Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias | Por Samarone Lima

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Amigos novos, semi-novos e antigos

25 de abril de 2011, às 16:05h por Samarone Lima

Outro dia um camarada disse que escutou de um sujeito que até conheço, assim meio de longe, a seguinte frase:

“Não sinto falta nenhuma de amigos”.

Eu fiquei perplexo com a declaração, pronunciada com um certo orgulho. Minto. A frase causou um ferimento em mim. Me deu pena do sujeito, tão dentro de si, tão aprisionado ao eu. Certas coisas é melhor a gente não escutar.

Tenho algumas poucas vocações, vários males e algumas obsessões. Ou seja, sou como a média nacional.

Os males vêm da minha própria natureza taurínica, as obsessões a vida foi agregando e progredindo. Sobre os males e obsessões, falarei outro dia, porque hoje amanheci com gosto mesmo foi para falar de uma vocação que tenho, uma das poucas, que é fazer amigos, e dificilmente largá-los ou ser largado. Essa raça que sinto falta sempre.

Falo isso porque nos últimos meses, andei conhecendo pessoas são figurar tremendas e ampliando o contato com outras que eu já gostava sem pena. À nova safra, juntaram-se outros de períodos mais antigos, gente que sempre estou espiando de vez em quando, assuntando, quarando as idéias e sonhos.

Preciso falar deles, agradecer pela existência e desejar que vivam muito mais que eu. Vamos à lista:

Arsênio Jr

Trata-se do que chamo velho novo amigo. Começamos a nos falar por causa de meus escritos, por email, fui vendo que o sujeito era mesmo de raça, depois tomamos uns cafés. Já ganhei alguns livros de presente, mas a nova e já velha amizade é o presente maior. Tem, claro, seu lado menos louvável, que é no campo futebolístico, mas é necessário exercitar a convivência com os contrários ao Santa Cruz Futebol Clube.

Além de ser um grande sujeito, é um leitor fenomenal. Comenta com rara precisão os textos que envio, especialmente poesia, acho inclusive que ele deveria abrir uma consultoria literária para poetas em fase de nascença, construção ou nos quase esplendores. Falta-nos algumas horas num bar e já reclamei que ele anda muito europeu, afastado dos botecos desta cidade. A reclamação já entrou em sua disputada agenda e breve tomaremos um bom porre.

Adelvane Néia

Conheci esta criatuar maravilhosa há menos de um mês, quando fui participar do processo de construção de um espetáculo teatral chamado “Divinas”. Silvinha, minha mulher, tinha já feito um curso com ela, a formação de um grupo de palhaças, e era toda elogios.

Bastou o primeiro ensaio, para descobrir uma mulher talentosíssima e um ser humano formidável. Num processo absolutamente inverso ao de Arsênio, logo no terceiro ensaio, fomos ao bar Mamulengo, depois fizemos um pouso técnico no Empório Sertanejo, outras farras vieram, passando pelo Tepan e a casa de nossa amiga Fabiana, também do elenco. Uma grande artista, deixo registrado. O espetáculo solo “A-ma-la”, que vi em DVD, é uma jóia. Adoro quando um grande artista é também uma grande pessoa, porque não suporto essa conversa fiada de que a gente tem que aguentar gente boçal sob a argumentação de que se trata de um gênio. Gênio é Joab, porteiro aqui do prédio, com suas reflexões filosóficas que deixariam um Kant em depressão.

“O Morro da Conceição parecia uma árvore de natal”, disse ele, após uma vitória dramática do Santa Cruz.

Toda vitória do Santa Cruz é dramática, diga-se de passagem.

Muitas conversas maravilhosas, troca de idéias e sentimentos e a certeza que ganhei uma amiga de presente, mesmo que ela não queira, que acabou de dizer “mas o Samarone parece meu amigo de infância”.

Josafá

Meu chefe no trabalho. Foi, creio, aquela afinidade clássica que vem de tempos remotos. Olhei para o sujeito e pensei: Esse é gente boa.

