulei, comprei uns perfumes, umas misericórdias, saudades antigas, um CD do Carlos André (“EU hoje quebro essa mesa/se o meu amor não chegar”), beberiquei uma água que passarinho não bebe e perguntei a um senhor onde ficava o engenho onde eu ficaria hospedado.
O sujeito era mudo. Eu tenho uma sorte imensa com mudos. Um deles joga no meu time, no Poço. Até hoje não sei o nome dele. Uma vez perguntei, mas deu errado.
“O nome do mudo é Mudo mesmo”.
Rarara.
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