Não deu outra. Como trabalhamos com Ariano Suassuna, isso implica em viagens pelo interior de Pernambuco, acompanhando as aulas-espetáculo. Creio que já assisti umas 70 aulas, vou fazer minha contabilidade. Josa sempre está por perto, acompanhando tudo, com atenção e cuidado.

Pois bem. Quando viajamos, fazemos nosso trabalho, acompanhamos tudo e depois que a missão terminou, relaxamos, comemoramos e procuramos algum boteco da cidade para conversar umas águas.

O velho bom papo. Tem gente que é boa para ganhar dinheiro, para mandar, para falar mal dos outros, para reclamar da vida, para ser grosso no trânsito, no supermercado, Josafá é  aquele sujeito bom de papo, a conversa mansa que não tem fim. O nome do pai dele é o mesmo do meu, Zé Vicente, só que o meu é do Ceará, o dele é da Paraíba, mas é outra afinidade. 

Só chamo ele de Josa, e ele tem o mau hábito de bater à minha porta, quando vem falar comigo, não respeitando o aviso que preguei, escrito “entre sem bater”.  São as contrariedades da vida.

Duas vezes por semana almoçamos aqui perto, no centro. Vez por outra esqueço a carteira, ele paga sem remorsos, mas estou anotando tudo para dar em dezembro. Vai ser um décimo terceiro a mais. Daqui a 15 dias vamos a Afrânio e Cabrobó, fazer nosso trabalho oficial e ampliar nossa Pesquisa Sentimental dos Bares de Pernambuco.

De vez em quando mando cartas com recortes mirabolantes de coisas publicadas nos jornais, ele racha o bico, mas nunca, em toda a sua vida, teve a coragem de responder.

Inácio França

Meu velho amigo desde os tempos de São Paulo, há uns 15 anos. Aquela amizade que não perde a sequência com o tempo. Ultimamente temos conversado mais, pensado mais sobre a vida, tantando não levar as coisas tão a sério. Além disso, estamos entabulando umas oficinas literárias, e ele vai dar a sua a partir de julho, na Livraria Poty. Acho que vai ser muito bom este projeto.

Inácio é aquele amigo que a pessoa liga na hora de maior aperreio, para uma consulta ao vivo, ou para comemorar as muitas vitórias ou alguma eventual e sempre injusta derrota do Santa.

Ele foi para um pequeno retiro espiritual em Belém, de três meses.

Todo mundo normal que conheço, e que vai passar três meses em outro estado, que vai ficar longe da mulher e do filho, faz uma série de pesquisas, lista algumas prioridades.

A primeira pesquisa de Inácio foi saber quando teria jogo  do Remo contra o Paissandu, para comprar seu ingresso. Este sim, é um ser humano e tanto.

Padre Daniel Lima

Conheci o padre Daniel há pouco tempo. Fui à sua casa com Luzilá Gonçalve, sua amiga de muitos anos, porque eu estava fazendo uma matéria para o Suplemento, excelente publicação da CEPE, sob a batuta e Raimundo Carrero e Schneider Carpegianni.

A afinidade era anterior ao encontro, porque eu já tinha escutado muitas histórias sobre ele, e li seu livro de poesias, publicado somente aos 95 anos de idade. Um grande poeta guardou o melhor para o outono. Guardou não, escondeu, quase numa infâmia contra a beleza. Luzilá foi uma das conspiradoras, para traficar os poemas até a editora.

Semana passada voltei à casa de Célia, onde ele fica a maior parte do tempo. Conversamos muito, rimos a valer, ele é um filósofo em eterno pensar, como um gato feliz que ronrona o tempo inteiro, além de ter aquela alma de menino brincalhão e adulto travesso. Ele pode nem me considerar seu amigo, mas já o considero do peito e da casa.

Amizade também não tem essas besteiradas todas não. Há sim, as amizades não correspondidas, apesar de eu não achar que seja o caso, porque ele foi com minha cara.

Amigos da CEU

Sempre que passo defronte à Casa do Estudante Universitário, a CEU, me benzo. É uma herança da minha avó, se benzer em lugares sagrados.

No apartamento 312 vivi anos fundamentais da minha vida, de 1998 a 1992. Entrei aos 19 e saí aos 23. Nos quatro anos, eu estudei, li, escrevi, varei madrugadas, li, estudei, escrevi, frequentei as aulas da UFPE e da Católica, participei de atividades culturais, encontros, minha cabeça abriu, tive experiências memoráveis, e quando sai, estava com as bases sólidas.

Durante quatro anos, devo ter ido duas ou três vezes ao Arruda, não sabia o que era Carnaval, estava tão concentrado que era feliz no meu excesso. Hoje agradeço aquilo que fiz por mim: me dei de presente algo que ficou, e que me empurrou para a vida.

Neste período, tive amigos memoráveis, a maior parte  da “ala leste”, como chamávamos, embora eu nunca saiba exatamente onde está o leste, oeste, sudoeste, noroeste, agreste, cabra da peste. Erik Nunes, André Carpina, Negão 70, Naninho, Hipólito “Canoa”, Manoel Rocha, entre outros grandes sujeitos que a vida tratou de dispersar.

No meio do turbilhão da casa, com seus eternos embates com a reitoria, da luta para manter o Restaurante Universitário gratuito e para a toda a comunidade (ah, amigos, que tempos sombrios eram aqueles, quando os estudantes que viviam na CEU eram tratados como bichos…) e dos muitos conflitos internos, tínhamos esta rede de amizade que era uma espécie de alegria comum, compartilhada, uma proteção também. Sonhávamos com uma vida melhor e nos ajudávamos de alguma forma. Novamente, a amizade.

Há pouco tempo, começamos a nos reencontrar por email. Erik está na Austrália, Negão 70 no Pará, outros estão por ai. Marcamos um encontro para o começo de junho, ficamos de levar fotos, lembranças, nossas companheiras, filhos, agregados.

É certo que até os mais durões vão liberar suas lágrimas, porque foram tempos duros e bons e fomos, sobretudo, merecedores de nossa irreversível amizade.

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Frases dos meus inúteis cadernos de bolso

22 de abril de 2011, às 17:53h por Samarone Lima

“Meio galeto completo para não empanturrar a boyzinha”.

(Cardápio de um motel fuleiro da periferia do Recife).

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“Motel Frenesi: Ame à vista e pague a prazo”.

(Anúncio do referido motel, na Rádio Jornal)

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“Cada um tem seu Parkinson”.

(Paulo José, ator e diretor, em entrevista do Diário de Pernambuco, em 19.04.2011)

***

“Onde eu chego, eu abro os braços”.

(Dom Helder Câmara)

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“A alma invisível governa, absoluta, no fim”.

(Walt Whitman, O grande)

***

“Não quero ter razão, quero é ser feliz”.

(Ferreira Gullar)

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“Aguardar encarando”.

(Bert Hellinger, sábio alemão)

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“Nada se faz senão pouco a pouco”.

(Baudelaire, em “Meu coração Desnudado”.

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“Os que vivem horizontalmente no tempo, esses começaram a envelhecer desde que começaram a existir”.

(Padre Daniel Lima, sábio poeta pernambucano)

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O reacionário

17 de abril de 2011, às 14:19h por Samarone Lima

Foi na sexta-feira, e só agora tive tempo de escrever.

A farra começou após uma série de improvisações para teatro, um projeto que faço parte. Não sou ator, apenas integro a equipe de dramaturgia, que vai tentar colocar no papel o que as três atrizes improvisam, sob a batuta da competente diretora  Adelvane Néia.

Após os ensaios, fomos ao bar Mamulengo. A conversa boa, as idéias, o clima bucólico do Bairro do Recife. Na praça do Arsenal, um grupo de palhaços improvisava algo, e depois chegou um casal, numa Kombi, que tinha um nariz de palhaço na frente. Eles são palhaços também, e tudo parecia fazer muito sentido, porque as três atrizes em cena, no nosso espetáculo, são as palhaças Zanóia, Uruba e Bandeira.

Lá pelas tantas, resolvemos ir a outro bar, e sugeri o Empório Sertanejo. Adelvane, que mora perto de Campinas, em Barão Geraldo, está passando uma temporada no Recife, precisa conhecer alguns ícones da vida diurna e noturna. Minha proposta tinha outra vertente. Fazia um bom tempo que eu não tomava umas pra valer no Empório, do velho e bom Robertinho, que Deus, o misericordioso, o tenha em um bom lugar.

Os argumentos de que estaria muito cheio não convenceram. Chegamos lá, tinha uma mesa maravilhosa à nossa espera. Começamos a segunda parte do papo, agora com aquela cerveja gelada no freezer turbinado do Empório. Os velhos garçons com cara de amigo-de-fé-irmão-camarada nos atendiam, e nada estava faltando. Essas farras especiais que temos às vezes, tão boas que a ressaca nem é tão ruim assim.

Até que fui ao banheiro.

No caminho, cumprimentei o Artista Plástico. Estava sozinho, sentado numa mesa entre onde estávamos e o corredor do banheiro. Como sempre, dava cochiladas, diante da bebida e do tira-gosto.

Certa vez viajamos juntos, em um projeto, foi divertido, conversamos muito, tomamos boas carraspanas, em Porto Alegre, depois ganhei um belo livro dele, com dedicatória, fui à sua casa.

Na volta do banheiro, ele segurou meu braço. Estava agora de pé. Tinha algo para me dizer, foi o que senti.

“Samarone, você é um reacionário”.

Lembrei imediatamente de Nelson Rodrigues. Não precisei nem perguntar quando virei reacionário.

“Você não pode falar de Cuba daquele jeito. Você é um reacionário, é um cara da extrema direita”.

O Artista Plástico estava realmente indignado. Seus olhos estavam fixos em mim, cheios de acusação, raiva.

Aqui, uma pausa para situar o leitor.

No final de 2009, publiquei “Viagem ao Crepúsculo”, uma espécie de diário de viagem sobre o período de um mês que fiquei na ilha, na casa de cubanos.

É o retrato de tudo que vi, escutei, senti, no encontro com o povo cubano. Saiu pelo pequeno e poético selo editorial Casa das Musas, e teve uma jornada formidável. Sem marketing, com dificuldades de distribuição, conseguimos vender duas edições inteiras, o livro entrou pela janela e ficou entre os finalistas do Prêmio Jabuti de “livro-reportagem”, e agora está sendo traduzido para o espanhol.

Recebi dezenas de email, de pessoas que leram o livro em vários estados, até fora do Brasil. A maior parte das críticas foram favoráveis e muitas pessoas, como eu, passaram a olhar Cuba de uma forma mais crítica, levando em conta a violentíssima repressão política, falta de liberdade, controle absoluto dos meios de comunicação, privações diárias, enfim. Em alguns debates, pessoas mais exaltadas também apontaram o dedo, questionando o fato de eu ter saído do Recife para “falar mal” de Cuba. Na Bienal, o sujeito que debatia comigo chegou a sugerir que eu tinha recebido dinheiro de alguém para escrever o livro. Só faltou dizer que recebi dinheiro da CIA.

Mas voltemos. O Artista Plástico seguiu.

“Reacionário. Você é reacionário, Samarone, reacionário”.

Tentei explicar algumas coisas, de tudo o que tinha vivido, mas não havia acordo. Eu tinha cometido o grande pecado, que era ter ousado falar sobre a infernal vida cotidiana do povo cubano, com suas intermináveis filas diárias, medo de falar qualquer coisa contra o regime, escassez, fora os desabafos que eu tinha escutado justamente da categoria que meu acusador fazia parte, que eram os artistas.

Lá pelas tantas, me desvencilhei e voltei à mesa. Contei o que tinha acontecido.

Como estava de costas, alguém percebeu que ele continuava preguejando contra mim. Na segunda vez que fui ao banheiro, a cena se repetiu, com a mesma deselegância e o mesmo adjetivo: reacionário.

Olhei há pouco no dicionário. Reacionário: “Contrário à liberdade, à democracia e ao progresso”.

Estava escrevendo estas notas, quando vejo na Folha de São Paulo o artigo do sempre preciso Clóvis Rossi:

“Adeus, Fidel; adeus, silêncio?”

Ele cita o VI Congresso do Partido Comunista Cubano, iniciado ontem, que deve aprovar uma série de reformas econômicas no país, para expressar seu desejo do “fim do silêncio sobre Cuba por parte da intelectualidade de esquerda”.

Cita o ensaio de Claudia Hilb, socióloga argentina, militante de esquerda “quando a revolução cubana incendiou corações”. Em ensaio publicado pela Paz e Terra, ela lamenta agora que o silêncio, que atribuiu à ilusão de que haveria uma “parte boa” do legado revolucionário, qual seja o nivelamento social, dissociada da “parte ruim”, a ditadura, “o domínio total do Estado sobre a sociedade”.

“A socióloga contesta a tese”, segue Rossi.

“O processo de nivelamento das condições [sociais] e o processo de constituir uma forma política com vocação de dominação total são indissociáveis”, diz.

Clóvis arremata:

“Na hora em que a esquerda continua sob os escombros do Muro de Berlim, começa a cair mais um muro. Talvez seja a hora de construir algo com tantos tijolos”.

O que vi e senti em Cuba foi um povo que vive debaixo de uma ditadura, e que sonha com libertação. Ditadura, seja ela qual for, é sempre ruim, muito ruim.

Fidel Castro é o primeiro-secretário do único partido político de Cuba desde 1965. Tem 84 anos. Será substituído por Raul Castro, seu irmão, que tem 80 anos. Não se sabe quem será o número dois. 

Se é reacionário escrever um livro dizendo como se vive debaixo de uma ditadura, não tem problema.

O silêncio cúmplice sobre a ditadura dos irmãos Castro não contará com meu nome.

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Simplesmente desliguei a TV

12 de abril de 2011, às 12:18h por Samarone Lima

Sou um homem de poucos bares, e para minha infelicidade, Seu Azevedo, do Princesa Isabel, adora ligar a TV naquele programa horrível do vociferante Datena. Foi lá, enquanto lia os jornais do dia, já à notinha, que vi as primeiras notícias do massacre na Escola Municipal Tasso da Silveira, no Rio de Janeiro.

Se o Datena eu já não suporto nem transmitindo acidente de carro na Marginal, com aquele onipresente helicóptero Águia não sei das quantas, quanto mais falando de uma tragédia como o assassinato de crianças e adolescentes. Botei minha viola no saco e fui embora. No Espaço Muda começaria, pouco depois, a encenação do monólogo “Diário de um louco”, de Gogol.

Foi a melhor coisa que eu fiz. Por uma diferença de cinco quarteirões, saí de uma loucura assassina, acompanhada de um apresentador que se arvora de paladino da ética, um sujeito mal educado, arrogante, que fala gritando para ganhar a audiência, e passei à loucura da arte, com a emocionante participação dos pacientes do Caps de Casa Forte como atores de apoio.  

No dia seguinte, sem perceber, algo em mim dizia:

“Não quero me empanturrar desta tragédia”.

E simplesmente não liguei mais a TV, desde aquela chacina no Rio.

Não vi as entrevistas exclusivas, as explicações, os dramas familiares, as milhares de lágrimas dos amigos, a perturbação para explicar o assassino. Não sei exatamente o que estou perdendo. Não sei, por outro lado, se acordar com meia hora de tragédias, de vidas massacradas, me ajudaria em algo para enfrentar o dia. Não sei se a vida do assassino, virada pelo avesso, iria acrescentaria algo melhor que os poetas que tenho aqui ao lado. Daqui a pouco, vai ter início outro espetáculo: a reconstituição do crime.

Há vários dias não vejo TV. Ontem, tentei ver o Roda Viva, mas com aquela Marília Gabriela querendo ser mais inteligente que os convidados, não deu. Não tenho paciência com gente que se acha muito inteligente, mesmo com um grau de burrice a mais, que é não saber escutar.

Nesses dias, acho que ganhei em tempo para ler, escrever, pensar. Simplesmente desliguei a TV, e foi muito bom. Se me perguntarem sobre a chacina do Rio, terei pouco a dizer, apenas que lamento muito.

Pelas vítimas do Rio, sinto o mesmo que a maior parte das pessoas com seu quinhão de humanidade. A tristeza pelas mortes estúpidas, a certeza de que as famílias vivem dias de dor infinita, e a esperança de que nossa sociedade consiga reagir à violência epidêmica, que vai dos tiros na escola aos riscos de sermos atropelados na faixa de pedestre, por carros cada vez maiores e brutais, que vivemos diariamente nas ruas do Recife. A esperança também de que, de tanto ver e rever as cenas na escola, outros jovens, Brasil afora, não queiram repetir a desgraça.

No domingo, no estádio do Arruda, pouco antes do jogo Santa Cruz x Vitória, os jogadores formaram um círculo no centro do gramado e fizeram um minuto de silêncio, em homenagem às crianças assassinadas no Rio.

Ao invés de gritar apoiando nosso Santa Cruz, a torcida simplesmente aplaudiu, em silêncio.

Caía uma chuvinha fina, e pude enfim chorar por isso tudo.

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Compartilhar. Ou: “Oficina da Palavra”.

6 de abril de 2011, às 14:06h por Samarone Lima

Há muitos anos nasceu este meu agarrado com a literatura. Algo que veio crescendo, misturando algumas das minhas obsessões, buscas, descobertas, estadias demoradas em muitas livrarias, cursos, cadernos sempre cheios de idéias, pesquisas, tentativas. A intuição, alguns poucos mestres, muita leitura, e fui caminhando, ganhando forças, ampliando o horizonte.

Se me perguntarem qual é a coisa mais importante para quem escreve, diria que é a persistência, a luta com as palavras, a busca do melhor texto sempre. Mais que isso, escrever sobre aquilo que se acredita. O leitor sabe quando um texto tem verdade.

Este pequeno comentário inicial é para dizer aos amigos leitores que finalmente dedici abrir uma oficina de criação literária – ou “escrita criativa”, como chamam em várias partes do mundo -, batizada de “Oficina da Palavra”. Vou finalmente compartilhar com as pessoas interessadas, tudo o que fui acumulando ao longo da vida. Coisas que venho guardando, descobrindo, burilando. O lento aprendizado com a escrita de “Zé”,  “Clamor”, “Estuário” e ”Viagem ao Crepúsculo”.  Mais que isso, o aprendizado diário com os alunos que tive ao longo da vida, seja na Católica ou em outros lugares por onde já passei, em cursos mais demorados ou oficinas.

Cada livro escrito ou lido, uma história, muitas lições.

Então convido os interessados.

Serão oficinas em dois lugares. Uma na Livraria Poty, aos sábados, de 10h às 12h. Será um projeto com os amigos jornalistas e escritores Inácio França e Vandeck Santiago, com oficinas diferentes, cada um seguindo seu estilo, com opções de horários e carga horária. A Poty funciona aqui no centro, na rua do Riachuelo, onde funcionava a Livraria Síntese, da inesquecível Suely Pereira. Temos finalmente uma bela livraria no centro da cidade, já funcionando, com direito a cafeteria e ótimo atendimento. A festa de inauguração deverá acontecer no final do mês.

A outra oficina será no restaurante e espaço cultural “O Banquete”, na rua do Lima, comandado pelo querido amigo Sérgio Buarque, provavelmente às terças feiras à noite. Amanhã acertaremos os detalhes, e esta oficina deverá começar já nos próximos dias.

Antes de começar, gostaria de conversar com os interessados, falar da proposta, falar um pouco da minha jornada, o que penso de literatura, da criação, escrita, os caminhos da publicação, além de detalhes como preço, carga horária, metodologia, enfim.

Quem tiver interesse, pode deixar uma mensagem aqui no estuário, se possível deixando o email.

nota: Confirmei há pouco a oficina no Banquete. Será às terças-feiras, de 19h às 21h.

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